Os primeiros murmúrios do despertar no coração de Magenta, vindos de ruas distantes aninhadas em seu interior pacífico, sinalizavam que um novo dia estava começando a trazer da ilha o seu habitual mercado diurno, barulhento e caótico.
Logo estaria fervilhando com os ritmos do comércio e do trabalho, os gritos dos pescadores preparando suas redes, o ranger das carroças de bois carregadas com a colheita, os comerciantes montando suas barracas. A maré traria seu fluxo diário de navios, e com eles o interminável alvoroço de pessoas, negócios e intrigas sussurradas.
Mas os pensamentos de Ariel se afastavam da agitação da vida diária.
Ela sentou-se imóvel, seus dedos traçando padrões ausentes no tecido impecável de seu Ta'khame, sua mente juntando fragmentos esparsos de conhecimento, verdades desconexas que ela havia ignorado anteriormente, agora se alinhando com uma clareza perturbadora. Se o Ta'khame da Vila do Luar era uma mensagem misteriosa, agora, em Magenta, era um presente de Valaravas, assim como a informação que ela encontrou, entregue diretamente.
Vale do Silício. Nunca fora apenas uma ruína abandonada, nunca apenas uma terra morta e sem nome onde invasores e bandidos desapareciam na escuridão. Quanto mais fundo ela olhava, mais o via gravado na tapeçaria da história, não como um mito, mas como algo estudado, documentado, preparado. Os sinais sempre estiveram lá, escondidos em pesquisas que poucos pensaram em conectar.
Artefatos de suas profundezas já haviam surgido antes, estudados por acadêmicos Urbani, por ela, Ayla, a Urbani que criou e amou Valaravas, uma afirmação que ainda soava estranha para ela. Para os Urbani, relacionar-se com estrangeiros era um caminho de vida, para os Silvani, um insulto, usado contra sua irmã, usado antes como provocação por seu irmão contra ela mesma. O que isso significava eles sabiam. Há muito tempo. E isso, por sua vez, significava algo mais: os Urbani estavam ligados aos Harata, e muitos deles, intimamente.
Não apenas os Harata com seus Urbani estavam metidos nessa história. A Armada Onatra também.
Relatórios de seus arquivos confirmavam um esforço que se estendia além de um reino, um povo. Esta não era uma aliança oportunista de necessidade. Tinha o peso de algo muito mais antigo, construído ao longo de gerações. Não era apenas uma conveniência em tempos de guerra, não apenas sobrevivência em uma época em que os Silvani eram caçados e ultrajados.
Ariel sempre ouviu que as nações se uniram para lutar contra os Silvani. Isso se tornou conhecido por eles, os Silvani, dessa forma. Mas talvez os Urbani estivessem trabalhando com os Harata desde antes, talvez até mesmo antes de se separarem dos Silvani ancestrais. Teria a Cidade do Conhecimento viajado para o oeste e se estabelecido perto dos Harata porque os Harata os convidaram?
E os Silvani? Eles nunca souberam? Do que mais seu isolamento autoimposto os privou? Criar e viver com Harata era, na mente de Ariel, algo que os Urbani faziam por interesse próprio, oferecendo algo aos Harata em troca de moldá-los. E se não fosse apenas isso, mas essa longa tradição também servisse aos Harata para transformar os Urbani em algo que eles, os Harata, pudessem usar para alavancar-se, a memória e a cultura Urbani. E se os Urbani fossem ferramentas dos Harata também?
Ariel procurou os Harata por suas redes, pelas oportunidades que ofereciam. Mas agora ela começava a perceber que precisava deles muito mais do que eles jamais precisaram dela. O que significava uma coisa: eles a trouxeram aqui por um motivo.
Isso, muito perturbava, aquela perturbação que parece uma coceira alérgica. E não a noção de ter uma razão, mas ela ignorar qual era.
Ariel sentou-se em silêncio, revirando os pensamentos em sua mente, o peso da manhã pressionava-a, as perguntas circulando com uma persistência que ela não conseguia afastar.
Se os Harata precisassem de guerreiros, os Urbani tinham de sobra. Se precisassem de conhecimento, seus acadêmicos estavam entre os melhores do mundo. Seu povo tinha um dom inato para ver os padrões do mundo, para vislumbrar sua lógica oculta antes que outros pudessem juntar as peças.
Valaravas não a teria mantido em sua órbita se tudo o que quisesse fosse informação. Ele não precisaria manipular seu interesse ou usar a intimidade como ferramenta, se esse fosse seu objetivo, ele poderia tê-la encantado no Cântaro Dourado, levado-a a Magenta para um passeio e terminado com isso. Tinha que ser outra coisa, uma razão para que ela precisasse ser uma Silvani, uma Silvani da Serenidade, e especificamente ela, não Erlan, ou qualquer um dos outros refugiados da Serenidade que se acotovelavam para a Trifronteira desde os tempos de guerra.
Uma presença em movimento a trouxe de volta ao momento. Erlan. Seu irmão acordou, movendo-se com agilidade fluida de um lutador natural. Ele não olhou para ela imediatamente, mas Ariel sabia que ele já a havia visto, seu silêncio, sua tensão, sua preocupação.
— Ansiedade irmã? O sono é importante. Deixe seus problemas pra lá um pouco.
Ariel não se moveu. Sua postura permaneceu a mesma, os dedos ainda percorrendo a trama de sua roupa. Ela não abriu os olhos quando respondeu.
— Eu preciso acreditar que tudo isso tem um valor, irmão. Que eu tenho valor. Que eu não sou meios para um fim.
— Irmã, nem eles mesmos prometeram qualquer coisa mais do que isso. Essa sempre foi a sua esperança.
— Valaravas é legado de uma Urbani. Ele pelo menos deve dar valor a nossa humanidade.
— Ele é Harata. Para ele existem os Harata, e existe o resto, irmã. Não crie ilusões.
Ela hesitou, o pensamento se formando enquanto o falava. Apenas algumas horas atrás, ela fora pega em sua gravidade, puxada por sua presença, atraída para sua órbita. Comandando sem força. Inclinando o mundo em sua direção sem esforço. Mas agora, na penumbra silenciosa da manhã, essa gravidade parecia mais fria. Mais calculada.
— Talvez seja Nandi e todo esse mistério por trás dela que provoque minha mente. Ela sabe mais do que podemos imaginar.
Nandi sempre falara com sabedoria, em frases enigmáticas que pareciam mais profecia do que conversa. Ariel as havia descartado a princípio como o misticismo natural de uma Sangamani, mas agora? Agora ela não tinha tanta certeza.
— Irmão, se Nandi é vidente, feiticeira, ou se é só louca, não importa. Se Valaravas acredita nela, é suficiente. É um argumento para a crença dele. Um motivo.
— Eu acho que você está com ciúmes porque ela é mais apaixonada pelo Valaravas do que você.
A expressão de Ariel escureceu. Ela não sabia como responder.
Erlan encontrou seu olhar, os olhos firmes. Demandava uma resposta.
Suas palavras a atingiram mais forte do que ela esperava. Ela se enrijeceu, os dedos se apertando contra o Ta'khame.
— Irmã, você quer um motivo para justificar que ele corresponde seus sentimentos. É natural, somos jovens, e todo aquele papo de adulto. Mas lembre-se: Até agora, você só não caiu na dele porque ele não permitiu que isso acontecesse.
Havia uma diferença entre atração e encantamento, uma diferença sutil, mas que importava. E, no entanto, a linha entre eles havia se turvado na noite passada, ainda que momentaneamente.
Erlan exalou, balançando a cabeça.
— Então, esqueçamos eu e Valaravas por enquanto. Há outra coisa sobre Nandi que incomoda. Os estudos falavam sobre os Arata.
[Humanos antigos. Os Filhos de Arata, viviam nos arredores do Vale, e migraram para as cavernas no sul do Vale durante o recesso das águas. Eram praticantes de Rituais de Sangue.]
— Nós sabemos que os Suryavarta eram conhecidos como elaboradores, como Nandi, como as mulheres Sangamani. E os Sangamani são os únicos humanos diferentes de nós, sem a nossa ancestralidade, que não são descendentes dos 'Filhos de Arata' também.
— O que você quer dizer com isso, irmã?
— De onde os Sangamani vieram? Se eles não são descendentes dos Silvani ancestrais nem dos Arata? Os povos das montanhas são culturas isoladas desde antes de tudo isso, aparentemente.
— Como você disse antes, irmã, não importa o que é realmente, desde que eles acreditem em algo, já é importante para entender suas motivações.
— Ainda mais que os descendentes mais diretos e que mantêm a cultura Arata há muito tempo são os nativos do Sul do Beru, o que não faz sentido.
— Mas os documentos também dizer que os Harata são uma diáspora do Beru, que vivia nos mares e em vilas nos litorais. Como nômades das águas. Nesse seu mundo antigo imaginário, eles, os Beruanos, e esses Selvagens do sul ainda são 'a mesma coisa' em lugares diferentes.
— A mudança de cultura só faria sentido se esses povos que saíram do Vale quando as águas baixaram tivessem encontrado outros povos que não estão nessa história. É muito pouco tempo para que povos de um mesmo lugar divergissem tanto.
O peso disso se instalou sobre eles como uma névoa.
Erlan sabia pouco de academia, mas conhecia a guerra. Se Ayla de Seldanar, uma acadêmica e maquinista de guerra de quase trezentos anos, arriscou e perdeu a vida em busca de algo no Vale do Silício, então o que quer que estivesse escondido lá não deveria ser subestimado.
— Mas sempre tropeçamos na mesma coisa por todo lado. Ynis. Os reagentes necessários para sua fabricação são o que parece importante para esse interesse no Vale. Apenas lá e nas Terras baixas encontram-se. — Voltou Ariel ao ponto.
— Mas os Harata não se interessam por Ynis. Eles tem a Armada e os Urbani para 'abrir caminho' a ferro e fogo.
— Não importa, irmão. A questão é que a Armada não vai ao Vale, mas tem Maz Ynis. A Fáscia não vai ao Vale, mas tem Maz Ynis. Khadija está no outro continente, e não tem Maz Ynis. Falta uma peça nisso tudo.
Erlan riu-se com um divertimento ácido.
— No fim de tudo, irmã, o que vejo é que seu Harata parece ser mais problema do que solução em vários sentidos.
Ariel não se dignou a responder. Ainda assim, uma voz cortou a tensão.
— Vamos, que temos que partir. O trem não vai esperar.
Eles se viraram para a porta.
Tarja estava de braços cruzados, sua presença não mais a de uma forasteira. Ela havia mudado. Enraizada. Em seu lugar, em seu propósito. A incerteza do primeiro encontro se fora. A força natural do Baluarte havia se acomodado em sua postura, na maneira como ela se posicionava para ver tanto dentro quanto fora da sala, uma sentinela natural.
— E temos ainda que fazer o desjejum. Não vejo uma refeição decente em um futuro próximo nessa viagem. E eu não sei essa coisa Silvani de vocês aí, mas vocês parece que viram um fantasma.
Eles seguiram Tarja para fora, caminhando pelo caminho batido em direção à cabana com vista para o cais.
Enquanto caminhavam, Ariel notou seu irmão contemplando o corpo de Tarja enquanto andavam, a Carpata indo mais à frente. Ariel não disse nada, mas um sorriso suave formou-se em seus lábios. Talvez Erlan estivesse começando a pensar que a vida estava oferecendo novas oportunidades, para mais do que trabalho e abrigo.
A manhã estava agradável, e o vento carregava o cheiro de salmoura e terra enquanto eles se acomodavam no parque com vista para a costa rochosa. Valaravas se juntou a eles, apoiando-se preguiçosamente no corrimão de ferro, o mar se estendendo infinitamente além do horizonte.
— Agora que vocês tem a informação, devem ter perguntas. Só vão devagar. Interrogatórios de barriga vazia são difíceis. — Valaravas disse displicente.
— Arata ? — Perguntou Ariel.
— Você sabia do que havia lá sobre isso? — Perguntou Erlan.
— Eu sei de muitas coisas, sou Harata, juiz do Consórcio, e tenho amigos que enxergam longe. — Ele olhou para Nandi de relance. — Mas eu não sei de tudo. Eu não me lembro de tudo. E nem tudo é importante eu saber. Muita coisa é importante vocês saberem, mas não eu.
— E no entanto: Legado da Urbani mais conhecedora da história dos povos. — Erlan disse com um tom sarcástico.
— É justo. Filhos de Arata, ou quem se denomina assim, eram mais místicos brincando com deuses de sonhos. Algo no vale ou eles perderam, ou nunca tiveram, mas seguiam buscando.
— Como consultar a Alquimia Universal. — Ariel disse com assertividade.
— Isso é o que acreditava Ayla, supondo que eles acreditavam em algo como nós, os Harata, e os Beruanos. Assumindo que é uma crença que temos porque descendemos deles. Muito assumido, mas pouco realmente provado pela pesquisa.
— Os dissidentes vivem no vale. — Erlan acrescentou, como uma peça solta.
— Entre os dissidentes, há todos os povos. Onatra, Silvani, e mesmo Harata. Um Harata não deixa de ser Harata tão facilmente. É algo que está em nosso sangue.
— Mas e os 'Harata da Fáscia' ? Como você! — Ariel estava com aquele olhar de 'te peguei'.
— 'Harata da Fáscia' é como 'Urbani da Fáscia'. Somos do Leste. Temos uma visão diferente desse joguinho que o Oeste faz de poder. As nações do Leste são mais unidas. Aparentemente o pessoal desse lado tem essa visão. Mas nós, Harata, somos o mesmo povo, leste ou oeste, consórcio ou dissidentes.
Ariel ficou com aquela expressão Harata da Fáscia guardada no fundo da memória. Com certeza isso seria importante para o futuro, mas outro assunto era mais importante. Ela levantou um dedo, insistindo no ponto.
— Dizem os arquivos que muito antes de nós, Silvani, o Consórcio já havia lutado com o que quer que existe no Vale. — Ariel seguiu como se aquilo fizesse sentido.
A declaração deixou um silêncio desconfortável em seu rastro. Tarja se inclinou para a frente, apoiando os antebraços na mesa de madeira.
— Se era tão importante, por que não existia Carpata no Consórcio? Por que não ajudamos de alguma forma? — Tarja perguntou com um tom esperançoso.
— Tem certeza que quer ouvir isso? — Valaravas disse com gravidade. — A resposta pode não ser o que você espera?
— Sim. Certeza. — Tarja assentiu.
— Seu povo estava sendo protegido por Erítria e pelos Urbani. — Valaravas disse com cuidado.
— O que ele quer dizer que na guerra anterior entre os povos das montanhas e os Silvani, nós quase matamos todo o seu povo. — Ariel disse com um ar de comando.
— Podia ser mais delicada, mas sim. — retrucou Erlan.
— Mas Onachinia tem Edifícios antigos, tradições milenares. Como? — Tarja insistiu.
— Os povos da montanhas tinham elaboradores, como os Sangamani. Decidiram lutar junto com guerreiros. Sangamani, guerreiro e elaborador juntos, suporte, ataque, vive junto, morre junto. O povo das montanhas, elaboradores lutando aqui, guerreiros lutando ali. Elaboradores morrem primeiro. — Nandi interveio com finalidade.
— Elaboradores Carpata? — Tarja estranhou.
— Fazer pão, fermentado, Carbóleo, é a mesma coisa. Seu povo só aprendeu a usar o que conhecia para si mesmo, alimentar-se, fazer negócio. Suas ruínas antigas não são o que se tornaram depois. Elas eram templos de alquimia. Tornaram-se indústria depois. — Nandi expandiu.
— Mas e os Sangamani? — Tarja e Ariel perguntaram juntas.
— Povo diferente, lugar diferente, história diferente. Não vem ao caso. — Nandi disse com um sorriso.
Um silêncio se estendeu entre eles.
— De qualquer jeito ainda há muito o que fazer antes de seguir para o Vale. — Disse Valaravas com finalidade. — Precisamos de provisões, planos, e mais informações. Estamos de saída para a Trifronteira, e depois para a Fáscia. Assuntos de negócios nos esperam antes.
A volta no barco para a cidade do Luar foi silenciosa, e havia muito o que pensar ainda pelo caminho.