Os rumores e tramas da divisão sul da Trifronteira estavam correndo, apenas pouco mais quentes do que o normal. Era um calor civilizado de rumores e negociatas envolvendo problemas dos outros. Nada que a divisão sul não tinha quase todos os dias. A divisão norte, por outro lado, estava realmente em desespero.
O caos reinava onde a ordem outrora se mantivera, a tensão se adensando a cada hora que passava. A notícia se espalhara entre os Silvani ali estacionados: a Armada estava envolvida em uma caça à Silvani. Ou pelo menos esse era o rumor.
Os detalhes eram confusos, passados de boca em boca, suas bordas cegas e deformadas pela incerteza. Mas a verdade central permanecia: algo se movia nas sombras. Movimentos estavam sendo feitos contra os Silvani exilados entre os dissidentes, e esses movimentos não eram pacíficos.
No posto da fronteira, onde os enviados de Tirayon vigiavam seus interesses na Trifronteira, uma mulher já havia começado a ver o quadro geral se formando.
Sorya, a representante diplomática designada, ainda estava se recuperando de seu encontro com a General Svetlana. Sua mente estava inquieta desde então, tentando costurar os fragmentos da realidade que não pareciam mais se alinhar. E agora, isso.
Ela pressionou os lábios em uma linha fina, calculando.
Se a Armada realmente tivesse começado a mirar nos Silvani além de suas fronteiras, se esse rumor de caça tivesse algum peso, então era apenas uma questão de tempo até que fizessem seu próximo movimento.
A Trifronteira já era frágil. Um ponto de pressão onde impérios e facções livres se pressionavam, deslocando a balança por meros centímetros de cada vez. Mas se a Armada estivesse jogando um jogo maior, se pretendessem tomar a Trifronteira por completo, então não seria mais um lugar de equilíbrio instável. Tornar-se-ia uma Unifronteira.
Os dedos de Sorya se fecharam em um punho.
— Estamos ficando sem tempo. — Ela disse mal Yadora entrou sua sala. — Precisamos nos unir, todos os Silvani. Inclusive Ariel.
— Acho que deveríamos fazer o que todos fazem. Ir aos Harata já com a manteiga na mão. Chegar em um de seus templos de perdição e simplesmente curvar-se, passar a manteiga na bunda, e esperar. — Yadora gesticulou explicitamente demais. — Com o tempo a dor passa.
— Até onde sei, foram os Fáscia que 'cuidaram' dos Silvani que fugiram pela fronteira Sul. Eles que traíram e mataram cada um deles nos trens de guerra emprestados da Armada. — Yadora disse revoltada.
— E quem disse isso? — Sorya retrucou.
— A Armada. — Yadora via seu erro.
Um silêncio agudo se estendeu entre elas.
Finalmente, Yadora se inclinou para a frente, seus olhos brilhando indecifráveis.
— Digamos que acredito que ela está viva e livre na Fáscia. Precisamos encontrá-la, mas não é possível. — Yadora tentava ser prática.
Sorya estava tensa. Pensando.
— Se você estiver certa, ela os conhece melhor que nós, e poderá dizer a verdade, se é que não é a traidora que todos dizem. — Yadora refletiu. — Isso se, e é um se bem condicional, ela estiver viva.
— Não vamos ter certeza até confirmar uma coisa ou outra. — Sorya respondeu.
— Você sabe como são as coisas. Se por alguma sorte alguma de nós puder sair, não poderá voltar, e não teremos como nos comunicar. — Yadora trouxe a realidade.
Outro silêncio.
Sorya olhou para as portas, as janelas, verificando se havia movimento, se havia sombras onde não deveria haver nenhuma. Então, sua voz baixou para um sussurro.
— Yadora, o que eu vou dizer não pode sair de entra nós duas. Nem mesmo para alguém da sua maior confiança. — Sorya disse com cuidado.
— Você está me assustando, Sorya.
— Uma general da Armada falou comigo. — Sorya fez uma pausa, verificando novamente as janelas. — Ela me disse que Audren, a Grande Mãe Audren de Seldanar, junto com outros Urbani e Harata na Fáscia, abrigou Ariel no Grêmio. Ela está enroscada com um juiz Harata, possivelmente 'caminhando' com ele, e ele tem um alto posto na Lâmina. E pelo que percebi, enroscada é mais literal do que parece. E dizem a palavra Executora da Fáscia com certa frequência.
O ceticismo de Yadora foi imediato.
— Declarações como essa precisam de provas muito fortes. Há alguma? — Yadora cruzou os braços.
— Ela fez uma projeção comigo. Ela tem o dom da Sabedoria. A impressão recorrente da Sabedoria. Ela disse que a própria Audren abrigou Ariel na Fascia, talvez ainda esteja lá. Que a guarda real deles a está protegendo. Mesmo agora. Se a Onatra tem o dom da sabedoria, significa que alguém caminhava com ela, por vontade, e alguém de linhagem. Durante anos.
Os braços de Yadora se apertaram, sua expressão endurecendo.
— Muito difícil isso. Svetlana poderia ter um século e ainda assim os últimos nobres da Sabedoria que praticavam a caminhada teriam morrido há séculos antes dela nascer. A própria Armada eliminou os poucos hereges que sobraram.
Sorya balançou a cabeça, sua mente a mil.
— Você não pode mentir a projeção, mulher. O corpo no umbral não tem mentira. É a projeção da sua mente. Nós sabemos disso. Mas o problema é maior que isso.
Os lábios de Yadora se pressionaram em uma linha fina. Quando ela falou, sua voz estava afiada com certeza.
— Mesmo que ela tenha caminhado. Isso não muda o fato de ser uma general da Armada. Ela não está interessada na nossa sobrevivência ou na soberania do nosso povo.
Yadora partiu sem mais palavras. Havia muito o que fazer, e se a conversa era verdadeira, coisas importantes a fazer. Ela sentou-se em silêncio, o balanço do carro nas ruas esburacadas e mal conservadas uma metáfora para seus pensamentos. A conversa com Sorya a havia perturbado mais do que ela estava disposta a admitir.
As estradas que um dia foram como as da Fáscia agora estavam completamente desligadas, os sistemas de Tirayon deteriorados, trancados atrás das chaves que cada fundador das casas transmitia de geração em geração, perdidas. Carros não podiam ser produzidos ou importados para a nação. Altos oficiais e diplomatas andavam em Tirayon puxados por motores que mal se pareciam com o que o nome os identificava.
A esperança sempre fora uma coisa perigosa. Ela se infiltrava silenciosamente, infectando o coração antes que a mente pudesse rejeitá-la. E quando maior a derrocada, mais a menor esperança era uma tábua de salvação esperada.
Enquanto olhava pela pequena janela, os remanescentes do passado se impunham sobre ela como fantasmas. Ruínas enegrecidas, pedras quebradas, as cicatrizes carbonizadas de negócios outrora prósperos, testemunhos silenciosos do que fora perdido.
Ela passou por um trecho específico de terra, onde as árvores não mais existiam e a terra ainda estava crua ao sol com a memória do fogo.
Uma vez fora seu lar. Emissária de sua cidade, Coragem, ela vivia poucos quilômetros do ponto que passava. Eram matas de árvores que erguiam-se dezenas de metros aos céus, um lugar de paz e serenidade tecidas nas próprias raízes da terra. Em meio a elas, estações de sequestro de carbono criavam a grande descoberta Silvani que a guerra apagou dos livros de história: O carbóleo.
A invenção Silvani já servia como fonte de energia muito antes de qualquer outra nação ter a ideia que era possível.
A guerra o devorara, engolira-o em fogo e fanatismo até que tudo o que restou foi um cemitério silencioso, sua história gravada em fuligem e brasas. A cidade, outrora um refúgio de tradição milenar, fora reduzido a cinzas e silêncio.
E, no entanto, daquele silêncio, um nome ainda permanecia. Ariel.
Só ela sobrevivera ao massacre, a única guardiã das impressões de caminhada do dom da Serenidade, vivendo no exílio na Trifronteira. Um fragmento de um mundo perdido, ainda respirando. Viva.
Os dedos de Yadora se fecharam mais apertados em seu manto, seus nós dos dedos brancos contra o vento cortante. Se a Armada entendesse o que Ariel guardava, se compreendessem a profundidade do que estava armazenado em seu corpo, os segredos enterrados sob pedras estilhaçadas e galhos queimados, ela já estaria morta. O fato de ela ainda respirar significava apenas uma coisa: ela era útil para alguém.
A menos que os Harata a estivessem protegendo para seus próprios fins. A menos que Svetlana tivesse encontrado um motivo para abrigá-la, mantendo-a um pouco além do alcance da Armada. A menos que a própria Audren, com toda a sua astúcia, soubesse o que só os Silvani sabiam.
O pulso de Yadora acelerou, a batida martelando contra suas costelas. Ariel era mais do que uma sobrevivente. Ela era uma chave. Uma cifra viva que poderia destravar o retorno dos Silvani à Trifronteira ou abrir os portões de Tirayon para a Armada.
Mas Audren, ela era Seldanar, nobre, o que significava que tinha a caminhada com suas ancestrais também. Se ela sabia mesmo o que suas ancestrais saberiam, ela teria como entender o que poderia fazer com Ariel.
O ar estava denso com o peso da revelação. Tanto a Armada quanto os Silvani tinham motivos para protegê-la e também tinham motivos para vê-la morta. E, no entanto, nenhuma das forças tinha a mão decisiva. Aqueles que ditavam seu destino, que agora estavam no controle de tudo o que estava por vir: Harata.
Uma compreensão fria se instalou nos ossos de Yadora, uma percepção amarga que transformou sua respiração em gelo. Os Silvani haviam lutado. Haviam sangrado. Haviam queimado, sacrificado tudo o que eram em desafio àqueles que os queriam subjugar. E ainda assim, depois de tudo, eles não tinham voz em seu próprio futuro, tendo aberto mão disso no momento em que escolheram a guerra.
Se Audren pudesse fazer da Fáscia um novo lar para os Silvani, com suas cidades, tecnologia e o legado dos Silvani, não existiria nada mais impedindo a Tirayon original de ser dissecada como uma carcaça velha e podre de um animal extinto.