Viagem durante a viagem

Movendo-se para as últimas horas de viagem, para a tripulação era mais simples. Toda a dificuldade em vencer as correntes que arrastam para o litoral de Jangunaray agora trabalham a favor de quem retorna. Era simplesmente transitar para o Mar do Sul e soltar o barco, e ele iria naturalmente para um dos portos da nação.
Enquanto Malek e Carcará seguiam na ponte com Sajó transitando entre a sala de máquinas e a cabine, Lateral cuidava das máquinas.
Barisi, sozinho em seu retorno ao cubículo desconfiou dos planos de sua companheira, mas estava acostumado demais com suas voltas para se importar com mais uma.
Na cabine do capitão, ao contrário, a tensão era alta, pelo menos para ele.
Sangamani, Raila havia caminhado com a Qachruna já muitas vezes. Ela teria caminhado com sua mãe para receber o conhecimento ancestral que ela havia obtido caminhando com a própria mãe, e assim por diante, criando uma linha de conhecimento ancestral base da cultura Sangamani.
Karak não era legado, ele era simplesmente Harata. Caminhada para ele era um conceito abstrato até o momento em que primeiro Raila demonstrou com a Qachruna leve, e sua participação foi simples.
— Entenda, isso é um ritual complicado. Você deve livrar-se de toda a preocupação, e no máximo que puder, confiar em mim. — Raila disse preparando o local.
— Eu não tenho escolha. Essa bebida aí não me deixa muita liberdade. — Karak disse displicente.
— Essa é diferente, Harata. A caminhada compartilhada vai marcar você e eu com uma parte um do outro. Nossas almas vão se conhecer de uma forma como nenhuma conversa mole Harata pode fazer. — Raila disse. — Você não é todo sobre 'palavra'. A caminhada compartilhada é uma 'palavra' que não volta trás. A mais honesta que qualquer um pode dar.
— E porque estamos fazendo isso? — Karak disse cruzando os braços.
— Nosso comando não vai funcionar se não acontecer. Temos que nos entender, e poupará anos de conversa e convivência.
— E Barisi não vai ficar com ciúme de você fazer isso com outro? — Karak riu.
— Barisi nunca caminhou comigo nem com ninguém. É toda a base de existirem os pares. Qualquer coisa que aconteça comigo por uma caminhada, ele não ser afetado por ela é o que garante que alguém irá me trazer de volta se algo der errado. 
— E eu? E mais importante: O que pode dar errado? — Karak disse genuinamente preocupado.
— Realidade? Silvani, Urbani, Fáscia, e desconfio até que gente da Armada, todos caminham. Não temos como esperar enfrentar nenhum deles sem ela. Não estamos aqui pra mudar o mundo, mas também não posso ter um capitão ignorante do poder de Ealetra. — Raila disse impaciente.
— Já fiz acordos piores ... — Karak disse ajeitando-se no espaço que reservaram.
— Com certeza, não ... — Raila disse dividindo dois copos com generosas doses.
— Beba de uma vez, e segure como puder. Tudo depende de segurar ele até descer. — Raila disse observando o Harata.
Ele bebeu a dose, com o amargar da decisão puxado tanto quanto o líquido grosso, amargo e nauseante.
Quando seus olhos viraram e o corpo do Harata estava fixo sustentando-se na postura sentado sobre seus pés com o olhar vazio e o corpo meramente seguindo vivo, Raila tomou a dose dela.
A consciência do Harata estava agora num espaço como na outra caminhada, mas agora seu corpo era definido, espectral, seus pensamentos pintando padrões de cores variantes através de seus braços e pernas. Seu corpo refletindo sua imagem em luzes coloridas, despido de nada que não fosse sua imagem natural. Harata, ele não tinha pudores ou vergonhas de sua imagem, mas a ideia era estranha em sua mente. 
Raila estava ali também, igualmente espectral, refletida em tudo que se conhecia, seu corpo despido e traduzindo em cores brilhantes a cambiantes seus pensamentos.
Ele não se movia naquele plano, ela sim, movia-se como se nadasse pelo ar. 
Ela veio e segurou o corpo do Harata como se o dobrasse e o guardasse dentro do corpo dela mesmo. O contato jogava pensamentos desconexos em uma cacofonia auditiva e um caleidoscópio de cores e imagens muito fragmentadas para entender.
Ambos foram tomados por aquela tempestade mental até que ambos começaram a ver a vida um do outro numa sequencia como se vivessem a vida do outro como espectadores através da visão. Sentiam seus movimentos, a visão, o cheiro, o tato, e o corpo, um do outro, sem poder controlar.
Raila podia sentir a diferença em como o corpo de Karak sentia, a diferença era estranha e ao mesmo tempo familiar. Karak observava a vida de Raila, sentindo igualmente familiar mesmo que estranho.
Eles tinham a experiência, a diferença de sensação de pele, particular de cada ancestralidade étnica, de gênero, e preferências.
Eles aproximaram-se do presente, reconhecendo como interagiram um com o outro através do outro, culminando em quando ingeriram a Qachruna e separaram-se da experiência corporal.
Raila, a mais experiente, tomou Karak de dentro de si, formando o novamente em seu corpo espectral, puxando-o ainda sem controle junto com ela para o fundo, aproximando-se do que parecia ser seus corpos imóveis.
Conforme ela guardou a imagem espectral do Harata no corpo que ali aparecia apenas em contornos vermelhos, ela percebeu o ponto púrpura escuro que formava-se no topo da cabeça do corpo espectral dele, que dizia que a troca havia aderido perfeitamente. 
Ela mesma retornou para o corpo dela, encerrando-se nele, esperando o efeito da Qachruna extinguir-se.
Vagarosamente, a realidade começou a invadir os sentidos de ambos, mais rápido para Raila, mais confuso para Karak.
Ele olhou para ela, e para tudo em volta. Tudo era exatamente o mesmo, e ao mesmo tempo não. Embora existisse uma diferença. Era indescritível em sua simplicidade. A voz do monólogo interno dele agora era um diálogo interno. Era como ele ter uma voz de sua consciência, uma voz de sua intuição, e o pensamento do momento, da realidade. Em uma fração de segundos ele discutia em sua mente e a implicação de falar para Raila o que estava acontecendo, entendendo racionalmente que ela saberia o que ele estava passando, logicamente, mas intuindo que falar traria entendimento ao momento.
— É estranho, eu tenho duas consciências. O que você fez? — Karak disse mais entusiasmado do que preocupado.
Ela por sua vez entendia já a sua própria forma de mentalizar as coisas. Ela sabia o que ele estava dizendo. O 'terceiro olho' sobre a realidade. Uma voz que argumenta com a 'voz da razão'. Mas agora ela chamava atenção. Os olhos dele, brilhando, as sobrancelhas relaxadas, ele movia a cabeça um pouco mais acentuado do que movia os olhos, respiração pausada, mais entre expirar e inspirar do que o seguinte, ele estava mais entusiasmado do que preocupado, ela sabia.
— Incrível não? Eu vejo nos seus olhos. — Raila respondeu brilhando.
Ela tocou os próprios bracos, as próprias pernas, era como se ela pudesse agora distinguir exatamente onde é o toque de uma pele ou da outra. Ela tinha a total consciência do corpo. Nenhum movimento de seu corpo era mais automático. Ela ia sorrir com malícia no que pensou, mas imediatamente controlou a reação, evitando a microexpressão antes que pudesse vir.
Eles olharam-se, e entenderam o que significava um para o outro entender o que um e outro tinham de suas culturas.
Ao olharem-se, por um momento, seus olhos fixaram-se e todo o resto turvou-se, mesmo que tentassem não poderiam quebrar o contato. Mas era um vazio, ele esperava o que ela iria fazer, e ela esperava o que ele iria fazer, o que quer que fosse, ambos esperavam ansiosamente oque o outro ia fazer.
Karak percebeu o que estava acontecendo, e quebrou o momento com um movimento rápido das mãos por entre seu contato visual.
— Isso é perigoso, mulher. Você precisa aprender a usar o 'enrolo Harata'! — Karak riu-se.
— É. Feitiçaria Sangamani é mais segura. — Raila riu-se.
— Melhor que isso fique entre nós por enquanto. — Karak disse com um tom mais sério.
— Barisi provavelmente saberá. E todo mundo que entende o que é a caminhada compartilhada poderá ver. — Raila disse apoiando a mão no ombro de Karak. — Ninguém sintoniza como quem compartilhou a caminhada. Quem sabe enxerga fácil. O principal é lembrar que isso é definitivo. E entender que a falta e a sintonia é resultado da caminhada, nada mais.
— Nada mais? — Karak estranhou.
— Iremos sentir sintonia, agradar na presença um do outro, e sentir a falta um do outro quando estivermos fora de contato. Isso é uma reação instintiva normal do efeito da caminhada no corpo físico. É preciso um certo controle para não deixar que isso se confunda com algo mais. Algo diferente.
Os olhos de Raila pairaram sobre o Harata por algum tempo, mas logo ela cortou o contato novamente.
— Nessa caso, é ainda mais importante você aprender o enrolo Harata. Nosso povo, pelo menos isso, é mais bem preparado. — Karak riu-se.