Sempre há um plano

Ao sair do prédio, Valaravas ajustou o punho de seu casaco enquanto caminhava pelas ruas movimentadas da Trifronteira, a lembrança de sua brincadeira com Tarja desaparecendo na maré sempre em movimento do Bazar.
Ele havia colocado tudo em movimento. Toivo cuidaria do resto, e ele já estava avisado, Tarja era a escolha, não que ele tivesse que fazer qualquer avaliação.
Mas o foco de Valaravas já mudava. Outras coisas estavam em movimento, e pediam sua atenção. Essa era uma luta de muitos séculos, e a participação dele já começou com ela aquecida. Ele não poderia esperar o grupo se preparar naturalmente, ele precisava agir.
Uma notícia havia chegado à Lâmina, a inteligência Harata, dias antes. Uma frota navegando para o norte, passando perigosamente perto da Ilha Magenta e da Cidade do Luar. Valaravas estava pensando em como responder, ponderando se deveria retirar recursos da Trifronteira. A confirmação veio mais cedo do que o esperado. Como juiz, seu acesso à Lâmina era poderoso, mas restrito. Haviam protocolos e regras, simples, mas importantes.
A frota em si poderia ser tratada pela Armada, se ousassem enfrentá-los diretamente. Mas a Armada não conseguia parar todos os barcos. Pequenas tripulações de saqueadores, movendo-se sob o disfarce de mercadores, passariam pelas frestas.
Um dos agentes da Lâmina entrou no passo ao lado de Valaravas, sem falar a princípio, apenas ajustando seu ritmo, movendo-se com o ar casual de alguém que coincidentemente ia na mesma direção.
Comunicações eram enviadas pelos nômades, mas para a conversa deles, necessitava voz e ouvidos humanos.
— Magenta fala de contatos, vistos à distância, do sul, o pessoal do resort relata. Viram velas pretas e vermelhas. — O agente disse como um sussurro.
— Específicos? Números? — A voz de Valaravas era firme, mas o peso da pergunta deixava claro que ele queria uma resposta agora.
— Não há uma contagem completa. Dois menores, um maior. É uma sondagem. Eles estão ficando por perto. Ameaça baixa. — O agente da lâmina respondeu rapidamente.
— Melica tem olhos em Luar. Minha Silvani já está no jogo. Os alvos estão com o garoto.
Os passos de Valaravas não quebraram o ritmo, mas sua voz baixou uma fração.
— De agora em diante, ela não é apenas mais uma Silvani. Ela está na equipe. Seja cuidadoso. A aparência é tudo.
— Valaravas virou bruscamente para a sombra de um arco da ponte que atravessavam, ouvindo os metadados do serial que o agente trouxe através de sua luva FCP.
Alguns segundos e ele retomou a conversa.
— Melica manterá as coisas amarradas por lá até eu chegar. Eu cuidarei do resto pessoalmente. Deixe os cabeças de ferro boiando na casa grande.
A cabeça do agente mal se moveu em reconhecimento, seus olhos examinando a multidão à frente como se a conversa não estivesse acontecendo.
Valaravas se virou olhando para o rio.
— Minha Silvani já tem a moeda. A base de operações deles foi estabelecida?
— Eles estão posicionados. Em movimento. Mas as cabeças falantes não estão satisfeitas. Dizem que os Silvani são um erro. Preferiam um dos seus. Aposta mais segura.
Khadija era muito mais tradicional que a Fáscia. Urbani todos eles, para a maioria de Ealetra, eram a "mesma gente". Os Harata porém, eles conheciam Khadija e a Fáscia por dentro. Os Urbani de cada reino eram tão diferentes que para eles, pareciam dois povos distintos.
— Os Silvani são minha escolha — disse Valaravas, sua voz assumindo um tom mais afiado, uma finalidade que não deixava espaço para negociação. — Eles pertencem a mim. A Lâmina não tem nada a ver com isso. E eu sei quem está levantando esse assunto. Ele vai ter que vir falar comigo, e é melhor que fale antes de falar com a Armada.
— O leãozinho. Ele não vai gostar disso. — O agente riu.

— Eu respondo à leoa, não ao leãozinho. Ele faz o que eu digo se souber o que é bom para ele.
O tom de Valaravas não se elevou, não se aguçou, mas algo nele não deixava espaço para disputa.
— Precisamos cuidar da filha dele. Ele vai acabar fazendo com que a matem um dia desses. Minha pequena Urbani, ela é amor de um Harata. Ela é Harata.
— Entendido. Mais alguma coisa, chefe?
— Vou pegar o trem para o sul, para Luar. — Sua voz era mais leve do que o peso da decisão deveria permitir. — Se os invasores pensam que podem fazer exigências, eu prefiro uma conversa direta. Direto com eles. Estarei com os nômades, espero atualizações quando o serviço estiver feito.
— O corte normal para um churrasco, ou vamos fazer espetinhos? — O sorriso do agente se alargou, seu tom tingido de humor malicioso.
— Espeta apenas os de fora, sem churrasco. Minha Silvani estará lá. Colocamos ela e o irmão nisso. — Seus olhos brilharam com algo calculista. — Ele precisa crescer mais rápido. Não facilitaremos pra ela agora.
Valaravas e o agente verificaram a sincronia de seus serias pela luva FCP.
Depois de olhar ao redor, Valaravas apontou em direção a Zhefaq. Sua torre imponente e negra no horizonte.
— Pressão no Zhefaq. Frita as batatas por lá. — Sua expressão escureceu ligeiramente. — Envie o relatório para a Lâmina. Sasha está se tornando um risco. Ele precisa de uma lição, e nada ensina como o poder. A Lâmina aperta Zhefaq, eu vou apertar a Dama de Ferro. Eu vou dar a ela a contingência.
O agente suspirou, como se dissesse o óbvio.
— Sasha será forçado, mostrará suas verdadeiras cores. Contingência?
— O pai Onatra de Melica pode lidar com Sasha. Coloca ele no poder. Nós forçamos a mão dele, ele vai apertar Sasha. Damos à piranha dele um gostinho do sangue, do jeito que ela gosta.
O agente lhe deu um olhar de severo. Isso era ousado até mesmo para o Juiz. Ele fez um aceno discreto antes de desaparecer na multidão.
Valaravas ajustou seu casaco, exalou e caminhou em direção à caravana que partia. O mundo estava mudando. O jogo estava em andamento e é como diz o ditado:
Harata nunca se esconde. Harata sempre sabe onde.