Reconquista

Tensões em Tirayon estavam transbordando, mas a Armada mantinha sua formação no Mar Estreito, nas fronteiras, e no Mar do Norte. Eles estavam cumprindo o acordo de manter Khadija à salvo de qualquer consequência de um conflito Silvani, como os velhos acordos estipulavam.
Nenhuma intervenção. Nenhuma ajuda. Suas ordens eram claras. Os relatórios da marinha eram dispersos e inconclusivos. Dissidentes estavam inundando a costa norte do Reino Silvani, uma maré implacável de caos, mas o estado dos defensores permanecia desconhecido. A guerra terrestre, se é que podia ser chamada assim, estava envolta em incerteza.
Tirayon foi deixada à própria sorte. A diplomata que poderia ter suplicado por intervenção não estava mais ao alcance, confinada ao distrito residencial de Zhefaq sob consideração de asilo. Não haveria apelos oficiais por ajuda, nem concessões que pudessem influenciar as rígidas leis de neutralidade do Consórcio.
A Armada havia cercado o litoral da Trifronteira, estendido sua presença às águas dos Urbani, conforme ditado pela doutrina de defesa do Consórcio. Mas, embora o estado de direito justificasse suas ações, havia pouca cordialidade na aliança entre Erítria e Khadija. Entre os Silvani, sussurros infeccionavam. As suspeitas de que a Armada estava apenas fazendo pose, permitindo que a inundação pirata piorasse a situação do Reino, garantindo sua lenta descida a uma desordem irreparável, era tudo que se falava no governo. No entanto, esses murmúrios encontravam pouca audiência, e ainda menos dispostos a agir com base neles.
Enquanto isso, nas Ilhas Livres, os piratas anarquistas se deliciavam. Sua aposta valera a pena, e a Armada se movera para o norte, abandonando os mares do sul abertos à sua vontade.
Os piratas não se importavam com as vastas extensões continentais por perto.
Para o leste, os Marata os caçariam por esporte, viessem eles em paz ou em guerra. A oeste, além do Mar Estreito, estava Sangamá, e um destino ainda pior nas mãos dos Sangamani, uma incógnita em seus cálculos.
Contudo, mesmo com os mares à sua frente desprotegidos, os anarquistas permaneciam divididos. Magenta era o único alvo realmente possível com a movimentação da Armada para o norte.
Eles eram piratas, anarquistas, desorganizados, pensando em riquezas e escravos. Eles não tinham ambições geopolíticas ou sociais. E isso os tornava ignorantes para a Estratégia dos 'donos de Ealetra'. E haviam aqueles que procuravam na natureza humana as aberturas para suas estratégias.
Enquanto a cúpula dos capitães de pirataria discutia como aproveitar a mudança maciça da Armada para o norte, foi um garoto que respondeu as questões importantes para todos aqueles velhos cães do mar.
— Eles estão chegando, e estão com raiva! — Gritou o garoto da torre de vigia.
O grito ecoado por muitos rasgou o ar pesado quando a porta se abriu com um estrondo, revelando um pirata Harata magro e de olhos arregalados.
— Que é isso garoto! Late tudo! — rosnou um dos capitães, sua voz imperturbável, lenta, nada impressionada.
— Os da Armada, lá fora. E eles vem pra arregaçar. Pela distância, já estavam ali esperando fora da vista!
A sala ficou tensa, olhos dardejando entre os rostos de homens que haviam construído sua existência nas franjas da lei e da ordem.
— Carca fogo! — Uma voz gritou.
— Você enlouqueceu? — A voz de Karak cortou todas as outras.
Seu dom Harata se espalhando por aqueles que ele conseguia alcançar.
Um outro capitão Silvani mais endurecido resistia.
— As tropas estão no norte, eles devem ser poucos, podemos enfrentá-los!
Os capitães trocaram olhares, silenciosos em suas decisões. Eles haviam escolhido seu curso. Um por um, eles saíram da sala, deixando Karak sozinho com os piratas menores.
Por um momento, ele permaneceu, encarando o chão de madeira rústica, sua mente uma corrente puxando em uma direção diferente. Então, ele se moveu. O Harata era diferente dos outros. Ele conhecia o inimigo. E mais inteligente, como tal, não era o mais poderoso líder de um bando de assassinos e ladrões.
Karak tomou tudo que podia, pegou seus mais leais seguidores e ao invés de correr ao norte da ilha para encontrar a Armada, foi ao sul, do outro lado da Ilha, tomando os barcos de transporte, rumando numa rota bem aberta aos mares escuros e gelados mais ainda ao sul, dando a volta para as Terras Baixas.
Os outros líderes dos bandos de piratas rumaram aos barcos de assalto, aos canhões e trabucos ao norte da ilha. Ao tomar inventário do horizonte, o caos o saudou. Os desarmados e os fracos corriam em todas as direções, cada um convencido de que havia encontrado segurança onde outro havia encontrado a só a morte.
Os capitães correram para seus navios, chamando suas tripulações às armas. Mas logo uma percepção os atingiu.
Os navios da Armada não avançavam em direção a eles. Em vez disso, haviam formado um perímetro distante, contendo-se, esperando.
Karak estava já adiantado em sua fuga, mas ainda teve tempo de observar de sua embarcação, com vistas espias roubados da própria armada, do que seu pragmatismo o salvara. Pequenas formas na água, mal visíveis contra as ondas. Cães do mar, turvando a água rente a superfície.
Os outros piratas já preparavam seus navios para a guerra. Eles estavam certos que os navios da armada estavam se preparado para mandar pequenos botes de abordagem por causa da costa rasa das ilhas. Homens preparavam os canhões de terra para um eventual contra-ataque.
À medida que os navios piratas avançavam, a curiosidade se transformou em inquietação. Eles viram as mesmas pequenas formas flutuantes, e agora de perto, eram pequenas demais, mal suficientes para carregar um homem. E, no entanto, à medida que se aproximavam, uma onda de pânico se espalhou entre os marinheiros de olhos aguçados.
Então, a primeira explosão.
A detonação enviou uma onda de choque violenta pela água, uma explosão de fogo e aço que estilhaçou o casco mais próximo em farpas. Gritos se seguiram. Outro impacto. Outra explosão. O próprio mar parecia incendiar-se.
Maz Ynis. Rij Ynis. O pesadelo alquímico que moldava a política de alto nível.
Entre os piratas, muitos entendiam de química. Reagentes, limpeza de metais, purificação de água. Os alquimistas eram aqueles que conheciam os processos de transformação de matéria, e a química clássica nunca iria desvendar o Ynis. Ele era um desafio à noção experimental de química e física.
Rij Ynis, o fogo que empurra. Sua explosão dentro dos pequenos drones lançava farpas de seu casco e carga de chumbo grosso mais resistentes de que eram cheias suas baias de carga. Outros tinham bolas de impacto, com Maz Ynis. O choque acionava a reação de queima que iniciava o inferno.
A frota pirata tentou recuar, mas a armadilha já havia sido acionada. Mais cargas atingiram seus alvos. Madeira e carne carbonizada manchavam as águas das Ilhas Livres.
O fogo se espalhou para as margens. Subiu pelas docas, alcançando telhados de palha e passarelas de madeira, transformando a noite em um inferno.
Karak havia conseguido sair do perímetro da Armada, como uma barco de carga, mas ele podia observar os cruzadores que vinham pelo sul, entrando na Ilha pelos caminhos intocados. Eles começaram o cerco completo da Ilha.
Na costa norte da Ilha, os grandes cruzadores avançaram, seus cascos elegantes cortando o mar em chamas como predadores pacientes. Isso não era uma escaramuça. Era uma tomada hostil.
E a Armada se destacava em tais coisas.
Os cruzadores maiores permaneceram a uma distância, enquanto os Chernaya Bahakuda avançavam, seus desenhos próprios para águas rasas. Ao aproximar-se, o inferno em chamas era pouco incomodo para seus cascos negros feitos de pedra e metal. Suas rampas prontas para a próxima etapa do cerco.
Quando os primeiros Baluartes desembarcaram no caos de fogo e fumaça, os desgraçados, os escravizados, os acorrentados, os esquecidos, já haviam começado seu êxodo desesperado. Eles saíram de suas jaulas, dos porões dos covis de piratas, das entranhas de uma cidade que nunca fora deles. Tropeçaram em direção à salvação, em direção ao aço enegrecido dos guerreiros da Armada, com as mãos estendidas em súplica, rostos manchados de fuligem e lágrimas.
Alguns entre os piratas viram o que estava por vir e tentaram se reinventar em um instante. Mulheres e homens se despiam de suas roupas de crime, suas armas, seus passados, expondo-se ao brilho do fogo, descartando seus pecados como se a nudez por si só pudesse inocentá-los. No entanto, nada disso importava.
Para os Baluartes, não havia distinção. Nenhuma piedade. Nenhuma indulgência. Cada alma que chegava ao seu alcance era recebida com o mesmo veredito: um balote de escopeta, tão forte, e próximo que o simples impacto de um balote era suficiente para abrir as costas de quem era atingido no peito.
Os Harata, por gerações, foram os salvadores: comerciantes de refugiados, coletores de inteligência, catadores da miséria das ilhas do sul. Melica mesmo foi responsável por ajustar muitos fugitivos do cativeiro, ou piratas arrependidos. Jatica era prisioneira nas ilhas livres do sul, e agora é uma feliz gerente no mercado em Magenta.
Mas esta não era uma operação Harata. Esta não era uma colheita de conhecimento, nem uma coleta calculada de ativos. Isto era um extermínio. A Armada viera para reivindicar a ilha, não seus habitantes. O momento para diplomacia, se é que se pode chamar de diplomacia, havia acabado.
Enquanto os Baluartes estabeleciam um perímetro nas areias em chamas, a onda de soldados Falange começou sua descida, saindo dos barcos menores como uma maré rastejante de destino blindado. Ondas de Rifles de Assalto e Escudos alternavam por caminhos geometricamente planejados. Salvos de tiros eliminando aqueles que escolheram não se aproximar o suficiente para o fim nos balotes dos Baluartes.
Magenta abrira suas portas para aqueles com visão suficiente para aceitar a oferta, e aqueles que permaneceram sabiam, ou deveriam saber, o que os aguardava.
Foi por essa mesma inevitabilidade, os piratas se dissolvendo nas massas dos condenados, que este expurgo fora orquestrado com uma clareza tão impiedosa. Nenhuma piedade podia ser dada, nenhuma hesitação permitida. Os incautos, os azarados, os imprudentes, todos seriam derrubados pela Armada.
E quando os corpos pararam de se debater, quando os gritos se reduziram ao sussurro das brasas ao vento, a próxima fase começou.
Os esquadrões de demolição avançaram, sua tarefa clara: apagar os últimos vestígios da construção humana, devolver a ilha ao seu estado primitivo. Bombas de Maz Ynis, sobrenaturais em sua fome, foram postas a trabalhar. O fogo rugiu, a pedra desmoronou, e o que havia de civilização agarrado à estas margens foi desfeito. Levaria dias até que a Armada estivesse satisfeita, até que o último remanescente da presença da humanidade fosse engolido pela natureza. A natureza alquímica do Maz Ynis.
E quando o trabalho estivesse concluído, a Armada se retiraria para suas tarefas ordinárias. A questão entre os Harata e os Anoa em tomar a administração da ilha seria diplomática, resolvida em salas de reunião, em discussões amigáveis regadas a vinho e argumentos afiados.
Em pouco tempo, essas ilhas, como Magenta, iriam mudar de nome, e destino.