Respeito conserva os dentes

Não longe do Cântaro Dourado, Melica caminhava ao lado de Andrei, o passo deles sem pressa, a conversa fácil. O trecho da estrada era familiar para ambos, um caminho que haviam percorrido inúmeras vezes antes.
No passado, quando as ruas das docas da Trifronteira eram muito menos tolerantes, o Onatra sempre estivera lá, sua presença firme a protegendo dos perigos que espreitavam na noite. Ele sempre passava no intervalo de suas rondas para andar a pequena Melica até em casa.
Ela havia crescido desde então, e aprendera a se defender, a navegar pelo mundo em seus próprios termos. Mas, como muitas vezes acontecia com pais, reais ou considerados, Andrei nunca a viu plenamente como algo além da criança que um dia guardara.
— A tenente Danila anda sendo muito zelosa, não acha? — Andrei procurava uma conversa mais tênue. — Ela fez questão de nos acompanhar, mesmo que seja nossa folga.
Alguns passos à frente, Danila caminhava com as mãos atrás das costas, ouvindo sem interromper. Ela não tinha motivo para fazer parte da troca deles, mas não se importava em seguir um pouco à frente, absorvendo o calor silencioso de sua familiaridade.
Era raro um Onatra ser tão abertamente afetuoso com uma Harata e, embora a própria Danila encontrasse uma estranha afeição nisso, outros na Armada não.
A bondade de Andrei, muito parecida com o apego de Svetlana a Valaravas, perturbava certos círculos de poder. Uma coisa era demonstrar sentimentalismo para com os seus. Mas para com Harata? Isso não era apenas indulgência. Era uma vulnerabilidade. Uma falha estratégica.
Elmund não partilhava do mesmo pragmatismo, mas tinha seus próprios problemas com aquilo.
O confronto no Cântaro o havia despedaçado de uma forma que ele não esperava. O vinho, e o poder nos quais ele um dia confiara para se manter elevado, haviam se voltado contra ele, deixando-o em uma espiral descendente rumo ao desconhecido, ao instável. Ele não reconhecia essa versão de si mesmo, nem sabia como corrigir o rumo.
Mas havia uma coisa que ele podia fazer, observar.
Sua mente ainda era uma névoa de humilhação, mas seus instintos o guiavam. Ele não esperava tropeçar em Melica e seus companheiros Onatra. A leveza deles, a naturalidade deles, roía algo dentro do Urbani. Com que descuido eles caminhavam, quão alheios estavam ao peso das coisas que se moviam ao redor deles. Alguém poderia levar ao conhecimento de ouvidos mais atentos na Armada. Ou assim ele pensava.
Enquanto Andrei e Melica permaneciam animados com a companhia, Danila era tudo, menos entretida. Ela estava ali por uma razão. Seu olhar aguçado e predatório se voltou para onde Elmund estava na penumbra, sua presença parecendo mudar, muito sutilmente, em resposta.
Danila mudou ligeiramente seu passo e, então, sorriu. Não um sorriso educado ou de conhecimento, era intencional, e um que carregava a mensagem completa. Largo, desequilibrado. Uma alegria que não alcançava os olhos, um sorriso tanto extático quanto aterrorizante. Era um sorriso que pertencia ao seu lado selvagem, algo que não via uma ameaça, mas uma oportunidade. Embora não fosse uma Urbani, ela se lembraria daquilo por muito, muito tempo.
Elmund sentiu um arrepio subir por sua espinha. Ele não sabia exatamente como as coisas funcionavam na Armada, mas de uma próxima vez, não estaria sozinho, e nem sem um senso de propósito.
Sua atenção voltou para os dois companheiros de caminhada. Bem a tempo de reagir a uma cutucada de Melica.
— Agora só falta a Tenente encontrar alguém para compartilhar esse sucesso, não é Pai?
— Ah, mas eu estou muito bem assim, Harata. Vocês já são família suficiente. — Danila disse, com um tom mais maquinal do que esperava.
— Praticamente irmãs. — Melica disse com um tom gracioso.
— Praticamente irmãs. — Danila repetiu sem pensar.
A mente da Tenente já estava em cálculos de quantos ossos podia quebrar em Elmund antes que ele pudesse sentir dor. E o mais prazeroso em sua mente era saber que apesar de não ser permitida ainda, ele estava buscando o dia em que ela teria a permissão.