Poder e Ambição

A primeira parada era no setor de alojamentos onde eles caminharam junto com um destacamento do Zhefaq. Nele encontrava-se o Salão do Grêmio e outras dependências como uma ilha no que era uma fortaleza e cidade dedicados a uma Guerra que a julgar pelo lugar, nunca havia terminado.
O contraste era inegável. Onde Magenta era quente e acolhedora, uma encruzilhada de comércio e diplomacia, Zhefaq era uma fortaleza em todos os sentidos. Armas forravam as paredes, não para exibição, mas para uso. A arquitetura era hostil, construída não para conforto, mas para controle. Mesmo aqueles que caminhavam com autorização total sentiriam sua presença, seriam perturbados por seu design. Não havia ilusões de liberdade aqui, nem suavização das arestas. O poder não era compartilhado. Era afirmado.
Paredes decoradas com linhas indicando onde deveriam ir, e onde poderiam ir. Linhas coloridas no chão definindo os limites de cada um por sua posição. Portas codificadas com a permissão de passo.
Valaravas, por sua parte, não se importava.
Ele caminhou pelo hall de entrada como caminhava em qualquer lugar, como se pertencesse ali. Como se nunca tivesse existido uma versão deste mundo onde ele não pertencesse.
Eles chegaram o limiar do Salão do Grêmio, onde mais uma vez, todos iriam ficar na antessala e somente os juízes iriam ter acesso ao interior da sala de reuniões em uso.
O resto da equipe permaneceu na entrada enquanto Svetlana e Valaravas prosseguiam para o interior. Armas e armaduras foram removidas antes de entrar na sala de reuniões interna, o protocolo absoluto, sem exceção.
Em clara retaliação ao último encontro deles, Svetlana tinha vinho Harata à mão, servindo-o deliberadamente enquanto ele se sentava. O jogo era jogado nos dois sentidos. Ela não perdeu tempo.
— Vinho Harata para seu conforto, Mestre Valaravas — ela sorriu maliciosamente — Bom para o frio das montanhas.
Valaravas saboreou o vinho em um gesto polido muito forçado.
Ela lhe concedeu a palavra, seu gesto protocolar exato, inabalável.
— Os dissidentes do vale já estão organizados. — começou Valaravas — Ele já estão em grande número patrulhando as fronteiras. Não estão sozinhos. Temos evidências de que tem contato com grupos externos. Kahnbor, se isso lhe diz algo, está na cama com eles.
Svetlana serviu-se de uma caneca de chá de gengibre e cardamomo, o cheiro impactando o momento com a reação da General ao calor que a bebida irradiava.
— Estruturas? Organizações? Padrões? — Ela manteve os olhos na caneca enquanto falava, pousando-a apenas depois que as palavras foram ditas.
— O Círculo não parece confiar nos dissidentes — disse Valaravas com firmeza. ­— E sendo os dissidentes... dissidentes, deve haver uma razão mais forte para estarem seguindo ordens.
Svetlana recostou-se, medindo.
— E nosso time? Estamos 'nós' na cama com os Silvani também, Mestre Valaravas?
Era uma pergunta afiada, embora o tom permanecesse friamente formal. Valaravas tomou um gole de seu vinho, exalando lentamente antes de responder.
— Nós vamos tomar posse da relíquia — ele disse, com um olhar mais direto — Meus Silvani decifraram a informação e podemos entender sua função e determinar sua localização.
Ele gerou o mapa do leste de Erítria na tela central. Apontando e criando uma marca alguns quilômetros ao sul do Khara.
— Segundo o que podemos entender, ela está em um templo abandonado aqui.
Ele ergueu a taça ligeiramente, um brinde simbólico, mas não podia parar ali.
— E, infelizmente, não tínhamos camas por tempo o suficiente, mas aqui? Aqui, eu poderia considerar sua sugestão, 'Vossa Excelência'."
Sua sobrancelha se ergueu, esperando uma reação. Nenhuma veio.
— E vocês tomarão custódia da relíquia? — perguntou Svetlana sem muito interesse.
— Ainda não sabemos, mas o Zhefaq já possui uma das relíquias dos templos do Oeste, não? Ela foi tomada durante uma incursão há alguns meses.
— Ela foi transportada seguramente para o Khara. Temos meios melhores de protegê-la em nossa capital. — Svetlana disse com segurança.
— Presumo que eles tenham tentado recuperar sua posse. — Valaravas questionou, também sem muito interesse.
— Ainda não. — Svetlana respondeu cautelosa. — Mas acreditamos que estão próximos.
Svetlana colocou a pasta na frente dele.
— O Zhefaq pode avançar sobre eles agora. Não precisamos de mobilização de força, apenas uma Operação Especial pode assegurar a caverna logo ao sul e tomar o que quer que esteja ali.
Valaravas tomou a pasta e passou os olhos rapidamente. Era um assunto conhecido, mas com alguns detalhes mais. O documento descrevia os Varta como uma seita de rebeldes entrincheirados ao longo da fronteira norte da Estepe, praticantes de rituais de sangue. E tinham diversos tipos de práticas proibidas pelo Consórcio, o que apenas valida ações em seu território. Nenhuma citação direta sobre Kahnbor. Eles eram supostamente mais do que aliados dos dissidentes. Eram patronos, supervisionando operações no vale em troca de poder concedido nas bordas dos domínios Varta.
Valaravas pousou o documento cuidadosamente, a expressão indecifrável. Svetlana encontrou seu olhar.
— O Zhefaq está preparado para os próximos passos, e todos vocês são bem-vindos a ficar aqui o tempo que for necessário. Sobre nosso outro assunto, estou plenamente ciente de que o arquivo não é preciso, mas estamos preparados para o desvio esperado também. Estamos entendidos, Mestre Valaravas? — Svetlana discretamente apontou para a camera que estava fora do salão, mas estranhamente apontada para ele.
— Sasha? Ele é o oficial de alta patente aqui, e não gosta dos Silvani. Não creio que goste nem dos Urbani, e não contaria com a simpatia dele por Harata. — Valaravas falou em Harata, com o sotaque carregado da Fáscia.
O sorriso de escárnio de Svetlana era do tipo que apenas os Onatra no poder podiam empunhar, absoluto, inabalável, ao mesmo tempo cruel e divertido.
— Partirei para o Khara na próxima lua cheia, e esperarei por você lá. — Svetlana se recostou ligeiramente, nunca quebrando o contato visual. — Seus Silvani são bem-vindos em Zhefaq enquanto forem seus. Assim eu disse, e assim será.
Não havia peso em sua voz porque não precisava haver. A autoridade por trás de suas palavras estava arraigada, compreendida sem força.
— Até lá, que o Sol Invicto brilhe sobre nossos esforços. — Svetlana se despediu.
A despedida foi ensaiada, dita com facilidade, sua finalidade não deixando espaço para réplica.
Valaravas exalou, acomodando-se mais fundo em sua cadeira. Os documentos decidiriam o que viria a seguir, mas, por enquanto, ele os deixou quietos. Deixou o momento assentar, os últimos ecos da reunião se dissipando no baixo murmúrio da fortaleza além destas paredes.
Mesmo com o fim da discussão, a cidade se movia com o mesmo ritmo implacável. O Zhefaq nunca descansa. Esquadrões marchavam pelas ruas, seus passos sincronizados batendo na pedra em ritmo medido. O ar estava denso com o cheiro de metal e fogo, o clangor distante do metal contra metal nunca cessando. As forjas queimavam constantemente, seu propósito singular: Se quer paz, te prepara para a guerra.
Este não era um lugar dedicado a uma guerra que um dia poderia vir, mas um esforço contínuo para impedir que qualquer coisa emergisse do vale inesperada e chegasse à Erítria interna.
A maestria artesanal Carpata que as fundições militares produziam era reverenciada em toda a Federação. Mercenários e clientes buscavam seus produtos, embora as melhores armas permanecessem propriedade exclusiva da Armada.
Entre esses segredos estava o arsenal de Maz Ynis: flechas, explosivos e projéteis. Cruzadores como Chernaya Bahakuda que patrulhavam os mares estavam sempre carregados de Maz Ynis. Os próprios canhões e balistas do Zhefaq estavam sempre preparados.
Conhecidos por seu poder devastador, os inimigos nunca conseguiram reproduzi-los corretamente. Apenas os Urbani da Fascia podiam chegar perto do poder que os Onatra conseguiam produzir com armas Ynis: Maz e Rij.
Quando Svetlana saiu pelos grandes portões de ferro, ela sinalizou aos guardas para voltarem a seus postos habituais. A segurança apertada ao redor do salão, destinada a supervisionar os recém-chegados, dissolveu-se à medida que os soldados se dispersaram para suas respectivas tarefas. A ordem restaurada, a fortaleza avançou sem pausa.
Valaravas parou à porta do salão interno, depois no vasto pátio, seu caminho o levando em direção ao alojamento. Nandi o seguiu, com uma expressão indecifrável e uma presença firme. Seus aposentos os aguardavam.
Tarja, por outro lado, já havia sido direcionada para sua acomodação, mas tinha pouco interesse nelas. Em vez disso, sua atenção permanecia fixa nos campos de treinamento, onde formações de falange treinavam com precisão mecânica. Seus olhos brilhavam entre admiração e inveja. Ali havia um nível de eficiência que rivalizava até mesmo com as disciplinadas milícias da fronteira, e um nível que ela nunca havia testemunhado.
Além dos soldados, seu olhar percorria as máquinas de cerco que pontilhavam a paisagem. Balistas, trabucos, aríetes, uns familiares, outros monstruosos em sua construção. Um em particular chamou sua atenção, um aríete tão imenso que poderia romper as mais fortes muralhas. Ela avaliou seu tamanho e peso, comparando-o à Cervejaria da Vila Pequena, que fora a estrutura mais robusta que ela vira antes de sua chegada à Trifronteira. Aqui, em Zhefaq, sua mente viajou novamente.
Erlan e Ariel moviam-se sem propósito, não porque lhes faltasse direção, mas porque o próprio Zhefaq não tinha lugar para eles.
Tudo ao redor deles, as armas, as armaduras, as ferramentas de guerra, tudo fora projetado para mãos, força e táticas alheias. Peso sobre precisão. Resistência sobre graça. Dominação sobre fineza. Até a própria arquitetura carregava essa filosofia. Não havia tentativa de harmonia, nenhuma concessão à elegância ou ao movimento além da marcha rígida de soldados disciplinados. Foi construído para Erítria, e contra todos os outros.
Eles eram forasteiros em um mundo que não tinha espaço para eles.
Enquanto andavam sem rumo, guardas da falange se aproximaram diretamente deles.
Dois homens, vestidos com armaduras reforçadas que ostentavam o símbolo do Zhefaq, suas formas pesadas com a presença do dever. Um deles falou, sua voz um rosnado baixo, mais rugido do que fala.
— Mestre Erlan. Mestre Ariel. Sigam-nos.
Os Silvani trocaram um olhar, seu desconforto aparente. Mas reconheceram a formalidade do comando em vez de qualquer ameaça imediata. Isso era protocolo, não hostilidade. E assim, eles seguiram.
Seu caminho serpenteava pela fortaleza, passando por corredores de pedra inflexível, passando por estandartes que ostentavam um símbolo que os fez parar: o brasão da Casa de Seldanar.
Eles viram Urbani, os observaram se mover entre a Armada, notaram a autoridade que carregavam mesmo entre os oficiais humanos. Viram suas insígnias em lugares a que não pertenciam, em espaços onde as alianças eram tácitas, mas evidentes.
E agora, aqui, no coração de uma fortaleza militar Erítria, a Casa de Seldanar reivindicava espaço nestas paredes.
Continuaram caminhando, embora a tensão entre eles não diminuísse. A fortaleza permanecia consistente em seu design, pedra escura, arestas afiadas, construída para função, não para beleza. Mas a câmara para a qual foram levados era diferente. Não era totalmente Urbani em desenho, mas também não era inteiramente Zhefaq.
A mobília, embora construída com eficiência militar, fora trabalhada com cuidado, seus materiais refinados. As cores eram mais suaves, como se alguém tivesse tentado um meio-termo, não por conforto, mas por reconhecimento. Este não era um lugar apenas para soldados, mas para aqueles que pertenciam a um mundo além da máquina de guerra de Zhefaq.
O exército Urbani, se é que ainda podiam ser chamados assim, em contraste com a Armada, deixara sua marca aqui.
O guarda que falou antes lhes deu um olhar lento e medido antes de finalmente quebrar o silêncio.
— Estes aposentos são reservados para nossos convidados Urbani. — Sua voz era disciplinada, mas tingida de algo mais. — Creio que os encontrarão suficientes.
Isso era uma cortesia, mas também um lembrete: os Urbani eram reconhecidos aqui, não os Silvani. Não eles. E o tom Onatra não ajudava fazê-los mais tranquilos.
A presença deles era concedida, não aceita, tolerada apenas por causa de Valaravas, porque sua autoridade os protegia da rejeição total. Mas ninguém em Zhefaq, nem os oficiais, nem os soldados, nem mesmo os guardas que os guiavam, escondiam o que pensavam.
Erlan e Ariel trocaram olhares, mas não disseram nada. Eles entenderam. Sempre entenderam. Finas camadas de civilidade eram melhores do que o desdém aberto, mas apenas por pouco.
Ao se virarem para sair, Ariel ouviu a conversa abafada entre os guardas. Eles não estavam mostrando desdém por eles diretamente, mas no sentido das más escolhas de companhia que o Harata fazia. E então, mais especificamente, as escolhas de companhia de Valaravas, diretamente dirigidas a Ariel.
Sua mandíbula se contraiu, mas ela continuou andando. Já ouvira coisa pior, mas isso não significava que não a afetava.
Eles caminharam pelos corredores, notando os elementos familiares entrelaçados no espaço. Alojamentos estruturados no estilo Urbani que lembra vagamente a cultura Silvani. Detalhes que falavam de um passado distante, quando os Urbani estavam neste continente, não como exilados ou andarilhos, mas como parte das grandes potências que moldaram seu destino.
Não haviam outros ocupantes presentes. Não é de surpreender. Os Urbani de Khadija raramente se afastavam de seus domínios isolados do norte de Pasvara e, mesmo os Fáscia tinham seus próprios lugares entre os Harata. Visitantes em terras Onatra eram raros, e no Zhefaq, mais raros ainda.
Algo no entanto mordia o canto da memória de Ariel. Ela sabia sobre a Fáscia, mas as pequenas diferenças que identificavam quem era Urbani de onde ainda não assentavam em sua mente. E daqui pra frente, pelo que ela tinha visto, essa diferença seria muito importante.