O cruzador de Andrei saiu do porto, como sempre, utilizando seus motores de empuxo, com os tubos de propulsão simplesmente puxando a água por eles criando o movimento suave que era conhecido de suas patrulhas. E eles tomaram seu caminho para o meio do Mar Estreito.
Andrei assumiu seu posto no comando, consciente da sua tarefa e do poder que controlava. Como um condutor de orquestra, ele começava uma sinfonia de poder da Armada que era também para ser ouvida, mas por uma razão muito diferente.
Com um sinal, os oficiais de navegação começaram um dos processos que destaca o Chernaya Bahakuda de outros cruzadores.
O barulho de motores e pressão começava, e as baterias massivas de carbóleo eram colocadas no lugar, adicionando poder ao que era normalmente um conjunto de propulsores alimentados por uma simples bateria, mudando para baterias individuais.
Andrei, na ponte, coordenava um procedimento que raramente esperava fazer. Ainda com os oficiais da navegação ele temperava os dutos de vapor, evitando que seu uso criasse recuos quando levados ao limite.
Esperando o sinal de pronto da navegação, ele sinalizou para engenharia começar a imprimir força no sistema de turbinas trifásicas de propulsão. Era um motor para uso extremo. Ele iria seguir funcionando, com o poder usado, ele podia ser desengatado do rotor e usando para carregar baterias auxiliares, ou propulsão, mas uma vez ligado, ele só seria desligado quando queimasse, ou quando seu uso fosse completamente desnecessário.
O barulho era como nada em Ealetra. Quem conhecia, sabia o que estava por vir, e quem não conhecia, não sabia o que esperava.
Com um sinal, Andrei colocou os navegadores em espera, enquanto liberou os cães do mar, pequenas embarcações autônomas que liam o caminho à frente do cruzador para começar a plotar o curso que o navegador usaria como auxiliar de navegação quando em velocidade.
O destino, Suyantara, e os cães do mar iriam ler o caminho, avisar sobre obstáculos e inimigos. Era a solução da Armada para evitar a necessidade de busca de dados na rede geral, ou comunicação que podia ser embaralhada. Os cães, como eram chamados os autômatos de guerra, possuíam tecnologia de modulação cedida pelos Urbani, e eram virtualmente impossíveis de embaralhar.
Enquanto esperavam atingir 70 nós, Andrei indicou aos operadores de sistemas para destravar todos os equipamentos táticos. Eles precisavam destravar mecanicamente as tramelas de segurança ao mesmo tempo, manualmente utilizando chaves de alumínio individuais de cada oficial. Um ritual técnico e social. Todos tinham que estar participando de tal decisão.
Quando tudo estava preparado, e o Chernaya Bahakuda estava apenas esperando sentir o proverbial cheiro de sangue na água, Andrei abriu o tornado, o sistema de propulsão particular dos Chernaya Bahakuda, que os classifica como os recordistas de velocidade. Ao abri-lo, luzes laranja se movem pela ponte. Todos os tripulantes assumem postos de urgência e colocam seus cintos de segurança.
O sistema de navegação utiliza os dados dos cães do mar para conciliar o destino com o ângulo que esteja livre de obstáculos. Uma vez que o sistema completa seu trabalho, todos se preparam, o barulho surdo de máquina acelerando, como um tema de suspense para o que pode ser o último som ouvido por aquela tripulação.
Conforme os cálculos vão sendo feitos, das laterais destacam-se suportes de hidroplanagem, diminuindo a superfície de contato, mas criando deslocamento o suficiente para levantar o cruzador da água parcialmente, tornando-o mais aero e hidrodinâmico.
Conforme a aceleração aumenta, progressivamente pela criticalidade, quando completamente levantado e aplicado todo o poder, em 20 ou 30 segundos, o cruzador já está praticamente voando sobre a água escura do mar estreito à 280 nós.
A tensão estava instalada, o horizonte fora do cruzador como um borrão escuro indecifrável. A segurança e a correta navegação só seriam descobertas na segunda fase.
Andrei esperava as luzes do painel indicarem que o tornado tinha completado o estirão, o que indicava que o sistema estava utilizando os suportes de hidroplanagem agora como freios para rapidamente diminuir a velocidade.
Agora o momento era crítico, pois durante alguns segundos, o cruzador estava fazendo barulho e movimentando a água com esse freio, o que o tornava fácil de localizar, fosse o inimigo outro que não piratas desprovidos de tecnologia.
As luzes indicavam parada completa, mesmo que os motores de vapor supercríticos seguiam ligados, o barulho era mínimo, e os cães do mar começaram a tomar posição de exploração ao redor do cruzador.
Uma sombra surgiu no horizonte. Velas pretas e vermelhas, suas cores se misturando perfeitamente sob céu encoberto. A bordo, um marinheiro Silvani espiou, com uma velha lente espiã, que sem fabricação tecnológica ou magnificação digital, era capaz de aproximar apenas o suficiente para enxergar bem até 50 metros.
— Os ursos polares estão no horizonte. — o pirata gritou — Eles não nos viram.
O pirata julgava que os tripulantes do cruzador estavam restritos à mesma era tecnológica.
Do lado do cruzador, porém, o grande magnificador acima da ponte com visão noturna mostrava uma imagem de alta definição do barco pirata. Eles podiam ver a movimentação dos marinheiros inimigos claramente.
Andrei colocou mais cães do mar, e programou o protocolo de cerco.
— Curso de interceptação. Engajamento lateral bombordo. preparar.
O povo de Suyantara vinha de todos os cantos de Ealetra, aqueles que se ressentiam do Consórcio, aqueles ousados ou tolos o suficiente para acreditar que poderiam forjar seu próprio destino entre as Ilhas Livres. Rebeldes com ou sem causa, mas ignorantes o suficiente para pensar que podiam fugir do mundo. E aqueles que eram espertos o suficiente para tomar o poder pela regra de rebanho.
À medida que a embarcação anarquista se aproximava, seu curso evitando deliberadamente os canhões dianteiros do cruzador da Armada, uma voz gritou através da distância que os separava.
— Temos um dos seus à bordo. — A voz era potente e com certeza Onatra.
Piratas Onatra eram temidos no geral, mas para um Oficial da Armada, ele seria uma versão sem disciplina e sem inteligência. Eles não se intimidavam.
— Nosso pessoal está todo aqui, não perdemos ninguém. — respondeu o Oficial igualmente projetando sua voz, com uma técnica mais refinada.
— Ele está longe de casa, um de seus 'mestres'. — O pirata Onatra respondeu.
Uma pausa se estendeu entre eles. Embora a tripulação do cruzador permanecesse em silêncio, o Silvani podia vê-los falando entre si.
Finalmente, um dos oficiais Onatra deu um passo à frente e descreveu as feições de Rentaniel brevemente, sua voz uniforme e indecifrável.
— É esse quem vocês tem? — Ele perguntou depois.
O sorriso do Silvani se alargou.
— Exatamente. Se o querem vivo, trocamos pelo seu capitão. — O pirata Onatra disse com um certo prazer.
Outro silêncio se seguiu. No convés do cruzador, houve movimento. Algo estava sendo preparado.
Andrei surgiu no convés de proa, sua presença firme. Seu olhar fixo no navio pirata, estudando-o.
Da lateral do cruzador, um baixo ruído de metal contra metal retumbou pelo ar, um gemido mecânico e anormal que enviou um ruído grave através do vão entre os navios.
Um virote maciço foi disparado através de uma saída tubular no casco lateral do cruzador. No espaço de um suspiro rápido, ele se chocou contra a barriga da embarcação pirata com precisão brutal. O impacto enviou um tremor violento por sua estrutura, abrindo uma ferida irregular em suas entranhas. Embora não fosse afundar imediatamente, o dano foi mais do que suficiente para causar pânico. O virote destruiu o conjunto de propulsão das pás traseiras do navio pirata, um dano irreparável no meio da água, mas não o pior que poderiam esperar naquela noite.
A embarcação deles agora não podia fugir.
A tripulação pirata se apressou, seu treinamento assumindo o controle enquanto corriam para avaliar os danos. O capitão deles, no entanto, foi mais rápido em seus pensamentos.
Rentaniel foi arrastado para o convés, seus braços torcidos dolorosamente enquanto o posicionavam onde a tripulação da Armada pudesse ver. Um dissuasor. Um aviso. Calculado. Se matassem o nobre, a Armada não teria razão para não matar todos eles. Era uma aposta.
O convés do cruzador, que estivera agitado com os preparativos, de repente se aquietou. Cada homem e mulher recuou, retirando-se para dentro da ponte de comando. Eles sabiam que um comandante não dispara armas para ferir apenas.
Rentaniel, por sua vez, mal reagiu. Sua determinação fora temperada muito antes deste momento. Ele sabia o que estava por vir, seu povo foi instrumental em sua criação. Ele sabia que quem quer que fosse o comandante, aquele virote era a primeira parte de uma decisão tomada antes mesmo de eles saírem de seu atracadouro.
O navio pirata começou a se mover, assumindo uma postura de ataque, mas a máquina do cruzador rugiu, ganhando vida. As engrenagens, polias e mecanismos trabalharam em uníssono perfeito, mudando a posição de toda a embarcação até que ela agora estivesse perpendicular ao navio pirata.
Não havia tempo a perder. Os piratas sabiam que ou atiravam agora ou enfrentariam a ira total dos canhões do cruzador. Eles ainda contavam que seu barco poderia resistir ao metal e pedra das massas de um canhão Erítrio.
O capitão pirata não perdeu o fôlego.
— Canhões! Explodam esses miseráveis. O mar tem fome!
Rentaniel estava no convés, olhando para o nada. Ele já havia aceitado seu destino. Ao contrário de seus captores, ele já havia visto um Chernaya Bahakuda.
— Vocês deveriam correr enquanto ainda podem. — Rentaniel disse com resignação. — Não existe alternativa aqui para vocês. Eles ganham de qualquer jeito.
O pirata Silvani ao seu lado zombou.
— Temos quatro canhões de duas cargas, cada uma maior que a cabeça gorda deles. Eles tem seus palitos de metal e mais nada. Depois, temos armas e o dobro de guerreiros. Não se preocupe, você não será salvo, cabeça de ferro.
Rentaniel riu-se com desespero.
— Isso você tem razão. Eu não serei salvo.
Os canhões pirata dispararam.
O primeiro tiro caiu no mar aberto, engolido pelas ondas.
O segundo atingiu o casco reforçado do cruzador, mas o ângulo era ruim. O rebater com o barulho surdo apenas marcou o casco.
O terceiro encontrou seu alvo, cravando-se no revestimento externo do navio, mas não conseguiu penetrar fundo o suficiente para causar qualquer dano real.
O tiro final errou completamente, desaparecendo no horizonte escuro.
Então veio o grito. Como um lamento metálico, agudo e excruciante, como o uivo de uma maritaca desesperada, chorando pelo que aconteceria.
Os respiros de vapor soltaram jatos tão fortes e quentes que a água na lateral do cruzador espumava em agonia. O cruzador engatou o tornado novamente, mas agora ele já estava ativado, e crítico. O cruzador avançou em uma súbita aceleração empinando sua ponta reforçada, colidindo com a lateral do navio pirata. A força por si só fez corpos voarem pelo convés. A proa reforçada do cruzador penetrou fundo, rasgando madeira e casco como uma lâmina na carne.
Então, silêncio. Por um momento, tudo pareceu parado. O barulho de metal rangendo voltou, como se fosse repetir o feito, mas algo estava diferente. Um barulho como o pedras descendo por canos, com o ranger de algo pesado.
O cruzador recuou, seu aperto de ferro abrindo ainda mais a ferida escancarada que acabara de fazer. O navio pirata se transformou em uma carcaça de madeira, sua estrutura cedendo sob o dano.
Uma corrente maciça, grossa como um braço, gemeu ao se desenrolar, correndo sobre o convés com o som metálico distinto do tornado de vapor em movimento novamente. Da proa, dois pequenos compartimentos se abriram com um silvo, revelando tubos metálicos gêmeos. Canhões, estreitos, talvez embelezados pela integração com o casco, mas nada fora do ordinário.
O rugido da machina novamente, mas não o som de rolamento, um som martelado. Era como colocar pedras em uma lata e rolar ladeira abaixo.
Dois virotes gritaram pelo ar, cravando-se profundamente na ferida já aberta na lateral do navio pirata. Por um momento, não houve nada. Então, o cheiro acre e pungente desconhecido para alguns, mas com certeza familiar para Rentaniel.
Rapidamente seguido pelo fedor inconfundível de madeira e metal queimando, o calor começava a irradiar das entranhas do barco pirata. Logo depois, o cheiro inconfundível de carne e cabelo queimados começou a se arrastar por trás da fumaça.
Gritos se espalharam como o fogo se espalhava, espiralando pelos conveses inferiores como uma coisa viva. Maz Ynis. A genialidade cruel da arma garantia que sua força permanecesse dormente até o impacto, só sendo acionada quando a ponta do virote se estilhaçava na colisão. Explosões consumiriam seu poder em força cinética, mas o Maz Ynis não explodia, seu fogo era de queima lenta e implacável e espirrado pela explosão convencional.
Não havia como apagá-lo. E mesmo que houvesse, não seriam piratas de Suyantara que iriam saber como. E mesmo com a água inundando o navio, as chamas continuavam a devorar seu interior. Maz Ynis não se importava com o senso comum: queimava até mesmo debaixo das ondas.
Os que sobreviveram foram poucos. Os que restaram se agarraram ao pouco do convés que permanecia intacto, seus rostos contorcidos de terror.
Então, do cruzador, um oficial Onatra deu um passo à frente.
Os piratas restantes sacaram seus trabucos disformes e velhos, eles tentaram uma aproximação para a distância que suas armas poderiam ser efetivas. Mas era um distante choro de esperança perto do atirador da Armada que posicionava-se com um rifle de cano tão longo que ele era fixo na estrutura do cruzador para amenizar o coice. Ele fez a mira, rodando polias que levemente ajustavam o alinhamento. Eles tinham o tempo ao seu lado, pois não o seu navio queimando.
Ele mirou no primeiro pirata cambaleando pela convés instável, chegando perto. O tiro do oficial entrou pela sua testa, levando consigo na saída metade de sua cabeça, e indo atingir o outro que estava logo atrás dele.
O Oficial nem sequer mudou de expressão. Apenas tirou o olho da mira para ver a situação e voltou a mirar.
Mais um tiro, mais um pirata eliminado.
O pirata Silvani, vendo a maré do combate virar, agarrou Rentaniel e o empurrou, usando o Urbani como um escudo. Ele começou a recuar, dando passos para trás em direção ao pouco que restava do navio.
O atirador da Armada simplesmente destravou o carregador, substituindo-o com outro tipo de munição. Ele fez a mira novamente, e atirou.
Ele havia mirado em Rentaniel, impedindo o Silvani de reagir ao ataque com qualquer reflexo, e a bala, que saía de um projétil maior por estabilidade, entrou pelo espaço no ombro de Rentaniel, um ferimento leve, e atravessando o pescoço do pirata atrás dele.
Outro oficial do cruzador então correu e disparou sua pistola no pirata, agora em ampla vista, para certificar-se que estava eliminado.
Os dois últimos membros da tripulação não perderam tempo. Eles pularam na água, tentando escapar do Maz Ynis que ainda queimava através de sua embarcação.
O oficial então andou até a ponta do convés e trocou para um revolver .500, que com tiros rápidos fez o fechamento do combate.
Outro oficial veio com a pistola pneumática de ganchos, içando a carcaça do navio pirata, e acoplando-a ao dispositivo no cruzador, puxou-o para perto. Destacando rampas, eles criaram uma ponte, e caminharam até a estrutura, agora suportada pelo cruzador para extrair o Urbani.
De volta a bordo, a tripulação Onatra não perdeu tempo. Algemas subsônicas em seus pulsos, ele foi conduzido para o interior do navio. Andrei juntou-se ao grupo, um passo à frente, observando-o com uma expressão indecifrável.
— O Sol Invicto realmente brilhou sua coroa sobre mim hoje, Urbani. — O capitão disse com autoridade, mas sem qualquer emoção.
Rentaniel ergueu o queixo, sua voz firme.
— Eu sou Rentaniel de Seldanar, filho da Grande Mãe. Mereço seu respeito, capitão. — A esperança de Rentaniel aflorando.
Ele esperava que a Armada tivesse algum interesse em usá-lo para diplomacia, ou pelo menos para algum favor com a Fáscia. Estava, claro, enganado.
— Eu sou Capitão de Mar e Guerra da Armada Naval. A autoridade aqui é o Almirantado e o Conselho de Guerra. Aqui, você é um prisioneiro, que nem mesmo de guerra é.
Rentaniel foi escoltado para longe, confinado nos alojamentos de detenção do navio.
O cruzador ajustou seu curso, cortando as ondas com um propósito inabalável. Eles não poderiam usar o tornado completamente, pois o casco havia sido danificado. Antes de atingir a Trifronteira, precisariam de manutenção, e Luar era o porto mais próximo. Engenheiros na tripulação poderiam fazer reparos suficientes antes de saída de doca, mas de qualquer jeito, precisavam de material e porto.
Para Rentaniel, já estava claro que qualquer esperança de voltar para o seu poder era nula. Ele começava a contemplar a sabedoria de sua mãe: Contente-se com o que você tem, meu filho.