Valaravas permaneceu
sentado, observando Svetlana partir, seus dedos tamborilando levemente
contra a haste de sua taça. Ainda havia muito o que fazer sobre aquelas
informações. Não que a Lâmina não estivesse por cima do assunto, mas
perspectivas são sempre bem vindas.
Ele soltou um longo suspiro,
depois pegou os arquivos que ela havia deixado, seus olhos percorrendo
os mapas, os relatórios, as implicações. O peso do que estava por vir o
pressionava, mas como qualquer verdadeiro Harata, ele não se deixava
sobrecarregar. Usava a responsabilidade com irreverência, como quem
veste um casaco bem cortado, adaptando-se à paisagem mutável com a
facilidade de quem passou a vida navegando pela traição.A taça
de sangria permaneceu intocada por algum tempo, a condensação se
formando em sua superfície enquanto Valaravas examinava os mapas e notas
deixados à sua frente. O peso do momento havia se instalado ao seu
redor, embora ele o carregasse com leveza. Cálculos se formavam em sua
mente, peças se alinhando, embora nenhuma ainda tivesse se encaixado.
Talvez depois revendo as informações com mais cuidado pelos sistemas do
Grêmio, a informação consolidada indicaria mais detalhes.
Dissidente
é uma classe grande. Piratas das Ilhas Livres, atrás de uma terra sem
as leis do consórcio, habitantes do Vale do Silício, a mais antiga
região de Ealetra, muito pouco explorada por qualquer dos povos
atualmente fora dele. Antes do recesso das águas, enquanto Ealetra ainda
estava inundada pelo grande Dilúvio, o Vale do Silício era a única
terra sobre a água. Todos os povos de Ealetra são descendentes de algum
povo pré-histórico que vivia no Vale. Pelo menos 40 mil anos e o planeta
todo estava sob as águas, exceto o Vale.
Valaravas estava
consumido por toda a informação ali, inclusive os achados que Erlan e
Ariel trouxeram para a Armada. A tecnologia não fazia nenhum favor. As
mesmas impressões que Ariel teve, Valaravas teve. Aquilo não fazia
sentido.
Focado nos papéis, Valaravas não deixou de sentir
aquela pontada na nuca, como se o vento fraco soprasse pela coluna.
Alguém se aproximava, mas suave o suficiente para não ser ouvido.
O
Harata não precisava questionar, ele sabia exatamente quem era. Passos
como de um felino em território de caça, suave, sem pressa, mas com
propósito. Completamente distinto dos passos de um Oficial da Armada.
Era um andar que sentia-se como se fosse levitar pelo chão.
A
mulher vinha das salas mais internas do prédio, emoldurada pela luz que
filtrava pelos mosaicos na janela. O brilho fraturado de âmbar e ouro
traçava os contornos de sua pela, grossa, escura como a noite, mas
sedosa e brilhante como nenhuma outra etnia em Ealetra. A luz acentuava
os padrões deixados pelos implantes subdérmicos que sua cultura
utilizava como forma de expandir a mente e o corpo.
Seus olhos
escuros e profundos encontraram os dele, como se sugassem seus
pensamentos e desfocassem a mente por um instante. Uma profundidade que
fazia até mesmo os acostumados à negociação hesitarem antes de sustentar
seu olhar por muito tempo. A natureza ausente do povo Sangamani gravada
à flor da pele.Ela avançou, o bordado delicado de suas vestes movendo-se fluidamente com seus movimentos. Sangamani preferiam vestimentas de seda ou linho bem coloridas, e como nativos do deserto, sua tolerância com o calor era admirável.
Sem cerimônia, ela se sentou. Seus dedos roçaram a superfície polida da mesa antes de pousá-los em seu colo.
— Nandi ! — Valaravas exclamou com naturalidade, dando espaço para a mulher na mesa.
— 'Mestre Valaravas' — Nandi respondeu imitando com sua voz forte o mesmo tratamento da convidada anterior.— Svetlana já partiu. E que história é essa de 'Mestre Valaravas'? Pela Alquimia Universal, já nos vimos pelados, mulher.
Ele
serviu um copo de limonada. Os elaboradores Sangamani abstinham-se do
uso recreativo de substâncias que alteram a mente, restringindo-se
apenas a infusões funcionais e químicos empregados em funções
específicas. O resto, só alimentos leves e naturais como os Harata
também preferem.
Valaravas a observou atentamente, estudando a
maneira como ela aceitou a bebida com uma graça silenciosa. Seus
sentimentos por ela eram óbvios, e sem remorsos. O Harata não esconde
seus sentimentos, ao invés, veste-os como uma armadura.
Sangamani
são extremamente controlados, e entre outras coisas, evitam serem lidos
pelos Harata. Nandi, porém, era muito mais íntima de Valaravas por sua
história compartilhada para se esconder desse específico Harata.
— Eu sei que seu povo 'expande a mente e os sentidos', mas você ouviu tudo que ela não disse?
Nandi tomou um gole medido, pousando o copo antes de responder.
—
Ela tem uma aura pesada. Sua mente cheia de contrariedades. Ela fala
para ser provada errada, então, ela não diz o que acha certo, só o que
tenta se convencer.
— Ah, sim, ela falou muito pouco mas disse
muito. Isso é diplomacia, não é? Condescendência velada e postura
mútua, que são a base de todo acordo bem elaborado. Um sucesso
retumbante. — Ele serviu mais limonada, o gesto casual, praticado.
Nandi
inclinou-se ligeiramente para trás, estreitando o olhar, embora fosse
difícil dizer se era em leve desaprovação ou em contemplação silenciosa.—
Ela está sob a rainha de espadas — ela murmurou, sua voz carregando
aquela cadência distinta de seu povo — usando a assertividade, franqueza
e imparcialidade como um escudo, nem sempre como um argumento.
—
Não somos tão diferentes — disse Valaravas, girando sua sangria com um
movimento praticado — Somos todos humanos, mas adaptabilidade,
sobrevivência, esses são os acordos do meu povo. Todos conseguem a maior
parte do que precisam, talvez um pouco do que querem, e o mínimo do que
não querem.
Nandi traçou a borda de seu copo com a ponta dos
dedos, considerando. Não era a resposta que ela esperava. Talvez, ela
percebeu, a resposta não fosse sobre o tópico, mas sobre a própria
discussão.
— Rei de Paus na mesma jogada da rainha de espadas,
para uma fim produtivo é necessário algo de copas no meio para
contrabalançar suas pontos dissonantes. E isso vocês tem de sobra, não é
mesmo seu safado. — Líderes fortes, teimosos. Mas alguém tem que dar o
primeiro passo.
Valaravas ergueu a taça em um brinde zombeteiro, seu sorriso presunçoso inabalável.Um lampejo de divertimento passou pelos lábios de Nandi, embora seu tom permanecesse uniforme.
— Dois predadores, nenhuma presa, um se tornará. — Nandi disse, para nenhuma surpresa, afinal era um dito famoso de seu povo.
— Svetlana?
Eu a deixaria me caçar o dia todo. Em algum momento, encontramos o
progresso. Ou, no mínimo, diversão. Ela precisa de uma presa, eu serei a
presa dela.
Nandi o estudou, o peso da responsabilidade visível no olhar do Harata. E ele prosseguiu no vácuo do momento.
— Sim, tudo é precário, Nandi. É isso que o torna interessante. Temos um ditado: Harata nunca se esconde. Harata sempre sabe onde.
—
Já encontrou uma 'delas' que te agrade? — Nandi perguntou com um
sorriso maroto. — Você sabe que eu te adoro, mas você precisa de uma
guerreira. Eu já sou sua bomba atômica, você precisa de uma parceira de
luta.
— A Silvani. Precisamos dela. — Ele bateu no arquivo que
Svetlana havia deslizado de volta para ele mais cedo. — Eu esperava que
Svetlana apoiasse a decisão, mas opinião não é uma moeda que os Onatra
gastam levianamente. Ainda tem a outra vaga. Um baluarte. Ela não se
oporá a uma Onatra, ou pelo menos ao que podemos fazer passar por uma:
uma Carpata.
Valaravas deslizou outro arquivo em direção a
Nandi. Ela o pegou, olhando o nome dentro. Uma mulher Carpata, menos
fisicamente dotada que os Onatra, mas da mesma ancestralidade,
descendente dos povos das montanhas de Erítria, uma ancestralidade comum
muitas vezes negligenciada.
— Essa Carpata parece muito
alegre para o tipo de coisa que será exigida dela. Será que ela tem o
sol e a lua no lugar certo? — Nandi alfinetou mais do que aconselhou,
deixando o arquivo repousar sobre a mesa, seus dedos ainda sobre ele.
Ela não olhou para Valaravas, mas ele sabia que ela estava observando.
— Qual das duas você vai cuidar pessoalmente, e qual das duas você vai deixar crescer sozinha? — Nandi perguntou retoricamente.
Um sorriso se espalhou pelos olhos de Valaravas. Ele ergueu a taça em admiração silenciosa.
— Sábia como sempre, Nandi. Sábia como sempre.
Ela sustentou o olhar dele, inabalável.
—
Eu sei o que a Onatra pensa de mim, — Nandi murmurou, tomando um gole
medido de sua limonada. — E nem preciso perguntar mais o que você pensa
de mim. A questão é o que eles todos vão pensar de nós, juntos.