Sem prisioneiros

A costa norte da ilha recebe as águas do Mar Estreito e do Mar do Sul tornando suas praias extremamente violentas, e o céu sempre imprevisível. Os Cavalos do Mar, veículos de um ocupante como motos, mas equipados como pequenos barcos, eram a forma preferida dos dissidentes do Vale para cortar pelos barcos da Armada, e evitar os canhões de Maz Ynis. Nas águas conturbadas, eles podem ser usados para mergulhar e passar até meio quilômetro logo abaixo da superfície, uma técnica avançada que permite aproximação sorrateira da costa.
— Precisamos ficar aqui, na encosta. O carro logo na praia será um alvo fácil. — Karak disse olhando o horizonte.
— Não há distância, velho. — Carcará alegou. — O carro deveria server como proteção.
— Não vamos enfrentar esse pessoal com formações, garoto. — Karak riu-se.
— Sim, 'capitão'. Vamos fazer como então?
— Pare ao lado daquela pedra ali. Você é atirador não? Fique no teto do veículo. — Karak disse já mudando o foco. — Barisi, você do outro lado, atrás da pedra larga ali.
— Ele usa uma arma curta, velho. Como ele vai ... — Carcará começou.
— E você uma longa, moleque. Como você vai fazer seu trabalho se tiver que esperar um infeliz te esfaquear pelas costas. — Karak apontou.
— Comando? — Lateral perguntou.
— Comando. — Karak respondeu.
— Prepara o seu lado, feiticeira. — Ele continuou, virando para Raila.
— Sempre. — Raila respondeu.
Carcará parou o carro na encosta como planejado. Com um controle no painel ele fechou placas nas janelas do veículo e um painel de tiro acima do teto. Ele saiu do carro e posicionou-se, encaixando o rifle e o visor de forma a ter uma visão ampla da costa.
Barisi moveu-se por atrás das pedras, assumindo uma posição de suporte, com uma visão mais restrita.
Karak e Raila saíram junto com Lateral e Malek, dividindo-se pelo lado esquerdo Karak e Raila e pelo lado direito Malek e Lateral.
O jovem Harata e o Onatra seguiram, Malek com seu rifle de assalto, Lateral com a escopeta. Eles esgueiraram-se pela descida pedregosa, protegidos da visão da costa pelas pedras que erguem-se pela praia. 
Os Silvani emergiram do mar abandonando seus veículos. Eles não julgaram que estariam sozinhos, mas havia apenas um jeito de entrar na Suyantara Leste por terra, que era o desfiladeiro virado ao norte. O outro desfiladeiro no Leste estava já bloqueado por um desmoronamento há muito tempo.
Os seis Silvani correram para proteger-se pelas pedras já na costa. Eles esperavam uma recepção mínima, já que seria impossível ninguém estar vigiando aquela ilha.
— Eles estão seguindo para a garganta da morte. — Raila murmurou.
— Silêncio operativo. Ouvido. Funil. Segue. — Karak disse no rádio.
O velho Harata puxou Raila na direção oposta à operação, seguindo pelo desfiladeiro chegando mais longe do carro, numa falha na pedra que ainda possibilitava observar o carro ao longe.
Lateral e Malek iniciaram a aproximação da entrada do Canyon. Lateral avançava para a pedra mais à frente, enquanto Malek preparava para fogo de supressão caso necessário. Malek em seguida contornava a pedra, seguindo para junto de Lateral. O serpentear seguiu até que eles tinham contato presumido. 
Lateral mudou sua posição vagarosamente, procurando ver algum dos Silvani. Postado no lado leste da pedra, ele podia ver três Silvani atrás de pedra do lado oposto, mas sabia que haviam mais.
Malek movimentou-se por trás circulando. Tiro de supressão enquanto Lateral o circulava para ir para a outra pedra mais perto da costa. Malek virou novamente. Seu objetivo atingido, ele cravejou os Cavalos do Mar em que os Silvani vieram.
Velho dito pirata, sempre tenha uma forma de sair antes de entrar. Eles agora não tinham, sua fuga seria mais um problema.
Os Silvani se moveram tentando fechar no comando, mas ao aparecer na linha visada de Carcará, a próxima coisa que passou pela mente do Silvani foi um .338 já esquentado pela velocidade sobre a distância. O corpo do invasor girou no centro do impacto, e seus companheiros perceberam que o tiro vinha de longe ao sul. A ideia de infiltração tinha mostrado-se mais complicada.
Malek percebeu que eles viram quatro Silvani esperando atrás das pedras do lado oposto do desfiladeiro, isso significa que um deles já havia quebrado perímetro. Protocolo de rádio impedia o aviso, era agora para Barisi e Karak lidar com ele, e para Malek e Lateral cuidar da retaguarda.
Malek sinalizou para Lateral e atirou na base da formação rochosa sedimentada mais acima. Pedras rolaram e Lateral parou com um pé uma das pedras pesadas que rolavam. Ele tomou a pedra que tinha seus vinte e cinco quilos. Ele girou por detrás da pedra que o protegia, e com um movimento fluído, saiu rapidamente, em meio giro, atirou a pedra acima da posição dos Silvani, atingindo não as pedras do chão, mas a formação acima, causando um salvo de pedras descendo a lateral do penhasco.
Enquanto as pedras caíam, Malek saiu para norte, protegido de qualquer Silvani já infiltrado mais pro sul, e disparou tiros de supressão sobre os Silvani sendo assolados pela chuva rochosa do desmoronamento.
Lateral circulou por trás de Malek, rapidamente posicionando-se na pedra alta mais ao norte, costas para a pedra, olhando norte por se acaso mais Silvani fossem aparecer em terra.
Malek deu outro salvo, posicionando-se com Lateral para avançar.
Três Silvani agora estava em vista, sugerindo que mais um rumou para o sul, mais dentro da Ilha. 
Malek bateu no ombro de Lateral, este preparou para ir pela esquerda, Malek abriu pela direita da pedra como cobertura, Lateral subiu pela direita para a pedra mais ao sul. 
Quando o Silvani logo atrás da pedra tentou sair pela esquerda dele, Malek abriu pela direita dele e atirou, o Silvani recuando, quando Lateral entrou pela esquerda dele longe da linha de fogo de Malek e disparou a carga de chumbo quase encostando o cano no Silvani. O corpo do invasor quase dividiu-se ao meio, espirrando seu sangue grosso nas pedras. Malek vendo isso seguiu para avançar, juntando-se a Lateral.
Dois Silvani ainda estavam ali, e dois haviam seguido.
Malek bateu no ombro de Lateral, e correu para o outro lado do corredor rochoso, enquanto isso Lateral colocou uma carga de chumbo grosso manualmente na escopeta, e avançou pela esquerda, disparando ao passar pela pedra, atingindo o Silvani que caiu no chão enquanto o segundo correndo virou-se para disparar com uma pistola. Lateral rapidamente recuou mas não antes de ser atingido no flanco.
Ele sinalizou para Malek seguir. Ele mesmo deu a volta para o outro lado, vindo pela direta.
Malek deu um salvo onde o último Silvani ainda ali estava escondido.
O invasor tentou esconder-se atrás da pedra, mas isso o colou na mira de Lateral. Apesar do tipo certeiro, a carga de chumbo única não tinha força para a distância, e o Silvani apenas tomou um talho na lateral do corpo, mas ainda se movia.
Lateral jogou a arma e correu como se puxasse o chão com as pernas, agarrando a mão armada do Silvani com a mão esquerda, ele a apertou até que os dedos do invasor dobrassem em ângulos impossíveis. O Onatra então pegou-o pelo queixo com a mão direita e puxou-o pela mão para a esquerda e pelo queixo com a mão direita, caminhando para a parede. 
Ele pisou no joelho do invasor forçando a virar oposto ao movimento natural, alavancado pelas pedras da parede. 
Ele ficou nessa posição até que a resistência do Silvani acabasse. Quando ele amoleceu, Lateral soltou a mão e a perna do Silvani, mas puxou o pescoço dele sob seus braços, e com uma chave de pescoço finalizou o infeliz.
Ele soltou o corpo Silvani sem vida e simplesmente tomou a escopeta novamente, assumindo posição de prontidão.
Malek bateu no ombro dele, e eles mantiveram-se no meio da subida do penhasco. Os outros dois Silvani passaram deles, eram problemas de outra pessoa.
Do outro lado, na ponta da entrada do penhasco, Carcará estava colado na mira, observando a luta e os movimentos de Malek e Lateral. Ele não interviria porque não era seu lugar e poderia ser fatal tomar atitudes sem eles estarem combinados.
O mestiço viu porém que dois Silvani seguiram mais para dentro da ilha. Com dois dedos ele sinalizou para Barisi do outro lado.
O Sangamani estava preparado. Ele não iria atrás dos invasores. Sua função era esperar e proteger o ninho de Carcará.
O Silvani ali por outro lado estava preparado para essa eventualidade. Com um pequeno dispositivo ele atirou um feixe de laser luminoso, que mesmo filtrado pela mira, cause uma cegueira momentânea no atirador. 
A mira ótica assistida evita efeitos nos olhos, mas ainda assim é prejudicada em seu funcionamento. O atirador esperou recuperar-se.
Carcará tirou de seu bolso um tapa olho. Com o olho livre ele voltou a focar procurando o Silvani. Os dois invasores tinham avançado alguns metros para outra pedra.
Os invasores tiraram o dispositivo e brilharam o laser na mira do atirador novamente. Carcará trocou o tapa olho de lado, e fora da mira, calculou da pedra mais próxima e da posição do cano da arma e da frente do veículo, atirando sem realmente enxergar exatamente onde.
O tiro atingiu o pescoço do Silvani brilhando o laser em sua mira.
O Silvani gorgolejou se esparramando pelo chão que manchava com seu sangue vermelho enquanto seus espasmos esmerilhavam com o sangue as pedras.
Apenas um Silvani restava. 
Lateral e Malek estavam esperando. Barisi e Carcará estavam esperando. Ele tinha duas escolhas, seguir para Barisi, ou seguir para Lateral. 
O grupo tático da Sutay não podia mover-se junto, já que estavam em extremos opostos e a chance de fogo cruzado era muito grande.
Carcará observou o Silvani pela mira, e viu que ele estava preparando algo. Carcará imediatamente abandonou a posição e entrou novamente no carro.
Barisi, sem entender nada, permaneceu em sua posição. Lateral e Malek do outro lado também.
O Silvani saiu de sua posição protegido, andando vagarosamente. 
Malek saiu e mirou baixo, nas pernas do invasor, evitando um tiro que poderia resvalar em Barisi logo acima. Ao atirar o Silvani moveu-se com agilidade para evitar os tiros por milímetros.
Lateral olhou para Malek, e segurou o rifle do Harata, entregando também sua escopeta ao amigo, indicando para ele dar cobertura com o rifle.
O Onatra aproximou-se do Silvani, seus olhos fixos no oponente, e os olhos do Silvani movendo-se rapidamente, mais para cima quase olhando para dentro de sua cabeça, tal estavam virados.
O Silvani partiu para bater no pescoço do Onatra com a mão aberta, que o Onatra simplesmente aceitou, apertando a mão com o ombro pressionado no lado da face.
O Silvani tentou um chute, que o Onatra simplesmente tomou com a perna, movendo a massiva coxa no meio do caminho.
O Silvani tentou pegar uma faca, mas Lateral avançou e segurou sua mão, girando o corpo como fez para jogar a pedra, mas agora segurando o pulso armado do oponente, usando-o como uma picareta batida na pedra. 
Apesar da força, o Silvani parecia não estar muito afetado. Apenas sujo e levemente arranhado. Ele tentou correr mas Lateral chutou seu pé quando tentava fugir, ele tropeçou e caiu, mas ainda assim tentou seguir.
Lateral preparou-se para uma disparada, mas segurou-se em seus passos.
O Silvani olhou para trás, e vendo que o Onatra havia parado, tentou seguir.
Uma sombra bloqueou a luz do céu e o Silvani olhou para cima, quando um corpo pulando pelas pedras com passos leves e medidos mergulhou da lateral alta do penhasco uns quatro metros em sua direção, fincando um facão em seu ombro. 
O Silvani urrou, desmoronando com o peso do corpo e o corte do facão, o homem que o atacou pisando em seu peito como amortecimento da queda.
No chão, o Silvani só observava quando o homem pisou no seu ombro ainda inteiro, impedindo movimento, e com um arco preciso, utilizou o facão para cortar talho em seu pescoço fundo o suficiente para ser fatal, mas rente o suficiente para não decapitá-lo.
Os olhos do Silvani voltaram ao lugar em tempo dele observar os olhos de seu executor virados para cima, exibindo uma esclera grossa e branca como um fantasma, antes que a vida abandonasse seu corpo.
Logo Malek, Lateral e Barisi se aproximaram. observando os olhos de Carcará voltando à posição normal. 
— Muito bom, Yassatani! — Barisi sorriu levemente pousando as mãos no ombro de Carcará.
Malek assentiu para Carcará com aprovação, caminhando para o carro. 
— Descansa, amigão. Está tudo bem agora. Sem perigo. — Malek disse à Lateral observando ele sentar no carro.
— Tem certeza Malek? — Lateral disse seguindo com a voz Onatra. — Lateral está seguro aqui?
— Sim Letal, Lateral estará seguro. Pode deixar ele brincar. — Malek disse com uma voz solene.
A expressão do Onatra mudou, seus ombros relaxaram, seus olhos firmes suavizaram, e ele esparramou-se no banco ao invés da posição rígida que mantinha.
Malek observou a mudança com admiração. Ao considerar tudo novamente como normal, pegou um pacote com doces caseiros que os Harata comumente carregam.
— Você de estar cansado. Fica aqui e a gente vai resolver tudo. — Malek disse entregando os doces para Lateral.
— Sim, mas sem brigas. — Ele disse pegando os doces e afundando no banco do carro.
Malek voltou para conferir as coisas com Carcará e Barisi. 
— Eles talvez pensassem que a Ilha ainda estava vazia, ou pelo menos sem contingente. — Carcará disse.
— O que foi aquilo? — Malek perguntou apontando o Silvani.
— Ele caminhou. Caminhantes experientes não são tão fáceis de vencer. — Carcará disse como a coisa mais normal do mundo.
— Parece que você sabe bem dessas coisas, 'amigo'. — Malek disse com olhos suspeitos para Carcará.
— Yassatani! — Barisi sorriu. — Guerreiro e bruxo, um só. Muito bom. Muito perigoso.
Carcará sorriu.
— Preocupações para outro momento. Onde estão Karak e Raila? — Malek respondeu resignado.
— Acho que pode chamar agora. Silêncio não é mais necessário. — Carcará disse voltando ao carro.
Barisi o seguiu sorrindo e balançando a cabeça.
— Tudo limpo. Posição? Segue. — Malek disse no ponto pessoal.
A resposta veio alguns minutos depois.
— Limpo. Recebe. Coordenando Lâmina. Aguarde retorno. Segue fim. — Karak respondeu pelo ponto pessoal.
Malek seguiu para o carro.
— É, estamos de volta. — Malek murmurou retornando para o carro.