As pedras do Castelo de Seldanar talvez elas mesmas já estivessem cansadas de Rentaniel como sua mãe estava. Sua revolta era infantil, mas perigosa. O choque de realidade deveria ter trazido algum alento, mas Rentaniel era Urbani, com o dom do conhecimento, e talvez ele pudesse beneficiar-se de um dom de Serenidade.
Ele postava-se rígido diante de sua mãe, a amargura dentro dele fervendo sob uma fachada de dignidade ferida, cada respiração uma luta contra uma verdade que ele se recusava a aceitar.
— Sua passividade custou minha filha. — Rentaniel acusava. — Foi sua a responsabilidade de tudo que aconteceu.
Audren tinha os olhos cansados, pela idade, pela vida de responsabilidade, um cansaço que provavelmente Rentaniel não viveria para ter, ela tinha certeza.
— Como se você não a entregaria de bom grado em troca do poder que tanto quer.
Audren respondeu como se cada palavra fosse um gole de ácido queimando em sua boca.
— Você tem que trazê-la de volta. — Rentaniel latiu.
— E deixar Nushala entregue à você? Que destino ela teria? O mesmo destino que teve sua mulher, entregue à sua imprudência? — Audren cessou sua paciência. — Creio que ela esteja mais segura do que nunca, onde está agora.
O olhar de Rentaniel endureceu, o desafio voltando à sua voz, amargo e frágil.
— E quando a selvagem tomar o poder? — Rentaniel falou cínico.
— Que poder? O poder é do Harata. É dos Harata. Nada mudará. O legado de sua irmã foi apenas um mero presente aos Harata, que poderiam seguir tendo o mesmo poder sem ele. Não é o nosso dom que nos coloca onde estamos. — Audren dizia com a testa pesada. — Quantas vezes é preciso repetir. Nós não temos poder para reivindicar. Contribuímos nosso dom para quem tem o poder. Esse trono, esse castelo, essa nação, são presentes que os Harata nos deram.
A mandíbula de Rentaniel se contraiu, a respiração acelerada. Ele abriu a boca como se para protestar, mas nada emergiu além de silêncio.
— Rentaniel, meu filho, entenda. A Fáscia é um pedaço de terra. Nós somos os zeladores da terra. Harata, eles são um povo, sem uma terra, sem fronteiras, sem famílias, sem linhagens. O pouco poder que temos, é dentro destas fronteiras. O Harata aqui, o Harata em Erítria, o Harata no meio do Mar do Leste, ele tem o mesmo poder. Onde ele está é terra Harata, onde ele fala é fala Harata. Você nunca terá esse poder. Eu nunca terei esse poder.
Audren acenou como se estivesse farta de tudo. Ela entendeu que Rentaniel não tinha como argumentar. Ele estava cego à razão. Ela era Urbani, conhecedora da história de seu povo. A Cidade do Conhecimento e a Cidade da Sabedoria, no mito Silvani, eram cidades diferentes, divindades da floresta diferentes, por que eram coisas diferentes. A sabedoria, o corvo, o conhecimento, a coruja. Seu próprio provo argumentou na antiguidade que uma não podia governar sobre a outra, exatamente pelo que Rentaniel demonstrava agora. Seu dom do conhecimento ajudava pouco sem sabedoria. Se ao menos essa fosse a cultura 'tradicional' que ele tentasse entender.
— Vá para a casa, Rentaniel. Valorize o que você ainda tem, antes que seja tirado de você.
Rentaniel hesitou por um momento, o orgulho em guerra com a prudência, antes de virar nos calcanhares e sair da câmara, cada passo carregando o peso da derrota.
Quando o silêncio retornou, Audren afundou mais em seu trono, sozinha, olhando ao redor, não para encontrar algo, mas para encontrar uma posição impossível que acabasse com seu desgosto. Ela fechou os olhos, esfregando as têmporas, uma lágrima descendo como nunca haviam em décadas. Ela não havia chorado nem mesmo por Ayla, já resignada. Mas Rentaniel rumava a um fim triste, não uma morte honrada em busca de um ideal nobre, mas apenas uma busca egoísta.
Apenas alguns momentos se passaram antes que Syndra aparecesse, entrando silenciosamente na câmara. Sua testa se franziu, marcada por uma neutralidade cuidadosa e praticada.
— Grande Mãe? O que houve? Era Rentaniel? O que ele disse?
— Mestre Syndra, seu o conselho que pode me confortar agora. Meu filho enfrentou Valaravas, demandou tradição. Sabemos que seria o único resultado. Ele perdeu sua filha, e sua percebida autoridade. Está desvairado, querendo o poder que não tem. Eu sei que ele preparou uma fuga. E sei que você sabe mais.
— Como.... Eu ... Grande Mãe? — Syndra estava processando. — O Anoa. Você sabe?
— Syndra, minha amiga, mais do que minha conselheira. Você é Urbani, devia saber. A essa altura, só não sabe quem não se importa. Metade dos meus guardas poderia me dizer se eu não soubesse. Não me importa isso pela Fáscia. Mas eu sei que Rentaniel anda por Jangunaray. Com certeza está fazendo planos secretos.
— Bem, deixemos a conversa sobre o outro ponto para outra hora. Essa é uma conversa da mãe com o filho em perigo, não uma conversa da Grande Mãe da Fáscia sobre acidentes diplomáticos, entendo. — Syndra tentou se recompor.
— Sim, minha amiga. É assim. — Audren estava triste.
— Rentaniel está se associando com gente perigosa. Os Harata são o menor de seus problemas. Se mais nada, os Harata se envolvendo seria mais salvamento do que condenação. — Syndra tomou outra postura mais séria. — Mas não posso ignorar como conselheira real, a Grande Mãe da Fáscia precisa ser mãe para Fáscia, por mais que isso doa. É o sacrifício que é exigido de quem ocupa esse posto. Rentaniel fez sua escolha.
Audren exalou lentamente, a resignação clara em sua expressão.
— Se Rentaniel tivesse um pingo da sua sabedoria, Syndra. É por isso que confio que suas relações pessoais não influem em sua lealdade. — Audren sorriu. — Pois bem, deixe o assunto pairar no mercado. Ravantes cuidará para que o que deve acontecer aconteça. Como ele diz, é o único jeito.
Uma pausa se estendeu, pesada de implicações. Syndra pensava sobre a mãe e a Grande Mãe em sua frente.
— Valaravas e seu grupo ainda não foram na Academia. Seria bom que ele nos procurasse antes de falar com a Sereia. — aventurou Syndra cautelosamente. — Ele devia ter vindo direto a nós, e ela deveria estar na vila, com os outros.
— Ajude-os Syndra. No mais que a Academia puder. Ela é importante também. Os nossos nunca poderão governar Tirayon sem ela. — Audren estava mais esperançosa.
— Eu posso ajudá-los com a Fáscia, com a Academia, mas não poderei ajudá-los com a loucura de Rentaniel. Isso está fora das nossas capacidades, Grande Mãe.
— É como você disse Syndra, existem poderes maiores que devemos simplesmente sair da frente. — Audren tentou não deixar-se embargar pelo sentimento. — E se ele está se envolvendo com os Anoa, pensando estar se envolvendo com dissidentes, então esses poderes logo se manifestarão.
— Entendo. — Syndra disse sem mais nada.
Syndra inclinou a cabeça, reconhecendo silenciosamente o lamento da mãe, amiga, antes da Grande Mãe da Fáscia. A decisão que ela carregava agora era mais pesada do que o mero dever, era um equilíbrio suspenso como no fio de uma navalha, um único passo em falso suficiente para mergulhar à todos no caos.
A voz de Audren baixou, silenciosa, mas ressonante, a dor de uma mãe pairando no silêncio de um coração dividido entre família e dever.
— Se Rentaniel morrer, que seja pelas mãos dos Harata. Isso pelo menos, eu posso explicar. Se os Anoa o pegarem, isso é algo que você terá que explicar, e temo que não consiga. — Audren fez um pequeno alerta.
Syndra assentiu solenemente, retirando-se da câmara para realizar a tarefa que lhe fora incumbida. Ela sabia que mesmo que Audren não visse assim, o conselho, os Senadores, Khadija, e todo o povo veria que uma conselheira envolvida com um Anoa de poder descoberta logo quando Anoa matam o filho da Grade Mãe seria uma carga que Syndra estaria pouco equipada para aguentar. Melhor que ela resolvesse esse problema, para o seu próprio bem.
Audren permaneceu sentada muito tempo depois de Syndra ter partido. Ela ali, sozinha mais uma vez, olhando para um futuro incerto e sombrio. Ela fez o que pôde, acreditava. Tudo o que restava era esperar e ver se os Harata agiriam rapidamente, ou se a loucura de Rentaniel os arrastaria a Fáscia em sua decadência.