O cruzador de Andrei atracou mais uma vez na Cidade do Luar, sua estrutura fazendo um pouco de barulho ao atracar. Ele estava danificado por fora, mas uma ativação do tornado com aquela brecha, e o casco poderia abrir como uma lata de conservas.
O cruzados precisava de estaleiro, e Andrei precisava de tempo. Tempo para respirar, tempo para pensar, e deixar o comando escorregar por sua mente por apenas uma hora, ou duas.
Como sempre, Melica estava ali para ajudá-lo, ou assim ele acreditava. Seus pensamentos, com muita força, saíam para uma família que ele nunca poderia ter, simulada em algo que ele poderia deixar escapar-se de toda a pressão dos acontecimentos.
Andrei sempre tinha o interesse da Armada antes de tudo, e sua lealdade era inabalável, um alicerce que mantinha sua sanidade profissional. Entender Ealetra era, por outro lado, mais complexo. O mundo nunca era tão simples quanto as ordens que ele seguia e, muitas vezes, ele permitira que o conhecimento passasse por ele como água, vendo mas não agindo, sabendo mas nunca interferindo.
Desta vez, porém, não havia ação a ser tomada, apenas o peso do que ele já sabia. Seus suboficiais declararam necessidade de parar em Luar por avarias comprometedores no Cruzador, mas sua experiência não concordava com os relatórios. Ele precisava pensar.
Enquanto o calor da Taberna do Luar o envolvia, enquanto o sorriso de Melica puxava os cantos de sua mente, a decisão estava sendo tomada por ele. Cada momento em que ele não agia, cada respiração que dava fora das linhas rígidas de seu dever, era mais um passo em direção à contradição.
E, no entanto, ele não impedia.
Melica não era apenas uma companhia para ele. Ela preenchia algo dentro dele que o dever há muito esvaziara. Não o desejo, não o fogo, mas o senso das responsabilidades que um militar da Armada coloca em segundo plano para ser um Oficial: família. Alguém que para ele era sua responsabilidade guiar pela vida, ensinar sua experiência de mundo.
Ele dera sua vida à Armada e à sua fé. Não havia família nessa vida, nem amor além dos laços rígidos do serviço. E, no entanto, Melica havia se tornado uma espécie de filha para ele, uma presença que preenchia o espaço onde sua humanidade um dia residira.
Ele nunca poderia vê-la como um homem vê uma mulher, mas ele apreciava a maneira como ela o olhava: não como um capitão a ser obedecido, mas como um pai a ser amado.
No mundo dos Harata, esses laços podiam se formar, existir sem consequências. Mas em seu mundo, no modo da Armada da Federação Erítria, eles deveriam ser renunciados. Um oficial do mar e da guerra deveria proteger e servir até a morte, sua vida dedicada exclusivamente ao seu dever.
Mas Andrei estava cansado. Talvez por isso nunca tivesse aceitado um posto de comando, por isso evitava os confins estruturados de um posto avançado. Ali, em Luar, longe dos olhos vigilantes dos oficiais de alto escalão, ele podia simplesmente ser. Um homem. Um pai. Alguém a ser admirado, em vez de alguém cujo único propósito era impor a vontade dos outros.
Ele exalou, permitindo-se aproveitar o momento. Mas lá fora, nas docas, algo já estava se desenrolando.
Sob o brilho trêmulo e irregular das lanternas da doca, a noite dançava com sombras em movimento. Os oficiais da Armada estavam preocupados com ordens de aquisição, suas mentes em suprimentos e rotações.
Um deles estava perto da cela improvisada do prisioneiro, sua postura relaxada, seus pensamentos em outro lugar.
Então, algo mudou.
Uma sombra se moveu, não com o tremeluzir casual de uma luz passageira, mas com intenção.
O oficial, apertando os olhos na escuridão mutável, levou a mão à arma. Uma presença surgiu diante dele, vasta e silenciosa. Olhos castanho-claros, vértices de âmbar e escuridão, consumindo sua visão, seu controle motor. Algo se partiu em sua mente. Sua respiração falhou enquanto o mundo ao seu redor desmoronava. De repente, ele não estava nas docas. Não perto da cela.
Ele não estava em lugar nenhum.
Um vazio. Uma escuridão sufocante. Seu coração batia violentamente em seu peito, um terror sem rosto abrindo caminho com garras afiadas em seu peito.
Uma voz, desencarnada, sussurrando em sua mente como um eco em um salão vazio. Ele queria se mover. Queria correr. Mas mãos invisíveis o seguravam com firmeza, guiando seus passos como se ele não pertencesse mais a si mesmo.
Ele tropeçou para a frente, cego, procurando pela luz âmbar, pela coisa que o havia puxado para este abismo. E então, um ruído, crescendo, um sussurro, depois um grito.
O ar noturno o assaltou, o calor das docas um contraste violento com o vazio frio do qual ele acabara de escapar. Piscando rapidamente, ele se viu de pé ao relento, desarmado, seus pertences desaparecidos. Uma voz gritando em seu rosto.
— Tenente! Nome e Patente! Tenente!
Mas sua própria voz estava soando distante, sua mente mal compreendendo a realidade. Era como se ele e sua mente estivessem divorciados.
— Tarov Ivan Ivanovich, Tenente do mar e da guerra, número 34274..." As palavras saíam de seus lábios em uma repetição lenta e mecânica. "Tarov Ivan Ivanovich, Tenente do mar e da guerra, número 34274..."
Ele não parou. Não por vinte minutos. Então outra voz cortou a noite, nítida e urgente.
— O cabeça de ferro! Ele escapou!
Um tripulante correu do cruzador, seu pânico se espalhando pelo ar.
A comoção se espalhou como fogo. As docas zumbiam com o alarme, figuras se movendo rapidamente, lanternas erguidas. Os oficiais da Armada se viraram uns para os outros, procurando por respostas onde nenhuma podia ser encontrada.
E logo, encontraram Andrei.
O oficial se aproximou rapidamente, avistando Andrei na varanda da Taverna do Luar.
— Capitão, Senhor! O prisioneiro. Ele escapou!
Andrei fechou os olhos brevemente. Então, exalando pelo nariz, ele se virou para Melica.
— Preciso ir, querida. — Sua voz estava firme, mas havia um peso nela que não existia momentos antes. — Acho melhor você ficar em local seguro até amanhã.
Ela inclinou a cabeça, estudando seu rosto, mas não protestou.
Andrei beijou a testa da Harata, uma promessa silenciosa, então se virou, seguindo o oficial de volta para as docas.
Quando ele chegou, a tripulação já estava nervosa. Ninguém tinha visto nada. Ninguém tinha ouvido nada. Para eles, o tenente simplesmente saíra, abandonando seu posto, e Rentaniel havia desaparecido. A mandíbula de Andrei se contraiu.
— Formem um perímetro. Duas luzes daqui. — Suas ordens finais. — Todos os outros, revistem o cruzador. Tenente Ivan, comigo.
O oficial mais jovem enrijeceu ao ouvir seu nome, mas o seguiu sem hesitar.
Dentro da ponte do cruzador, Andrei se virou e fixou Ivan com um olhar que parecia perfurar as profundezas de sua alma.
— Diga tudo que aconteceu. — Ele disse com dominância. — Todos os detalhes por mais incríveis que forem. A sua verdade! Nada é irrelevante.
Ivan engoliu em seco. Sua respiração estava irregular.
— Eu... eu pensei ter visto algo — ele admitiu. — Então, ficou tudo escuro. Apenas uma luz. Laranja. Âmbar. Como fogo através de uma garrafa. E eu andei. Continuei andando até que eu estava simplesmente lá fora.
Suas mãos se fecharam em punhos.
— Era como se o tempo tivesse parado, sem som, sem vista, sem vento, só o chão sentindo nos pés.
A expressão de Andrei não mudou, mas seus dedos se curvaram ligeiramente ao lado do corpo. Era obra de um Harata, ele sabia. Poder hipnótico inigualável. Ele os conhecia bem. A questão era: qual Harata? A Lâmina? Ou os piratas?
Ele pensou em perguntar à Obravar, mas os Harata nunca tinham falado com ele diretamente, e se fossem os piratas? E se Obravar tomasse como uma acusação. Poderia ser problema para ele, Andrei.
O que quer fosse, estava fora de suas mãos. Era fingir procurar Rentaniel e torcer que ele caísse em seus braços.