Lumi e Kivi estavam conversando sobre suas
vidas em Onachinia, esperando o próximo passo de sua jornada. A garota
já havia se habituado com o ambiente, e estava já à vontade conversando
com aquele que seria um colega de trabalho. Sua conversa era fluida e já
havia passado de conhecidos. Tinham agora já passado à outra categoria
de interação Carpata, não mais o seco e pragmático, mas o familial que é
o tom que se usa com família e colegas de trabalho, que para o Carpata
carregam quase o mesmo peso.
Um barulho alto de pressão tirou a
concentração dos dois quando a porta que parecia um cofre de banco se
abriu. Kivi tomou como o sinal de que iam partir, mas Lumi voltou ao seu
estado de alerta. O velho sorriu com o divertimento que tinha com algo
que há muito não via: Alguém genuinamente surpreso naquela viagem.
Ele chamou Lumi que o seguiu como um ponto seguro de experiência no meio daquela realidade nova que tinha entrado.
Como antes, soldados armados estavam do lado da sala de espera e dentro do espaço que agora a porta segura tinha aberto a eles.
Ali
eles entraram em uma espécie de elevador que Lumi nunca havia visto.
Era como um trêm que viaja verticalmente. Bancos, janelas, barras de
segurança e apoio, mas ao invés de ir para frente, vai para baixo.
O
zumbido de eletricidade denuncia a propulsão elétrica, mas se havia a
sensação de velocidade, era pouco. Apenas uma leveza característica que
fazia sentir que estavam descendo.
O próximo trem porém era diferente de tudo que Lumi já havia visto na vida.
Ao
chegarem no destino do elevador, um corredor iluminado, perfumado
artificialmente com o cheiro de chuva e terra, relativamente árido mas
umedecido e climatizado artificialmente, levava a um amplo conector onde
o trem podia ser visto. Ele era negro metalizado, levemente
iridescente, com o brasão inconfundível que pairava para todos os lados
desde que chegaram ali: O dragão vermelho com a lança azul escura sobre o
escudo negro, colocado no fundo branco junto ao nome da Federação
Erítria e o lema "Não seguimos, lideramos."
Ao entrar no trem todos
seguiam para a direita, e foi por onde Kivi e Lumi seguiram. O que
parecia ser um vagão era amplo e acomodava quatro espaços fechados com
portas magnéticas grossas, sendo que Lumi seguiu Kivi para aquele que
tinha o símbolo da Eletrochinia, junto com alguns outros passageiros. Os
outros espaços tinham símbolos diferentes que pareciam outras
logomarcas, mas desconhecidas de Lumi.
— Bem vindos. Estaremos
partindo para Zapachnaya Zhefaq em alguns minutos. Por favor afastem-se
das portas e tomem seus assentos com os cintos de segurança travados.
Assim que começarmos o cruzeiro, as travas serão liberadas. Obrigado. —
Uma voz mecânica disse pelo sistema de som do trem, parecendo ser dita
por toda a parte.
Um comissário uniformizado, parecendo militar mas
sem nenhum armamento, entrou pela porta da sala e verificou como estavam
os passageiros ali.
— Novamente: Bem vindos. Eu sou Artiom e
cuidarei dos passageiros da Eletrochinia nessa viagem. Serão 12 horas
que nos levarão diretamente até o Zhefaq, onde vocês encontrarão
transporte para a Trifronteira. Estarei a disposição para informações e
solicitações. Quando entrarmos em cruzeiro, a sala diretamente à frente
estará disponível com alguns itens de conforto e restauração oferecidos
pela sua Empresa, e outros itens que podem ser adquiridos com os seriais
de Erítria. Vamos começar nossa viagem, e eu estarei cuidando da minha
segurança também, apertando meus cintos, e nos falaremos já.
O
comissário então sentou-se no assento na parede lateral da sala, e
acomodou-se de cintos apertados como se esperasse algum movimento.
Lumi ia perguntar algo a Kivi, mas este sinalizou que não era o momento.
Na
poltrona do comissário, Lumi observou que ele digitou algo em um
painel. Alguns minutos depois a porta travou isolando a sala. Era tão
impactante que todo o barulho que podia ser ouvido fora da sala
silenciou.
Um barulho de corrente de ar e motores elétricos invadiu o ambiente, o que significava ser dentro da sala, não fora.
Tudo
então silenciou-se numa forma que Lumi nunca tinha ouvido. Era como se
nada fizesse barulho. Nenhuma peça no ambiente, nenhum barulho de
motores ou ar mais. Era como estar num estúdio de gravação. Uma leve
sensação de movimento ela podia sentir, mas nada que dissesse que o trem
estava em movimento.
Foram 20 minutos de suspense, pelo menos para a
garota, que não sabia o que estava acontecendo, e o silêncio de todos
não ajudava.
Foi o comissário que cortou a consternação da garota falando como se nada tivesse acontecido.
—
Muito bem, estamos já em cruzeiro. Todos podem movimentar-se pela sala.
Em alguns momentos o ambiente externo estará aberto. Qualquer dúvida,
estou a disposição. Novamente, meu nome é Artiom, e em nome da
Eletrochinia e da Federação Erítria desejo a todos uma boa viagem.
O rapaz sentou-se calmamente observando o console em seu banco, como se tudo estivesse dentro do esperado.
— Senhor Kivi? Que tipo de trem é esse? Zhefaq? Não é do outro lado de Erítria?
—
Senhor? Só Kivi. Estamos no Leviatã Transaveriano, mas eles também
chamam de Verme. Ele cruza Erítria inteira até o Zhefaq, que você sabe,
fica na Trifronteira. É lá que você vai trabalhar com o Toivo.
— Estamos viajando a uns mil quilômetros por hora então?
— Acho que o máximo que o Verme faz é 600, mas ele fica mais devagar em certas partes. — Kivi disse rindo-se.
A
porta do espaço em que estavam abriu-se, e todos os passageiros ali
vagarosamente se levantaram para ir em direção ao vagão de serviços.
Lumi e Kivi os acompanharam, Kivi já habituado com a viagem, e como todo
o bom Carpata, já preparando os pratos e os copos que ia deleitar-se.
Assim como Kivi, Lumi e os outros passageiros da Eletrochinia eram
Carpata, e eles eram todos do mesmo tipo físico. Era evidente a
diferença de origem. Enquanto o comissário Onatra da Federação Erítria
tinha pele, olhos e cabelos bem claros, os Carpata tinham a pele clara,
mas os cabelos castanhos ou ruivos. Todos altos, mas os Carpata eram
definitivamente muito mais encorpados com adiposidade do que o Onatra,
que parecia uma escultura feita ao molde do ideal anatômico da Armada de
Erítria, como todos os homens Onatra.
Uma mulher estava ali no vagão
pronta para atender quaisquer requisições que tivessem os passageiros
nos quiosques automáticos e questões financeiras. Também Onatra, ela
deixava muito pouco a duvidar sua origem, alta, de cabelos e olhos
claros, cujo andar era tão característico pelo volume e densidade de
suas coxas que era conhecido por toda a Ealetra como o "andar Onatra".
Lumi
já havia visto homens Onatra, desertores que trabalham nas minas em
Onachinia, mas ela nunca tinha visto uma mulher Onatra. A figura daquela
mesmerizou a garota. Ela era de uma forma que Lumi jamais imaginaria
uma mulher ser.
— Espero que você não fique olhando assim quando ver a General Svetlana. — Kivi riu-se sem cerimônia.
— Quem? — Lumi disse sem tirar os olhos da mulher.
A
mulher Onatra percebeu a risada de Kivi e o olhar de Lumi, mas ao
contrário dos Carpata, não se importava. Os Onatra eram sempre o tipo
seguro e imponente. Muito pouco no mundo era capaz de fazer um Onatra
demonstrar medo, vergonha, ou indecisão. Eles poderiam sentir essas
coisas, mas demonstrar, isso era controlado por anos de disciplina
militar que era obrigatória desde praticamente o nascimento.
—
General Svetlana, ela é a General do Khara, e uma das pessoas que trata
com a gente da Eletrochinia em nome de Erítria. Se você acha essa guria
impressionante, melhor segurar seu queixo quando for falar com a
General. — Kivi disse com mais divertimento em seu tom.
Os dois
seguiram conversando sobre as novidades que pairavam na cabeça de Lumi.
Mas vagarosamente era a comida que tomava suas mentes. Carpata
inevitavelmente acaba centrando no trabalho e na comida como pontos de
conversa em comum. E ali, provavelmente foi um cozinheiro Carpata
responsável pelo aprovisionamento da comida.
Eles aproximavam-se da
marca de 4 horas de viagem, e Kivi e Lumi já haviam voltado para suas
poltronas, conversando sobre o trabalho.
— Saudações à todos.
Estamos cruzando agora sob o Zentrichnaya Karaya. Apesar de ele não
fazer parte de nosso trajeto como parada, informamos como referência.
Obrigado, e mais uma vez, boa viagem. — A mesma voz mecânica disse pelo
sistema de som.
— Karaya, eles dizem que os dissidentes andam
atacando a região e por isso construíram esse nosso posto. Eu não queria
trabalhar aqui, meio do nada. — Kivi disse com um certo receio.
— Dissidentes? — Lumi disse sem o mesmo receio.
Kivi observando a garota, olhou em volta e falou mais baixo.
—
Dissidentes. Eu esqueci que você é das montanhas. O povo em geral vive
pelas leis do Consórcio. Tudo que fazemos, o nosso trabalho mesmo, meu,
seu, segue a lei de onde estamos. Ali onde você vai trabalhar segue a
lei Beruana. Acima disso, entre as nações, está a lei do Consórcio. Quem
não faz parte do Consórcio é chamado Dissidente.
— E o que tem esses ... Dissidentes? Eles são perigosos? — Lumi disse começando a preocupar-se.
—
Dissidente é o geral. Mas tem os piratas, os saqueadores, os ladrões de
carga. Ninguém sabe ao certo o que querem. Ou pelo menos nós não
sabemos, mas os grandes lá do Consórcio sabem. Só saiba que onde tem
dissidentes, você não vai querer estar.
Lumi começou a pensar, sem
muito o que dizer. Claro, seu trabalho pagava bem, e era estranho que
ela iria ganhar mais de dez vezes o que ganharia com o mesmo trabalho em
Vila Pequena, ou qualquer cidade de Onachinia. Mas será que era porque
era perigoso? Será que era perigoso?
Kivi percebeu as engrenagens trabalhando na cabeça da Lumi.
—
Enquanto você estiver na Trifronteira, seja no Distrito Beruano ou no
Distrito Erítrio, você estará segura. O Consórcio tem também uma força
militar que dá medo até nos Onatra.
— O que poderia dar medo nos Onatra Kivi? — Agora Lumi estava definitivamente preocupada.
— Você nunca ouviu falar dos Harata? Nem dos Urbani? — Kivi arregalou os olhos.
Uma
coisa era não saber das coisas como são fora de Onachinia. Outra coisa é
não saber quem são dois dos povos mais influentes de Ealetra. Como Lumi
poderia viver em Onachinia e não saber quem eram os dois povos que
fundaram e permitiram que Onachinia existisse. Mais do que isso, os dois
povos que tinham uma nação que fazia fonteira com o sul de Onachinia.
— Não. — disse Lumi com um olhar de gato que se perdeu na mudança. — Eu deveria?
—
Bom, não vamos entrar nesses detalhes agora. O importante é saber que o
Consórcio é uma união dos Urbani, Harata e Onatra. E eles mantêm a
Trifronteira segura. Você estará segura ali, e não precisa se preocupar.
Mas qualquer coisa que fala em dissidentes, fuja. — Kivi disse
sorrindo. — Muito pra aprender ainda garota, muito.
Lumi estava com a
mente em rodamoinho. O mundo que ela conhecia parecia ser tão pequeno
agora, que ela nem mesmo pensava conhecer Onachinia. O que quer que
viesse pela frente, o tanto que ela iria ganhar por um trabalho simples
começava a fazer mais sentido do que ela pensava.
O silêncio que
tomou conta do espaço não era só o silêncio da viagem ou o silêncio
deles, era o silêncio de não saber realmente onde aquela viagem à estava
levando.