Ariel odiava gostar daquele jogo. O jeito como Valaravas jogava com a verdade o suficiente para não ser contestado, mas nunca o bastante para ser claro. Os Harata nunca mentem, e era isso que tornava lidar com eles viciante, ela começa a entender. Ela poderia perguntar novamente, mas não ganharia nada com isso. Como antes era um convite a descobrir, a procurar o que interessava naquela riqueza de informações sobre o passado de Valaravas, Nandi e Ayla. É como se ele quisesse que ela fosse mais fundo, olhasse, tocasse, sentisse o lugar, aprendesse sobre ele.
Erlan estava mais curioso sobre Nandi, que ali sentada no braço do sofá onde Valaravas estava, bebendo algo que ela teria encontrado como se soubesse onde estava e estivesse lá para ela. Ele tinha certeza que ambos conheciam bem o lugar, e juntos, pois não eram apenas familiares um com o outro como de costume, mas um com o outro naquele lugar. Olhares brincalhões com nostalgia, observando espaços sem nada mais do que qualquer memória que tivessem, enquanto completamente à vontade com o espaço.
Mas como sempre, Tarja era a que destruía o silêncio com sua peculiar delicadeza Carpata.
— Bom, pelo menos chega de comida de acampamento, e comida Onatra. É hora de mostrar o que uma cozinha decente pode fazer. Um lugar chique desse deve ter muita comida em algum lugar. — Ela olhou para Valaravas como quem o coloca na ponta da faca. — Temos, não temos?
Valaravas que apesar de comer pouco como todo o Harata, tinha a sua preferência pelos temperos e sabores fortes de uma boa cozinha usada com habilidade, divertiu-se e incentivou Tarja em sua busca.
— A cozinha deve estar abastecida. Mas se achar que falta algo, só dizer que damos um jeito. Cada sala de Jantar tem uma cozinha no lado oposto daqui da entrada. — Ele disse com divertimento.
Erlan observou Tarja desaparecer na cozinha antes de sumir, seus dedos batendo ociosamente contra o batente. Então, ele se virou para Ariel, sua voz baixando.
— Vamos, seu Harata gosta que a gente encontre as coisas, vamos encontrar.
Sem outra palavra, eles entraram nos escritórios.
O ar ali era mais frio, pesado com a presença silenciosa de uma sala destinada a guardar palavras, segredos, registros. As paredes eram de madeira escura, com prateleiras esculpidas na própria estrutura, envelhecidas, mas bem conservadas. Tomos e pastas alinhavam-se nos compartimentos de maneira ordenada. Poucos, mas intencionais. Um lugar como este nunca deixaria nada vital ao acaso, nunca armazenaria algo insubstituível onde pudesse ser facilmente levado. Terminais que eles receosamente tocaram, revelando pouco em termos de informação. Pareciam estatísticas e dados comerciais, mas alguns estavam criptografados para além da capacidade deles.
Mas mesmo o que restava era suficiente. Suficiente para confirmar o que Valaravas havia dito. Suficiente para mostrar que o lugar não estava em uso ativo há algum tempo.
Ariel passou a mão pelos terminais, sentindo que eram novos. Alguém havia renovado os equipamentos, mesmo que o que estava armazenado neles fossem décadas de uso e informação. Consultas não retornaram nada importante. Nas gavetas de documentos convencionais, ela ia traçando os selos de cera, os carimbos de autoria desbotados. Alguns ostentavam a escrita Harata característica. Outros, com Onatri e Urbani eram Relatórios de inteligência, registros logísticos, negócios. Alguns continham marcas Urbani, embora não do tipo que ela viu antes. Círculos sociais diferentes provavelmente.
Um sorriso, suave e travesso, curvou-se no canto de seus lábios.
"Até o cheiro." Ela inspirou levemente, captando os resquícios fracos de incenso tecidos na madeira, nas fibras, na própria fundação do lugar.
— É uma casa segura, sim. Temos sistema de segurança, câmeras, e tudo mais. Mas esta mistura de cedro e hortelã, a forma como os quartos estão dispostos. Isso é mais do que um disfarce. Ele sabe que nós sabemos. Isso era uma casa segura, sim, mas literalmente. Eles moravam aqui.
Erlan olhou para ela, de braços cruzados, uma familiar cautela piscando em seu olhar.
— Esse gosto pra jogos esta mudando você, irmã. Poderia disfarçar um pouco. Nandi pode ficar com ciúmes.
Ariel acenou com a mão em desdém.
— Nandi? Como? Você não pode negar que o jogo é interessante. Isso deixa as coisas mais interessantes. Uma dinâmica diferente. — Ariel sorriu. — E também, já estivemos em lugares mais escusos que esse, que pertenciam a canalhas escorregadios.
Erlan estreitou os olhos como quem vê a deixa pedindo para ser completada.
— É, pelo menos aqui conhecemos o canalha escorregadio, e ele está do nosso lado.
Eles trocaram um olhar.
— Tá. Mesmo assim. Não vamos encontrar nada aqui, irmão.
Quando chegaram ao salão de jantar, a tensão já havia começado a se dissipar em algo mais doméstico. Eles se sentaram perto da parede envidraçada, observando o zumbido silencioso do movimento ao redor.
Nandi e Valaravas permaneciam como sempre: à vontade, em casa, em um lugar que nenhum dos outros ainda podia chamar de seu.
Havia um entendimento não dito na maneira como se moviam aqui, uma facilidade não apenas com o espaço, mas um com o outro, e com o desconforto que isso causava nos outros.
Tarja, já na cozinha, cantarolava baixinho enquanto trabalhava, fazendo um inventário, avaliando suas opções. Comida de verdade. Não as rações secas e medidas da vida no acampamento, mas algo substancial, algo feito para ser apreciado. Ela havia encontrado provisões, receitas guardadas entre os suprimentos. Mas até ela sabia que o fato de comida substancial ali não era por acaso. Não iriam ter joelhos de porco e até carneiros inteiros em refrigeradores de parede caso não antecipassem a voracidade Carpata ou Onatra entre os próximos convidados. Nem mesmo os Harata, raramente interessados em carne, iriam guardar um carneiro só por se acaso.
E, durante tudo isso, Valaravas e Nandi bebiam, falavam em tons baixos e fáceis, trocando olhares nostálgicos por cima da borda de suas taças. Seus olhares denunciavam lembranças doces de tempos distantes. Não havia como negar. E pela sua abertura, não queriam esconder.
— Eles vieram aqui. Foi porque sabiam que viríamos. — Valaravas murmurava para Nandi. — Rentaniel deve ter falado com Aba. Você sabe como ela é. Ela ficou triste quando fomos embora.
— Depois do que aconteceu com os filhos dela. Claro. Mais do que a Mãe, ela se ligou à você. Seu charme Harata não ajudou em nada. — Nandi respondeu com um sorriso.
Valaravas exalou lentamente, uma respiração que continha mais do que apenas ar.
Nandi inclinou a cabeça ligeiramente, observando-o.
— A dos Heleyan for uma história triste. Ela precisava de algo para ver a vida melhor. Era o mínimo. — Valaravas respondeu com um tom mais baixo. — E depois Ayla, ela deixou muita gente triste.
A voz desvaneceu no silêncio entre eles, a leveza roçando as bordas da cultura Harata. A Alquimia Universal vê a morte como transformação, mesmo que o sofrimento do vácuo daqueles que morrem seja considerado um sofrimento, é daqueles que ficam.
Nandi o estudou por um momento, depois estendeu a mão, seus dedos encontrando os dele em um toque que não era nem hesitante nem demorado. Apenas o suficiente. Ela apertou suavemente os dedos dele antes de se retirar.
— Eu estou aqui. Sempre estarei.
Valaravas olhou para ela, mais suavidade em suas feições. Ele se permitiu sentir aquilo. Uma efêmera pausa naquela mente cheia dos segredos de Ealetra.
Ariel e Erlan observavam, tendo ouvido apenas parte, eles tinham certeza que era uma história longa que nunca saberiam.
Enquanto comiam e se preparavam para a noite, os Silvani descobriram que os quartos da ala esquerda ostentavam características distintamente deles, seu artesanato, sua disposição, o cheiro fraco de óleos essenciais tecidos na madeira. Era lógico que os quartos da ala direita tivessem sido preparados para os Harata e até mesmo um deles para uma Carpata, conclusão reforçada pela expressão de Tarja já estar se acomodando no quarto último da direita.
Ariel franziu a testa ligeiramente ao notar Valaravas e Nandi se movendo em direção ao mesmo quarto. Não foi o fato de ele estar com ela que incomodou Ariel, mas o fato de que ela não estava lá com eles. Não deveria ser assim, ela não era assim, e ainda assim, ela se sentia daquele jeito. Era uma forma estranha do sentimento de exclusão invadir.
Eles já não estavam surpresos pelos Ta'khame Silvani originais que presumiram estariam lá, mas tudo estava arrumando como era mais de sua cultura. Diferenças pequenas em tipos de móveis, distribuição das coisas.
Os dois viram que havia muita coisa para descobrir e que não seria em uma noite que iriam conhecer aquilo tudo. O descanso era mais importante, uma vez que essas acomodações eram as melhores que já tinham estado, com Ta'khames grandes e confortáveis que também evidenciavam a permanência que eram destinados.
O sono foi o melhor que já tiveram há muito tempo. Era um lugar tranquilo, seguro, e falava aos instintos mais básicos de sobrevivência de todos ali, mas Ariel e Erlan especialmente estava experimentando o que era dormir sem nenhuma preocupação.
O ar da manhã na Fáscia carregava uma quietude temperada daquela falésia que convidada o mar a visitar o recesso interno, trazendo um clima peculiar à toda a nação, tocado pelo cheiro de pedra úmida e incenso queimando. A cidade estava despertando, mas ao contrário da agitação dos mercados de Magenta e da Trifronteira, ou da procissão ordenada das cidades Silvani, a Fáscia se movia em seu próprio ritmo. Uma mistura de mercadores, artesãos e estudiosos emergia nas ruas, não apressados, mas determinados.
O grupo tinha decidido sair para uma caminhada matinal, não por necessidade, pois aquela que Valaravas e Nandi chamavam de Aba já havia deixado tudo para eles na casa. Era uma oportunidade de ambientar os recém-chegados aos dias da Fáscia, acompanhados por aqueles que estavam simplesmente como que retornando para casa.
As ruas limpas mostravam um cenário agradável, e o transito era organizado de uma forma estranha. Eles entendiam que as pessoas ali poderiam ser civilizadas, alegres ou o que fosse, o transito eventualmente traria conflito, mesmo que amigável, por sua fluides e decisões de minuto.
Ao chegarem a um sinal, Valaravas apertou o botão, esperando que liberassem a passagem. Os carros não pararam na medida da faixa com reflexo educado. Eles pararam exatamente na mesma linha da faixa como se tivessem calculado aceleração e frenagem, com o exato ponto de parada definido.
Ao atravessarem, eles seguiram, e no exato momento em que cruzaram todos e ninguém mais estava, o sinal mudou e os carros sincronizados seguiram seu curso.
Os Silvani estavam olhando, confusos, era um transito muito organizado.
— As ruas dirigem os carros. — Valaravas disse com um divertimento.
— O que? — Erlan perguntou.
— As ruas dirigem os carros. O asfalto é construído com trilhas de dados e os carros captam esses dados. Seu sistema de direção usa esses controles e dados para saber onde ir, e para evitar acidentes.
— Os carros da Fáscia são especiais? Fazem os carros aqui? — Erlan perguntou assombrado.
— Não, a maioria é feita no sul de Onachinia. Mas eles produzem os carros com o sistema de direção digital compatível e mandam pra cá. — Valaravas explicou como quem diz algo que todo mundo deveria saber.
Não havia senso de urgência, apenas movimento organizado. Uma cidade que funcionava como um moinho de vento, movendo-se com o fluxo, com um propósito. Eles eram os que menos propósito tinham, acompanhando o fluxo.
Valaravas liderava o caminho, como sempre fazia, mas desta vez algo estava diferente. Não nele, que caminhava com a mesma confiança fluida, o mesmo ar de pertencimento que carregava em todos os lugares. O que era diferente era a maneira como as pessoas respondiam a isso.
Não era apenas uma familiaridade passageira.
No momento em que pisaram na rua principal, as pessoas o reconheceram. Algumas com acenos, outras com o simples ato de não o tratarem como um estranho. O ocasional "Vossa Excelência" murmurado com reconhecimento respeitoso, mas nenhuma pessoa sequer o olhou com surpresa.
Essa surpresa não incomodou Ariel. O que ela não conseguia entender era como tratavam Nandi.
Ela caminhava ao lado dele como se também pertencesse ali. Sua pele escura e cabelo cacheado, diferentes dos Harata, e completamente diferente dos Urbani daquela cidade. A pele dos Harata mais escuros era pálida em comparação com a dela. O sol da manhã a tornava ainda mais radiante. A pele dos Harata é naturalmente fosca, mas a pele de Nandi refletia o sol da manhã com uma graça diferente de todos os outros ali.
Nem mesmo um olhar curioso, o que seria compreensível, para uma presença exótica. Era não só como se soubessem que Sangamani existia, mas também supresso o mecanismo de surpresa, mesmo que nenhum outro podia ser visto por perto.
Uma mulher em uma barraca de frutas frescas lhe ofereceu uma amostra enquanto Valaravas trocava algumas palavras com o homem ao lado dela, como se ela fosse uma cliente de longa data. Nandi respondeu com um leve sorriso, trocou algumas palavras e, uma vez terminada a conversa, continuaram caminhando.
Um homem que passava ergueu a mão em saudação, não para Valaravas, mas para Nandi. Outro gritou para o Harata algo sobre notícias da costa. Valaravas respondeu em Harata, e o homem cumprimentou Nandi no que possivelmente era a língua dela. Ela apenas acenou em resposta.
Isso fez Ariel até esquecer sua própria diferença do povo local, que apesar de semelhante, tinha sua grande diferença dos Silvani.
A sensação era crua, intensa, como se, por tudo o que viveram juntos, ela apenas arranhasse a superfície do que Valaravas e Nandi significavam. Valaravas sempre foi assim. Ele sempre caminhou como se pertencesse, e as pessoas o deixavam. Ela vira isso em Magenta, em Vila do Luar, até mesmo em Zhefaq ou Khara, que mal toleravam forasteiros.
Mas Nandi?
Nandi deveria ser uma estrangeira aqui. Uma mulher exótica, diferente de todos os outros. Não apenas eles, mas ela, que deveria ser cautelosa com excesso de familiaridade, a menos que a conhecessem. A menos que ela os conhecesse bem também.
Ariel cerrou a mandíbula e ficou ao lado de Erlan, observando em silêncio enquanto Valaravas e Nandi se moviam pelo mercado. Um vendedor os avistou e, sem hesitar, começou a preparar algo. Ele não perguntou o que queriam. Ele já sabia.
Até mesmo Tarja, com toda a sua natureza descontraída, parecia um pouco perplexa.
— Podemos mudar pra cá. — Disse Tarja com sua voz descontraída. — A comida é boa e andamos com celebridades. — E tem o trem pra Vila Pequena!
Ariel estava em outra sintonia. Ela pensava em tudo o que passaram, e tudo em que conseguia pensar era no significado daquilo para ela. Ela não estava ali por acaso, havia algo para ela ali, para todos eles. Ela estava motivada a encontrar. Ela balançou a cabeça ligeiramente, mais para si mesma do que em resposta.
— Existe uma mensagem aqui pra mim, e eu vou encontrar. — A voz da Silvani era mais para ela mesma. — Harata nunca mente. Essa coisa com Nandi, essa libertinagem não faz sentido de outra maneira. Safado.
Erlan enrijeceu ao seu lado.
— Irmã, lembre-se, não é só ele que fala nossa língua aqui. Todo mundo entende nossa língua aqui. — Sussurrou Erlan.
Ariel piscou, percebendo que havia falado mais alto do que pretendia. Mas não retirou o que disse.
Tarja apenas riu, alheia ao peso das palavras, mas ela sabia que pelo som dos dois, aquilo devia ser um faniquito Silvani.