No extremo oposto de Purvatara, o Leste agita-se com presságios e bandeiras vermelhas. Na Fáscia de Seldanar, Audren permanecia em quieta contemplação, ouvindo enquanto um de seus conselheiros, o acadêmico Urbani Harakiel, que falava com urgência crescente.
— Grande Mãe, se o seu filho não mudar de rumo, não haverá nada que possamos fazer. Ele está fora de controle. — disse Harakiel, mal disfarçando sua impaciência.
Audren exalou lentamente, seu olhar distante.
— Mestre Harakiel, ele é um Seldanar. Ele cairá em si, com o tempo. Assim como eu. Eu me sentia como ele se sente quando tinha a idade dele. Era rebelde, e pensava que o mundo tinha que ser comandado.
Harakiel balançou a cabeça.
— Eu lhe imploro, por vossa graça, então, que tire Nushala dele. Se ele tratar a Armada como trata os Harata, eles o matarão por isso. Aos Harata ele importa pouco, mas à Armada, nem isso.
— Erítria é uma nação grande. Ele não importa ao Leste, mas é do Leste. O Oeste simplesmente não pode abrir conflito. Meu Legado não se incomoda tão facilmente. Ele indulge os sonhos de poder de Rentaniel, mesmo sobre ele mesmo. Ele poderia ter destruído Rentaniel, e nunca o fez.
Os lábios de Harakiel se comprimiram em uma linha fina.
— Essa pode ser a única razão que Rentaniel ainda respira. Isso e a irmã dele. Mas não podemos contar com esse crédito, dado o que ele está fazendo.
Audren se virou, observando o horizonte escuro além da janela aberta ao seu lado.
— O meu Legado está retornando à Fáscia. Rentaniel o seguirá. Eles permanecerão. Com o tempo verão que o lugar deles é aqui. Comigo, suas famílias, e longe desses jogos.
Audren desceu a um tom nostálgico, quase melancólico.
Harakiel exalou, como se pesasse se deveria insistir. Então, seu tom se aguçou.
— Grande Mãe, por quanto tempo acha que a Fáscia pode resistir quando o resto de Ealetra queimar sob o Vale do Silício?
Audren se virou, seus olhos brilhando como em triunfo.
— Meu Legado trará o poder do Vale. Nós teremos as relíquias, nós teremos a Matrona que falta. Sem elas, ninguém poderá empunhar o poder. Ninguém poderá desafiar a Fáscia. Nem mesmo minha irmã em Khadija.
— Em vossa sabedoria, como?
Audren levantou-se e juntou as mãos atrás das costas.
— Eu não dei minha filha apenas. Ele é Harata, o dom dele, e o dom de nossa família, com o dom da Sangamani. Uma caminhada de três poderosos dons. Ele pode ver as relíquias, ele pode pegá-las, e ele pode trazê-las. Ninguém mais pode.
A expressão de Harakiel escureceu.
— Grande Mãe, mas e se ele falhar?
— Temos os Silvani para garantir que ele não falhará. Ele sabe que estão aqui. Ele trará as relíquias, e todos eles estarão aqui, na Fáscia.
Harakiel hesitou, depois falou com finalidade.
— Se ele fizer isso, a Armada e Khadija virão atrás dele.
— E, no entanto, a general do Leste gosta dele quase tanto quanto eu.
— E quanto a Bo'utage? O povo dele nunca lutará por nós.
— Quando o Legado empunhar o poder do Vale, ele lutará. Se não por nós, por sua própria gente. Ele sabe que seu irmão precisa ser derrotado.
Esse foi o fim da discussão.
Audren havia deixado a Casa de Seldanar em Pasvara há muito tempo, forjando a Fáscia como seu próprio canto de Ealetra. Seu único objetivo fora garantir que, se a terra queimasse, a Fáscia sobreviveria.
Ela era Seldanar, tinha partilhado do conhecimento ancestral de sua gente. Um conhecimento que nem mesmo os Silvani tem. Um conhecimento que nem mesmo todos os Urbani de Khadija tem. A inundação não criara o Vale, nem dera à luz a escuridão que ali persistia. Seu ancestral, Hagara, dezenas de gerações antes, ainda uma filha dos Silvani, vira a Cidade do Conhecimento antes de sua queda. Ela selou o conhecimento com os druidas antigos de sua cidade. Essa ramificação familiar levava a Audren. As únicas mulheres em toda a Ealetra a conhecer profundamente os segredos da antiguidade Silvani.
Hagara, a última ancestral Silvani que lutara para que seu povo fugisse da sina de seu tempo. Um poder que não pode ser controlado, contido ou dominado. Os outros Silvani de seu tempo não haviam compreendido a ameaça que ele representava. Apenas os druidas do Conhecimento podiam ver os finos elos que ligavam o Vale, o Dilúvio, o Clima, e a Energia de Ealetra, e aquilo com a Caminhada.
E nas antigas histórias da terra, Hagara encontrara a verdade: O mal que espreitava no Vale fora aprisionado ali por sua própria espécie. Ancestrais dos Silvani causaram o dilúvio, com a deliberada intensão de selar o destino de um mal que se espalhava por Ealetra. Eles não 'fugiram' do Vale. Eles selaram o Vale e recuaram para as ilhas do norte, muito antes de as águas retrocederem. Milhares de anos apagados da história de Ealetra pelas águas, e guardado pela linhagem de seu povo.
Como muitas outras coisas, a história dos Urbani foi alterada por mãos Urbani e pelos Harata para se distanciarem dos Silvani, mas grande parte de sua verdade está escondida em mentes como a de Audren.
A Cidade do Conhecimento levou essa verdade consigo, privando qualquer Silvani desse conhecimento, e talvez por isso, levando-os a repetir os mesmos erros.
Audren seguia em existir. Esperando como suas antepassadas o dia em que iria passar seus segredos para a próxima. Essa seria uma de suas filhas. Ela estava certa e permitida não passar para seu filho, que além de não merecer tal conhecimento, era homem, o que entre os Urbani é um impedimento ao poder. Nushala era ainda muito nova, e precisaria de um Legado antes de poder assumir seu lugar.
Se Rentaniel controlasse Nushala, e esta Valaravas, ele poderia ter acesso a um poder que não era seu para ter.
Audren chamou um de seus guardas.
— Encontre Syvis. Diga a ela que prepare a antiga casa de Ayla. Não poupe esforços. Ela deve estar como se tivesse sido construída ontem.
O guarda saiu com urgência no passo.
— Ele vai voltar, e ficará. O lugar dele ainda é aqui. — Audren murmurou, voltando ao seu trono.