Tudo tem hora e lugar

Todos estavam correndo no porto de Luar. Os oficiais estavam em busca de um prisioneiro fugitivo, e Andrei precisava de tempo para descobrir uma saída, já que sabia que eles não iriam encontrar ninguém, e o tempo estava passando.
— Capitão, Senhor. Eu tenho o prisioneiro.
A sobrancelha de Andrei se ergueu ligeiramente. Ele tinha suas suspeitas sobre a Tenente, mas ela deixar claro assim abertamente que era dukhovne não parecia correto, a não ser que o mestre oculto dela considerasse-o confiável ou irrelevante.
— Tenente. Hoje era sua folga. Está longe de casa.
Danila ofereceu uma saudação enérgica. Tentando se controlar ela tomou fôlego.
— Estou, senhor. Estava visitando um amigo na Estalagem quando o domo, Rafiq, informou que a Armada havia perdido uma pessoa de interesse. Ele sabia onde estava essa pessoa, mas não é alguém que possa lutar com dissidentes. Eu me ofereci para ajudar.
A expressão de Andrei entrou em modo protocolar.
— O relatório é que os dissidentes o levaram, e você o encontrou com a ajuda de contatos locais perto da Estalagem do Luar. Isso?
— Sim senhor. — Danila disse com um sorriso quase infantil.
— Muito bem, assumo custódia do prisioneiro. Que se faça refletir em nossos relatórios tal como isso. Dispensada.
Andrei dispensou Danila e supervisionou o retorno de Rentaniel ao cruzador. Sua tripulação, humilhada pela fuga anterior, queria ser rude, mas um olhar de seu capitão silenciou qualquer fanatismo.
Enquanto zarpavam para a Trifronteira, a mente de Andrei revirava os eventos da noite.
Ele não estava surpreso que Rentaniel tivesse sido pego. Mas ele sabia que ela era dukhovne, aquilo era muito mais alto até que os dukhovne da patente dele.
Essa percepção o perturbou mais do que qualquer outra coisa. Sua viagem para a Trifronteira lhe permitiria um tempo para refletir sobre o que tudo aquilo significava. Era óbvio que Danila estava mentindo ou, pelo menos, omitindo a história completa. Isso não era uma preocupação para Andrei. O que realmente roía a beirada de sua mente era se Danila estava lá para vigiá-lo, ou para cuidar dele.
A viagem foi coroada com o silêncio do capitão preocupado e dos oficiais humilhados pelo que eles acreditavam ser manobras de dissidentes.
A luz da manhã banhava as docas quando o cruzador de Andrei alcançou a Trifronteira, sua presença causando um alvoroço imediato. Esperando por eles estavam dois oficiais da Armada e Elmund, uma figura que o capitão há muito aprendera a desconfiar. Um homem com muitos títulos, embora nenhum carregasse tanto peso quanto seu verdadeiro papel: um infiltrador do Reino de Khadija.
No momento em que Rentaniel pisou em terra firme, seu destino já estava sendo manipulado.
O caminho deles os levou ao posto avançado da Armada, aninhado estrategicamente perto do Cântaro Dourado, onde os sussurros frequentemente superavam as próprias notícias.
As formalidades foram observadas. Relatórios foram entregues. Os eventos, da melhor forma que os envolvidos se lembravam, foram documentados sob o escrutínio cuidadoso do representante Urbani de Khadija, designado especificamente para garantir que seu nobre colega da Fáscia fosse tratado com a dignidade condizente com seu status. A palavra prisioneiro ausente das descrições.
O estado vago de Rentaniel não era inesperado. Se o registro oficial fosse acreditado, seu sequestro pelos dissidentes fora uma provação traumática.
Os oficiais da Armada no posto avançado deixaram suas recomendações claras: Rentaniel seria melhor atendido nas instalações do Zhefaq. Não era apenas uma questão de segurança, era uma questão de imagem. Lá, ele receberia os confortos e cuidados, algo que a Trifronteira não podia fornecer.
Os representantes Urbani, conhecendo a reputação do Zhefaq, não viram razão para se opor. O próprio Rentaniel não resistiu. Sem protestos. Sem palavras. A ironia pesava sobre ele como uma pedra de moinho.
Uma vez, ele chamara sua mãe de marionete, uma soberana sem vontade, controlada por forças maiores que ela. E agora, aqui estava ele, literalmente carregado e manuseado, o herdeiro de Seldanar reduzido a algo tão sem peso quanto uma marionete literal.
A viagem em si foi tranquila. O Zhefaq era perto, e a caravana se moveu sem ser desafiada. Rentaniel, no entanto, estava vazio. Não importava o quão longa a estrada se estendesse, não importava quantos quilômetros passassem sob ele, ele não se sentia mais perto de nada, apenas mais longe de si mesmo.
Quando chegaram, o Coronel Aleksandr já estava esperando. Seu plano se desenrolara melhor do que o esperado. Ou assim ele acreditava.
Rentaniel foi colocado nos alojamentos Urbani, muito longe da cela improvisada que conhecera antes. Era silencioso. As acomodações, feitas sob medida para Urbani, e carregavam uma aparência de dignidade. A comida foi trazida. O ar estava calmo.
Pela primeira vez em muito tempo, Rentaniel sentou-se sobre um Ta'khame, o tradicional tapete de seu povo. Ele deu um longo suspiro, seu corpo se acomodando.
Ele já havia ouvido falar da morte desejada. Sua mãe nunca havia confirmado o que sabia, mas ele conhecia os rumores. Por um momento fugaz, Rentaniel considerou isso. Ele sentiu as bordas daquele vazio, a tentação da libertação. O rosto de sua filha. Palavras não ditas. Ações não realizadas. Arrependimentos, sobrepostos a arrependimentos. E a voz de Rafiq, cortando a névoa. 'Sua filha foi salva de você'.
Seus dedos se curvaram contra os joelhos. Sua respiração se firmou. Ainda não.
Lá fora, sua própria dor estava sendo usada como forragem política tanto pela Armada quanto pelos Harata. Na sala de reuniões dos oficiais, o Coronel Aleksandr comandava a atenção. Sua voz carregava o peso de um homem moldando a própria história.
— Já faz muito tempo que a Armada não busca a cooperação do Reino em uma operação conjunta contra as ilhas rebeldes ao sul. — Aleksandr prosseguiu.
— Quando os Harata e a Armada garantiram que a opressão dos Silvani não engolisse Ealetra, o Reino atendeu ao chamado. Agora, temos provas de que a ameaça rebelde não é apenas um incômodo, é existencial. E a Armada está pronta.
Elmund, sempre cético, recostou-se na cadeira.
— E quanto aos Silvani? Se desviarmos nossas forças, eles se encorajarão com a oportunidade de atacar.
Aleksandr estava preparado.
— A Armada, e nossos companheiros Harata, nós estamos preparados para engajar em ambas as frentes — ele rebateu. — Somos capazes de usar força esmagadora em ambas as fronteiras.
— Os Harata não lutam em guerras abertas. — Elmund zombou.
O sorriso de lado de Aleksandr foi sutil.
— Sua inteligência e capacidades estratégicas são mais do que suficientes. E nós temos o Vostochnaya Khara. — Sua voz endureceu. — Um batalhão da Khara é suficiente para nos proteger de Tirayon inteira.
Andrei entrou na discussão, sua presença cortando a sinergia.
— E desde quando a Armada ataca sem provocação direta, Coronel Aleksandr?
Um lampejo de irritação cruzou o rosto de Aleksandr, mas ele o mascarou rapidamente.
— Capitão Andrei, da Armada Naval, Uma honra tê-lo aqui. A Armada Naval pode não estar totalmente ciente da situação em terra.
— Suspeito que a General Svetlana teria um comando muito mais comedido das forças do Khara. Ela não brinca com nossos recursos. — Andrei retrucou.
— Como o Capitão deve saber, a General Svetlana tem os Harata em alta estima. Eles nunca ficariam de braços cruzados enquanto nossos aliados Urbani são zombados pelo que é, sem dúvida, uma conspiração apoiada pelos Silvani.
Andrei riu-se, pensando que sua visão de campo agora estava sendo bem importante.
— Você deveria esperar para ouvir o que Rentaniel tem a dizer antes de decidir qualquer coisa. — Ele cruzou os braços. — Ele é a única autoridade Urbani real em toda esta balbúrdia.
Elmund sorriu de lado, assentindo.
— Isso é a coisa mais razoável que ouvi em todo este discurso.
Os dedos de Aleksandr se fecharam em um punho, a irritação faiscando em sua expressão. Sua narrativa cuidadosamente tecida estava se desfazendo. Mas ele se forçou a sorrir.
— Você está, é claro, correto. Isso é razoável. Rentaniel verá o valor da minha  percepção. — Ele inspirou, recompondo-se. — Se não há mais nada, esta reunião está encerrada.
Os oficiais e delegados Urbani começaram a desocupar a sala.
Elmund andou mais rápido, alcançando Andrei antes que ele pudesse sair completamente.
— Então a Tenente Danila está sob seu comando, Capitão.
Andrei mal olhou para ele.
— E o que tem isso contigo, Elmund?
O sorriso de lado de Elmund era afiado como uma navalha. 
— Acho que ela tem um futuro brilhante pela frente, não concorda?
Ele deu um tapinha nas costas de Andre, inclinando-se um pouco.
­— Como seu oficial superior, tenho certeza de que você entende a importância dela melhor do que ninguém. — Sua voz baixou um pouco. — Um dia, ela pode até substituí-lo.
Então, com a facilidade de um homem que sempre conseguia o que queria, ele seguiu em frente, deixando Andrei com seus pensamentos.
Ao deixar o Zhefaq, juntando-se à caravana que retornava ao porto, a mente do capitão fervilhava.
Ele sabia há muito tempo que a Armada jogava este jogo de forças que operavam nas sombras, que sussurravam entre as fileiras, que moviam peças no tabuleiro muito antes mesmo de as batalhas começarem. Ver tudo isso de perto o perturbou, como se ele não tivesse mais desculpas para simplesmente negar seu envolvimento.
O outro aspecto disso também o perturbava: Melica.
Ela parecia genuinamente apegada à figura paterna que ele representava, mas agora isso assumira outra dimensão, como se também permitisse a ela ter uma linha direta com ele. A menos que ela o estivesse vigiando, para os Harata.
Parecia que uma conversa seria necessária, mas como todos sabem, Harata nunca mente, e a palavra de Melica seria permanente.