Relíquia Pirata

Ambos sabiam onde deveriam ir. Antes, quanto aquele lado da ilha era apenas um depósito de almas esperando a morte ou a coleta, eles tinham um tipo de culto, que os piratas acreditavam ser apenas algum tipo de insanidade, ou isso era o que os Harata e os Silvani acreditavam.
Através da caminhada, Karak soube que Raila e Barisi sabiam o que os escravos estavam adorando naquela caverna. E ela provavelmente seria logo mais uma vítima do 'progresso' dos Anoa em 'desenvolver' aquela região.
Ao chegaram eles constataram que a região ainda estava longe das garras das toupeiras.
— Encarregado — Karak dizia pelo ponto pessoal. — Onde eu estou agora, essa área deve ser separada para processamento posterior. Pelo menos dez dias.
Karak olhou para Raila, sinalizando para ela já preparar o que tinha que preparar.
— Sim, sob a autoridade da minha franquia. — Karak fez uma cara de 'tanto faz'.
Ele esperava uma resposta, e Raila ainda olhava para ele.
— Contingência, sim. Isso. — Karak dizia sem muito entender.
Mais uma resposta qualquer do outro lado.
— Certo. Que sua vida vália mais que sua morte, ou como vocês dizem. — Karak finalizou.
Ele seguiu para a entrada da caverna puxando Raila.
— Temos uma semana antes que a area seja reservada. Eles podem não afetar a área por mais três dias, mas não podem dar certeza. — Karak disse com tom cuidadoso.
— Se tudo der certo, não precisaremos de mais que um dia. — Raila disse já acompanhando o passo.
Eles andaram mais uns minutos, entrando pelas estreitas frestas entre as pedras, encontrando uma entrada de uma caverna, sob uma rocha desenhada pelo vento. Abaixo, uma caverna se produzia pelo assentamento das rochas mais sólidas, e delineada pelo sedimento compactado por muito tempo de pressão dessas mesmas rochas sobre solo seco.
Por toda ilha esses lugares funcionavam como abrigos naturais para os que estavam desprovidos de material ou possibilidades de uma vida digna. Ali por outro lado, ninguém morava. Era um espaço onde a maioria evitava estar, e os que ali sempre entravam apenas faziam suas cerimônias.
Conforme iam entrando, Raila percebeu que vários potes, feitos da argila queimada do local, uma produção deles. Ela observava que eram potes feitos com diferentes níveis de prática. Conforme iam mais fundo na caverna, e a luz tornava-se essencial mas incrementalmente menos eficiente, os potes que eram feitos com esmero e processos modernos eram substituídos por outros com menor regularidade. Depois de mais de meia hora de caminhada, os potes passavam a ser feitos como se modelados na mão, e queimados com fogo direto, ao invés de fornos improvisados com metais.
Desenhos nas paredes também identificavam um padrão, mesmo que representassem muito pouco em termos de significado para qualquer deles. Eram pessoas, animais, e paisagens desenhadas com pouco detalhe, feitos praticamente com impressões de mãos e traços irregulares como pintados com ramos e galhos.
Karak chegou em um dos muitos pilares finos que se formavam na caverna, e quebrou-o com uma pedra. O material interno mostrava linhas dentro da formação mineral.
— Essa caverna estava aqui durante o dilúvio. Essa formação não é recente. Alguém já fazia esses rituais aqui antes de nós estarmos aqui. — Karak disse com uma certa preocupação.
— E como você sabe disso, Harata? Não te vi sendo grande Acadêmico na caminhada. — Raila perguntou cruzando os braços.
— Harata, somos um povo de cultura dos mares, fomos os primeiros piratas, os primeiros exploradores, todos dizem. — Karak olhou para a caverna, com olhos nostálgicos, iluminando as formações. — Sadera, uma palavra em Harata. Significa o deitar de camadas, folhear, fazer algo em etapas. Também fala das fases de algo, Sadera-ta, as fases do sol, correndo pelo céu, em meses, anos, séculos.
— Não ouvi ou vi nada disso na caminhada. — Raila olhou cética.
— Você mesma disse, não pode ouvir meus pensamentos na caminhada. — Karak puxou-a para seguirem. — Harata é um idioma complexo, palavras tem um significado contextual denso. Ouvir o que dizemos, ver o que vemos, não demonstra o que queremos dizer.
Raila seguida ainda cética, mas a caminhada tinha mostrado que a vida de um Harata é uma construção complexa. Ela tinha que admitir.
A Sangamani leu os desenhos nas pedras, agora já fundo na caverna, e ele descrevia um ritual. Conforme ela foi aproximando e iluminando, ele começou a fazer sentido em sua mente.
— Harata, aqui! Ilumine essa parede comigo. Precisamos ver tudo.
Eles juntaram suas parcas luzes, e o quadro completo poderia ser visto.
Era uma descrição da caminhada, como eles fizeram, a compartilhada, mas era diferente do que fizeram. O processo mostrava posturas específicas, pontos marcando tempo, símbolos que ela não reconhecia.
Raila apontou para um desenho, diferente, mesmo sendo uma pessoa, não era como as outras.
— Aquilo não é uma pessoa, é uma relíquia em forma de pessoa. É uma forma Sangamani. — Raila estava inquieta. — Isso está errado.
— Seu povo nunca saiu de Sangamá, e quando meu povo esteve aqui, não havia ninguém, e fomos os primeiros a estar aqui, quando essa ilha apareceu. — Karak afirmou com tom fatos na mesa.
— Só existe um jeito de saber. — Raila disse pegando um frasco de sua bolsa. — Só me acorde se eu parar de respirar, e não caminhe, nem use seu 'enrolo Harata'.
Antes que Karak pudesse dizer qualquer coisa ela bebeu o conteúdo do frasco e entrou no transe da Qachruna.
Para Karak, ela simplesmente ajoelhou-se, virando os olhos e congelando em posição, como se estivesse em uma prece delirante frente ao desenho.
Para Raila, o mundo fechou-se em um cone, que trouxe o escuro e o desenho espectral do mural completo, vagarosamente tomando vida. Ela via uma pessoa, sem rosto, mas ao mesmo tempo normal, como se fosse uma pessoa normal em sua vista, mas ela não pudesse ver o rosto, mesmo olhando seus traços, era angustiante e ao mesmo tempo reconfortante.
A mulher, envolta em panos cerimoniais e ervas, já estava no transe da Qachruna, mas outra substância que ela não conseguia identificar era administrada por ritualistas. Guerreiros Sangamani cortavam seus polegares e marcavam a pele exposta dos braços da mulher com sangue, e seguravam seus braços, contendo os espasmos violentos. A mulher na visão encontrava uma uma outra, que não tinha uma visão humana. Ela era alta, corpo despido coberto de escamas avermelhados e a cabeça com aspectos humanos sobre uma aparência reptiliana.
Raila observava a cena como se visse por uma tela, mas a imagem da mulher e dos ritualistas começou a ficar fosca, e sumir, voltando a ser apenas uma sombra em linhas vermelhas com brilho fosco. 
A mulher que via, alta com um andar predatório ainda estava perfeitamente visível, como se fosse real, e ela se aproximou de Raila, que sem poder reagir, sentia a pele fria de sua mão com uma palma lisa e escamosa acariciar seu rosto, e causar uma dor, não como a dor de pontadas ou impacto, mas uma dor emocional, como medo, saudade, ansiedade.
— A fujona. Ela aparece. Quantas vidas? Nem sabe. Ela fugiu. — A mulher abaixou, encarando Raila. — Você fugiu!
Raila não podia reagir na caminhada. Não era como ela esperava. Ela estava sendo impedida, por alguém, ou alguma coisa, naquele lugar.
Karak apenas observava lágrimas correndo pelos olhos brancos e tremulantes da Sangamani na realidade. 
Na caminhada, Raila ainda observava a mulher.
— Temos que terminar o que começamos, não é? Serva. — A mulher segurou Raila para levantar. — Você nos serve, nós não servimos você.
Karak assustou-se ao ver Raila levantar-se. Mas seguia mantendo que só interviria se ela parasse de respirar.
Ele observou Raila andar pelo espaço, e seguiu-a, embora iluminando o caminho, ele seguia uma Raila que andava com se o escuro não fosse impedimento.
A mulher em transe pegou uma pedra, depois outra, depois outra, separando em partes. Pegou umas, deixou outras.
Ela seguiu para uma pedra grande, colocando as pedrinhas menores, e batendo até que formassem uma farinha mineral.
Sem mover o olhar de um ponto como ao longe, ela pegou um frasco da bolsa, maior que o anterior, com líquido mais viscoso, mais escuro. 
Ela derramou o líquido, direto sobre a farinha das pedras. Ele formou uma espuma, o cheiro era forte e acre. Conforme a espuma se misturava com a farinha das pedras, tornava-se uma massa, como mel grosso. 
Raila então tomou um punhado daquela mistura e comeu como se sua vida dependesse disso.
Karak seguia resoluto em não interromper, mas estava apreensivo. 
Ele tentou tocá-la, mas ela reagiu violentamente.
Na caminhada, Raila via a mulher alta se esgueirando em volta dela, enquanto ela era incapaz de impedir seu corpo de fazer o que ela sabia estar fazendo no mundo material.
Na caminhada, o corpo espectral de Raila estava mais brilhante agora, cintilando em tons amarelos e vermelhos. 
A mulher reptiliana então cortou sua forma, e envolveu Raila em suas entranhas, como fosse um casaco, forçando o corpo de Raila a inserir-se, vestindo seus braços como mangas, suas pernas como uma calça.
Raila agora era a mulher, seu corpo esticado, dolorosamente para aderir as proporções da mulher, e forçado a mover-se como ela se movia.
— Você vai servir, querendo ou não. — A voz da mulher dizia, mas Raila sentia sua boca dizendo.
Karak observou quando Raila desmoronou no chão e com espasmos leves começou a se debater. Ele observou nos desenhos que havia uma imagem de guerreiros segurando uma mulher frente ao desenho da 'Relíquia', como Raila descrevia.
Ele a segurou, evitando que seus movimentos a jogassem. Ela estava forte, e ele precisou de esforço para contê-la.
Sua boca puxava o ar, seus olhos abriam ao mesmo tempo que a boca, o barulho, Karak sabia o que era aquilo, todo Harata sabia, mas não podia ser, ela estava reagindo como se estivesse se afogando.
Karak agiu por reação. 
Rapidamente ele deu um tapa no rosto dela, de um lado e depois do outro em seguida. Apertou o queixo dela, virando-a e segurando-a com a cabeça mais abaixo do corpo numa posição como curvada.
Ele colocou o dedo na boca da mulher, perto do glote. A Sangamani começou a regurgitar parte daquilo que havia engolido.
Ele limpou as vias orais dela o mais que pode, e puxou-a pela barriga com as mãos segurando suas costas. O barulho e a vibração pulmonar diziam que ela estava desimpedida.
Ele rapidamente puxou-a e soprou ar em seus pulmões. Uma, duas vezes.
Quando ela parou de reagir com tremores, ele começou a falar no ouvido dela, com uma voz diferente, assoprada, fina. Ele falava no idioma de sua gente. Não era para ser entendido, era para ser sentido.
— Eu estou aqui. Trago promessas de boas marés. Promessas de segurança. Promessas de paz. — Ele dizia suavemente.
— Promessas da segurança que uns precisam, de prosperidade que outros buscam, de respeito, que foi negado a ainda outros. — Sua voz descendo mais quase inaudível.
— Como é justo, como é o costume. Como é o correto de pessoas livres, e famílias cansadas de opressão.
A mulher lentamente voltou seus olhos a posição normal, mas ainda estava em transe, trancada, mesmo que em silêncio e no escuro no plano Umbralino.
— Tudo que pedimos é o respeito ao costume, como é o correto das pessoas livres. — Karak disse com um tom subindo ao mais imperativo.
Raila dentro da caminhada podia sentir-se mais leve, menos angustiada e tensa, como se a presença nela se acalmasse.
— Não há nada a temer, não há nada a cobrar. Apenas uma troca justa, como é de costume. — Karak disse com tom mais imperativo.
Raila sentia agora uma luz, âmbar, como uma saída da escuridão, e a presença nela começava a mudar. A mulher que antes a dominava, agora ouvia as palavras que ressoavam na cabeça dela, de um homem que era seguro confiar, que valeria a pena ouvir.
O mundo espectral foi sumindo da visão de Raila, e a presença da mulher foi enfraquecendo, e aos poucos ela começou a ver a caverna mal iluminada novamente, as luzes âmbar tornando-se olhos, e ocupando o rosto preocupado mas composto do velho Harata.
Raila não disse nada. Apenas abraçou Karak, como se ele tivesse acabado de salvar sua vida. Como se ele fosse a pessoa mais importante do mundo.
— Eu prometi, mas não posso te perder. — Ele disse segurando-a mais firme.
— Então essa é a famosa mão do destino. — Raila disse, rindo-se entre lágrimas. — Sorte minha termos caminhado antes de fazer essa besteira.
— Sorte não tem nada a ver com isso mulher. Muito pelo contrário. — Karak disse com os olhos marejados.