Outro dia passava na Suyantara Leste, e a tensão da espera acumulava entre as frestas de ociosidade naquela terra que parecia ter sido esquecida pelos mecanismos de vida da natureza. Era quase preferível Jangunaray com seus fungos e umidade do que aquele lugar ao mesmo tempo seco e sem vida.
Não passaram dois dias porém para que novas perspectivas começassem a aparecer.
A tripulação da Sutay acordou para o barulho de mais construção e mais pessoas. Sajó tinha já entrado na rotina do dia, ajudando o processo que iniciava.
Os outros foram despertando e buscando seu desjejum e saindo na porta norte da vila, observando a população da ilha que tinha se multiplicado exponencialmente.
Eram centenas, provavelmente milhares de Harata jovens e velhos, montando os pré-fabricados de Jangunaray e seus próprios estilos de tendas e coretos.
Ao contrário de Magenta ou da Trifronteira, eles não eram coloridos, disformes e depositados ao gosto de cada um. Era uma estrutura planejada onde linhas no chão e coordenadores estipulavam vias com tamanhos definidos, áreas de descarga, chegada de entregas, atendimento ao cliente, e tendas e lojas padronizadas.
Andando pelas beiradas do esforço estava um Harata já com grande experiência de vida. Seus cabelos escuros cravejados de brilhos pateados falam de uma vida longa e produtiva.
Onde Tegravas estava sempre vestido em sedas coloridas, e carregava mais ouro e pedras preciosas do que um mostruário de butique, esse, Ravantes, vestia-se com um jeans surrado, uma camisa alargada pelo tempo de uso, e as ferramentas do trabalho de engenharia que ele estava ali para acompanhar.
O trabalho pareceria colossal. Encher o centro plano e trabalhado da ilha com as acomodações do trabalho e da vida de uma população Harata completa. Pareceria colossal para quem não conhecia esse povo.
Quando foram para a Sutay, ali já estavam outros dos novos Harata da Ilha, limpando e fazendo o serviço de terra na embarcação. Abastecimento, e outras atividades de manutenção agora tinham uma equipe de dezenas de pessoas para cuidar.
No meio daquele dia movimentado, grande parte do novo mercado já estava levantado, e entre assentar a construção e o crescimento do concreto vivo, já estava quase tudo funcional. Era uma questão de poucos dias para estar completamente formado.
O Média Ponderada da Ilha já estava pronto há muito tempo porém, mas aquele não servia tanto para reuniões de cúpula, quanto para os chefes de obra e gerentes financeiros se esconderem do sol durante o dia.
Como todo povoado anoa fora de Jangunaray, era a noite que a maioria deles estava fazendo seu trabalho, ou seu lazer. Durante o dia, dormiam ou se escondiam em lugares onde o sol não podia castigar sua pele.
O resto da população seguia seu trabalho, e seguia tomando o sol que era revigorante para sua gente.
A ilha estava cheia de Harata, sobrepassando agora a população Anoa e Aborada, mas seguiam Lateral, Barisi e Raila os únicos de sua etnia, e Carcará o único mestiço de sua particular combinação. Uma condição que já haviam se acostumado.
Malek e Karak sentiam-se mais em casa com toda aquela população e um pouco mais de seus costumes, mas aquela não era uma população Harata como a que se via na maioria dos seus povoados.
A fala doce e sorrisos, corpos esbeltos exibidos em roupas provocantes não estava ali. Ao invés disso, eles eram frugais, mais quietos. Utilizavam sua aptidão natural para a comunicação social e carisma para criar uma rede eficiente de serviços e agregação de valor. Era uma vila Harata, em seu jeito natural de seguir, mas era mais disciplinada que os Onatra, e mais produtiva que os Carpata. Se o seu construir era simples, e sua sociedade pacífica, era tudo em que os estrangeiros os superavam.
[Espero no média ponderada. Precisamos conversar.]
Karak recebeu a mensagem em seu ponto pessoal. Era Ravantes, já agilizando os preparativos que Carcará havia prometido colocar em movimento.
Ao chegarem, o Média Ponderada da ilha era exatamente o mesmo média ponderada de Jangunaray em arquitetura. Rústico, funcional e econômico em todos os aspectos possíveis. A forma a mesma, a distribuição de ambientes e funções.
A mudança era nas pessoas. Não mais Aborada, os anfitriões e os trabalhadores em todos Harata. A comida também era diferente. Ao invés da comida de Jangunaray dominando as ofertas, eram segunda classe contra os pratos Harata mais adequados ao clima.
Karak chegou e já foi levado por uma simpática anfitriã Harata para a mesa mais exclusiva do lugar, onde Ravantes e um Anoa conversavam com seriedade.
A Harata que o acompanhava era elegante, sensual, mas não tinha o magnetismo comum aos de sua etnia. Ao invés disso, ela tinha algo mais próximo de imponência e senso de propósito.
— Tenho ouvido muitas coisas positivas sobre você, Karak. E ouvi muitas coisas negativas durante muito tempo. — Ravantes bateu três vezes na mesa de madeira antes de apontar para Karak. — Com certeza a Alquimia Universal faz bom uso do seu destino.
— Estou em desvantagem aqui. Não havia ouvido falar de você até que seu povo falou de você. — Karak respondeu com gesto similar.
— Primeiro, vamos ao importante. Antes de qualquer conversa precisamos disso resolvido, e aceito.
Ravantes entregou um serial à Karak. Tinha a lâmina crescente negra no fundo verde e ocre, e as estrelas.
Os olhos do ex pirata, ao que parecia, estavam surpresos.
— Eu ainda tenho um jaitak pendente. Não posso... — Karak disse cruzando os braços.
— Tegravas e o juiz concordam que foi uma manobra importante para o momento, e concordam que os benefícios foram compartilhados, e assim, Tegravas e eu decidimos limpar o jaitak pendente. — Ravantes disse com tom casual.
— Então agora eu sou o que? Agente de Campo novamente? — Karak disse pegando o serial.
— Colocamos a sua posição como Classe distinta. Tem os acordos, agindo em todas as minhas prefeituras. Outros podem cooperar, mas autoridade, só sob meus Harata. — Ravantes disse enquanto chamava a anfitriã.
— E Carcará. Ele sem dúvida está no meio dessa coisa toda. Como eu estou em relação à isso? — Karak perguntou ainda cético.
— Carcará é um operativo importante, formidável, mas ele não é Harata. Ele é seu operativo agora. A escolha da Sangamani foi interessante, visto que a equipe do Grêmio também tem uma. Espero que a sua seja tão boa quanto. — Ravantes riu. — Pelo menos ela não veio quebrada.
— Malek? — Karak perguntou já puxando o serial em seu ponto para sincronia.
— A decisão é sua. Ele é agora parte desse distrito, meu voto. Ele pode ser um agente comissionado na sua equipe, só um independente. Me dá igual. — Ravantes disse enquanto selecionava o que ia almoçar.
— E vamos ficar cuidando da ilha?
A anfitriã trouxe o dispositivo para Karak escolher seu almoço.
— Eu se fosse você escolheria algo da seção de panificados. Acostumar a comer comida para viagem. Não tenho um ex pirata na equipe para ficar cuidando de um pedaço de terra. — Ravantes disse com um sorriso leviano.
— Movemos novamente para a Sutay?
— Podem considerar aqui sua casa. Será base. Agora que temos a Lâmina aqui, estará seguro e não precisarão ficar recolhendo lixo. Logo iremos montar aqui uma estrutura de Inteligência. Temos que alcançar o Consórcio, o Grêmio. — Ravantes disse com casualidade.
— E por que estamos interessados em 'competir' com o Consórcio, ou o Grêmio? Você não investe neles? — Karak perguntou.
— Não é uma questão de competir. É uma questão de perspectiva. Somos da Aliança do Leste, Harata da Fáscia, Jangunaray, e Luar. Luar trabalha com o Consórcio também. Suyantara irá trabalhar com eles no Oeste, Tegravas. Aqui somos da Aliança. Interesses no Consórcio e na Aliança combinam, as vezes, mas divergem, frequentemente. Harata, nossos interesses são nossos. — Ravantes disse apoiando os cotovelos na mesa.
— E quando o Consórcio entrar no caminho da Aliança? — Karak perguntou recostando-se.
— Defensivo, ahn. Harata não entra no caminho de Harata, os outros, a solução é sua. Não tenho um ex pirata chefiando uma operação à toa. Use sua criatividade dos mares, velho amigo. — Ravantes riu-se.
— E os problemas? Outro jaitak iria estar fora de questão ... — Karak disse com uma sobrancelha pesada.
— Resolva como resolveu o templo, meu amigo. — Ravantes voltou-se para a sua comida que chegava, como quem deita uma canastra limpa.
Karak se retraiu mais em seu assento.
Ravantes pegou um pedaço de seu pão chato e serviu-se de uma generosa passada de pasta de azeitonas e leite fermentado.
Ele observou Karak marinando a informação enquanto degustava a comida simples, tradicional do seu povo. Com calma ele terminou de engolir a saboreada porção, e bebeu um gole de Brilho do Luar, uma bebida destilada de cana, elaborada com temperos e técnicas únicas, passadas de geração em geração. Era como demonstrar seu gosto pela cultura de seu povo, mesmo enquanto apreciava as manobras escorregadias pelas quais também eram famosos.
— Eu em seu lugar teria feito exatamente a mesma coisa, meu amigo. — Ravantes finalmente falou. — Uma vez que tenho certeza que tomou qualquer que fosse a importância do lugar. Garanti até que hoje mesmo as toupeiras reduzissem o que quer que tenha visto ali ao pó mais fino. Construiremos um concreto armado com aquele lodo dos Anoa, e nem mesmo a vidente deles vai achar o que vocês encontraram.
Karak sorriu com uma certa dose de alívio.
— E o que então será nossa nossa função nesse empreendimento?
— Vamos trabalhar as rotas fora da área da Armada. O 'mar sem lei' que vocês tanto gostam. Temos informações, poucas, sobre rotas ilegais. Temos informação que alguém está se aproveitando da falta de lei, e como todo bom Harata, vamos nos aproveitar da falta de lei também. — Ravantes disse já voltando-se para seu almoço.
— Estamos 'expandindo' negócios? — Karak perguntou.
Ravantes estava em silêncio, aproveitando sua comida. Simples caldo de lentilhas, batatas temperadas, pães chatos e diversos condimentos e pastas, o natural dos Harata.
Karak tinha a sua caçarola assada, famosa preferência dos piratas, comida que não requer 'trabalho' para comer, simplesmente se come.
Ravantes observou a escolha com certo humor.
Outra anfitriã trouxe um dispositivo diferente, colocando-o ao lado de Karak na mesa. Ele tinha um mapa descrevendo as correntes marítimas de Ealetra.
— Conheço isso de cabeça, meu amigo. — Karak disse com certa soberba.
A mulher ali então chegou-se e começou a falar enquanto Ravantes se atinha à sua seleção de pequenas iguarias.
— Seu conhecimento é reconhecido, meu senhor. O que precisamos é precisamente que o transforme em inteligência. Esse dispositivo é independente, e sem sincronia externa. Ele será usado para identificar as rotas. — Ela disse com tom fatos na mesa.
— Rotas? Os Silvani? Do Vale? — Karak questionou.
— Todos. Mesmo Harata. O dispositivo deve ficar sob seu comando, ou ser travado. Ele deve ser sincronizado apenas com esse outro ponto pessoal. — A mulher disse entregando um ponto pessoal distinto.
— Quem é Zamani? — Karak perguntou. — Ponto pessoal falso?
— Muito prazer, senhor. Eu sou Zamani. Eu estarei acompanhando a Sutay e coletando informações a respeito das suas viagens secretamente sem o seu conhecimento, e sem ser percebia. Infelizmente, se houver qualquer problema, esse ponto pessoal será tudo que será encontrado, pois sua equipe irá ter perdido quem quer que estivesse 'espionando' seu trabalho. — A mulher sorriu e retirou-se.
— Estamos entendidos então, meu velho. Vocês vão fazer a sua 'pirataria', e de tempos em tempos vir passar uns dias na ilha. — Ravantes riu. — Enquanto negócios milagrosamente acontecem.
— E o Vale vier bater na nossa porta? — Karak perguntou com um certo ar de maravilha.
— Então fazemos o que sempre fazemos. Nos escondemos atrás do Grêmio. Não precisamos correr do Vale, só correr mais rápido que o Grêmio.