A pequena vila onde eles agora moravam era uma ilha
de tranquilidade protegida por massivos canhões de Maz Ynis, e paredes
de concreto vivo. Para todos os outros lados da nova Ilha Suyantara
Leste, domos sobre pedreiras eram erguidos, e não só pelo barulho ou
poeira, mas pela economia e eficiência. Todo material era importante,
até mesmo a poeira levantada pelas escavações.
As toupeiras,
enormes veículos escavadores que processavam o solo e as rochas que
escavavam, devoravam literalmente a crosta da Ilha, criando túneis por
onde o próprio material era usado para criar as paredes e alicerces que
mantinham esses mesmos túneis abertos. Era uma versão menor das
colossais toupeiras que escavavam Erítria, como aquele que criou o túnel
do 'Verme'.
Apesar de pouco som e poeira, o trabalho criava
um leve agito sísmico que podia por vezes ser sentido na vila principal.
Era o barulho de fundo que cortava a impressão daqueles ali vivendo de
que estavam sozinhos na enorme ilha.
— Eu vi na caminhada sua
infância, nascido em Angaraya, da mesma Pasvara onde eu nasci. Sua gente
criando aquele monte de crianças, você jovem perambulando pelos
mercados, recrutado pela Lâmina logo quando jovem. — Raila comentou
observando o horizonte da ilha seca. — Como seu povo lida com isso?
—
Nosso povo é diferente de tudo em Ealetra. Eu vi na caminhada, suas
vilas, famílias, casas enormes, separadas em cada lugar, gente
diferente. Sua revolta com como eles são 'parados', 'tradicionais'. —
Karak riu-se. — Esse 'casamento arranjado' com seu 'guerreiro'. É o
mesmo que Urbani, Silvani, Onatra, é tudo construção.
— Eu
entendo você, a sua visão do seu povo. Mas Malek, ele é diferente. Eu
não vejo o mesmo brilho. Certo que ver sua vida pela caminhada, e ver a
dele pelo que ele parece aqui, ou quando éramos rebeldes sem bandeira, é
diferente, mas ele não parece ter muito a ver com você. — Raila
refletiu virando-se para Karak.
— Nosso povo vive a vida como a
vida os faz, Raila. Harata é a soma e a razão de todos, em cada um. Seu
povo, como você prova, exclui os que se afastam do ideal. Como todos os
outros. — Karak virou-se para a Sangamani. — Como eu disse, Harata não
vai contra Harata. Unimo-nos antes de enfrentarmo-nos.
— E se um dia tivermos que bater de frente com O Consórcio? — Raila perguntou repentinamente séria.
—
Harata, quando não é possível evitar o Confronto, seguimos o jaitak. —
Karak refletiu. — Você sabe, viu na minha caminhada, creio.
—
Não é assim que funciona a caminhada, Karak. Eu ouvi você dizer isso, eu
sei o que quis dizer ali, mas pela caminhada não posso ver seus
pensamentos, só suas ações. Elas gravam o padrão de comportamento, mas
não o que você pensa. — Raila riu-se.
— Nossa família são as
pessoas que nos cercam. Nossos mais importantes, nosso coração. Todos os
Harata respeitam isso. Jaitak é uma promessa, uma aposta. Jaitakuna, o
objeto. Pode ser a terra, a pessoa ou a coisa. Dois Harata disputam por
dois grupos. Aquele que perder a batalha, perde o jaitak, e deixa o
jaitakuna.
— Então quando fez o acordo com o outro Harata,
aquele da sua memória, se ele tivesse perdido, ele teria que abandonar
Magenta? — Raila perguntou, assombrada.
— Sobre a palavra dele, sim. Aquela foi uma decisão de outros tempos, e estava planejando perder, mas no real, sim.
— Planejando perder? — Raila cruzou os braços, cética.
— Era uma jogada.
— Por acaso você estava planejando provocar o ataque?
— Como eu disse. Harata nunca se enfrenta em guerra. Jaitak é a única forma que um Harata enfrentaria outro em combate.
— Mas o jaitak dele, na sua memória, como ele disse, era um Silvani!
—
O jaitak pode ser o coração de um Harata, ou a família. Se ele é o
chefe da casa, a família que nela vive é Harata. — Karak disse com
nostalgia.
— Somos a sua família então? — Raila fustigou.
—
Malek é família, Lateral é família. Você é o que poderia chamar de
coração de um Harata, ao que parece, por essa coisa de caminhada. Diz a
sua memória com outros Harata legados que te enfrentaram. — Karak riu. —
Barisi então pode ser família. Agora o cinza e Carcará são ainda só
companhia útil.
— O que isso quer dizer?
— Quer
dizer, minha querida — Karak fingiu seriedade. — Se a Lâmina aparecesse
aqui pra limpar a casa, não importa quantos. Você, Malek, Lateral,
Barisi e Eu não teríamos nada para preocupar-nos, mas o resto, caixão e
vela preta.
Os dois riram com vontade mas nem tanto por achar a situação cômica.
A conversa casual foi interrompida quando Malek e Lateral chegaram com notícias.
— Temos um problema. Silvani, chegando pelo norte. — Malek disse com urgência.
— Não temos aqueles canhões de Maz Ynis? — Karak retrucou.
— Eles estão em Cavalos do Mar, os canhões não tem resolução de tiro para alvos pequenos.
— Teremos que enfrentar em terra. — Karak olhou para Raila.
— Precisamos de um carro. — Raila respondeu.
— Carcará vai providenciar. Sajó não tem experiência em combate. Ele fica. — Malek disse saindo.
— Carcará eu sei que tem. Barisi? — Karak perguntou para Raila.
— Você sabe, não sabe, querido? — Raila riu-se.
Malek balançou a cabeça e seguiu para o fim da via do prédio.
Alguns
minutos depois Carcará chegou com um utilitário militar. Onatra em
construção. Oito lugares mais carga. Baterias redundantes e blindagem
classe 5.
— Onde você conseguiu isso? — Karak perguntou.
— Não viemos aqui passear, você sabe. — O mestiço disse já abrindo as portas do veículo.
Eles
entraram todos, Karak e Malek já checando a situação de armamento,
preparando-se. Raila pegou uma escopeta no fundo do veiculo e entregou a
Barisi que ia na frente.
— O bebezão aí vai junto? — Carcará disse olhando para Lateral.
Raila sorriu, e pegou outra escopeta entregando para o Onatra.
Ele
pegou a arma, abriu o retentor, verificou a carga, puxou a trava de
cartucho pra fechar o tampo, e verificou a trava de segurança.
— Pronto, capitão. — Lateral disse com a voz de comando Onatra ao invés da voz suave que geralmente tinha.
Raila e Karak se entreolharam rindo.
Malek riu-se.
Karak pousou a mão nos ombros de Carcará.
— Você pode ter os brinquedos e saber dessa feitiçaria, mas nós somos os piratas aqui, rapaz.