Raízes primitivas

A noite foi de celebração, e seguiu-se de um descanso profundo protegido pelos lanceiros e seus drones. Logo cedo, ainda antes de o sol dar seus primeiros raios, já estavam as mulheres Beruanos fazendo trabalho eficiente.
As brasas que foram mantidas vivas já estavam dando seu calor para a preparação de pães simples de farinha. Ainda assim, havia carne e temperos, era um desjejum para prosseguir a marcha. 
Mesmo com a comida a caminho, o resto já estava sendo preparado para a partida. As grandes tendas e os enfeites para celebração sendo desarmados e voltando aos veículos de carga. Os drones e postos de vigilância sendo recolhidos.
Era terminar o pequeno desjejum e seguir.
Os veículos começaram a preparação de saída, aquecendo os motores, preparando os sistemas todos, e vagarosamente sincronizando a navegação que seria transmitida aos batedores. Os veículos grandes poderiam sincronizar diretamente com satélites, e ativar os drones.
Então o comboio começou a rota para o próximo destino.
Alguns batedores e o veículo dos patriarcas ia na frente. O destacamento maior de batedores ia escoltando os veículos das mulheres e crianças. Eles eram mais importantes, e os patriarcas se era suposto serem capazes defenderem-se. Tais os paradoxos da sociedade Beruana.
Com os patriarcas ia Valaravas, que sentava-se à vontade entre eles, sua postura naturalmente régia, sua presença tecida na cadência de sua conversa. Ariel sentava-se ao seu lado, sua expressão equilibrada, recatada, uma decoração elegante, uma boneca. Ela se agarrava a Valaravas assim como outras jovens se agarravam a seus homens ali. Onde Ariel não conseguia definir como se comportar, ela as espelhava.
Cada palavra trocada, cada sutil mudança de tom, as correntes subterrâneas de poder e tensão passando pela discussão. Os Beruanos falavam em vozes nem um pouco discretas, e bem altivas, discutindo rotas comerciais, alianças mutáveis, as marés de escuridão se infiltrando nos territórios ocidentais. Os movimentos da Armada, a crescente agressão dos Onatra e a inquietação silenciosa, mas certa, que se fermentava sob a superfície de Ealetra.
Ariel não precisava falar. Ela apenas ouvia.
Sua mente armazenava cada palavra, cada frase, cada nome perdido como se os gravasse em pedra. Ela sorria nos momentos certos, assentia quando esperado, sua presença nada mais que uma afirmação silenciosa do poder de Valaravas.
Seu recém-adquirido dom do conhecimento já estava dando frutos: por trás de seu olhar, as peças de um quadro muito maior começavam a tomar forma.
— O oeste está fazendo barulho. — um deles dizia — Luar ainda resiste, mas a Trifronteira está agitada. Os antigos acordos não durarão ali.
— A Armada está com um deles. Valaravas o conhece. — Outro acrescentou. — Eles devem ter 'massageado' ele bem. Dizem que ele estava só o caco. Dizem que ele é traidor, outros dizem que é herói. Mas deve ser só um laranja.
Ariel não reagiu. Não se moveu, não enrijeceu, não permitiu que nenhum lampejo de reconhecimento traísse seus pensamentos. Mas ela ouviu.
— A Armada não liga pra nada. — outro zombou. — Eles logo logo vão passar por cima do reino dos bonecos no norte.
Ariel não se importava muito com Tirayon desde que seus governantes destruíram sua família e os jogou no exílio com a ameaça de execução, mas, dado seu conhecimento recém-adquirido na Fáscia, essas notícias eram importantes.
Valaravas, sempre composto, inclinou a cabeça ligeiramente, seus dedos batucando ociosamente na lateral de sua taça. 
— Erítria se divide, e a Armada tem cuidado. — ele ponderou. — Mas quando mover-se, vai ser com propósito. Se conheço aquela gente, um churrasco não vai demorar.
Um dos comerciantes mais velhos exalou, acariciando sua barba espessa.
— Não existe vitória no Norte. Não para a Armada, não para os selvagens, nem para nós. É uma terra maldita. — Ele disse balançando a cabeça.
Ariel encontrou o olhar de Valaravas brevemente, seu entendimento silencioso passando entre eles.
Os homens continuaram sua discussão, debatendo estratégias, pesando o lucro e o risco de se aliar muito de perto a qualquer força única. Os Beruanos, afinal, não negociavam em lealdade. Negociavam em oportunidade.
A expressão de Ariel nunca vacilou. Ela permaneceu como estava: a boneca de Valaravas, seu prêmio, sua sombra silenciosa.
— Eles precisarão de comida, metal e trabalho, meus amigos. Comida, metal e dinheiro Beruano! — O patriarca Salahim celebrou.
Todos os homens, incluindo Valaravas, ergueram uma taça repetindo a celebração, e as concubinas sorriram alegremente, e Ariel seguiu o exemplo delas, sua mente correndo em sua recém-descoberta proeza estratégica.
Uma voz, suave e cortante, interrompeu a folia.
— Sua boneca não fica triste com o que está acontecendo, Harata?"
Valaravas não teve pressa, tomando um gole de vinho, lentamente.
Ariel, sempre a sombra atenta, inclinou-se para mais perto, seus dedos se curvando contra o braço de Valaravas em uma reivindicação possessiva e natural. Ela não vacilou, não traiu nada além do que era esperado. A imagem perfeita: devotada, intocável. Dele. E como tal não falava com outros homens, só com ele. E eles com respeito não falavam com ela, só com ele.
Valaravas levantou as mãos como em exclamação do óbvio.
— Não fica. A nação dela é meu lar, e o rei dela sou eu. — Ele disse com tom final.
Risadas ondularam entre os homens, uma mistura de divertimento e aprovação. Era a resposta certa, a única resposta. Para homens e mulheres Beruanos, o homem deve ser poderoso, ele deve ser o rei delas, e seu clã, a nação delas. Não se trata de domínio ou servidão. Trata-se de prover e proteger.
Um brinde se seguiu, alto e afirmativo. As taças se chocaram, o calor do licor apimentado enchendo o ar. O homem que perguntara, aquele que buscara testá-lo, olhou de soslaio para sua própria concubina, sua expressão carregando algo pesado, algo ressentido. Um olhar de comparação. Inveja.
O oásis central do Beru não era nada como o oriental. Onde o primeiro fora um ponto de encontro animado, cheio de água e festividade, este era um posto avançado austero e isolado, formado não por qualquer assentamento permanente, mas pelo encontro de clãs, e a formação de uma cidade carregada por veículos disputando qual era mais colorido, mais rico, mais cheio de mulheres e crianças, e mais provido de comida e batedores. 
Os anciãos, como sempre, tomaram seus lugares designados: os homens ao norte, as mulheres ao sul, e as crianças e cuidadores no meio, o futuro do Beru protegido em seu centro silencioso. Como convidados, a equipe seguiu a mesma estrutura. Valaravas e Ariel sentaram-se entre os homens mais velhos, onde discussões sobre história, comércio e terra eram esperadas. Nandi, Erlan, Tarja e Nushala permaneceram com as mulheres mais velhas, onde os tópicos se desviavam para sobrevivência, linhagem e as sutis questões domésticas e artísticas.
O fogo da noite queimava baixo quando a conversa mudou.
O que começara como uma conversa ociosa sobre minerais, veios de cobre e depósitos de jade escondidos sob o solo compactado, se transformara em algo totalmente diferente. Vozes sussurradas, olhares trocados sobre a luz bruxuleante da fogueira. Uma pergunta que estava à espreita desde a chegada deles foi finalmente dita em voz alta.
— Valaravas, é verdade os rumores. Você pretende mesmo ir para o sul? — A voz áspera de um dos homens cortou os outros.
Um silêncio se abateu sobre a reunião.
Ariel sentiu a mudança imediatamente. O ar ocioso se fora, substituído por uma nova tensão, profundamente entendida entre esses homens. Eles não estavam apenas preocupados com ele. Eles temiam por ele.
— Você conhece a fronteira tão bem quanto nós — acrescentou outro. — Você sabe o que espera além dela. Se você a cruzar sozinho, ninguém o seguirá para recuperar seus ossos. Sua alma estará perdida para sempre.
Valaravas, reclinado nos grossos tapetes Beruanos, deixou as palavras assentarem antes de responder.
— É melhor que ninguém siga.
Seu tom era leve, mas Ariel, sentada perto o suficiente para sentir a leve mudança em sua respiração, sabia que era uma encenação.
— Você nos insulta então? — disse outro que estava calado.
Sua voz não carregasse ofensa, apenas o peso da expectativa.
Outro chefe de clã exalou, passando a mão pelo rosto.
— A terra além da fronteira invisível não é nossa. Não é de ninguém. Mas ela engole homens inteiros e não os devolve. Se você está tão determinado, deixe-nos enviar dois de nossos guerreiros com você. Deixe-os de proteção, se nada mais.
Ariel sabia que eles não estavam pedindo. Estavam afirmando o que deveria acontecer, o que devia acontecer para um homem de sua posição. Os Beruanos não eram um povo que deixava um amigo caminhar para o perigo sozinho, não quando vidas mais baratas poderiam ser gastas na mesma medida.
Mas Valaravas não era Beruano.
Ele se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A luz da fogueira projetava sombras mutáveis em seu rosto e, por um momento, seus olhos brilharam daquela maneira que Ariel aprendera a reconhecer: quando ele estava prestes a dizer algo que viraria a conversa inteiramente a seu favor.
— Vocês me oferecem guerreiros — disse ele, a voz comedida. — Mas o que espera além da fronteira não luta como homens. Não teme o passo de uma lâmina ou o golpe de uma lança. Não se importa se eu ando sozinho ou com um exército.
Ele deixou suas palavras assentarem antes de continuar.
— E além disso, se eu for sozinho, volto sozinho. Se eu levar seus homens comigo, o que acontece quando eu voltar sem eles?
Um silêncio profundo se seguiu.
Os anciãos se moveram, trocando olhares indecifráveis. Era uma verdade inegável. Se Valaravas desaparecesse além da fronteira, seria perda apenas dele. Mas se ele voltasse sem os homens que enviaram com ele? O povo deles teria perdido algo, e o peso desse fracasso recairia sobre ele.
O ancião chefe suspirou.
— Se fosse qualquer outro, não o deixaríamos ir. — O patriarca Salahim disse determinante. — Mas você nos trouxe uma vez o kyatus — ele concluiu. Não havia elogio nisso, apenas um fato. — Você caminha com eles.
Ariel viu o momento em que os anciãos cederam. Foi sutil, apenas uma leve mudança de postura, uma exalação, um murmúrio suave entre eles. Eles não o impediriam. Mas ela não conseguia encontrar nada em qualquer memória de qualquer tempo sobre o que era kyatus.
O tempo passa rápido quando o divertimento é farto, e já era tarde quase noite, e as últimas luzes do dia deram lugar às primeiras sombras da noite. A lua já abençoava aquela noite em seu abraço azul e tênue. Dentro do acampamento, Ariel ainda estava entre os Beruanos, observando Valaravas caminhar para o sul na jornada prevista. Ele passou por todos eles, saindo da formação do comboio e indo para o campo aberto.
Seus olhos podiam ver o que a maioria não conseguia. Ela sentia a partida de Valaravas como ninguém sentia, pois tinha caminhado com ele. O Harata andando sob o luar, e as hienas espreitando da periferia da escuridão. Ariel já vira feras atraídas por coisas estranhas antes: sangue, comida, os fracos e moribundos. Mas isso não era fome. Era diferente. Elas o observavam. Não como predadores avaliando uma presa, mas como criaturas atraídas por algo que não conseguiam entender.
Um arrepio percorreu-a, mas ela não interveio. O que quer que fosse, não cabia a ela interromper. Sua ansiedade a fez parar de prestar atenção e simplesmente confiar em seu Harata.
A matilha se movia em movimentos lentos e ondulantes, suas patas quase silenciosas contra a terra batida. Uma fêmea grande liderava o bando. Ela tinha as cicatrizes de anos de sobrevivência. Seu corpo tenso, os músculos se movendo sob a pele enquanto ela avançava lentamente. Os outros a seguiram em seu ritmo, cercando Valaravas em um crescente frouxo que se apertava.
Com uma facilidade casual, ele puxou a camisa por cima da cabeça, o tecido deslizando de seu corpo como um pano ritual removido de um santuário. Sua pele, bronzeada e magra com músculos que se destacavam sob o brilho frio do luar, seu corpo esculpido em movimento mesmo quando estava parado. Ele sacou seus karambites, silenciosos no ar noturno. O brilho metálico enviou uma ondulação pela matilha.
O desafio fora lançado.
Ariel podia sentir, como por dentro dela que algo estava passando por Valaravas. Uma tensão, algo de estímulo, mas havia medo. Ela ressoava com ele, ainda perto o suficiente. Alguma força sobrenatural do elo que tinham transmitia a ela a sensação, ou assim ela acreditava.
E então, ele se moveu.
Um fluxo contínuo, seu corpo mudando para a ginga, o ritmo balançante e hipnótico do combate Harata. Não era agressão. Ainda não. Era primal. Seus olhos encontraram cada um dos animais, segurando-os, puxando-os.
Ariel quase ofegou ao sentir o que passava pela mente do Harata.
As hienas menores começaram a vacilar. Suas posturas se curvaram para baixo, as caudas baixando, os corpos encolhendo. Ele estava mudando seus instintos, reescrevendo a lei de dominância da matilha com nada além de movimento e presença.
A fêmea grande, no entanto, não cedeu. Seu olhar se fixou no dele e, embora não entendesse o jogo, ela se recusou a abandoná-lo. Ela se preparou para atacar.
Valaravas não quebrou o ritmo. Seus passos balançantes se aproximaram, fechando o espaço entre eles, sua postura mudando: fera para fera.
A fêmea uivou pela noite, um chamado ao ataque para um dos seus, que se oferecesse.
Um rosnado rasgou a noite quando um dos machos menores avançou.
Em um único e fluido movimento, Valaravas avançou junto.
A fera se lançou para o ataque, ao que Valaravas se lançou sobre ela. Ele pegou a fera no ar e girou. As karambites brilharam, cortando fundo em pelo e carne. O peso da hiena não era nada em seu aperto. Seu movimento continuou, o impulso do animal redirecionado, arremessado contra a terra batida com um estalo nauseante.
Eles se testaram, a fera querendo achar algo para morder. A hiena iria estilhaçar o que quer que fosse com seu desespero aliado a sua força natural de mordida. Mas o tempo passava e nada ela conseguia abocanhar.
Valaravas se torcia em volta da fera, abrindo os cortes, e as lâminas curvas lacerando a carne. Alternadamente ele fincava cada lâmina em outro ponto, o sangue jorrando vivo sobre ele, morno e pegajoso.
Em um ponto, sangue jorrou em borrascas sobre seu peito, um arco violento, uma marcação ritual pelo próprio decreto da natureza.
O silêncio que se seguiu instigava o entendimento de homem e fera igual.
A matilha hesitou. A grande fêmea olhava, as narinas dilatadas, indecifrável em sua mente animal.
Então, ela se virou.
O resto a seguiu. Na quietude do Beru, eles fugiram, desaparecendo na escuridão de onde vieram.
Valaravas exalou, rolando os ombros, totalmente impassível. Ele limpou a lâmina de seus karambites em seu braço, manchando de vermelho a pele já pintada pelo luar.
Então, sem cerimônia, ele continuou para o sul. Sua travessia da fronteira fora conquistada aos olhos daqueles o território ele iria adentrar.