Vivendo

Enquanto o grupo se acomodava no pátio dentro do complexo habitacional, o crepúsculo deu lugar ao suave abraço da noite. A energia agitada da rua do mercado começou a diminuir, substituída por um zumbido mais silencioso e íntimo de vozes e passos.
Valaravas deixou o grupo e começou sua próxima tarefa. Do coreto central, ele se movia com facilidade, dirigindo um pequeno grupo que carregava lenha e cortes frescos de carne em direção à praça. Comerciantes se juntaram a eles, com cestas cheias de vegetais, pão e jarras de barro cheias de bebidas ricas e picantes. Pouco a pouco, o coração do complexo habitacional despertou, o ritmo laborioso do dia dando lugar ao calor da reunião comunitária.
As pessoas viviam leste dali, suas casas distantes. Eles estavam ali pelas pessoas naquele complexo habitacional, a equipe do Grêmio. Era uma festa em sua honra, não uma reunião que por acaso os apanhou no meio. Essa noção começou a afetar Ariel e Erlan.
Para Tarja, a cena era confortavelmente familiar. Ela a reconheceu imediatamente uma tradição embutida no ritmo da vida da aldeia. Trabalhadores e famílias convergiam, seus fardos separados para a refeição compartilhada em ocasiões notáveis, com risadas flutuando no ar tão naturalmente quanto as brasas que subiam das fogueiras.
Era o tipo de ritual que ela conhecia na Vila Pequena, onde a comunidade era forjada no simples ato de compartilhar a comida. Um sorriso apareceu em seus lábios enquanto ela entrava sem esforço no fluxo da atividade, oferecendo uma mão quando necessário. O lugar não tinha grande participação em eventos sofisticados, então seus próprios pequenos eventos eram motivo de celebração. E o fato de a equipe do Grêmio ter evitado uma incursão de saqueadores era importante.
Erlan e Ariel, no entanto, estavam menos certos. A comunidade, como eles a conheciam, era uma estrutura de regras e hierarquias inflexíveis, ditadas de cima e impostas por obrigações. Mas isso, aqui, era diferente. Não havia comandos ou supervisores garantindo a conformidade. As pessoas se moviam com uma harmonia tácita, unidas por algo que não era rígido nem forçado.
Havia risadas, piadas fáceis, mãos passando pratos e arrumando mesas sem a necessidade de ordens. Parecia estranho. Eles permaneceram à margem, incertos, até que a voz de Tarja interrompeu sua hesitação, convidando-os a avançar. Olhando um para o outro, os Silvani entraram na praça, encontrando-se varridos pelo fluxo e inércia da reunião.
Nandi permanecia à distância, observando com sua calma habitual. Sangamani não eram conhecidos pela indulgência e a própria Nandi comia com grande moderação. No entanto, sua presença ali, como a de todos os outros, não era apenas sobre a refeição. Era uma afirmação, silenciosa, mas inegável, de que ela também fazia parte deste todo.
A reunião era mais do que sustento, era uma promessa de unidade, um compromisso silencioso de nutrir e proteger uns aos outros. Nandi estava lá, sempre observando Valaravas e suas ações. Ela o tinha em alta estima, pois a história deles era uma de laços fortes forjados na confiança que não é fácil de alcançar. Uma vez, sua vida esteve nas mãos dele, e para eles, os Sangamani, sempre estará, enquanto ela respirar o ar que ele permitiu com suas ações.
Ariel observou Nandi com atenção. Ela tinha um ar de pertencimento que desafiava o fato de que ambas eram visivelmente diferentes de todos os outros. Os olhos de Ariel eram de formado e cor diferente e a pele de Nandi era, até onde Ariel sabia, diferente de qualquer um ali. A Silvani só tinha visto homens Sangamani, e como mercenários na Trifronteira. Ela ficou de lado, não participando do trabalho, nem interessada na comida que via ser preparada. Nandi também não. E, no entanto, Nandi claramente pertencia ali, mas Ariel sentia que ela mesma não.
Valaravas, por outro lado, era uma maré inquieta de movimento. Em um momento ele estava agachado perto do fogo, temperando habilmente cortes de carne e mexendo panelas ferventes, no momento seguinte, ele corria pela praça, uma criança risonha agarrada ao seu braço enquanto outras gritavam de alegria, e ele as perseguia de brincadeira. Sua presença era perfeita, permeando a noite como se ele sempre estivesse ali. Ele buscava lenha, trocava opiniões com os mais velhos, jogava uma bola para uma criança risonha, tudo com a facilidade de alguém que entende o delicado equilíbrio entre liderança e participação.
Perto do fogo, ele sorriu ao entregar a Tarja uma concha, empurrando-a em direção à panela com um comentário provocador sobre suas habilidades culinárias. Ela revirou os olhos, mas pegou a concha mesmo assim, mexendo lentamente o ensopado grosso. Ele se inclinou, murmurando um aviso exagerado sobre excesso de tempero, recebendo um empurrão suave e divertido em troca. Em pouco tempo, Tarja se movia entre o fogo e as mesas com a mesma facilidade e tranquilidade dos aldeões, sua risada se misturando com a noite.
Erlan, ainda desconfiado da estranheza da cena, foi atraído pela participação de Tarja. Sua natureza de guerreiro ressoava com a dela. E se ela podia ser tão versátil, cozinhando e brincando, e uma guerreira feroz, em algum lugar dentro de si, ele também poderia encontrar isso.
Ariel, mais curiosa do que cautelosa, aproximou-se de onde um grupo de mulheres preparava pães achatados, atraída pela conversa descontraída. Lentamente, hesitantemente, ela se tornou não mais observadora, mas participante.
Ela olhou de relance, o corpo de Valaravas iluminado pelas fogueiras e sua maneira de navegar por tudo aquilo. Até as mulheres Harata começaram a notar a maneira como ela o olhava. Ela sentiu isso como um pequeno sinal de pertencimento. As mulheres estavam entendendo seus sentimentos como algo natural, algo que elas poderiam ter por alguém, e algo que tinham em comum, tornando-as semelhantes de alguma forma.
Os Harata são todos uma família, todos ligados por laços maiores do que Ariel via entre ela e seu irmão. Ela nunca tivera um lugar onde pudesse confiar para não estar em guarda o tempo todo.
Aquele povo atraía o lado de Ariel que ela negligenciou para sobreviver ao exílio, e isso era algo que ela havia esquecido há muito tempo. Era estranho para ela o conceito de relações como as dos Harata, comparado com o que se acostumou no exílio, porque, em sua vida, nada se assemelhava ao que ela tinha visto ali.
A noite se aprofundou, mas o calor da reunião não diminuiu. Não era a obrigação que os mantinha juntos, nem apenas a tradição. Era a certeza silenciosa de que eles pertenciam, aqui e agora, não por exigência, mas por escolha.
Os Silvani, no entanto, recuaram e observaram de mesas mais distantes, refletindo seu costume no Cântaro, seus olhos aguçados traçando o ritmo da reunião de uma posição em que estariam fora do fluxo e atenção dos humanos.
Eles notaram a maneira como os aldeões pareciam antecipar as necessidades uns dos outros: um prato de pão entregue no momento em que alguém o procurava, uma jarra reabastecida antes de secar. A facilidade e a fluidez de tudo aquilo era quase desconcertante. Para eles, a ideia de uma comunidade horizontal, de pessoas trabalhando juntas sem instruções explícitas, era tão estranha quanto o aroma picante e temperado dos pratos humanos que emanavam das mesas.
As refeições comunitárias Silvani não eram encontros no sentido humano da palavra. Eram protocolos coreografados, conjuntos de regras acumuladas ao longo de gerações de etiqueta aperfeiçoada. Os designados para cada atividade raramente se sentavam juntos. Quem preparava não consumia, quem consumia não discutia, quem observava não interferia. Cada gesto tinha precedentes, e cada exceção exigia consenso explícito. O que fazer se algo desse errado não era uma questão de empatia, mas de otimização coletiva.
Entre os Harata, o claramente nobre Valaravas, e alguns outros comerciantes de alta renda, suas famílias, todos estavam ali como iguais. Um homem usando joias finas e vestes distintamente melhores servindo pão a um humilde pescador. Vendedores cozinhando, mercadores servindo, juízes carregando ingredientes.
Mas então, Ariel foi puxada pra realidade. Uma das garotas Harata trouxe uma seleção de comida que julgavam ser Silvani. Talvez com a ajuda de Valaravas, ou algum dos Barões presentes, eles encontraram algo Urbani que pudesse ser adaptado.
Aquilo poderia ter sido feito sem esforço e sem que saíssem de seu natural. O que chamou mais a atenção fora os talheres e os estilos. Enquanto a comida Harata é para ser comida com a mão, em pães chatos ou colheres, eles estavam sendo oferecidos os acessórios específicos de sua cultura, que nem mesmo os Urbani utilizam mais. As letras neles inscritas eram Silvani, atestando procedência ou pelo menos uma reprodução fiel.
Conforme a noite avançava, o calor da reunião cobria a praça como um cobertor macio. As risadas se misturavam com o crepitar do fogo, e por um momento até os Silvani se viram envolvidos no ritmo suave da noite. Não era apenas uma refeição, era uma promessa silenciosa, um entendimento compartilhado de que aqui, nesta pequena vila, eles não eram estranhos. Eles faziam parte de algo, mesmo que apenas por esta noite. Estavam inseridos no contexto da Ilha, e eram partes importantes daquela comunidade.
A reunião continuou noite adentro, a luz do fogo tremeluzindo nos bancos de pedra e lançando sombras longas e mutáveis pela praça da vila. O ar estava denso com risadas, pratos batendo e rajadas ocasionais de música de um grupo que passava.
Longe do calor da fogueira central, Ariel e Erlan ainda sentavam-se à parte, observadores silenciosos em uma celebração à qual ainda não tinham certeza se pertenciam por mérito ou por outros motivos. Eles observavam enquanto os aldeões se encontravam, no conforto em histórias compartilhadas e laços tácitos. Aqui, entre eles, os Silvani não eram ignorados ou excluídos, mas nada mudava que eram diferentes. Uma ponte culinária e social foi oferecida, mas cabia a eles atravessá-la.
Ariel soltou um suspiro silencioso, as pontas dos dedos traçando círculos na borda de um copo de madeira. As gravuras, motivos de folhas e vinhas, pareciam lisas sob seu toque, polidas por anos de uso. A luz da tocha contrastava com as costumeiras iluminações elétricas com as quais estavam acostumados, e das quais nunca viram alternativas naturais.
Eles comiam a comida que lhes fora oferecida lentamente, observando os outros. O sabor era diferente, desconhecido, mas não desagradável. Seria fácil se acostumar. A sobremesa feita exclusivamente para eles ainda era uma peça de um quebra-cabeça difícil de resolver.
— É estranho isso tudo, irmã. Mas temos que ter cuidado.
— Estamos distantes de qualquer Silvani, irmão. Mesmo que quisermos, como vamos ter 'cuidado'? Estamos entregues.
As palavras pareciam desajeitadas demais para o que se agitava dentro deles, uma sensação de que algo havia mudado. Não apenas na vila, mas nos espaços silenciosos de suas próprias mentes.
Erlan girou uma faca na palma da mão, notando seu equilíbrio, a maneira como se encaixava perfeitamente em sua pegada. Em sua mente, a luta se repetia, cada golpe, giro e estocada fluía através dele como a corrente de um rio, instintivo, sem esforço. Seu olhar se voltou para Ariel.
Ela estava encarando Valaravas, sua intensidade rivalizando com as chamas das tochas. Ela comia mecanicamente, seu foco absorvido pelo movimento ao redor do Harata.
Os anciãos da vila haviam se esforçado para preparar comida especial, honrando tanto os estrangeiros quanto a memória de antigos tratados dos quais nunca fizeram parte. Mas algo na postura de Ariel sinalizava desconforto.
Erlan entendeu. Bem demais. Os penetrantes olhos verdes dos Silvani se moviam, abertamente acompanhando o movimento com perspicácia, comparando diferentes cenas ao mesmo tempo. Já haviam se habituado que ali ninguém se importaria com sua diferença.
Erlan deu um tapa leve com o verso da mão quando Ariel se demorou por muito tempo com seus olhos concentrados na atividade de Valaravas. Ele parecia mais preocupado em ela não se deixar iludir do que propriamente que o objeto de sua admiração ser ele. Não mais preocupava Erlan esse fato.
— Não é ele exatamente. Lembra quando fugimos, escondidos, e chegamos em Erítria, e quando tivemos ir para a Trifronteira, porque Erítria não nos deixaria ficar sem documentos, ou sem um parente, como o marido de Amerille? Nunca tivemos alguém para nos trazer a sua cultura. Nunca, até agora.
— E os Harata aqui, eles sabem disso. Eles sabem do que precisamos, e do que temos medo. Isso não é natural.
— E como podemos, eu e você, irmão, saber o que é natural? Nossa vida nunca foi a vida natural nem mesmo de um Silvani.
O aperto de Erlan na faca se intensificou. Seus olhos se voltaram para Valaravas, parado perto do fogo, parecendo que o Harata tivesse nascido dele. Uma silhueta tecida nas chamas, sua voz um fio que unia toda a vila. Erlan exalou lentamente.
Erlan lutava em sua mente com o fato de que sua luta despertou orgulho, e senso de valor. Um valor que ele não sabia se queria realmente guardar para si ou seguir partilhando com os Harata. Seu ceticismo com aquela sociedade rivalizava com a ideia de que a cultura Silvani, se ainda existisse, não era mais para ele, e que a cultura Harata estava se oferecendo para ser dele.
Ariel lutava com a mesma dúvida, em sentidos completamente diferentes. Era família, era a pessoa, seu coração, suas frustrações. Ela queria ter onde dormir sem nunca ter que se preocupar com a próxima noite. Um povo para chamar de seu, e gente que teria o resto da vida para construir uma história de vida.
— Aquilo tudo ali não poderia ser só um teatro para que lutassem por eles. Não precisariam de tudo isso. Podiam simplesmente pagar pelo nosso serviço. Sairia até mais barato.
— E ainda assim, o seu Harata mesmo disse que sinceridade não é a medida de ser bom ou mau.
— Se nos conforta, está no nosso interesse, também.
Ela sustentou o olhar de Erlan.
— Valaravas, ele tem poder. Os Harata, ali, ricos e poderosos. O tipo de poder que move exércitos por eles, mas também contra eles. Só quero que você se lembre disso irmã.
Valaravas então chegou quase no mesmo instante. Era improvável que ele falasse Silvani, mas Erlan ainda ficou um pouco tenso com a possibilidade de que ele tivesse entendido.
— Eles fizeram isso com muito cuidado. — Valaravas disse, olhando as pessoas à distância. — Eles realmente queriam agradar vocês.
Ele então sentou-se irreverente junto aos Silvani, com sua caneca em mãos.
— Eles sabem o que vocês fizeram. Que vocês os protegeram. Vocês não são estranhos aqui. Eles conhecem sua espécie através dos contos dos mercadores, e eles conhecem os Urbani, através de mim, do meu legado de Ayla.
Sua voz era suave, mas firme. Ariel sentiu crescer aquela sensação deslocada sobre ele, conhecimento. Os Urbani são descendentes de antigos Silvani. Eles eram o povo da Cidade do Conhecimento, os acadêmicos Silvani. Ela guardou isso no fundo de sua mente, uma preocupação para depois.
Valaravas sorriu ligeiramente.
— Se eu pudesse dar um conselho, diria: Deixe-os conhecer Ariel e Erlan, as pessoas que já conhecem os feitos. Vocês não são sua cultura, seu passado. Deixe-os aprender sobre o Silvani por vocês, e não aprender sobre vocês pelo que sabem sobre os Silvani.
Ariel forçou um sorriso educado, mas seus olhos traíam sua razão.
Valaravas riu, apoiando a mão no banco gasto, seus dedos traçando formas desconhecidas no encosto, desenhando a sensação de toque em Ariel sem tocá-la. Sua voz era mais suave, mas ainda carregava peso.
— Tenho certeza que se eles conhecerem vocês, respeitarão e admirarão.
Nenhum deles falou, mas o silêncio entre eles parecia confirmar que ele realmente via através das máscaras. Erlan percebeu que, natural ou calculado, Valaravas entendia que devia convencer Ariel, e que Erlan a seguiria. Talvez fosse até melhor assim. Erlan preferia manter distância. Mesmo assim, talvez como com a bola, ele conheça a natureza de Erlan e o faça com intenção. Erlan conclui rapidamente que remoer esses pensamentos é inútil.