Os irmãos Silvani, nos quartos mais altos da Estalagem do Luar, também estavam digerindo os ecos dos eventos do dia que os seguiam como sombras. Ao contrário de Tarja, eles estavam bem familiarizados com a visceralidade da batalha, tais coisas há muito faziam parte de seu trabalho, caçadores.
No entanto, apesar da familiaridade, isso deixava sua marca na forma de uma tensão corrosiva que nenhum dos dois conseguia afastar. Erlan procurando quebrar a inércia decidiu fustigar a irmã.
— Seu Harata é sorrateiro, não adianta ficar olhando pela janela esperando ele chegar.
— Meu Harata, mas ele salvou 'sua' vida também.
Ela queria que soasse desdenhoso, mas as palavras saíram um pouco rápido demais, como se ela já estivesse defendendo algo que ainda não havia definido. Ela guardou seu silêncio refletindo para si mesma suas lembranças.
Ela se sentia incerta sobre seus pensamentos a respeito dos Harata. Após tanto tempo no exílio, confiando apenas em seu irmão, ela ainda se resguardava quanto à impulsividade dele. Mas o sentimento crescia. Ela esperava que sim, que aqueles olhos cruzassem seu caminho, mas sem capuzes, sem inimigos. Apenas os dois.
Ele era assertivo, seguro, poderoso. Ele podia proteger a ela, a eles.
Ele era confortável com como era, sem desculpas, sem concessões. Algo que ela mesma não podia afirmar de si, muito menos seu próprio irmão, ambos ressentidos com seu povo, seu passado e o que nunca teriam de volta. Mas era revigorante. Ela queria experimentar isso, através dele, seu humano de olhos bonitos.
Erlan a observava atentamente, um sorriso repuxando os cantos de seus lábios.
— Eu sei o que você está fazendo irmã. Está curtindo a lembrança. Sou seu irmão, e zombar disso é meu papel, mas eu entendo. Mas também sei que se você se deixou vulnerável para ele, o que não é bom. Independente do que você sente.
Ela odiava a maneira como ele disse isso, como suas palavras descascavam as camadas de seus pensamentos, expondo coisas que ela não estava pronta para admitir.
— Estou apenas concentrada, só isso. — disse ela intensificando a limpeza das peças de seu rifle.
Mas o estrago estava feito. No momento em que ele falou, ela se lembrou. Olhos claros como mel, afiados, expressivos. Incomuns nesta terra, como os dela, mas por razões diferentes, e com consequências diferentes. E, no entanto, ela se sentira segura. Mais segura do que jamais se sentira antes.
Um protetor. Alguém por quem ela poderia se permitir ser guardada, em vez de estar sempre em alerta, sempre vigilante.
Ariel pensou naquele instante que talvez Erlan tivesse uma razão. Ela não poderia deixar que qualquer sentimento que tivesse pelo Harata interferisse entre ela e o irmão. Eles eram, afinal, a única família que restava.
— Entretanto, irmão, temos que lembrar que estamos trabalhando para eles. — ela prosseguiu tentando desviar o foco. — Eles sempre terão alguém nos observando. Melhor que seja alguém amigável.
— Amerille talvez tenha pensado da mesma maneira. — Erlan seguiu provocando.
— Deixa disso irmão. Onatra, eles são bem menos amigáveis que os Harata com qualquer um, mas especialmente com Silvani. O que quer que Amerille buscava, não era nos mesmos termos.
— Então você já tem um tipo. Harata. Você já pensou e pesou, e decidiu então. — Erlan riu acidamente.
— Talvez, mas se for, isso só mostra como seu pensamento é contraditório. — Ariel disse com tom sarcástico.
— Contraditório? Eu não gosto de estrangeiro nenhum, por igual. Seja Onatra, Carpata ou Harata.
— Sim, mas você acredita nossa cultura mais valorosa, mais moral. Amerille viveu em um tempo que nossa cultura era ainda aceitável, e mesmo assim escolheu viver com um Onatra. Ela não foi a primeira Silvani a escolher isso. E ainda hoje, que somos uma espécie em extinção, segundo você, eu prefiro o Harata a qualquer Silvani.
Erlan arqueou as sobrancelhas com uma depressão, apenas acenando para que a irmã encerrace o assunto.
— Não! Alguém precisa dizer isso pra você, e vai ser eu. Muitos Silvani já não gostavam da nossa cultura antes da guerra civil, antes mesmo de ela ser o que é hoje. Os Urbani decidiram navegar para uma terra desconhecida em outro continente porque não aguentavam nossa cultura. Nada tão bom teria esse histórico.
Erlan não estava gostando do tom, mas não podia argumentar com a irmã, não com razão da mesma magnitude.
— Você chama todos de imperialistas, manipuladores, mas se o Silvani não fosse cruel com sua própria gente, se não fossem imperialistas manipuladores, nenhum Silvani teria concluído que era melhor viver em outra cultura, com outros valores.
Ariel estava afetada, seus olhos o queimavam, implacáveis.
A respiração de Erlan era aguda. Ele simplesmente rejeitava o discurso da irmã, sem palavras, sem argumentos, apenas negando aceitar o argumento.
Ariel soltou um longo suspiro, sua expressão indecifrável.
Ariel não podia esconder seus sentimentos, que afloravam pelas lágrimas, pelo som das palavras.
— Vivem Silvani onde nosso povo é mais odiado há muito tempo. Nós temos a desculpa da Guerra, mas e aqueles de séculos, milênios atrás?
Ela soltou um suspiro amargo. O silêncio se estendeu entre eles, pesado e implacável.
Erlan desviou o olhar primeiro.
Ariel apoiou o rosto nas mãos, olhando para baixo. Não tinha certeza se Erlan estava tentando sondar algo ou apenas fazendo uma observação sobre os humanos.
O pensamento veio silenciosamente, sem sua permissão, em quem ela confiaria quando importasse? Quem ficaria ao seu lado, não porque o dever exigia, por ser família, ou porque precisava dela, mas porque escolheram ficar com ela?
Se Erlan realmente estava tentando fazer a irmã ver o valor em ser desconfiada, estava falhando miseravelmente. Ela já estava em silêncio.
Erlan estava pensando em como acabar com o clima que havia se formado, mas Ariel, ela estava pensando no que disse de outra forma.
Ela marinava uma ideia. A ideia silenciosa e não dita de que talvez , pela primeira vez, ela tivesse encontrado alguém que pudesse ficar ao seu lado. Isso era estranho. Ela afastou o pensamento. Tinha assuntos mais urgentes para pensar e entreter noções que já temera no passado não ajudaria.
Erlan tentando se recompor parecia procurando uma razão para encerrar o assunto. Ele começou a checar seus suprimentos.
— De qualquer jeito, precisamos ir buscar provisões. Não vejo nenhuma entrega miraculosa em nosso futuro. — Disse Erlan tentando evitar falar dos Harata.
Ariel se endireitou, ajustando a roupa com uma urgência de recompor seus pensamentos mais do que sua compostura física.
— Não devemos checar na Taverna primeiro?
— Não é de comida que estamos precisando. Isso temos o suficiente.
Apesar de todo o sentimento sincero de Erlan por sua irmã, não era de sua natureza se conectar. Ele não percebia exatamente o que estava acontecendo com sua irmã. Não notava como suas palavras tomavam forma. Ele não sabia que sua desconfiança dos Harata e o apego a uma cultura que causou o sofrimento deles estava abrindo um abismo entre eles.
Ela estava cansada de viver apenas os dois contra o mundo, e que talvez o resto do mundo tivesse um motivo para não gostar dos Silvani.
Eles vestiram seus mantos de viagem e saíram para as ruas, misturando-se à multidão agitada. E, no entanto, apesar de todos os seus esforços para desaparecer, o mundo ainda os via. Vendedores desviavam o olhar, ou os preços aumentavam à medida que se aproximavam, as vozes baixavam para sussurros à sua passagem.
Um peso familiar se instalou no peito de Ariel, um que ela parara de questionar há muito tempo. O peso do exílio era como uma segunda pele, constante, familiar, inevitável. Eles não pertenciam. Nunca pertenceram. Mas, pela primeira vez em anos, ela se pegou perguntando se essa era realmente a única maneira que as coisas poderiam ser.
Um nó se apertou na garganta de Ariel. Enquanto seu irmão amargava as queixas das pessoas do mercado, ela, por outro lado, entendia a animosidade delas. Naquele mercado, Ariel estava sentindo sua própria consternação com as guerras do passado, provavelmente concordando com o tratamento que recebiam por ser Silvani, apenas ressentindo o fato de ela mesma ser Silvani.
Enquanto se viam procurando por migalhas do mercado, Ariel se lembrou de como a guerra terminou. Erlan diria que tomaram sua terra natal e destruíram seu reino, mas a verdade era que os Onatra e os Harata salvaram muita gente Silvani do seu próprio povo com aquela decisão, e eles mesmos só estavam vivos por isso.
Agora no mercado, eles andavam vendo nos rostos das pessoas que pouco importava se tinham respeito ou admiração por eles, pois eram Silvani, e deve ter concordado com tudo aquilo enquanto era conveniente.
Quando se viraram para se retirar do mercado, de mãos vazias mais uma vez, Ariel estava quase desmoronando, segurando-se por Erlan e por uma tênue esperança de que o humano que a salvara uma vez, de alguma forma a salvaria novamente. Seus olhos cor de mel vívidos em sua memória. Ela o chamou em pensamento, como se tudo aquilo fosse desaparecer, e ela fosse viver novamente como em sua infância inocente.
Uma voz cortou o barulho. Era afiada e suave, não alta, mas bem colocada, comandando atenção sem força. Harata com certeza, mas clara em seus ouvidos como nenhum Harata foi. Ele falava quase como eles, mas as palavras do idioma Erítrio:
— Mestre Ariel, Mestre Erlan.