Voz da experiência

No refeitório, eles pegaram um pouco da comida disponível, nada pesado, já que a maioria absoluta dos acadêmicos ali eram Urbani, então Tarja ficaria privada de algumas calorias densas, enquanto Valaravas, de alguns temperos.
Enquanto se sentavam à mesa, o salão vazio, pois não era hora do almoço deles, Syndra retomou a discussão.
— Chandravarta. Descrevam-no.
A voz de Syndra estava diferente agora, não mais a autoridade casual de uma erudita estimada, mas uma curiosidade intelectual, ainda assim, pessoal.
Erlan estreitou os olhos.
— Como assim?
Syndra encontrou o olhar de Erlan, com a paciência da professora e a curiosidade de cientista.
— Anatomia, morfologia percebida, adaptações biológicas. Descreva da melhor forma possível.
Os olhos de Erlan moviam-se fora do ambiente, movendo-se como se visse algo muito rápido. Ele estava revendo memórias. Syndra, mesmo sabendo o que exatamente ele estava fazendo, ainda assim observava fascinada.
Erlan exalou pelo nariz, focando os olhos novamente.
— Ele não parecia Silvani, também não parecia Onatra, era algo diferente, primal mas inteligente. Era mais alto que nós, pele e olhos parecidos com os meus, mas sem orelhas, a proporção do corpo, como Tarja. Ele tinha pernas e braços compridos para o tamanho do corpo.
O foco de Syndra não vacilou.
A expressão de Erlan escureceu ligeiramente enquanto a memória vinha à tona. Ele girou os ombros.
— Ele usava vestes e proteção como nós, mas também usava esses 'truques' Sangamani.
Essa última parte fez Nandi rir baixo.
Ariel, observando de seu assento, percebeu a leve tensão na postura de Erlan. Não medo, mas fardo da inquisição, talvez.
Syndra se aproximou, baixando um pouco a voz.
— Como ele lutava?
O olhar de Erlan se voltou para Tarja.
Algo não passou entre eles e, por um momento, o brilho nos olhos de Tarja era mais afiado que seu bom humor habitual. Syndra percebeu imediatamente, e seus lábios se curvaram em um divertimento malicioso.
Tarja e Erlan se reservaram. Eles sussurravam entre eles, como se estivem num espaço paralelo só deles.
"Riciti pa jem?" Erlan disse. "Zhe ovoris." Tarja retrucou. "Amp videsi ek." Erlan devolvou.
Syndra estava absorta como se tentasse desvendar o diálogo completamente desconhecido. Para uma acadêmica, mesmo que desprovida do dom Harata de aprender idiomas pela mera experiência, era uma experiência nova não fazer ideia do que alguém estaria falando.
Erlan exalou.
— Ele era mais forte que nós, e tinha controle e agilidade. Mas quando ele veio com truques de 'caminhada', foi Nandi que realmente resolveu com Valaravas. Nós só podíamos observar. Sacrificamos toda nossa energia para dar a Nandi a vitória. Era a única maneira.
Valaravas, relaxado como se esta fosse uma discussão filosófica casual em vez de uma análise da morte de um guerreiro antigo, virou-se para Erlan com um aceno lento e deliberado.
— 'Era a única maneira' — ele ecoou discussões passadas, fazendo um sinal de positivo irônico antes de piscar.
O sorriso de lado de Syndra se alargou. Seu olhar alternou entre eles antes de pousar em Tarja, que estava claramente se divertindo.
— Você nunca caminhou com Tarja, Erlan? — Syndra perguntou com surpresa.
— Como assim? Pra quê? — Erlan respondeu.
— Espera, o quê? Por que não? — Tarja respondeu por reflexo.
— Sim, Erlan. Por que não? — Syndra adicionou com um tom humoroso.
Ariel, sentindo cheiro de sangue na água, acrescentou suavemente.
— Sim, irmão. Por que não?
Erlan se virou para Valaravas como se buscasse algum alívio.
Valaravas simplesmente riu.
— Na verdade, eu trabalho com a hipótese de que Tarja vai aprender a caminhada e ensinar pra ele.
Erlan exalou, esfregando a ponte do nariz.
Syndra, ainda sorrindo, redirecionou a conversa.
— Que mais podem nos dizer sobre eles? Os Chandravarta.
Valaravas, finalmente colocando-os de volta nos trilhos, inclinou-se para a frente.
— Não podíamos dar muito tempo, pois era uma batalha. Era a primeira vez com um Chandravarta.
Syndra, cruzando os braços.
— Mestre Valaravas, sabemos que isso não é verdade.
O Harata, sabendo da implicação, e vendo onde Syndra estava querendo chegar, rapidamente tomou as rédeas do argumento.
— Chandravarta estamos falando. E aí sim, essa foi a única vez. Harata não tem informações sobre os 'Chandravarta' que não seja batalha.
Valaravas destacou como se isolando quaisquer alargamentos de escopo Syndra procurava.
Syndra pareceu entender o subtexto.
— Pois bem. Se eles ainda existem, 'Chandravarta', algo no vale os mantém como eram. Ser é adaptar-se, mudar com a paisagem, com o tempo. A flora e a fauna mudam com o mundo. Mas os Chandravarta, sua forma original deve exigir algo que apenas o vale fornece.
Ariel franziu a testa.
— Isso é difícil de dizer. Tudo no vale ou existe unicamente lá, ou é unicamente diferente lá.
Valaravas olhou para ela.
— Ayla disse o mesmo.
O olhar aguçado de Syndra captou a maneira como Valaravas olhou para Ariel. Uma coisa fugaz. Sutil, mas inconfundível. E, no entanto, Nandi permanecia ao seu lado, silenciosa, firme, inabalável, próxima.
Syndra recostou-se na cadeira, balançando a cabeça com um sorriso de lado.
— Mestre Valaravas, você realmente não tem vergonha. Dizer que você é Harata é um eufemismo. Como consegue se controlar?
Então, com um suspiro brincalhão, ela voltou seu olhar para Nandi.
— Ele está te tratando bem, Nandi?
Valaravas, impassível, insistiu.
— Essa seria outra pesquisa que tomaria muito tempo e reflexão. Vamos manter o foco, pelo menos por enquanto. Precisamos saber se existe mais informação desde as que Ayla trouxe.
A expressão de Syndra mudou, seu divertimento recuando.
­— Parece que sua turma sabe mais do que nós, na verdade. — Ela gesticulou em direção a Erlan e Tarja. — Tínhamos apenas teorias sobre as práticas culturais dos Chandravarta. Vocês acabaram de confirmá-las. O Ynis e os fungos.
Ela bateu um dedo no queixo, os olhos brilhando com cálculo.
— E, no entanto, ainda não temos todas as peças. E os Suryavarta ...
Valaravas interrompeu.
— Sabemos que não há mais nenhum no Vale. Nazgahavi!
Ariel, Tarja e Erlan sabia o que era aquela palavra em Harata mas o contexto não dava muito a entender.
Syndra, como captando um problema com curiosidade acadêmica e assuntos de classificação sigilosa da Lâmina, mudou de curso.
— Sim, sabemos que não há mais nenhum no Vale. Ayla certificou-se dessa pesquisa.
Nandi, sempre pontual em sua sabedoria, decidiu que era hora de contribuir.
— Elaboradores como nós, eles também tem acesso aos olhos do abismo.
O olhar aguçado de Syndra se voltou para ela e, pela primeira vez naquele dia, um verdadeiro deleite piscou em seus olhos.
— Chandravarta são elementais. Aquele era poderoso, mas não o suficiente para evocar os olhos do abismo.
Syndra não reagiu exteriormente, mas sabia o peso daquelas palavras. Mão do Destino e Olho do Abismo, técnicas aprimoradas pelos Urbani, ensinadas aos Harata, nascidas da teoria Urbani, mas apenas os Harata podiam manejá-las, especialmente os que eram Legado de um Urbani, como Valaravas, dado o eco do dom do conhecimento. Qualquer dom seria suficiente, como a Serenidade, se Ariel desse seu Legado a um Harata. O mais forte para usá-los, no entanto, era o dom do Conhecimento ou da Sabedoria.
Os Chandravarta, com toda a sua proeza elemental, não podiam contestar tais forças somente por vias mentais. Há muito suspeitavam que os Sangamani de alguma forma tinham um sistema de 'dons' equiparado aos dos Silvani, mas apesar de suspeitarem um fundamento alquímico neles, nenhum outro povo conseguiu reproduzir ou explicar como humanos como os Sangamani podiam possuir e trocar padrões sinápticos que eram trocados através de alquimia que eles eram ignorantes, segundo o que era conhecido de seu povo.
Syndra exalou, absorvendo as implicações.
— Então os Chandravarta podem usar tanto a alquimia quanto influência carismática? Ou são povos separados?
Os olhos de Nandi continham um brilho, sua voz inabalável.
— Para eles é o mesmo dom.
Syndra passou a mão por seu cabelo ruivo, exalando bruscamente.
— Isso é muito para processar. Então os Chandravarta não podem usar poderes carismáticos sem alquimia.
Valaravas tinha uma pequena percepção brilhando em seus olhos, e com certeza Syndra entendeu, no entanto, ambos sendo dotados do conhecimento, sabiam a sequência: um perguntaria, o outro desviaria, um insistiria, o outro diria meia-verdade para não dizer tudo, então ambos concordaram em não perguntar, não contar e esperar para ver.
O grupo trocou olhares. Algo tinha acontecido que não parecia direito.
Syndra se endireitou, sua mente analítica já dissecando o que aprendera e o que não aprendera.
— Vocês vão ficar na Fáscia, presumo?
Valaravas assentiu.
Syndra sorriu de lado.
— E eu creio que desta vez você irá com os nômades, em vez de Erítria. Visitar os velhos amigos, não é? Conte-me tudo quando voltar.
A declaração provocou um lampejo de reação nos outros: Tarja ergueu uma sobrancelha, os lábios de Ariel se entreabriram ligeiramente e os dedos de Erlan se curvaram inconscientemente. Uma decisão fora tomada e, no entanto, nenhum deles parecia totalmente preparado para ela.
Syndra estudou suas reações, mas se achou graça nisso, não demonstrou. Em vez disso, ela simplesmente inclinou a cabeça.
— Pedirei a alguns de meus assistentes que revisem as novas informações. — Ela cruzou as mãos atrás das costas, a imagem do intelecto equilibrado. — E se algo novo surgir, mandarei notícias.
— Se descobrirmos algo mais, mandaremos notícias de volta. — Valaravas respondeu prontamente.
— Você voltará antes que perceba, Mestre Valaravas. A Fáscia tem um jeito de manter os seus por perto. Seus filhos à adoram.
Seu olhar percorreu o grupo, breve, avaliador. Então pousou, apenas por uma fração de segundo a mais em Ariel. Não com o escrutínio desapegado de uma acadêmica, nem com a consideração casual de uma conhecida passageira, mas um olhar complexo. Ela a estava medindo. Não apenas como uma Silvani, mas como companheira de Valaravas depois de Ayla.
Ariel não se acanhou sob o peso disso. Ela sustentou o olhar de Syndra, permitindo que o momento passasse sem ser desafiado. 
E então, sem outra palavra, Syndra se virou e voltou, desaparecendo nos corredores do conhecimento, deixando-os com mais perguntas do que respostas.
Eles seguiram as marcas pintadas na parede que levavam à entrada. Valaravas usou seu ponto pessoal para que o carro viesse buscá-los.
As ruas da Fáscia estavam mais silenciosas agora, a correria do dia se transformando em uma calmaria enquanto os comerciantes guardavam suas mercadorias e os artesãos se acomodavam em suas oficinas.
Dentro do veículo, o clima era leve. O reconhecimento do grupo nesta reunião fora melhor do que na última. Nenhum discurso preconceituoso sobre os Silvani, brincadeiras leves sobre seus laços. Erlan e Ariel se sentiram especialmente melhor em relação à Academia.
Erlan se encostou em Tarja, que ocupava a maior parte do banco da frente, de braços cruzados. Sua expressão era tensa, embora Ariel não pudesse dizer se era por pensamento ou frustração.
Tarja se esticou preguiçosamente, seus braços se arqueando sobre a cabeça antes de lançar um sorriso para Erlan, os olhos brilhando com malícia.
— Caminhada hein garotão. Quero saber seus segredos.
Ela ecoou as palavras de Syndra com um prazer exagerado, seu tom gotejando reverência zombeteira.
Erlan exalou bruscamente, seu olhar cortante, mas, no final, sem força para lutar contra o que viria.
Erlan olhou para Valaravas, depois para Tarja, sua voz suave, medida.
— Você é Carpata, não acredita nessas coisas. Está curiosa?
Tarja sorriu mais abertamente, sem remorso, seus ombros largos rolando de satisfação.
— Ah, eu estou, garotão. — Ela se esparramou ainda mais em seu assento, ocupando mais espaço como se fosse a dona. Apertando Erlan um pouco.
Valaravas riu e se inclinou ligeiramente em direção a Ariel, uma piscada rápida enquanto voltava para Tarja.
— Syndra tem razão, sabe. Mas ainda precisamos mais treinamento, Dona Baluarte.
Tarja soltou uma gargalhada encorpada.
Ariel, sorrindo de lado, lançou um olhar sério, ou ao menos fingido sério, para seu irmão.
— Vai fazer a caminhada irmão?
— E você vai com o Harata ali?
Mas não havia malícia de verdade por trás disso.
Era impressionante como eles haviam caído nesse ritmo com facilidade. Antes, o silêncio entre eles era pesado, carregado de tensões não ditas, as fraturas de seu passado mal suturadas. Agora, era sem esforço: provocações casuais, espaço compartilhado, conforto na proximidade.
A própria formação de seus assentos refletia essa facilidade: Erlan encostado ligeiramente em Tarja, sem pensar. Valaravas, sempre o diplomata, no banco de trás, posicionado na janela caso alguém questionasse o grupo, sua presença. Ariel ao lado dele, e Nandi ao lado dela, uma presença silenciosa, mas constante.
O veículo deslizava suavemente pelas ruas, a conversa diminuindo enquanto cada um se acomodava em seus pensamentos. O peso do que haviam aprendido pressionava, não sufocante, mas presente, pairando logo abaixo da superfície de suas brincadeiras.
Ao lado de Ariel, Nandi se moveu. O leve tilintar de metal chamou sua atenção, e ela se virou para ver a corrente em seu pulso, a medalha do Sol Invicto brilhando na luz fraca que se filtrava pela janela de transparência unidirecional. Nandi olhou-a por alguns momentos, e então olhou para todos.
— Abutres circulam.
Sua voz era suave, mas havia algo solene nela. Ela virou a cabeça ligeiramente, capturando o olhar de Valaravas com um ar de quem espera.
— Meu leão, minha leoa. Abutres não voam eternamente.
Foi tudo o que ela disse. Mas foi o suficiente. Valaravas entendeu.
Os outros poderiam ter pensado que ela falava em metáfora, mas as palavras de Nandi sempre tinham camadas. E esta camada não era apenas um aviso, era uma certeza.