Uma família Harata com certeza

Mais tarde, já no jantar, o cheiro de carne assada e vinho apimentado se distribuía pela casa, enrolando-se pela sala de jantar com o tipo de conforto silencioso que é mantido antes de grandes discussões e decisões.
Tarja, sempre pragmática, ocupou-se com a refeição, sabendo muito bem que perguntas difíceis são mais difíceis de estômago vazio.
Erlan permaneceu imóvel, observador, aguardando seu momento. Ele não tinha intenção de quebrar o silêncio antes que a inevitável batalha de vontades se desenrolasse. E se ele conhecia sua irmã, era apenas uma questão de tempo.
A garota Urbani se acomodou antes mesmo de estar totalmente dentro, espreguiçando-se com o tipo de direito natural que apenas os nascidos no poder poderiam se permitir. E, no entanto, havia algo mais nisso. Exagerado, altivez intencional, um desafio silencioso usado como armadura.
Na cabeceira da mesa, Valaravas servia vinho em taças delicadas, cada movimento seu um estudo em facilidade calculada. Ele estava pensando à frente, sempre pensando à frente.
Nushala girou sua taça, seu olhar pousando em Ariel com uma diversão brincalhona e pontiaguda.
— Então você é a 'boneca' que todos estão sussurrando. — ela ponderou, inclinando a cabeça suavemente. — A bonita do tio Val.
Ariel não vacilou. Ela entendia o jogo agora. Isso era um teste. Ela pousou sua própria taça suavemente, seus grandes olhos verdes firmes, sem piscar.
— E você é a garota cujo pai praticamente despejou aqui. — Ariel disse com uma voz suave. — No colo do 'tio Val'. Parece que ambas temos nosso lugar, não é?
O brilho de surpresa na expressão de Nushala apareceu e desapareceu em um instante, engolido por uma risada rica e desenfreada.
— Ela é rápida. Gosto dela. Poderia perguntar se podemos ficar com ela, mas já vamos ficar com ela. — Nushala retrucou.
Valaravas apenas sorriu, mas Nandi observava atentamente. O respeito que ambas tinham por Nandi era a ponte que criar o respeito que pairava entre uma e outra. 
O peso das palavras pairou sobre a mesa, anunciando que seria longa a adaptação à nova configuração da família.
Ariel permaneceu em silêncio, observando. Nushala não era seu pai. Ela não iria longe demais, nem levaria essa troca tão a sério quanto Rentaniel teria levado. Havia espaço aqui, um espaço onde Nushala ainda se podia moldar, onde ainda não havia se comprometido totalmente com o caminho traçado para ela.
Com o silêncio que se estendia, e Ariel ainda não assumindo sua posição, Nandi se viu na posição de ar um empurrão, e seu olhar para Nushala dizia mais que palavras.
— Nandi, desculpa. Ariel, é só brincadeira. — Disse Nushala, reclinando-se. — Meu pai é tenso, a liberdade aqui me pega mais que o vinho.
Havia um entendimento em seus olhos. Ambas estavam ali por causas opostas envolvendo Valaravas, que de alguma forma as colocou juntas para protegê-las, mas isso não as tornava concorrentes.
Quando a refeição foi servida, o ar havia mudado. As primeiras faíscas entre duas mulheres que poderiam muito bem moldar o futuro dos reunidos haviam crepitado e queimado, e agora, o fogo se acomodava em um brilho constante.
A conversa se voltou para a Fáscia, para o passado, para a nostalgia. Valaravas e Nandi haviam se afastado momentaneamente, e Ariel ouvia enquanto Nushala falava, observando-a através de uma lente diferente.
Havia mais nela do que a superfície imatura. Diferente do sofrimento do exílio, como Nushala não sabia nada dessas coisas, havia algo familiar na maneira como ela falava de política como uma inevitabilidade, em vez de um desejo. Ela estava aqui porque não tinha escolha. Estava desempenhando um papel porque era o que se esperava dela.
Ariel entendia esse tipo de jaula. E se Nushala, no fundo, buscasse uma fuga, uma maneira de tomar as rédeas de sua própria vida em vez de permanecer um peão nas ambições de seu pai, então Ariel poderia usar isso. Se pudesse dar a Nushala o que ela queria sem renunciar à sua própria posição, então talvez tivesse encontrado um caminho a seguir.
Por enquanto, Ariel ouvia. Sua mente ainda não conseguia acompanhar Nushala com seu dom Urbani. A menina era ainda inexperiente do mundo, mas o dom inato de ver os padrões e sistemas era mesmo assim poderoso.
— Meu pai não vai parar. — Nushala dizia com voz casual, mas triste. — Você agora ainda o provocou. Eu entendo, mas ele pode ficar perigoso.
Valaravas encontrou seu olhar com algo quase indulgente.
— Seu pai não me preocupa, Lala. — Ele disse com naturalidade. — Sinto muito se ele te preocupa, mas o destino dele está em suas mãos mais do que nas minhas. Sua vó, eu, a Fáscia, ninguém o parou. Se você não for uma razão para ele parar, ele não sobreviverá sua estupidez. Nem eu posso protegê-lo de si mesmo.
— Val, você o condenou. Você tirou a autoridade e a dignidade dele, mas o deixou a liberdade. Isso foi gentil, mas imprudente. — Nushala estava já exercitando o dom latente, vendo os padrões. — Ele já está no caminho, e a perspectiva é sombria.
Ariel observava Valaravas de perto. Ele estava bebendo menos que os outros, pois devia estar pensando.
— Lala, eu não sou o único no caminho dele. — Valaravas seguia, entusiasmado com a mente de Nushala. — Há vários interesses me empurrando para o lugar que ele quer. Se eu não for ocupá-lo, esses interesses irão ter certeza que ele também não ocupe. Custe o que custar. E como pode custar a Fáscia, a Fáscia irá removê-lo antes.
— E se eles não o pararem? — perguntou Nushala.
— Harata não faz exigência, Harata administra consequência. Seu pai tem duas escolhas, parar ou ser parado. — Valaravas olhou de relance para Ariel. — Se a Fáscia não o parar, os Harata vão. Se não, a Armada, e se não, os nômades. E se por algum milagre, ele ainda estiver de pé, será porque o Vale levou à todos os outros, e provavelmente a ele também levará.
— Tia Ayla reflete em você muito, Val. A cabeça dela no seu coração. — Nushala riu.
Os dedos de Ariel se apertaram em torno de sua taça. Ela não tinha certeza de como se sentia com aquela declaração. Ainda era surreal, mesmo a partir de sua própria experiência, o fato de que a menina Nushala, mimada e sem noção de mundo, entendia o jogo melhor que ela.
Ela não conseguia entender este jogo, um jogo para o qual sua criação Silvani nunca a preparou. E a mulher Urbani parecia quase tão perdida quanto ela sobre o verdadeiro jogo que estava sendo jogado. Uma preocupação flutuava acima de todas na mente de Ariel: Como ela poderia usar isso a seu favor.
À medida que a noite avançava, as conversas se fragmentaram, e Ariel se viu saindo para a varanda, atraída pelo ar fresco da noite. Ela não esperava que Nushala a seguisse.
Eles estavam absorvidos por outras preocupações, e Valaravas, ele adorava o caos. Se Nushala e Ariel iam bater de frente, para ele, quanto antes, melhor.
Nushala chegou devagar, com cautela, e Ariel percebeu mas preferiu deixar-se engajar.
— Você parece mais educada do que a maioria dos Silvani que já conheci. — Observou Nushala. — Isso é surpreendente.
Ariel voltou seu olhar para ela, estudando a expressão da garota Urbani, sua postura era casual, mas deliberada. Não havia dúvida de que ela a estava avaliando em troca.
— Não sabia que tinha expectativas a cumprir. — Ariel retrucou. — Você conhece Silvani o suficiente para dizer isso?
— Você subestima o quanto provoca meu pai. O quanto sua gente provoca meu pai. Você deveria ter cuidado, não com ele, mas como deixa que os outros afetem você. Ao lado do Val, isso vai te fazer muito mal.
Ariel mal piscou.
— Sempre tive. Sempre terei. — Ariel ficou defensiva, justificando o argumento de Nushala. — Além disso eu sou do 'Val', e ele cuida muito bem do que é dele. Muito bem.
Por um breve momento, Nushala não disse nada. As duas tinham idade semelhante, mas havia um peso em Ariel que as diferenciava, uma facilidade em navegar pelas trincheiras.Nushala conhecia o jogo, mas não as peças que eram usadas para jogar, na lama, no submundo, na 'recuperação e limpeza'.
As palavras do pai de Nushala ecoaram na mente da jovem Urbani. Imatura. Impulsiva. Ela inspirou lentamente, inclinando a cabeça.
— Mas... seu irmão e a Carpata, hein? Tem algo ali, não? — Nushala voltou ao ar imaturo de antes.
— Erlan já é grandinho, não tem que seguir ninguém. — O tom de Ariel era defensivo, mas menos austero. — Eles lutam bem juntos. Tem um temperamento compatível. Devem se dar bem em mais do que luta, não acha?
Nushala a observou com cuidado. Era terreno selvagem, e duas mulheres relutantemente ligadas por um ponto comum.
— Essa liberdade não é nosso jeito. Pensei que não fosse o seu também. — Nushala refletiu, meio brincalhona, meio séria.
Ariel se virou para as luzes da cidade, deixando o silêncio se estender apenas o suficiente para tornar o momento dela. Ela se recordou da conversa recente.
— Estamos na Fáscia, não estamos? Você não é da Fáscia? Não se vive livremente aqui? — Ariel foi incisiva.
— Meu pai nunca aceitou a Fáscia. Minha vó tentou mostrar a ele que era o melhor caminho. Meu pai nunca mudará da cultura dos Seldanar de Khadija. Ele queria que a Fáscia fosse uma 'pequena Khadija' no leste.
Ariel se moveu, buscando o olhar de Nushala mais uma vez.
— Por falar em aceitar, você parece muito calma para alguém recém-arrancada do pai. Não houveram bons momentos? Coisas que você sentirá falta?
— Cuidados do meu pai. — Nushala riu. — Meu pai não se importa com nada exceto o jogo e seu poder. Autoridade? Minha tia e minha vó foram as únicas pessoas que foram família. E depois, Nandi e o Val.
Ariel a estudou por um momento, depois falou, a voz baixa, sabedora.
— E você não se importa com essa sucessão, legado, isso que falam? A casa dele ser a sua casa, o legado dele ser seu?
O sorriso de Nushala se suavizou e ela desarmou-se. Ariel estava abrindo caminho.
— Até onde vejo, a única casa e o único legado que sobrarão será o do Val. E pelo que vejo, pra você também.
Ariel captou a corrente fluindo em sua voz. Não relutância. Não ressentimento. Uma aceitação silenciosa de algo inevitável. O olhar de Nushala demorou nela por mais um momento antes de se afastar do parapeito, gesticulando preguiçosamente em direção à porta.
— Aqui e agora, estamos fora do palco, em nosso canto. Val nos dá isso. Deveríamos aproveitar enquanto podemos, porque isso não vai durar. Esse tipo de paz, não dura, não pra mim, e agora, não pra você.
Ariel hesitou, depois, vendo a situação clara, sem uma palavra, ela a seguiu. Lá dentro, a casa havia se acomodado no silêncio da noite. A maioria havia se retirado, o brilho das lamparinas lançando longas sombras pelas paredes.
Ariel passou pelo quarto que Erlan estaria, notando o vazio, o silêncio.
— Irmãozinho, não tão zinho mais. — Ela murmurou.
Ela entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. A garota Urbani, em sua maneira, havia também cavado um lugar no coração de Ariel com a compartilhada memória de ver nessa nova família mais do que já tivera com a própria. E ao contrário de Ariel, ela ainda tinha pais e avós.