A subida foi silenciosa, mas longe de ser tranquila. Para a tripulação da Sutay, sob a proteção mística de Raila, a distorção da bruma do Vale era discreta, perceptível, mas tolerável. Os garotos Harata que seguiam ainda estavam sobre seu efeito, trazendo a carga e refletindo sobre aquela situação. A vantagem para o grupo de Karak era que o segredo da Baronesa Garoana impedia que eles soubessem as alianças que tinha ou não.
O grupo chegou em uma plataforma, já dentro do território do Vale. Tinha um recuo e o que parecia uma grande área com paredes feitas de pedra e um portal de entrada alto e largo.
Os jovens Harata adiantaram-se como se já conhecessem o lugar, e Karak pegando a linguagem corporal, sinalizou para que seu grupo ali também fizesse uma parada.
Os três deixaram a carga que traziam ali, empilhada com cuidado, e seguiam para retirar-se.
— Nosso trabalho está feito. — O que parecia ser o líder deles bateu na madeira da caixa três vezes e apontou para Karak. — Que sua missão tenha sucesso, velho.
Sem dizer nada, eles saíram, voltando de onde vieram.
Conforme os jovens se afastaram, Malek já pegou seu rifle e se preparava.
— Não usamos armas de fogo, na caminhada ou no Vale. — Carcará disse exibindo seus facões, movendo-os com habilidade.
— Por que? — Malek perguntou cético.
Carcará não disse nada. Apenas trouxe Malek para o outro lado do espaço, em uma clareira aberta, atrás do muro da construção em que os outros estavam.
— Prepare sua arma, Harata. — Carcará disse tomando uma dose de Qachruna.
Enquanto Malek se preparava, ele deu uma pausa observando Carcará virar os olhos da mesma forma que Raila, assumindo postura com seus facões em punho. Ele virou-se para Malek, ainda sem que suas íris estivessem visíveis.
— Tente usar sua arma. — Carcará disse com uma voz cavernosa.
Malek ficou em dúvida, mas apontou para o lado de Carcará e atirou um salvo, o abafador mantendo o som mais baixo.
Carcará nem sequer se moveu, apensar dos tiros passarem muito perto.
— Muito longe? Tenta agora. — Carcará se aproximou de Malek.
Malek apontou para o facão na mão de Carcará, e prosseguiu para disparar.
Na caminhada, Carcará via as cores no corpo de Malek, os impulsos elétricos por seu sistema nervoso, como se vagarosamente, mas não porque visse o tempo diminuir, mas sim porque seus reflexos e sentidos estavam acelerados, e registrava milhares de vezes mais rápido do que o normal do corpo humano.
Carcará seguia movendo-se como normalmente, mas muito mais consciente de seus músculos e nervos. Ele simplesmente desviou da direção dos tiros, avançando e tocando com a ponta do facão o cano do rifle de Malek enquanto ele atirava, adicionando do coice da arma.
Seguindo em um movimento fluído, Carcará virou-se pelo lado direto de Malek, onde ele estava bloqueado pela postura da arma, alçando o pé dele com a outra lâmina.
Ao tentar firmar-se pelo coice da arma, Malek ia colocar o peso no apoio da perna, mas Carcará com um movimento preciso usou a parte cega do facão para derrubar Malek.
Quando o Harata tocou o solo, com um facão Carcará empurrou sua arma para o lado, e com o outro deu um tapa gentil com o lado da lâmina.
— Não usamos armas de fogo, na caminhada ou no Vale. — Carcará repetiu. — Não só você estaria em perigo, como eles poderiam usar seus tiros contra os outros.
Carcará guardou o facão e ofereceu ajuda para Malek se levantar.
— Vou precisar aprender esse sua luta de sonho então, mestiço. — Malek disse, levantando desajeitado.
— Sim, vai, e bem rápido. — Carcará disse sorrindo.
Enquanto eles esperavam quem quer que fosse buscar aquele material, na saída da estrada, os três Harata chegaram de volta ao seu carro, tomando a estrada novamente. Barisi que havia ficado para trás, saltou para direção quando já estava longe de contato visual, e seguiu-os pelo caminho.
Eles entraram novamente em Uzhaq, mas seguiram por uma rota diferente, descendo pela Fáscia ao invés de seguir para o porto de Onachinia.
Barisi seguiu com cuidado, mas a vigilância na Fáscia era mais complacente com o carro que o Sangamani estava usando, permitindo que ele seguisse os jovens Harata com mais liberdade.
Eles evitaram a saída de Magdalagur, e ao invés, seguiram por fora da parte mais populosa da Fáscia, indo diretamente para o mercado no noroeste da Fáscia.
Era uma vila com poucas casas e poucas pessoas, o que seria muito exposto para que Barisi os seguisse mais de perto. O Sangamani preferiu andar pelo lugar e entender porque eles estavam ali, ao invés de segui-los diretamente.
Estranheza atingiu Barisi quando sua natureza Sangamani não surpreendia ninguém ali. Pelo contrário, as pessoas o tratavam com educação e respeito de alguém que conhecem.
Ao sentar-se em uma pequena padaria na vila, ele pediu um café simples, e ficou observando o movimento, tentando entender a natureza do lugar.
Ao pagar seu pedido, o homem observou a resposta da maquininha.
Ao invés de uma das garçonetes, o homem que estava no balcão veio pessoalmente entregar o café.
— Nós não colaboramos. Estamos apenas seguindo a instrução de não interferir. Novas ordens? — Ele perguntou discretamente.
Barisi olhou para ele, sem uma palavra. Já havia aprendido que o silêncio é a melhor resposta nos jogos de palavras Harata. Ele apenas fez um sinal com a mão como se para dizer que não iria dizer nada.
— Entendo. Pelo menos mestre Ravantes não se esqueceu de nós. — Disse o homem se afastando.
Nesse meio tempo, o resto da tripulação da Sutay estava naquele ponto de intersecção do Vale, e ainda esperava algum contato, quando a parede de pedra que parecia natural começou a mover-se, sem dúvida uma impressão alterada pela bruma do Vale.
Três figuras saíram de uma abertura que parecia formar-se da própria pedra. Logo depois de passarem, a pedra pareceu recompor-se novamente. As figuras andavam em direção o local, observadas pela tripulação da Sutay fora da vista, escondidos dentro do grande galpão.
Os três se aproximaram, e Karak podia ver que eram três Silvani, mas entre os sentidos alterados do Vale e a distância, não podia saber exatamente.
Quando chegaram mais perto podia ver que eram dois homens e uma mulher Silvani, do tipo que vaga pelo Vale, e não de Tirayon.
Ao mesmo tempo, a mulher Silvani parou e sinalizou para que os homens parassem. Ela estava dentro do transe da Qachruna como Raila.
— Ora se não são nossos velhos amigos, mudados, não é verdade? — Shmaria disse com um sorriso.
Shalev e Avivi tomaram seus sabres em mãos.
— Não precisamos de violência, entre amigos, não é mesmo? Ou vão nos trair uma vez mais? — Shmaria disse sinalizando para os outros Silvani parassem.
Karak, Malek e Carcará saíram de dentro do galpão. Preparados para combate mas sem posição de intimidação. Eles andaram até uma distância em que podiam os seis se verem claramente.
— Karak, está diferente. A caminhada com a Sangamani fez bem a você. Tem o 'cheiro' dela todo agora. — Shmaria disse com desdém. — Onde está aquela vadia?
Karak ia falar mas uma reação inesperada de recolhimento dos Silvani o surpreendeu.
Uma voz estranha veio por de trás deles.
Malek e Carcará olharam para trás surpreendendo-se, mas Karak apenas sorriu.
Raila veio posicionar-se junto deles, mas não com a sua aparência comum, dentro da caminhada. Ela estava com sua própria aparência, suas próprias roupas, mas ali, distorcida pelo Vale, ela parecia com a pele de escamas, em tom vermelho, e um rosto entre seu próprio e o de uma serpente. Seu tamanho ligeiramente maior.
— Sentiu a minha falta? Claro que sim. Sem mim você não era nada. — Raila disse como que dando voz para algo muito além da sua própria alma.