Teoria na Prática

A Fáscia de Seldanar é uma nação de máscaras mutáveis, e esconde sob sua grandeza cosmopolita um labirinto de duplicidade social e suspeita étnica.
Comerciantes Harata tecem suas redes enfeitadas com ouro por todas as grandes cidades, enquanto Urbani governam de cidadelas com torres de uma graça afiada por séculos de superioridade silenciosa. Em tal reino, quase todos os povos de Ealetra podiam ser encontrados, todos exceto os Sangamani, cuja ausência era notada apenas em silêncio.
No entanto, entre as multidões, havia raridades tão evidentes que não podiam passar despercebidas.
A Professora Priyangani Ariwansha, conhecida nos claustros acadêmicos da Fáscia simplesmente como Priya, era uma dessas anomalias: uma Anoa, e inconfundível entre os habitantes da Fáscia. Sua pele tinha a palidez translúcida de sua gente, tão pálida que desafiava a marca do sol. Seus olhos, de um violeta profundo, quase luminoso, tornavam seu olhar inesquecível, quer fosse encontrado com admiração ou repelido com silencioso pavor. Quando ela caminhava pelas ruas da Fáscia, ou atravessava os corredores dos edifícios, sussurros precediam seus passos. Ela não era meramente vista, ela era lembrada.
Dentro da Academia, onde sua pesquisa sobre a flora e a fauna de Jangunaray carregava um modesto, mas crescente renome, Priya andava mais confortável, carregando sua herança genética com uma tranquilidade de quem está cercado de pessoas que sabem mais sobre isso do que ela mesma.
— Nosso esquivo ‘colega’ não nos agraciou com sua presença, suponho, Syndra? — perguntou percebendo a chegada da colega Urbani.
— Somos como adolescentes rebeldes, tramando nossa fuga. — Syndra respondeu com a suave risada que lhe é peculiar.
Syndra de Miralamar, uma acadêmica Urbani, alta, de cabelos ruivos e vestida com as roupas soltas preferidas pela elite educada da Fáscia, sorriu e suspirou com um cansaço teatral.
— Há uma delegação na costa — comentou Priya, olhando em direção à janela onde gaivotas distantes circulavam além das muralhas de pedra escura. — Talvez atrasos nas rotas marítimas. Meus próprios reagentes ainda não chegaram.
— Fosse eu questionar esses assuntos, precisaria de um bom motivo. Agora você, minha amiga ... — respondeu Syndra com uma ponta de pedido.
Um sorriso, tênue, mas sardônico, cruzou os lábios de Priya.
— Nem mesmo eu poderia cercear o escrutínio de seu povo, Syndra. O jogo já nos chega compulsório.
— E você não ajuda a tirar o véu de mistério que me fascina nele. Proibido é atraente. Não sou de Khadija.
A Urbani riu, seu olhar se suavizando.
— Você está convivendo demais com os Harata. — provocou Priya. — Você se esquece da praticidade direta de homens Anoa. Está floreando ele demais.
—Ainda assim. Aran tem um charme prático. Charme prático, paradoxal. Encanta.
— A grande Diretora Syndra, encantada por um Anoa. Quem diria? Certamente nenhum Urbani. — Priya fingiu seriedade.
A piada passou entre elas como um vinho velho, aroma de familiaridade, tingida de perigo.
Elas voltaram para seus relatórios e espécimes, o ritual silencioso da ordem profissional retomando seu curso. No entanto, em cada olhar em direção à porta, em cada silêncio que se instalava entre as frases, pairava a dor sutil da demora, Priya aguardando seus materiais, Syndra aguardando um homem que ela nunca nomearia em voz alta nos círculos Urbani.
Os Anoa, afinal, não eram um povo de calor. Onde os Harata empunhavam seu charme como lâminas adocicadas com mel, os Anoa falavam como se cada palavra fosse pesada por sua necessidade, e nenhuma desperdiçada.
Priya, rara entre seu povo por sua suavidade, permanecia um enigma na sociedade Urbani. Seria sua amabilidade uma máscara? Seria sua presença uma manobra silenciosa? Para a elite Urbani, nenhum Anoa vinha sem um plano.
Mas a Fáscia esperava com braços abertos suas pesquisas, e os materiais como os que Priya estava facilitando para a Academia.
Em outro ponto daquela academia, era a guarda, e não um acadêmico que questionava mais ainda os atrasos.
— Lilian, você é a Chefe do setor de logística, como você não sabe o que aconteceu? — Syvis estava impaciente.
— Capitã Syvis, você é Capitã da Guarda Real. Como 'você' não sabe o que aconteceu. Estamos esperando carregamentos diversos e todos eles atrasados. Lógica diz que deve ser pela mesma razão. — Lilian disse tentando sair da conversa.
— Seu pessoal deve ter planos e comunicação que não tenho. Eu lido com assuntos do interior da Fáscia. O exterior é a 'sua' responsabilidade! — Syvis disse firmando os pés no chão.
— Está certo Syvis. Eu não sei o que está acontecendo. Mas se por acaso você estiver no mercado, pode ouvir alguma coisa que eu não sei, mas que os Harata ali sabem. Eles falam alto, e você tem bons ouvidos. Tudo bem?
— E nós são sabemos? — Syvis exalou exasperada.
Lilian apenas deu de ombros e seguiu seu caminho.
Apesar de serem Urbani, na Fáscia a formalidade de Khadija foi perdida. E é possível que seja a convivência com os Harata. Tudo ali funciona mais porque os Harata tomam conta do que pelo poder acadêmico dos Urbani. E a Grande Mãe Audren sabe disso.
Syvis decidiu fazer exatamente aquilo. Ir até o mercado e esperar que a informação a encontrasse. Uma guarda real no Mercado não seria novidade. E ela mesma não precisaria fazer nada, apenas ouvir.
Naquele dia, porém, a informação iria chegar ao encontro dela, como se esperasse apenas sentir seu cheiro.
— Ei! Guarda! — Um garoto Harata correu para Syvis.
— O que foi ?
— Eles levaram minha rede, com tudo que tinha, foram por ali! — O garoto apontava freneticamente para uma entrada escura na lateral do mercado.
Syvis trouxe o garoto até a entrada, e ao se aproximarem, o garoto correu, sumindo na bagunça do mercado.
Seguindo pela entrada, já com a mão em sua arma, Syvis foi vasculhando vagarosamente enquanto seus olhos adaptavam ao escuro.
Diversos Harata de várias idades e vestimentas iam seguindo sua rotina, como se a Guarda Real com a mão na arma fosse a cena mais comum do mundo.
Syvis seguia andando, até que um rapaz de uns 20 anos apontou para a direita olhando para ela.
Quando ela entrou entrou no recuo mal iluminado, um outro rapaz esperava. Ele não disse nada, apenas entregou um papel.
[O Leste permanece unido. Cuidado com o elo mais fraco. Segure o Leão.]
O papel estava escrito em língua Urbani, o que não significa que os Harata não sabiam ler, mas a mensagem teve um efeito em Syvis. A guarda pegou o papel, e correu sob os olhares dos Harata, que nem mesmo reagiram.
Syvis atravessou o mercado como uma gazela ferida, tomando seu carro e seguindo com a prerrogativa de quem tem a exceção da lei, cruzando com o estrito cuidado necessário, mas ignorando os limites da via. Seu destino, o castelo da Regente.
Ela dirigia como uma desesperada, murmurando "muito cedo, muito cedo".