Sob o sol invicto

Mais um dia chegava no Zhefaq, e ao contrário da rotina até então, era mais dia que já começava 'errado'. Algo apertava as têmporas de Andrei como a umidade traz o cheiro da tempestade. O poder batia de frente em guerras invisíveis travadas a portas fechadas, em sussurros trocados entre aqueles que moldavam o futuro. Caminhos já haviam se cruzado dentro destas muralhas antes, mas hoje, eles não iriam simplesmente se cruzar. Eles mudariam o curso do próprio destino.
Havia apenas um alojamento dentro de Zhefaq designado para hóspedes. Um espaço pequeno e sem destaque, raramente ocupado, mas que hoje abrigava um resquício orgulho de outrora, agora nada mais que um espectro oco. Rentaniel de Seldanar, ou melhor, o que restava dele. O peso de sua desgraça, de seu resgate de um perigo fabricado, do qual a Armada o salvara, e que tornava sua própria presença uma refutação silenciosa a qualquer Urbani que ousasse afirmar que a Armada nunca viera em seu auxílio.
Os conspiradores Harata que tinham Rentaniel como sua carta no jogo, colocaram em movimento uma roda que iria desenrolar um grande número de implicações em toda a Ealetra. Eles mesmos talvez não tivessem completa noção de toda a extensão da cartada que agora detinham nele. Não que fosse uma preocupação. Harata reinavam no caos, e se deleitavam com a confusão.
Além daquelas muralhas, na entrada de Zhefaq, um carro chegou. De uma sacada acima, Andrei observava a cena se desenrolar, seus olhos aguçados observando as figuras que pisavam em solo da Federação. Danila, encostada na borda da sacada ao seu lado, exibia sua expressão habitual, um brilho maníaco em seu olhar, como se ela visse cada ser vivo como nada mais que uma série de possibilidades. Possibilidades de como poderiam ser esculpidos, de como gritariam, de como ficariam quando abertos como uma ave assada em um banquete.
O carro Harata não traía a natureza de seus ocupantes. Andrei já sabia exatamente quem eram e a razão de estarem ali. Quando os oficiais tiraram os passageiros Silvani do veículo, os lábios de Danila se curvaram ligeiramente.
Silvani no Zhefaq era uma noção absurda. Para ela, era um matadouro, e eles haviam entrado de cabeça nele.
— Eles não são o prato do dia, querida. Calma. Vamos ter diversão ainda nessa jogada. — Andrei disse com uma voz pesada de estratégia.
Ele já se despira de toda pretensão. Se ali ele iria terminar suas dias, já tinha encontrado a forma de seguir em frente. Sua nova filha precisava de direção, e ele seria um bom pai.
Danila não se decepcionou, em vez disso, seu olhar se voltou para Andrei, procurando pelo pequeno e quase imperceptível sinal, o momento em que sua linguagem corporal mudaria para trair seu verdadeiro foco. Uma ruga em sua testa, um sutil tique de seus olhos experientes, olhos que haviam visto a guerra, visto seu trabalho, que sabiam exatamente do que ela era capaz.
Danila o pegou no instante em que aconteceu, o brilho de reconhecimento no olhar de Andrei, o endurecimento de sua mandíbula, a confirmação silenciosa de algo que ela já começara a suspeitar. Ela seguiu sua linha de visão, a antecipação se enroscando através dela como o arrastar lento e satisfatório de uma lâmina através de carne macia. Seu sorriso se aguçou quando viu quem havia chamado a atenção dele: Aleksandr.
Tudo se encaixou, o onde, o quando, o como, sem a necessidade de palavras. Andrei havia escolhido, e isso era tudo o que ela precisava saber. Quando seu olhar voltou, o General já a estava encarando, o entendimento passando entre eles tão claramente como se ele o tivesse dito em voz alta. Um momento de pausa, o valor de uma batida de coração em silêncio, e então, lenta e deliberadamente, ele se virou, de volta para Aleksandr.
Danila seguiu seu olhar mais uma vez, permitindo-se saborear o momento. Isso seria satisfatório.
Quando Aleksandr finalmente entrou, ela se recostou no corrimão, o peso das divisas em seu ombro um lembrete silencioso de quão longe ela havia chegado. Estar de volta sob o comando de Andrei, aqui, com as peças já se encaixando. Sim, isso seria muito divertido. De maneiras que sua mente distorcida aguardava ansiosamente para se tornarem realidade.
Yadora e Sorya moveram-se rapidamente, guiando os dois casais Silvani e seus filhos em direção à residência de hóspedes. Havia uma eficiência em seus passos, mas por baixo jazia o tipo de medo cuidadoso e silencioso que apenas aqueles familiarizados com a perda poderiam carregar. Estes não eram estranhos, eram família, amigos, pessoas que haviam confiado a elas sua própria existência. Todos eles sabiam, muito antes de chegarem aqui, a verdade não dita: aqueles que partissem nunca mais voltariam. E aqueles que nunca voltassem nunca poderiam ajudar aqueles que haviam sido deixados para trás.
Eles não vieram em busca de uma audiência, nem de uma aliança. Vieram porque não havia outro lugar para ir. Como inúmeros outros antes deles, eles haviam fugido de Tirayon, parte de um êxodo que se formara ao longo de séculos, uma fuga de uma lenta sufocação que começara quando o fanatismo primeiro criou raízes e começou a estrangular a vida de seu lar.
Dentro do alojamento de hóspedes, Rentaniel sentava-se sozinho, seu mundo reduzido a um ciclo interminável de autocomiseração ociosa. Outrora, havia algo nele, algo formidável, ele fora moldado pela nobreza, afiado pelo legado. Mas, como sua mãe antes dele, se retirara para o isolamento. Ele, entretanto, com muito menos dignidade e paz de espírito.
Seus olhos se voltaram para os Silvani enquanto entravam, e algo nele se encolheu com a visão.
Eles nem sequer eram da nobreza e, no entanto estavam recebendo mais cuidados do que ele.
Uma expiração aguda escapou, frágil e ressentida. Se o mundo tinha alguma intenção de lembrá-lo do quão baixo ele havia caído, estava conseguindo.
Do outro lado do corredor, Danila movia-se como um fantasma literal, seu posto recém-concedido brilhando em seu ombro como um insulto a Rentaniel tecido em seu uniforme.
Rentaniel mal conseguiu engolir a amargura que se enrolava em sua garganta, muito menos suportar este desfile de espetos apontados para ele. A tenente que o humilhara, aquela que estivera tecnicamente abaixo dele, subira na hierarquia quase tão rápido quanto ele caíra.
Para ela porém, não foi rápido. Mas dolorosa, agonizantemente devagar.
A voz de Andrei cortou o ruído, dirigida a Yadora.
— Vamos andar um pouco, Yadora. — O Onatra disse com tom protocolar.
— Você sabe porque estamos aqui. — Sorya interrompeu-os.
Andrei tentou ser paciente. Sabia que aquele era um jogo lento.
— Sim, vocês vieram buscar asilo, que estamos dispostos a garantir, mas não aqui. — ele disse com um tom de fatos na mesa.
— E quanto ao nosso povo? — Yadora interpelou com certo alarme.
— Não temos nenhum tratado oficial com sua nação que nos obriga, permite e muito menos interessa, intervir. Seu próprio povo exigiu que não houvesse intervenção. — Andrei disse com um certo sarcasmo.
O silêncio que se seguiu foi denso, imóvel.
— Então o massacre vai acontecer, e vocês irão assistir. — Sorya disse consternada.
Andrei tomou um tom de voz suave, mas com o tom subsônico da voz de comando tornando-o absoluto.
— Eu entendo seus sentimentos, mas seu povo sempre esteve sozinho. Quando, em um momento de desespero, 'sua' cidade nos procurou, nós ajudamos, e assim que conseguiram o que queriam, certificaram-se de inserir no acordo a dispensa da Armada. Uma vez no poder, queriam-no todo. Poder demanda responsabilidade. Uma que seu povo não soube sustentar. Agora exigem lealdade? E vocês especificamente, Coragem?”
A respiração de Yadora falhou, as palavras pressionando dentro dela.
Sorya, sem vontade de aceitar a resposta, mudou de assunto.
— E quanto à exilada da Serenidade?
Andrei clareou o tom, tornando-se mais fatos na mesa novamente.
— De acordo com inteligência oficial, e a inteligência Harata que temos, pelo Consórcio, ela está trabalhando com o Grêmio. Com um Juiz Harata.
— E o que é isso? Algum tipo de acordo de exílio? Ela está sob custódia? Ela é livre? Está sendo usada nessa operação em Tirayon? — Disse Yadora indignada.
Danila engasgou com uma risada rica e pouco protocolar, arrancando um sorriso divertido de Andrei, que já estava longe de cercear sua querida nova filha.
— Ah, ela está sob custódia sim. — a agora Major disse, sua voz rica em divertimento leviano. — O juiz está batendo o martelo pra ela na corte do rala e rola. Ele deve estar habeas no corpus dela, todo dia.
A mandíbula de Sorya se contraiu.
— Que tipo de oficial é você? Que tipo de conversa é essa?
Andrei olhou para Danila como um pai que concorda com o que ela fez, mas precisa ser austero por protocolo.
— O que minha major quis dizer, com um tom mais informal, é que o envolvimento deles é pessoal, não protocolar ou penal. Ela não tem compromissos relevantes à sua condição de Silvani ou exilada.
A expressão de Yadora vacilou, algo mais pálido se instalando em seus traços.
— Isso significa que eles ... 
Danila discretamente sinalizava inserindo o indicador esquerdo entre o polegar e o indicador direito intermitentemente, assentindo com a cabeça.
Andrei ergueu a mão interrompendo as duas.
— Não sou informado, ou interessado, em assuntos pessoais. O que posso deduzir de importante é que não é do interesse dele prejudicá-la ou que outros a prejudiquem. E não é uma coisa com que deveriam se preocupar agora, dentre as muitas outras coisas que deveriam.
O sorriso de Danila se alargou, claramente apreciando a tensão que se desenrolava diante dela.
— Elas podem perguntar no Cântaro Dourado. Se há alguém por dentro das sacanagens Harata, é o pessoal ali. Aquela menina, Melica, é uma boa pessoa para perguntarem, certo? General, Senhor. — Danila disse fingindo inocência.
Andrei assentiu, usando a mudança de conversa para seu benefício.
— Quando seus documentos e formalidades forem resolvidos, o asilo será concedido no primeiro porto de entrada, a Trifronteira. É lá que o Cântaro Dourado está localizado.
— Não confunda minha reticência com indiferença,” Andrei prosseguiu, com finalidade — Tenho assuntos a tratar sobre este caso, mas o cabo responsável pela residência cuidará de suas necessidades.
Sem outra palavra, ele se virou e se afastou, Danila em seguida, sua mente sem dúvida já construindo algum novo meio de tormento.
Yadora e Sorya voltaram em silêncio para a ala residencial, seus pensamentos pesados, emaranhados.
Sorya exalou, sua voz tensa.
— Você acha que ela fez?
Os lábios de Yadora se comprimiram em uma linha fina.
— Se fez, temos um problema.
Quando entraram, uma voz, controlada, firme e que impunha respeito, as chamou. Suas dúvidas, ao que parece, não durariam muito.
O ar na residência de hóspedes era denso com o silêncio que se instala em lugares onde a esperança há muito se desvaneceu. As paredes de pedra não ofereciam conforto, apenas os ecos persistentes daqueles que haviam passado por ali antes, buscando algo que nunca encontrariam. Isso não era um santuário, nem uma prisão, era pior. Era uma sala de espera para os deslocados, os esquecidos, aqueles apanhados na engrenagem de poderes maiores que ainda não haviam decidido o que fazer com eles.
O homem, tão desgastado quanto o prédio que administrava, cumprimentou-as com uma expressão de eficiência desapegada.
— Chamem-me Ladislav, eu cuido dos convidados civis. Se precisarem de algo tangível, talvez eu possa conseguir, se possível. — Sua voz carregava pragmatismo que vem de lidar com muitas almas perdidas. — No entanto, se são respostas que procuram sobre sua amiga 'serena', talvez queiram falar com nosso outro hóspede.
O fantasma de um sorriso leviano cruzou seu rosto antes de ele se virar e voltar para os aposentos de manutenção, deixando-as com sua observação enigmática.
Yadora e Sorya trocaram um olhar antes de voltarem sua atenção para o único outro ocupante da sala que não conheciam, o Urbani sentado perto da janela. Rentaniel de Seldanar.
Ele mal parecia vivo. Seu corpo estava caído contra a moldura de madeira gasta, banhado pela luz do sol alto, mas não havia mais calor nele. Ele era uma sombra do que devia ter sido, uma silhueta desbotada da nobreza despojada de sua graça. Sua postura ainda carregava um traço de elegância, mas era oca, o tipo de refinamento que permanece em um homem mesmo depois que tudo mais lhe foi tirado. Seu rosto estava enrugado, muito além do que deveria ser possível para um modificado de sua idade.
Yadora deu uma olhada e o descartou completamente. Qualquer percepção que ele tivesse estava enterrada fundo demais sob sua própria ruína. Com uma expiração silenciosa, ela se virou, decidindo que seu tempo seria melhor empregado em outro lugar.
Sorya ficou. Algo na maneira como ele se sentava, no espaço vazio onde algo maior deveria estar, a intrigou. A ausência de algo era, em si, um sinal de alguma coisa.
Ela o observou, em silêncio, observando as peças que restavam. Sua postura sugeria autoimportância, sua amargura inconfundível. Um nobre que havia caído, mas se recusava a abandonar seu passado. Sua memória, tão perfeita, tão implacável, o mantinha preso a um mundo que não se importava mais com ele, forçado a reviver o que havia perdido, incapaz de aceitar que o tempo havia avançado sem ele.
Havia uma maneira de confirmar sua suspeita. Ela disse um único nome.
— Ariel.
Sorya observou o corpo dele enrijecer, como se atingido por balas disparadas por todos os lados.
A mudança foi imediata, visceral. Seus músculos se tencionaram, sua respiração prendeu, seu olhar se voltou bruscamente para ela, não com indiferença, mas com uma raiva aguda e inegável. Pela primeira vez, algo vivo brilhou por trás de seus olhos ocos, algo que não se movia há muito tempo. Não era apenas reconhecimento. Era ressentimento, dor enterrada fundo, mas nunca verdadeiramente esquecida.
Sorya teve sua resposta antes mesmo de ele falar. Ariel não era um nome passageiro para ele. Ela havia feito algo que alcançara seu âmago, torcendo seu próprio senso de identidade. Ela havia tirado algo dele, e pela maneira como sua expressão escureceu, pela maneira como sua respiração se tornou aguda, ela soube, ele a culpava por onde estava agora.
Ela se sentou ao lado dele, seus grandes olhos Silvani aguçados de interesse.
— Quem é Ariel pra você? — Ela perguntou neutra. 
Rentaniel exalou, lenta e pesadamente, sua voz frágil pelo desuso.
— Ela roubou meu legado. Minha filha, minha mãe, minha nação.
A sobrancelha de Sorya se contraiu, mas ela permaneceu em silêncio, deixando-o preencher o silêncio.
— Ela tomou o legado da minha irmã. Minha irmã que morreu não faz muito, essa Ariel, entrou na vida dele, o tirou de minha filha, herdeira legítima. Até minha mãe foi enfeitiçada por ela. — Ele disse com raiva. — Com esse seu veneno Silvani.
Sorya sentiu uma tensão desconhecida se formar em seu peito, fria e pesada, assentando-se como pedra na base de suas costelas. Ela suspeitara, temera, mas agora que fora dito em voz alta, a realidade era muito mais perturbadora do que imaginara: Ariel caminhou com um Harata, que caminhou com uma nobre Urbani.
Não meramente ligada, não meramente devotada, mas vinculada da maneira mais antiga que seu povo conhecia. Não era um compromisso superficial, era um emaranhado de essência, uma reescrita da alma. Uma Silvani que caminhava com outro não apenas o reivindicava, mas tornava-se parte dele e, em troca, era mudada definitivamente.
E Ariel havia feito isso por um Harata. Ela provavelmente não era mais Silvani, não como eles consideravam.
Ela manteve sua voz controlada, escondendo o peso de seus pensamentos.
— Veneno Silvani, você quer dizer caminhada? Você tem certeza?
A respiração de Rentaniel era superficial, mas sua certeza era inabalável.
— Era a única maneira de ela nos impedir de reivindicá-lo. Ela deve ter feito. A única forma de minha mãe aceitá-la como executora da Fáscia.
Os pensamentos de Sorya mudaram, sua mente juntando as implicações com precisão cuidadosa.
— E você diz que ele era Legado da sua irmã? Que então é uma nobre Urbani, certo?
O olhar de Rentaniel escureceu, um lampejo de luto surgindo antes de ele o engolir.
— Sim. Ela caminhava com ele desde jovem. Ela o moldou. O fez. Até morrer por causa dele.
Uma nova camada de compreensão se desdobrou diante de Sorya, uma que tinha o gosto de algo muito mais perigoso do que ela previra. Este não era um simples laço. O Harata não apenas fora reivindicado, mas ele fora feito.
E agora ele era de Ariel.
Ela respirou, lenta e firmemente, mantendo sua expressão indecifrável.
— Sua filha não tentou reivindicá-lo também?
Rentaniel zombou, seu lábio se curvando com algo entre desdém e tristeza.
— Por que ela faria? Que valor há em ser a segunda de outra família?
Sorya absorveu suas palavras sem reação, embora sentisse um desconforto silencioso se instalar em seus ossos. Isso, mais do que qualquer outra coisa, dizia-lhe quão profundamente os velhos costumes ainda estavam enraizados nele. Os laços Matriarcais não eram meras alianças. Mas para ele eram hierarquias, e para alguém como Rentaniel, não havia dignidade em estar abaixo de outro.
Ela exalou, lenta e deliberadamente, levantando-se e terminando ali.
— Você tem razão — ela murmurou, como se o pensamento tivesse acabado de lhe ocorrer. — Não ganharia nada com isso.
Ela se virou, com a intenção de deixá-lo em sua decadência, mas a voz dele a deteve antes que ela pudesse se afastar.
— Eu não lhe contaria isso, se não fosse o fato de não ter mais nada a oferecer para mais ninguém. Então aceite meu conselho.
Ela parou sem virar-se.
— Não confie nos oficiais da Armada. Especialmente na mulher, a piranha do velho.
Sorya o estudou por um momento, depois não disse nada e se afastou, seus pensamentos já correndo à sua frente.
Isso era pior do que ela previra. Ariel não era apenas uma Matrona, ela se vinculara a um já reivindicado por outra. Não qualquer outra, mas uma nobre Urbani, mais velha, marcada por um legado de longo alcance o suficiente para lançar uma sombra sobre gerações. Se isso fosse verdade, então as implicações eram espantosas.
Um único laço tinha o poder de puxar os alicerces da própria nação. Dois? E possivelmente mais? Isso não era mais apenas especulação, era uma catástrofe esperando para acontecer. Se Ariel se entrelaçara com alguém já emaranhado em uma linhagem antiga e nobre, especialmente aquela perdida pelos Silvani há tanto tempo, então ela não era mais meramente uma exceção, uma Silvani agindo além dos limites das antigas leis e tradições de Tirayon. Ela se tornara algo totalmente diferente.
As Cidades Silvani eram divididas por várias razões, mas uma delas era impedir que alguém concentrasse tanto poder e tanto acesso. Era uma proteção de crimes passados cometidos por elites muito poderosas para serem impedidas. Mas a traição do Conhecimento, e o êxodo exibiu outro problema: Aqueles que levam embora sua parte do acordo tácito de governança.
Tirayon estava arruinada, sem acesso aos controles da Cidade do Conhecimento, destruído o acesso à Serenidade, foi uma espiral descendente que os levou ao que agora acontecia.
Se a Armada ou os dissidentes levassem a cabo seu expurgo dos nobres Silvani de Tirayon, então ela seria a última de pé. Apenas ela comandaria os remanescentes de sua espécie, a única com a autoridade, a reivindicação, o legado costurado em sua alma através de uma corrente ininterrupta de vinculação que nenhum outro poderia contestar. Se as antigas linhagens caíssem, Ariel se tornaria o centro de seu mundo, quer ela quisesse ou não.
As forças que acreditavam os Silvani dominar os templos e relíquias de sua gente respondiam às assinaturas mentais de cada Cidade. Sem uma caminhada de um replicador de cada Cidade, era impossível completar os rituais, e aquele que detivesse mais dons, teria maiores poderes sobre as centrais de Tirayon.
E Sorya também tinha a situação de Svetlana. Por razões desconhecidas e bastante perturbadoras, uma general da Armada era Legada nobre da Sabedoria, e não apenas isso, uma Legada muito poderosa. O que não conseguia nem começar a fazer sentido para ela.
Yadora, sempre composta, permanecia sentada, de braços cruzados enquanto ouvia. Sorya estava perto da janela, inquieta, sua mente ainda processando o que aprendera com Rentaniel de Seldanar.
— Está tudo confirmado, como temíamos. Ariel tomou seu lugar ao lado do legado de uma nobre Urbani, e não só, como tem a bênção da Grande Mãe, e é executora da Fáscia. — Sorya sentou-se como se o mundo não fizesse mais sentido.
— Outra vez, Finhandir. Tudo que fizemos para impedi-lo, e eles guardando outra. É como o Herege, todos aqueles anos atrás. — Yadora retrucou.
— O Herege da criação pelo menos sumiu para nunca mais ser visto, entre os Harata. Se eles o tem, não fazem uso dele. Finhandir deve ter sido morto pela Armada. Mas Ariel, ela está ativa, e provavelmente sabe o poder que tem. — Sorya disse em tom profético.
Yadora arqueou uma sobrancelha.
— Como isso muda alguma coisa? Já conhecíamos sua linhagem.
— Serenidade não era como nós. Eles os destruíram porque eles eram os únicos que não usavam a caminhada só como artifício de pompa. Eles a entendiam. Eles a veneravam como parte de sua cultura local. Além do que o resto de nós jamais aprendeu.
Yadora inclinou a cabeça ao som daquela afirmação.
— Se ela tem o dom Urbani, e o conhecimento da Serenidade, ela poderia até mesmo fazer Tirayon virar outro Vale ...
Yadora inspirou lentamente, processando.
— Isso quer dizer que Ariel pode saber o que está fazendo. — Sorya adicionou.
— Você está baseando isso em que? — Yadora olhou-a firme.
— Sua reação.
Sorya balançou a cabeça. E continuou
— Rentaniel pode ser amargo, mas ele sabe o que significa ter seu Legado roubado. Ele entende o que seria necessário para Ariel ter se vinculado verdadeiramente àquele Harata.
Yadora estreitou o olhar.
— E você acha que é por isso que ele a teme?
Sorya parecia preocupada.
— Ela se tornar a Grande Mãe de Tirayon não é o que me preocupa. Ela destruir Tirayon não é o que meu preocupa.
Yadora olhou para ela com um olhar inquisitivo.
— Ela estar a serviço dos Harata é o que me preocupa. — Sorya disse, olhando para o horizonte.