A Trifronteira nunca dorme, e tem
um coração que pulsa em um rítimo forte e incessante de maquinário
pesado e motores possantes, embora certos becos no fim da tarde
mergulhem em um silêncio cauteloso.
Silêncio, e não uma pausa
entre hostilidades. Em um desses becos, iluminado pelo brilho alaranjado
de aquecedores de indução, ficava o Posto de Processamento da Armada na
Divisão Beruana. Um ponto de coleta de inteligência e artefatos,
designado para contratos submetidos em nome da Federação de Erítria.
Eles não iriam querer admitir mercenários dentro das fronteiras da
Federação, e a Divisão Beruana era o lugar perfeito para uma desculpa de
um posto da Armada e a presença de mercenários de toda sorte.
A
presença da Armada aqui não era ornamental. As patrulhas neste
quarteirão eram vigilantes e implacáveis, e o consenso silencioso entre a
população era claro: saliências não eram aconselháveis, e eram
marteladas em conformidade.Ariel e Erlan seguiam com suas motos pelas estradas mal iluminadas até chegarem nos domínios da Armada.
Ao
aproximar-se do posto avançado, os Silvani avistaram uma marca de bases
da Armada, e da cultura Onatra, a quadra de mata soldado.
O esporte que figura proeminentemente entre os Onatra, que são educados a praticar desde cedo.
É
um esporte que ensina o trabalho em equipe com o seu time, e a
agressividade contra o time oposto. A criança Erítria interage com jogos
e simulações destinados a criar, e selecionar por, senso de disciplina e
respeito pela hierarquia. Os jogos de queimada e os campeonatos de
combate formam mentes e corpos. Combate é uma espécie de arte marcial
peculiar de Erítria.
Os irmãos Silvani nunca entenderam esse
tipo de coisa, seguiam como se tudo aquilo fosse uma estranha fascianção
dos Onatra, e nada mais.
Dentro do posto de processamento,
altos oficiais Onatra, em patente e estatura, moviam-se com disciplina
mecânica, seus uniformes rígidos mas revelando corpos feitos para a
guerra. Sua proficiência nas ciências sociais aplicadas é só segunda de
sua lealdade à Armada Erítria.
Os Silvani submeteram seus
achados para processamento e verificação por um dos Peritos de Dados da
Armada por trás de um vidro polarizado que não permitia identificação.
Outro artefato gerado por uma guerra ancestral.
Em algum tempo, um Oficial da Fazenda iria vir com seu pagamento.
Em
seu estranho e brutal igualitarismo, a Armada transferia os mesmos
créditos independentemente de quem entregasse o trabalho. Para os
Silvani, há muito acostumados a hierarquias que os consideravam cidadão
de segunda classe, esta era uma consistência estranha, mas bem-vinda.
Foi
em meio a essa troca ritualizada que uma figura em particular chamou a
atenção dos irmãos. À primeira vista, ele parecia apenas mais uma sombra
entre muitas, mas foi cando passou por uma porta que se abria, a
observação ficou clara.
Discreto, deslizando pela agitação com uma facilidade que desmentia seu propósito.
Ele
se movia como se ali fosse seu lugar, mas seu cabelo, uma cortina de um
fio escuro e lustroso demais para ser confundido com o natural de corte
ditado pelo regulamento militar dos Oficiais. Havia uma suavidade em
seus movimentos, uma graça que não pertencia a nenhum soldado.Ariel
percebeu antes de Erlan. Aquele era um Urbani. Um infiltrador que
estava ali com os Oficiais da Armada, cordialmente conversando como
iguais, ou pelos assim Ariel o via.
Quando ele se virou, e
seus olhos se cruzaram, ambos reconheceram o traço comum de sua etnia,
que é distinto de todas as outras. Ambos os olhos únicos, os três,
Urbani e dois Silvani, singulares naquele traço, singulares na
ancestralidade compartilhada, mas não na rivalidade ancestral que
colocava Urbani e Onatra de um lado, e Silvani do outro.
O Urbani
virou-se na direção de Ariel, ajeitando seu cabelo liso e volumoso com
uma deliberação casual, para uma vista melhor, e para ser notado. Seus
olhos, de um azul glacial, encontraram os de Ariel diretamente, sem
frieza, mas indiferentes de uma forma que feria mais do que o desprezo. O
que quer que tenha passado entre eles foi sem palavras, mas não
despercebido.Ele se inclinou levemente, disse algo ao oficial Onatra ao seu lado, que respondeu com um pequeno aceno afirmativo. Sem um segundo olhar, o Urbani virou-se e atravessou uma porta de acesso restrito, desaparecendo nos recessos internos do comando, onde nem Ariel nem Erlan tinham a esperança de um dia serem convidados.
E assim as linhas foram traçadas, como sempre haviam sido. Ariel e Erlan estavam do lado público da divisão, sob a luz de vapor de sódio e o escrutínio, enquanto o Urbani, com soberba no olhar, sem dúvida um descendente direto de um Silvani da antiguidade, agora estabelecia as diferenças como povos distintos.
Erlan ignorou, embora seu desconforto
irradiasse claramente. Ariel, no entanto, sentiu algo mais profundo,
embora silencioso. Para a Silvani era uma diminuição, como se aquela
porta não tivesse se fechado apenas para o acesso, mas para a longa
memória de quem eles foram um dia, e do que séculos de exílio os haviam
tornado: estrangeiros em qualquer terra.
Com o pagamento garantido nos seriais anônimos, eles
partiram sem demora, como haviam feito muitas vezes antes. A
familiaridade atenuava a indignação. Para os Silvani vivendo em terras
humanas, já era um modo de vida ser considerado uma peça de segunda mão.
Mesmo aqueles com recursos e contatos, ainda assim, só poderiam esperar
a consideração dos mais próximos, e muitas vezes mais por piedade do
que por respeito.
O caminho agora era mais tranquilo, mas por ruas
se tornaram mais rústicas. As patrulhas se reduziram a pouco mais que
silhuetas distantes e a luz indiferente dos drones da Armada.
Eles
estavam entrando em um outro mundo que se escondia numa mesma cidade.
Longe da força Erítria, entravam nos domínios de um povo que aprendeu a
viver no escuro, com as luzes acesas. Os Harata tinham seu próprio
código, meticuloso e implacável, mas desinteressado em dois Silvani, a
menos que fossem provocados. Mas ninguém iria começar problemas entre os
negócios ali. A violência afetava negativamente o valor da vizinhança, e
portanto as autoridades Harata não eram amigáveis aos que dela tomavam
parte, exceto quando oculta, silenciosa, e com fundamentos no jogo. O
jogo de poder.
As motos velhas e barulhentas que levavam os
irmãos volta e meia eram passadas por grandes carros de luxo, coloridos e
com mais luzes do que o exigido pra uma boa dirigibilidade, iam como se
num flutuar gracioso sobre as ruas disformes, opulentos e
aerodinâmicos, seus painéis laqueados reluzindo sob os hologramas de
neon.
Eram Harata, e seus carros eram de um design elegante mais do que funcional, feito não para a guerra, mas para a exibição.
Eram
como salas de reunião itinerantes para aqueles com línguas e lâminas
afiadas. Movimentava-se na mesma direção que os irmãos, embora com um
senso mais claro de direito. Os passageiros chegariam aonde Ariel e
Erlan se dirigiam, mas entrariam também por portas diferentes.
Eles
já conseguiam ouvir a música gerada por Inteligência Artificial ao
vivo, mesmo com o edifício ainda à distância, parecendo erguer-se do
próprio concreto, impossível de não ver, impossível de ignorar.Ele
fora, em sua época, o maior edifício impresso por uma das colossais
impressoras tridimensionais que os Urbani cederam aos Harata na
comemoração do mais recente centenário de amizade entre os dois povos.
Ele levou três dias para ser impresso, e mais quatro dias para o
acabamento.
Aquela Divisão era Beruana por geografia, mas o
poder emanava dos conglomerados regidos pelos Barões Harata, aliados
próximos dos Beruanos, e os verdadeiros motores da economia de Ealetra.
E aquele prédio reluzente mais à frente era a
epítome dessa realidade. Sua planta intrincada é impossível de ser
construída por mãos e trabalho duro humano, sendo um marco na amizade
Urbani e Harata. Um marco naquilo que deixava os Silvani de fora deste
mundo. Um centro onde tudo que é Harata manifesta-se incessantemente:
Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e Preguiça.
Em seu nome, já uma celebração de três deles: Cântaro Dourado.