Rude Despertar

O retorno da delegação da General Svetlana ao Zhefaq foi menos suntuosa do que a chegada na Trifronteira. Agora era simplesmente mais um dia na base, e não um festival para visitantes ou estrangeiros.
Zapachnaya Zhefaq, ou o portal do oeste, era onde a Armada mantinham seu controle sobre a Trifronteira, supervisionando investigações, operações militares e coleta de inteligência. Não importava se a própria região era objeto de escrutínio ou meramente o ponto de partida para uma ofensiva maior, a presença Erítria garantia que nada se movia sem ser visto. Essa era também a fronteira segura com a Federação e seu primeiro posto avançado.
Ao chegar a Zhefaq, Svetlana foi recebida com todas as formalidades concedidas a uma oficial de alta patente da Armada. A fortaleza ficava na fronteira com o Distrito Ocidental, a zona Oeste de Erítria, e servia como um posto de comando construído não apenas para defesa, mas para transição. Os oficiais que preenchiam suas fileiras não eram veteranos, mas recém-promovidos, enviados para lá como um campo de provas antes que pudessem esperar servir sob as verdadeiras estruturas de comando mais profundas no território Erítrio.
Para eles, Zhefaq era uma oportunidade, um teste de lealdade e eficiência. O Khara, distante, mas sempre presente em suas ambições, pairava como uma promessa e um desafio. Poucos chegavam tão longe.
Dentro de Zhefaq, Svetlana não perdeu tempo em se dirigir ao Coronel Aleksandr, o comandante do posto. As formalidades foram breves, como sempre. A eficiência era sua linguagem compartilhada, e nenhum dos dois jamais vira a necessidade de perder tempo com rituais.
— Mercenários da Trifronteira confirmaram o movimento de dissidentes ao longo da borda do Vale do Silício. — Ela disse deslizando o armazenamento serial na mesa.
O volume mostrava o valor da inteligência nele pousando com finalidade. Os arquivos incluíam informações sobre operações de modificados dissidentes e humanos guerrilheiros, seu envolvimento sendo mais profundo do que a maioria dos oficiais se importava em admitir.
Aleksandr pegou seu ponto pessoal, e a tecnologia FCP, Frequência de Campo Próximo, recolhendo e transmitindo por som pelos seus ossos a gravação dos cabeçalhos e metadados das informações. A tecnologia transmitia o som pelos ossos, mas a informação também estremeceu-os. Ele não precisava estudá-la, mas as pequenas mudanças eram importantes.
—  Eles estão se concentrando na fronteira de Zhefaq também. — Seu tom era firme, medido. — Contivemos seus ataques nas proximidades da base, mas as ordens são claras: nós não perseguimos. Eles estão nos provocando. Querem que sigamos.
A expressão de Svetlana mal piscou, mas a irritação contraiu seu maxilar.
— Ficarei estacionada em Zhefaq até que a equipe do Grêmio chegue. Precisamos dos Urbani, e os Urbani só falam com eles. — Sua voz carregava tanto expectativa quanto frustração.
Aleksandr deixou a declaração assentar antes de responder.
— Então a senhora está ciente de que o juiz dos Harata chegou pouco antes da sua comitiva na Trifronteira? — Ele a observou, esperando por confirmação.
Svetlana apenas ergueu as sobrancelhas e as palmas, sem responder.
Aleksandr acenou como se esperasse uma resposta.
Svetlana não respondeu. Em vez disso, ela estreitou seu foco, juntando as implicações em tempo real. Não era um fato público sua participação na reunião com os Harata, sendo acima da patente de Aleksandr, por uma razão que Svetlana bem conhecia.
— Temos informações entregues pelo Grêmio, ele faz parte do Consórcio. E é interessante você questionar isso. — Svetlana ficou intensa.
A General jogou os papeis na mesa como se jogasse alface para os porcos.
— Você tem informação dos operativos Silvani recentemente? Os Harata tinham mais informação sobre eles que nós. Como você, que é um Coronel da Armada, explica isso?
Aleksandr mal escondeu seu desdém.
— Eles estavam falando com a modelinho. Senhora. Aparentemente eles decidiram mudar de comando. — Ele fez um gesto desdenhoso, como se os movimentos deles estivessem abaixo de consideração.
Svetlana não compartilhava de sua indiferença. Se os Silvani já estavam interagindo com outros operativos da rede Harata, então as negociações estavam se movendo rápido. Rápido demais.
— Precisamos nos mover mais rápido, — disse ela, seu tom se aguçando. — Providencie para que o filho da Regente de Seldanar venha para Zhefaq. Precisamos trazê-lo aqui antes que os Harata falem com ele em particular. Para a segurança dele e nossa.
— Isso pode ser difícil, Senhora. — A voz de Aleksandr era cuidadosamente neutra, mas havia uma ponta de tensão nela. — Ele é irmão de Ayla. O Harata é praticamente sobrinho da Regente. Não há como garantirmos uma reunião antes deles. E mesmo que possamos, seus assuntos pessoais podem servir de cobertura para assuntos políticos.
O olhar de Svetlana tornou-se frio.
— Faça. Acontecer. Exploda uma refinaria, pare um carro diplomático Urbani, não me importa. Use uma das malhas PEM e cause um atraso em uma de suas comitivas. Não seria a primeira vez, mas dessa vez seria com a minha autorização.
Aleksandr manteve sua postura por um instante antes de exalar, seus ombros se movendo sutilmente. Um lampejo de hesitação permaneceu.
— Permissão para falar livremente, senhora.
A paciência de Svetlana já estava esgotada, mas ela assentiu uma vez.
Ele aproveitou a chance, sua frustração mal contida.
— Não entendo essa complacência com os Urbani e os Harata. Temos a informação. Temos os soldados. Deveríamos estar enfrentando essa situação diretamente.
Svetlana não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela o estudou, o mediu. Era o mesmo argumento, o mesmo orgulho, a mesma confiança cega na força bruta a que oficiais como Aleksandr sempre se apegavam. Então, com uma voz tão afiada e precisa quanto uma lâmina deslizando para fora de sua bainha, ela respondeu.
— Coronel, se a Lâmina o quisesse morto, não importaria se você estivesse trancado dentro do próprio Khara, seguro nos níveis superiores da Torre Negra, cercado por duas dúzias de nossos melhores e mais fiéis guerreiros da Falange. Ainda assim aconteceria. Você poderia ter certeza de que um dos seus próprios homens garantiria que fosse feito, e até mesmo celebrado.
Aleksandr pensou que havia uma brecha, mas Svetlana já levantou a mão e continuou.
— Um lacerador Urbani poderia entrar neste escritório, separar sua cabeça de seu corpo e desaparecer antes que os guardas do portão percebessem que alguém havia cruzado o portão.
Ela fez uma pausa, para assentar o momento, e continuou.
— A única coisa que impede o Urbani de fazer isso é o medo que eles tem do 'vudu' Harata.
Os lábios de Aleksandr se separaram, o início de uma resposta se formando, mas Svetlana já estava levantando a mão, os dedos em posição de comando silencioso.
— Dukhovne, — disse ela, seu tom mudando para algo quase conversacional, embora seu peso fosse inconfundível, — você sabe o que significa? Todos nós sabemos. Eles andam por aqui. Aquela sargento de quadris largos, aquele zelador emburrado do complexo residencial, além de muitos outros que eu nem sei.
Ela viu o peito dele se erguer ligeiramente, uma inspiração, o primeiro lampejo de uma tentativa de responder. Ela não o deixou.
— Claro que sabe, — continuou ela suavemente, — e já deve ter tirado o lixo deles fora do Zhefaq uma vez ou outra, sabendo ou a comando superior. Sadismo sancionado pela Armada, cuidadosamente colocado a serviço de poderes que não devemos nomear em voz alta, se é que conhecemos.
O ar no escritório pareceu se comprimir, o silêncio se adensando. Aleksandr endireitou-se ligeiramente, sua expressão mudando de frustração para cautela. Ele sabia que ela não estava exagerando.
— Eu entendo, senhora, só pensei que... — ele disse já prevendo engolir as palavras.
— Não, você não pensou. — Ela jogou as palavras como um soco de esquerda. — Diga isso na frente da pessoa errada, e nem mesmo eu poderei protegê-lo.
A General tomou folego. Deixou a intensidade passar. Sua postura mudou de agressão para uma certa compreensão. Quase um tom compassivo.
— Isto não é sobre orgulho pessoal. A Falange, a Armada, sobrevivem como uma unidade. A dúvida na hierarquia é fraqueza na hierarquia. Confie em seus superiores para que eles possam confiar em você.
Aleksandr revirou os olhos, sentindo naquilo um certo tom de propaganda. Svetlana percebeu e voltou ao tom anterior, como uma vingança.
— Se não pode fazer o trabalho da sua patente, solicite uma menor, mais adequada à sua genética obviamente ainda não aprimorada o suficiente para um coronel. E aos pequenos bagos que tem.
Aleksandr sustentou o olhar dela por mais um momento, depois exalou, sua postura se firmando. A resistência dentro dele não desapareceu, mas se dobrou sob o peso do dever.
— Entendo, senhora. Aumentarei meus esforços e confiarei na Hierarquia.
Sua continência foi firme, sua voz estável. A frustração não o havia deixado, mas Svetlana não precisava que ele estivesse em paz com suas ordens. Ela só precisava que ele as seguisse.
Svetlana saiu, deixando o coronel pensando em sua atitude e nas informações apresentadas. Zhefaq havia mudado recentemente seu pessoal. Novos oficiais foram colocados lá, porque mais contingente era necessário para o novo posto de Karaya, o posto avançado localizado ao longo da fronteira com o Vale do Silício.
A Federação era, como todo povo de Erítria, inteiramente dedicada à Armada. Escolas militares para crianças, trabalhadores e outros profissionais de apoio dedicados à promoção da cultura da nação. Muito pouco de comércio e outras atividades puramente civis era conduzido além do que era necessário internamente. Sua principal exportação: Poder militar e armamentos.
Aleksandr já estava começando a observar que os movimentos sob seu comando nem sempre eram movimentos que ele tinha conhecimento ou mesmo relevância. Sua posição era precária, mas para um Oficial só existem dois caminhos de mudança: Promoção e dispensa vergonhosa.