Fechados na sala da Doutora Priya, Karak e Raila estavam certos que a
conversa ali iria ter repercussões mesmo dentro do grupo de Ravantes,
mas até onde sabiam, ela poderia ser confiável. Entretanto, certos
detalhes deveriam ficar só com a Sutay.
Priya acertou a tela grande em sua sala para que ajudasse a mostrar o que ela queria explicar.
—
Vocês sabem da "mística" da Qachruna, óbvio. Sangamani, e Harata que
obviamente caminhou com a Sangamani. — Priya começou. — Mas Qachruna é
não só uma planta, mas uma planta "infectada" por um fungo.
— Sim, isso sabemos, mas e o material? — Raila estava desconfortável com a lentidão.
— Você não é elaboradora, não é? — Priya perguntou cruzando os braços. — Então deveria prestar atenção.
Raila tentou disfarçar o impacto que isso teve.
— Não, sou intuitiva. Outra casta de mulheres Sangamani. — A mulher tentou ser cordial no tom, falhando.
— Fascinante! Ajuda na próxima parte. Somos, os três, mais similares do que pensam.
Priya buscou algum conteúdo para a tela para ajudar a próxima parte.
—
Meu trabalho aqui é com fungos, plantas e bactérias de Jangunaray, mas
na base disso tudo está genética. A maior parte do que faço baseia-se em
genética. — Priya apontou para a tela.
— Qachruna, a planta, e o
fungo produzem a substância que usamos como Qachruna por duas razões:
proteção e controle de crescimento. Por isso a escolha de plantas mais
vistosas, com as fitas brancas que anunciam mais do fungo, e raízes
grossas, para a melhor Qachruna feita. — A Anoa prosseguiu.
— Entendido. — Karak disse olhando para Raila com ar de paciência.
—
Qachruna não cresce no Vale. Qachruna não cresce em climas frios. Mas o
fungo, sim. Ele então se liga a outras plantas. O povo das montanhas,
ancestrais dos Onatra faziam chá da poupa de casca de certas árvores,
mas as árvores eram irrelevantes, o produto era o fungo. As árvores só
tinham que ser consumíveis. O fungo ali causa o efeito. Muito mais
fraco, porém. — Priya seguiu. — Mas no Vale, o fungo se liga à algas, e
as algas vivem na umidade do ar, formando algo oleoso na neblina, e
depositando-se no chão, nas paredes.
— Então esse material serve para
que as paredes sejam feitas para "cultivar" os fungos ao invés de uma
planta. — Karak perguntou com interesse renovado.
— Não. Eles servem para cultivar uma planta nas paredes que por sua parte é infectada pelo fungo. — Priya esclareceu.
— Isso faria com que eles cultivassem Qachruna, ou algo como ela, nas perdes? — Raila estranhou.
—
Faz. É muito improvável que esse preciso material fosse um teste, ou um
protótipo. Eles teriam que já saber fazer pra ter a ideia desses
materiais. Como alguém que busca sal para fazer um doce. O material
seria contra-intuitivo sem o conhecimento do DNA do fungo, e da sua
interação com a planta. — Priya retrucou.
— E porque não a Qachruna? — Raila perguntou agora com interesse.
—
Clima, ou talvez eles tenham tradição com essa outra planta. Mas uma
coisa é certa, em tempo, essa planta já assimila, ou vai assimilar, os
genes para produzir a Qachruamina Fosforada, o que realmente causa os
efeitos orgânicos da Qachruna.
— Com o tempo a planta produzirá Qachruna por si só? — Karak indagou preocupando-se.
—
Não iria poder ensinar anos de pesquisa em uma conversa de minutos, mas
a natureza parasítica do fungo com a planta pode fazer com que a planta
assimile o DNA do fungo, e passe a produzir o que o fungo produz. Se é
benéfico, a planta que se beneficia vive mais, e se multiplica mais que a
que não assimilou. E foi.
Karak e Raila olharam-se, com certo desconforto dado o que sabiam mas não haviam dito.
— E porque você disse que nós três nos parecemos mais do que pensamos? — Raila perguntou com cuidado.
—
Ah, sim. Uma coisa similar, provavelmente. Estudos dizem que Anoa, nós
somos Harata "albinos" descendentes de Harata que foram a Jangunaray na
antiguidade e nunca mais saíram. Geneticamente, temos o mesmo "dom", que
se manifesta de forma diferente em nós, e em vocês. — Priya disse
indicando Karak.
— E nós? — Raila disse apontando entre elas.
—
Sangamani tem um sistema de "castas" que se relaciona de forma fechada.
Elaboradora e seu guerreiro, Sensitiva e seu guerreiro, Matrona e seu
guerreiro. Os homens Sangamani tem pouca diferença. As mulheres porém,
seguem linhas enormes de isolamento evolutivo, "compartilhando" o DNA de
companheiros que são filhos de outras Sangamani da mesma linha.
—
Sim, eu entendo. Somos sempre "primos" de uma mesma casta ou sem laços
com outras castas. — Raila disse. — Famílias isoladas em clãs que
crescem em sua função. Nossos ancestrais assim nos ensinam.
— Hum.
Nandi era muito menos aberta, ou conhecedora do povo dela. Vejo que você
é bem mais conhecedora da sua cultura. — Priya disse com interesse.
— Não sou acuidá. Eu fiz a caminhada generacional, em vários ciclos. — Raila disse com tom de superioridade.
Priya
olhou com intensidade para Raila, por alguns segundos, sem dizer nada. A
Anoa procurou em seu dispositivo, então exibindo outra imagem na tela
grande.
— Sangamani intuitivas são na cultura do seu povo, o mesmo
que nós e os Harata contra gente como Onatra e Silvani. Tem uma genética
que facilita entender, reconhecer e processar linguagem corporal e
simbólica. — Priya disse. — A parte "mística" não sei, mas
geneticamente, é fascinante.
— O que isso implica em nossa questão? — Karak perguntou.
—
Muito. Harata e Sangamani, e nós por extensão, como mais susceptíveis
ao efeito da Qachruna por isso. — Priya disse sorrindo. — Silvani, e
Urbani, são sensíveis por outra razão. Mesma razão os Sangamani
elaboradores são. Mas é genética.
— Onatra? — Karak perguntou com um sorriso.
—
Onatra, assim como Sangamani da casta Matriarcal, as árbitras de clãs
vocês dizem, são menos susceptíveis ao efeito da Qachruna. Ainda
funciona, mas requer mais, e o efeito menor. Não posso dizer da
"mística", mas organicamente é assim. — Priya disse.
— Um de nossos
tripulantes é um mestiço Sangamani e Onatra, e ele parece ser mais
adepto da Qachruna do que muitos de nós. — Karak retrucou.
— Eu só
poderia teorizar. Não temos um estoque "farto" de mestiços Onatra de
qualquer ordem. Mas tomando os Sangamani-Harata que temos dados, isso
pode ser uma coisa similar.
— Sangamani-Harata? — Raila perguntou estranhada.
— É uma combinação interessante, acredito que principalmente para mulheres. Mas com certeza não é em Sangamá. — Karak riu-se.
—
Provavelmente. — Priya riu-se também. — Sangamani é adepto da
Qachruna, nas linhas que é, por uma diferença que temos, Harata, Anona, e
alguns Sangamani, que regula a sensibilidade. Mas também, em parte, a
enzima que 'faz' a Qachruamina da planta, e outra que quebra e elemina
seu efeito, e isso é o que diminui um pouco o efeito em nós, e muito nos
Sangamani onde ele é menos potente.
— Entendo. Somos sensíveis, mas eliminamos mais rápido, logo não somos 'tão bons' no uso da Qachruna. — Karak seguiu.
—
Exato. Silvani, e Urbani, não são tão sensíveis, mas a Qachruna dura
mais em seu sistema. Um efeito menor mas mais duradouro. — Priya
prosseguiu.
— Sim. E Onatra? — Raila perguntou atiçada.
— Onatra, o
povo das montanhas, por causa das alturas depois da descida das águas, e
sua relação com a Qachruna, devem ter selecionado para resistir, tanto
insensibilidade quanto metabolismo. — Priya seguida a linha.
— Se o
mestiço for de uma elaboradora, e um Onatra 'qualquer' que seja — Karak
raciocinou. — Ele pode ter a sensibilidade da mãe, e a enzima que faz a
Qachruamina, do pai, mas a enzima que quebra a Qachruamina da mãe. Uma
coincidência rara que o faz mais sensível, mais produtor, mas menos
quebrador do princípio. O que deve ser formidável para o efeito, mas
horrível para o impacto no corpo.
— Sim, recuperação é um problema. — Karak e Raila disseram juntos.
— Eu poderia ajudar, se Ravantes talvez financiasse uma pesquisa, quem sabe? — Priya disse com uma voz melodiosa.
Karak piscou para a Anoa, Raila não entendeu a dinâmica.
— Bom, já temos o suficiente para nossa visita. — Karak disse já preparando-se para partir.
—
Muito bem. Vou ainda rever os dados e tentar entender esses materiais, e
sobre nosso outro assunto, espero novidades. Quem sabe uma visita do
nosso 'Sangonatra'? — Priya disse rindo-se.
— Definitivamente. Precisamos de um Lacerador melhor que o Silvani deles. — Karak riu-se.
— Bom, a sua Sangamani definitivamente é mais Sangamani que a deles. — Priya riu-se com gosto.
Raila estava perdida na dinâmica, mas uma sombra de sorriso apareceu com o comentário.
— O nosso Onatra definitivamente é melhor que aquela Carpata. Vale por dois. — Raila murmurou discretamente.