Trabalho honesto

A chegada no sul de Onachinia foi relativamente tranquila, e a tensão sobre a embarcação ao longe era apenas um pequeno espinho pressionando no canto da mente da tripulação.
O processo de atracagem era, no entanto, uma nova sequencia de surpresas para os novos membros. O barco foi colocado em quarentena, devido a procedência, e uma barcaça de Eletrochinia veio distante da costa para recolher o carregamento, evitando que o barco de Karak atracasse na costa. 
Isso também significava que o processo era mais simples. Eles apenas precisavam ancorar no ponto que estariam, manter o estabilizador ativado para diminuir a deriva, e esperar que a barcaça fizesse seu trabalho.
Em duas horas, a barcaça já estava se retirando com sua carga, e a tripulação do barco de Karak estava pronta para retornar, segundo o plano que tinham.
A viagem sul foi marcada por uma dinâmica mais calma. A maioria já sabia fazer seu trabalho no barco com certa agilidade. A presença ao longe não mais incomodava, mesmo que permanecesse ali, marcando o horizonte com a certeza de que na melhor das hipóteses, era alguém vigiando pelo 'chefe' do empreendimento.
A noite estava chegando e das panorâmicas aberturas da cabine era possível ver ao Oeste a costa da Fáscia, com a Doma imponente e os cruzadores da Armada agora visíveis pelas luzes de navegação. O porto norte e depois sul da Fáscia era um ponto de referência com luzes e movimento. Para o Leste, apenas o mar agora escurecendo, escondendo a presença ao longe, ainda ali, sentida mesmo que não vista.
— Chegando no porto devemos mudar o nome do Barco para sua nova tripulação. Ele segue sendo o MKY-360, mas é costume dar um nome amigável. — Sajó disse casualmente durante a calma da viagem. — Uma decisão do capitão.
— Sutay, um nome. — Karak disse sem pensar.
— Sutay! — Malek e Raila repetiram.
— Um nome que deve ter história, vejo. Espero que seja boa. Não é bom nomear um barco sobre tragédias. — Carcará disse com uma voz sombria.
— Sutay é uma lenda antiga, do tempo que nosso povo vivia nos mares. Alguém que se refere à vida no mar como uma companheira, a chamava de Sutay. — Karak disse com um certo brilho. — Antes de essa vida virar sinônimo de violência e falta de caráter.
— Em todo lugar existe violência e falta de caráter. — Sajó disse com o tom cinza de sua gente.
— Harata não mente. A palavra Harata é permanente. Não é só uma rima, uma linha de conversa. Para nós, independente de dizer a uma companheira ou ao atravessar um inimigo com uma espada, é a fundação de nosso povo. Uma pessoa boa, uma pessoa má, um ladrão, um diplomata, todo Harata tem o compromisso com ela. — Karak disse como se tomasse ofensa.
— Mentir e omitir dá no mesmo, se o resultado é o mesmo. — Raila retrucou, cética.
— Talvez para o seu povo, feiticeira. Para o meu povo, a palavra é a verdade. Verde é verde, vermelho é vermelho, fatos são vistos, ouvidos. A mentira e verdade são coisas do caráter. Não damos nossa palavra em engano, apenas em garantia. Um Harata diz, sua vida é regrada pelo que diz. Ele não gasta sua palavra com explicar a vida, a vida se vive. Não posso omitir algo que cabe a você enxergar. — Karak pontuou com o indicador erguido.
— É diferente do povo político, Raila. Harata não tem razão para explicar o mundo com palavras. Todo Harata vive o mundo, e a palavra apenas assina acordos de ação, não doutrinação. — Malek acrescentou.
— Pelo menos eles são honestos com como enxergam todos. Ao contrário de um povo que fabrica exilados, ou que fabrica vilões. Uma acuidá, um desertor, e uma criança que ninguém reconhece, seus povos virando as costas para um 'acidente' de sua própria mentira, vive na palavra de um Harata, e no interesse de um Anoa. — Carcará disse com desdém. — Mentir e omitir, ignorar e exilar, um povo que vive por esses valores merece a fama que tem.
— Calma rapaz. Não é o momento. — Sajó disse olhando para Carcará.
— Está certo, velho. — Carcará disse com um sorriso desbotado.
O silêncio dominou a viagem pelas próximas horas. A noite estava já alta, e a tripulação de Karak já havia terminado sua visita à claridade das terras do norte.
— A primeira vigília é minha. — Karak disse, invocando a rotina conhecida do passado de pirataria.
— E minha. — Raila disse para uma certa surpresa de todos.
Os outros desceram para os alojamentos. 
Em alguns minutos, o sinal do rádio.
— Na vigília. — Barisi informou pelo rádio.
Quando o silêncio dominou a cabine, alguns minutos de um silêncio cortado pelas ondas e a chuva fina fora, no movimento rítmico barco seguiram.
— Precisamos de um tipo de regra dessas suas Harata. — Raila disse.
— O que você quer dizer?
— O mestiço tem razão. Nossos povos, eles se entendem, porque não convivem. Nós temos que passar essas viagens nos tubos acotovelando. No nosso tempo, minha tripulação era escrava, a sua era Harata, e Lateral, é o Lateral. Mas aqui, não tem como entufar as rusgas dos nossos povos entre nós. Isso não vai durar. — Raila disse segurando um sete de espadas e uma rainha de paus.
— Entendo sua razão, mas o que eu deveria entender dessas cartas? Malek é que sabe dessa sua feitiçaria aí. — Karak riu-se.
— Precisamos lidar com esses sentimentos, tipo o que aconteceu agora. E a melhor forma é esse seu enrolo Harata. Franqueza, fogo e mel. — Raila disse com um sorriso sacana.
— O garoto é mestiço, Sangamani e Onatra, ele com certeza deve nutrir um azedo pelo seu povo e os Onatra. E sinceramente, você o culpa? Se você está aqui, é porque eles não te querem também. — Karak riu-se.
— Eu não sou acuidá, Harata. Barisi e eu decidimos sair de Sangamá por nossa conta. Limpo e sem arrependimentos. Simplesmente decidimos que aquele lugar não ia nos dar o que queríamos. O mar era o destino. — Raila disse com uma certeza revolta.
— Primeira lição do 'enrolo Harata': Se você não está lá, é porque saiu, se saiu, você andou de cá, o chão em que andou se moveu pra lá. A verdade está no meio, e não interessa. Por isso Harata funciona. A vida é o que é. — Karak disse virando-se para o horizonte.
— Filosofia também não interessa. Temos que achar um jeito prático de conviver. — Raila disse virando-se na mesma direção.
— Repito, justificar a sua verdade é o que conflita com outros que tem uma verdade diferente. Quando a sua verdade é só a sua palavra, ela como um todo depende apenas do que você diz. Queremos conviver? Somos eu, você, e não nossos povos falando por nós.
— Acho que só tem um jeito de conseguirmos dividir esse comando, capitão. — Raila disse caminhando para a escada.
Karak percebeu que ela saía, mas não se mexeu. Ele não entendia exatamente o que ela queria dizer.
Depois de alguns minutos, Raila retornou com uma garrafa com um líquido grosso, cor e cheiro de terra na chuva.
— Deveríamos chamar o velho cinza e o mestiço daqui a pouco, e fazer uma reunião de comando. — Raila disse, assumindo a gravidade daquilo em sua expressão.
Karak olhava para a Sangamani e sua preparação. Ele tinha uma noção do que era Qachruna e já havia visto o que era seu uso, mas não essa, não a Qachruna de viagem compartilhada.
— Não acho que isso vai me fazer dormir melhor. — Karak tentou ser cômico.
— Não creio que você vá dormir essa noite, Harata. — Raila riu-se.