Quietude não é paz

O tempo passava e a tensão montava-se sobre os jogadores daquela mão. Valaravas ainda estava cercando o escritório, esperando, e coordenando. Ariel e Nandi seguiam no mercado, com o dia chegando ao seu poente.
No jardim, risadas fluíam, e Valaravas seguia deixando os três ausentes de tudo que acontecia por uma razão. Mas a paz estava para ser quebrada, não com estrondo, mas com a ausência do barulho de fundo.
Tarja e Nushala estavam se conhecendo melhor, como a Carpata melhor conhece as pessoas: Treino de luta.
Erlan observava, atento mas quieto. Ele não estava sendo diretamente alertado, mas ele sabia, era questão de tempo até que a Urbani atraísse o tipo errado de atenção. Ele já havia protegido crianças do poder antes para saber que eles sempre estão no alvo de alguém que nem mesmo os conhece. E ao contrário, Nushala era conhecida, de muitos.
O som dos passos aproximando era a deixa para Erlan entrar em modo de espera. Valaravas chegava trazendo um papel. Ele pressionou o papel no peito de Erlan, com um impacto firme para entendimento, mas estratégico para a reação de agarrá-lo. Ele apontou para Tarja e Nushala, e fechou o punho: Pegue as duas, entre e proteção.
Erlan leu o que estava escrito, era entendível, como o protocolo da Armada.
[Lâmina vê movimento. O homem de vime quer a princesa fora. Operação em andamento. Proteja a princesa. Estamos aí. 5645]
Ele não conseguiu decifrar tudo, mas, no que lhe dizia respeito, aquilo significava, dadas as circunstâncias, que alguém estava vindo por Nushala, enviado por seu pai, e em sua experiência, isso significava que queriam remover a garota, para que uma equipe de limpeza cuidasse do resto com extrema violência.
Erlan olhou ao redor e seguiu para preparar-se para defesa. Enquanto se movimentava, ele observou pelo canto da visão que moviam-se pelas frestas ao longe, e pela rua, laceradores Urbani, sem uniforme.
Ao chegarem, ele deixou Tarja e Nushala entrarem primeiro, observando que os Urbani lá fora não vinham pela frente.
Tarja, com equipamento completo, esperava na sala de jantar. Erlan assentiu, Tarja assentiu, e ele foi.
Valaravas levou Nushala pela cozinha, descendo para a adega. Não havia janelas, nenhuma outra entrada exceto a da cozinha. Se o lugar era seguro, ela estaria segura.
Ele foi para a cozinha. Pegou dois espetos e marchou para a sala de jantar, onde Tarja já examinava a vista em busca de ameaças.
Valaravas sinalizou para Tarja bloquear o acesso à adega.
Enquanto seguiam, eles viram o vulto cruzar o mirador da frente. Eles estavam vindo por cima.
Erlan posicionou-se perto da entrada da sacada. Sinalizando para Valaravas seguir pela ala de trás da casa.
O Urbani entrou pela varanda e Erlan o desarmou já chegando com seus karambites apostos. Pistolas ali eram inúteis entre dois lutadores já em distância mínima, em um corredor apertado.
O algoz Urbani, usando adagas de aço azul, teve que lidar com o alcance que Erlan tinha sobre ele.
Erlan, já conhecendo o lugar de cor, tentou empurrar o inimigo de volta para o escritório. O combate deles fluiu com Erlan no comando. Ele havia aprendido a antecipar. O escritório era mais confinado e com várias superfícies pontiagudas que ele já conhecia a localização.
Ao se aproximarem das prateleiras da primeira sala, Erlan viu uma abertura.
O lacerador Urbani tentou cravar a adaga no flanco de Erlan.
Erlan rapidamente mudou o anel de seu karambite do indicador para o polegar e depois para o dedo mínimo.
Usando o apoio das prateleiras, ele prendeu as mãos com a adaga do invasor Urbani com os pés e, usando as karambites, ele entalhou a armadura e o peito do inimigo usando suas lâminas curvas como tesouras.
O Urbani tentou atingir Erlan com as pernas, mas o espaço confinado do armário de prateleiras limitou seu alcance.
Enquanto isso, Valaravas movendo-se já em uma ginga que parecia reptiliana, ele lentamente desapareceu entre as sombras e os móveis da sala.
Incapaz de manter contato visual, Tarja segurou seu bastão e entrou em ângulo, forçando qualquer atacante a mostrar-se antes de poder atacar. Distância era pouca, ela já carregou o cartucho de bala. Era uma e veste, costelas e músculos já eram.
Outro lacerador Urbani entrou pela janela superior da sala de jantar. Ele entrou em um movimento fluido e encurtou a distância para Tarja tão rapidamente que a baluarte mal teve tempo de reagir.
Tarja assumiu a postura baixa do bastião e esperou. Um ataque definido se formou, denunciando a posição do Urbani.
A baluarte ergueu o joelho e deu um coice no atacante que o jogou dois metros de distância. 
O Urbani se recuperou, levantou-se e fez menção de ir atrás de Tarja, mas parou. Um ruído, algo começando como o pio de uma coruja e terminando como o rugido de um leão, ecoou pela sala.
Enquanto o lacerador Urbani se encostava na parede examinando os arredores, uma dor aguda se alastrava por sua perna. Olhando para baixo, ele viu um espeto cravado entre os ossos de seu pé.
Ele se abaixou para remover o espeto, um vulto passou usando um chute com os dois pés em sua cabeça, desorientou-o.
Ao se levantar, ele não conseguia ver nada além de Tarja guardando a porta da cozinha. E ostentando um sorriso malicioso.
O Urbani examinou o local e não viu nada. Examinou novamente, e na entrada do salão principal para a sala de jantar estava Valaravas, de pé, de braços cruzados.
Ele tentou ir mancando na direção de Valaravas. Provavelmente uma vez que entrou, teria que lutar, mas era óbvio que estava perdido.
Apesar de entre os ossos, o espeto atravessou o músculo flexor central e o quadrado dos pés do Urbani, crucial para a vantagem do andar leve.
Valaravas moveu-se para a esquerda, atrás da parede, o Urbani se aproximando.
Quando o Urbani virou à esquerda, não havia ninguém lá.
Da borda superior, onde os quartos davam para o salão principal, Valaravas deu um chute em queda, saltando para trás em um pulo pivô e assumindo a ginga.
Cambaleante, o lacerador se virou para encontrá-lo, mas encontrou apenas seu calcanhar, um coice circular, que ao Urbani tentar se recuperar entrou na linha de outro coice, e desorientado ficou na linha de outro coice, que seguiram até que não podia mais se manter em pé, cada coice mais forte com o momento do giro do Harata.
O Urbani, com os olhos lacrimejando e ensanguentados, o nariz quebrado, estava perdido, e atordoado. Seguindo o giro do corpo Valaravas aproveitou o momento esticando sua mão armada para enterrar o espeto no pescoço do Urbani de lado a lado.
O Harata não perdeu tempo. Um barulho atrás dele, outro Urbani caindo mole, e Erlan descendo, deslizando pelo corrimão da escada.
A sala ainda vibrava com os ecos esmaecidos da violência, o cheiro de aço e suor denso no ar. Erlan postava-se sobre o Urbani caído, as karambites ainda escorregadias de sangue, sua respiração lenta e medida enquanto examinava o salão mal iluminado. Em frente a ele, Valaravas endireitou-se, sacudindo gotas de seus dedos, seu corpo ainda contraído de tensão.
— Temos olhos lá fora? São todos? — Erlan perguntou já preparando-se.
Valaravas não respondeu imediatamente. Seu olhar varreu a sala, procurando por quaisquer sombras restantes que ainda não tivessem se revelado. Seus instintos lhe diziam que não havia mais ninguém, mas o instinto sozinho era a garantia de um tolo. Ele exalou, inclinando a cabeça ligeiramente, escutando.
— Silêncio não é o melhor sinal. — O Harata disse, indo para o centro da sala de estar.
E então, a porta da frente rangeu ao abrir.
Ambos os homens assumiram uma postura de combate, corpos tensos, músculos preparados para atacar. Mas antes que Erlan pudesse se mover, Valaravas ergueu a mão, detendo-o.
Da fresta da porta, um único pé calçado emergiu, batendo um ritmo lento no chão de madeira.
Os ombros de Valaravas relaxaram apenas ligeiramente. Ele deu um tapinha no ombro de Erlan e acenou antes de dar um passo à frente, abrindo a porta completamente.
Uma figura estava lá, silhueta contra a noite. Um karambite curto na mão, a lâmina escorregadia e brilhando escura com sangue fresco. Um agente da Lâmina.
— Os outros já foram processados, Vossa Excelência. — murmurou o agente com a voz formal.
— Perímetro? — Valaravas indagou.
— 100 com 10. Livre. Ficaremos. — O agente respondeu imediatamente.
Valaravas exalou, finalmente baixando a guarda enquanto abria mais a porta. Os três corpos espalhados pelo salão foram totalmente iluminados agora. O agente se virou, dando um sinal agudo. Outra figura emergiu das sombras, dando um passo à frente para se juntar a ele.
Silenciosos, eficientes. Sem cerimônia, eles pegaram os corpos, arrastando-os silenciosamente para a noite.
Quando a porta se fechou mais uma vez, selando o rescaldo de seu confronto, Valaravas se virou para Erlan. Um sinal de cabeça. Erlan questionou, sem entender as palavras Harata que eles trocaram.
— 100 metros, 10 agentes. Eles não tem contato. Vão rodar por mais um tempo, mudando a formação e distância, afunilam qualquer suspeito. — Explicou Valaravas em Silvani.
Eles se moveram pela bagunça de sua casa, passando por cima de móveis deslocados, desviando de poças de sangue onde antes havia sombras. Encontraram Tarja no salão de jantar, ajustando seu aperto no bastão, os olhos ainda aguçados, procurando a próxima ameaça.
Ela ergueu o olhar para eles enquanto se aproximavam, seus lábios se curvando em algo perigosamente próximo da decepção.
— Terminamos? — ela arrastou as palavras, a zombaria em seu tom leve, mas não totalmente insincera.
Erlan sorriu, um pouco desajeitadamente para ser verdadeiramente travesso, mas o esforço estava lá.
— A luta sim, mas se tiver energia de sobra pra gastar, podemos pensar em outra coisa. — Erlan disse rindo.
Valaravas tomou um tempo para observar a situação. Harata, ele tinha a natureza linguística de seu povo. Menos que estranhar como se comunicavam, ele estava admirado dos níveis da flexibilidade que Erlan agora admitia. Ele estava tomando parte da família Harata deles.
Tarja balançou a cabeça, pegando as mãos Erlan nas dela, sentindo o leve tremor ainda persistente do esforço.
— Você cuida da garota, certo? — Tarja perguntou com uma certa preocupação.
Valaravas apenas assentiu antes de virar nos calcanhares, voltando para a cozinha, descendo em direção à adega onde Nushala fora escondida.
Mesmo antes de entrar no espaço mal iluminado, ele pôde sentir a presença dela, a maneira como sua respiração engasgou ligeiramente quando ouviu sua aproximação. Ele entrou, fechando a porta atrás de si.
Nushala sentou-se em um banquinho baixo, os joelhos junto ao peito, as mãos envolvendo os braços em uma pobre tentativa de se proteger, talvez psicologicamente. Seu rosto estava pálido, seus olhos normalmente aguçados, arregalados com um pavor não dito.
— Eu ouvi. — Ela dizia em prantos. — Meu pai, não foi? Ele está por trás disso!
Valaravas não acreditava em palavras suaves ou confortos falsos. Os Harata não acalmavam. Eles falavam a verdade, e a falavam claramente.
— Ele quer tirar você. Provavelmente para ter abertura para usar força maior e eliminar o resto. Com métodos mais, brutais.
Ela soltou uma respiração lenta e trêmula, assentindo como se esperasse por isso. E talvez esperasse. Mas a expectativa não suavizou o peso da realidade.
— Você não está com medo? — Nushala dizia entre suspiros. — Eu estou.
— Medo não é fraqueza. A menos que deixe mandar na sua razão. Esse é o problema do seu pai. — Valaravas tentou amenizar.
— Seu pai. — disse ele, ajoelhando-se para nivelarem-se. — Você não está pronta para o que isso trará à você?
Nushala engoliu em seco, olhando para a mão dele por um longo momento, depois para o rosto. Os lábios da jovem Urbani se entreabriram, como se quisesse perguntar algo, mas não sabendo como.
— O que isso quer dizer para mim. Eu algum dia estarei livre dele? Das coisas que ele faz? Elas me seguirão pro resto da vida.
Sem dar tempo a resposta, ela simplesmente estendeu a mão e pegou a dele.
Valaravas exalou pelo nariz, algo quase como aprovação piscando por trás de seus olhos cor de mel. Ele tirou algo do bolso, um pequeno serial rústico, como dos nômades. Ele o pressionou na palma dela. Quando fechou, os olhos dela perderam-se, enquanto ela lia os relatórios.
— Seu pai partiu. — Disse Valaravas. — Ele foi para Suyantara. Provavelmente algo que ele já planejou há muito tempo. Ele talvez esperasse que levassem você pra ele.
Nushala piscou, atordoada.
— Ele partiu?
Valaravas deu um aceno curto.
— Ele abandonou o jogo da Fáscia. Provavelmente buscando apoio em Khadija, com os grupos de lá. Muita gente vê a leniência a Tirayon como uma traição dos antigos. Eles acham que eles fugiram de Tirayon por raiva.
Os finos dedos de Nushala se curvaram em volta do serial, apertando-o com força. Por um momento, ela sentou-se em silêncio, deixando o peso das palavras se assentar sobre ela. E então, com uma certeza lenta e deliberada, ela ergueu o olhar para ele.
— Então eu acho que estou sozinha agora. — Nushala se encolheu um pouco.
— Você é a única herdeira de sua vó. Em coisas de Urbani, sim. — Valaravas disse puxando-a para ele.
Ela lentamente aceitou seu puxão.
Valaravas elevou o olhar dela, carinhosamente levantando o queixo da menina Urbani, encontrando seus olhos.
— Mas você não está sozinha. Tem a nós, todos. — Ele disse sorrindo.
Valaravas e Nushala subiram, saindo pela sala de jantar. Enquanto os corpos já haviam sido retirados, os sinais de uma luta e o sangue espalhado pelo hall de entrada contaram a história para a garota Urbani, que via a realidade de que foi protegida durante tanto tempo.
Enquanto saíam e observavam a lua se mostrando suprema no céu da Fáscia, tranquila e banhando amarelada luz pelo gramado, Nandi e Ariel estavam chegando, seguidas por Syvis.
Ariel veio mais rápido ao ver as marcas de sangue ainda persistentes em Erlan e Valaravas.
Ela se aproximou de Valaravas, seus olhos se encontrando em uma troca terna. Eles se beijaram brevemente. Nushala ainda se apegava a Valaravas, apesar de mais alta que ele, parecia encolhida pelos eventos recentes.
Ariel não disse nada, apenas abraçou os dois, apoiando o queixo sobre a cabeça de Valaravas, agora aparentemente a mais alta, em altura e resolução.
Nushala pegou a mão de Ariel firme, beijando-a, pressionando as lágrimas que corriam pela mão da Silvani. Um sinal cultural, mais antigo que o cisma Urbani, que significava que Nushala reconhecia Ariel como a senhora da casa, e sua palavra era lei.
— Isso tem que acabar, Val. Tem que acabar agora! — Ariel disse, com assertividade.