O Grêmio é uma instituição que tem muito tempo de existência e tinha muitas equipes e atividades. Ayla era a chefe geral de atividades, e a ligação entre a família real Urbani e o Grêmio. Desde sua morte, os Harata intensificaram seus investimentos no Grêmio, já que incidentalmente um agente da Lâmina, Valaravas, agora ocupava posição central, e acumulava a posição de vínculo Urbani com o Grêmio, mesmo sendo Harata.
O Consórcio é como um grupo que se reúne para discutir assuntos que depois serão tratados individualmente pelos membros, Erítria, Fáscia, Khadija, Onachinia, 'os Beruanos', e 'os Harata'. Os dois últimos sem um território, organizados como povo por toda Ealetra. Já o Grêmio é uma instituição autárquica com objetivos próprios e identidade discriminada e discricionária. As nações de Ealetra o consideram além da nacionalidade das pessoas que agem em seu nome.
As casas seguras do Grêmio espalhadas por todas as nações do Consórcio, até mesmo a Ilha Magenta, sob o comando Harata, eram pontos de treinamento, reunião e inteligência da instituição. Muito importantes, eram geralmente construções antigas renovadas e cedidas pelo território em que estavam como 'terra estrangeira'. Dentro de suas paredes, elas tinham leis e regras próprias, com poderes constitutivos independentes.
Valaravas e Nandi entraram na propriedade que servia de casa segura em Magenta como se fossem seus donos, com o senso de propriedade que Valaravas sempre tinha, mas que era peculiar em Nandi.
Na antessala já era possível notar que existia um poder econômico forte sobre aquela instituição. Mesmo sendo rústica como a maioria das construções em Magenta, ela possuía confortos e facilidades que faltavam no resto da Ilha.
Enquanto esperavam pela matéria da manhã, o time era oferecido um desjejum com a comida simples, muito como aquela do festival anterior, mas já distribuída de uma forma mais corriqueira, em pratos, talheres e disposição mais executiva.
Enquanto isso, Ariel e Erlan seguiam observando aquela nova parte da cultura estrangeira que ainda não conheciam. Tarja era familiar aos costumes de reuniões e salas de decisão que aconteciam mesmo em Onachinia. Para Ariel e Erlan, a vida no exílio era uma simples questão de seguir sobrevivendo, e Ariel fazia o que 'era possível' sendo seguida por Erlan. Recebiam ordens de contratantes, da Armada, as regras de onde quer que estivessem. O conceito de conversas estratégicas e comunidade de inteligência era um outro mundo.
Depois da refeição eles dirigiram-se à sala de reuniões já preparada para o objetivo do dia. Pela primeira vez eles observaram outras pessoas trabalhando pelo Grêmio. Estavam ali trazendo equipamentos, preparando os lugares e adiantando assuntos que seriam discutidos.
Quando entraram, as pessoas que ali estavam rapidamente saíram com eficiência de quem estava fazendo um trabalho há muito conhecido.
Eles tomaram seus lugares, e aquilo tinha um certo conforto para os Silvani. Era algo estruturado, certo, com ar de poder imposto. Era mais o modelo que estavam acostumados a lidar, mesmo que de outra posição. Eles entendiam a necessidade daquilo, mesmo que nunca tivessem experimentado esse outro lado da 'porta restrita'.
Ariel e Erlan agora estavam do outro lado da proverbial 'porta fechada' que encontravam em sua vida de caçadores.
— Certo. Vamos sincronizar nossos pontos pessoais. À frente de vocês está um círculo azul. Coloquem-nos sobre ele, e a mesa fará o resto. — Disse Valaravas, agora com o tom de líder que nunca havia usado.
Tarja estava à esquerda de Valaravas, Ariel à sua direita, Erlan ao lado de Ariel. Nandi, sempre silenciosa, postava-se atrás de Valaravas como uma sombra, suas vestes escuras conferindo-lhe um ar de autoridade tranquila.
— Você já viajaram como o Grêmio por tempo suficiente. Viram como é, o que oferecemos, uma ideia do que fazemos. Agora é hora de decidir, partir livremente ou juntar-se a nós. Colocando sua palma sobre o painel verde à sua frente os integra ao sistema. Se desejarem, podem sair e não haverá nenhuma consequência, pelo menos não punitiva. — Valaravas disse como se um texto decorado.
Todos eles colocaram suas mãos sobre seus respectivos painéis e assim seus pontos pessoais foram sincronizados com o Grêmio.
Todos exceto Nandi e Valaravas. E agora que notava, Erlan e Ariel perceberam que Nandi não carregava um ponto pessoal, ou interagia com os elementos como eles. Ali havia algo para descobrir, mas não naquele momento.
No centro da mesa havia uma tela que mantinha uma forma de descanso, apenas girando formas geométricas coloridas em espaços iridescentes. Cada um deles tinha sua própria tela que agora mostrava seus dados. Os três novatos no Grêmio estavam surpresos pelo tanto de informação mostrada, sem que eles tenham exatamente voluntariado tais informações.
As palavras de Valaravas assentaram e a decisão já estava tomada. Sem mais protocolo, era hora de começar o trabalho.
— Vale do Silício. Comecemos por ele. — Valaravas disse.
Imediatamente a tela central mostrava dados do lugar. Mapas, informações climáticas, e atalhos para outras informações.
— Nunca ouvi falar dele mais do que lembrar de alguma conversa na panificadora. Mas não acho que seja 'uma vala no meio das montanhas cheia de Silício', disse Tarja, como Carpata, conhecedora de minerais.
— Sabemos que é uma central de dissidentes. Mas eles são organizados. Não são simplesmente rebeldes como os piratas. Eles tem um plano, creio. — Erlan arriscou falar sério.
— Dizem que é de onde nosso povo fugiu para formar Tirayon depois do dilúvio, se bem me lembro. — disse Ariel com um tom de curiosidade.
— A Grande Mãe Hagara, diz a lenda, liderou os escravos no êxodo que criou Tirayon, e posteriormente, Khadija. — Valaravas adicionou. — Exatamente.
— Isso quando as águas começaram a baixar. — Adicionou Tarja. — Mas também dizem que os povos das Montanhas que descendemos desceram dessas montanhas, que eram ilhas.
— Se dizem que o Vale era a única terra seca, de onde apareceram esses 'antepassados' e essas ilhas que viraram montanhas? — Erlan disse cruzando os braços.
— Ostrova, as ilhas, é uma história que sabemos pouco, os Carpata. Os Onatra que adoram essas histórias de povos guerreiros e navegadores, e suas conquistas, e todo aquele negócio de Guerra e honra. — Tarja disso displicente.
O silêncio instalou-se sobre eles, mais pesado desta vez. Ariel, Erlan e Tarja não sabiam dos detalhes da história entre uns e outros. Cada um sabia sua parte dos mitos de seus povos, mas não como eles confrontavam uns aos outros.
— Eu tenho certeza que nós... — Tarja apontou para ela e para os Silvani — Não estamos aqui pela política, ou pela história.
— Não. Estamos aqui por causa da química. — Valaravas disse com um sorriso malandro. — O Vale é o lugar mais antigo de Ealetra, e lar de recursos inestimáveis, seja em valor ou em uso. E os dissidentes ali podem ter poder de fogo que não conhecemos.
— Não seria algo que um time tático iria lidar. — Ariel disse com um tom sério. — Qual é a nossa verdadeira missão?
— Temos que nos preparar. A Fáscia nos oferece a maior parte dos recursos que temos. Seja a Grande Mãe Audren, ou Ravantes, eles tem canais e recursos que precisamos. — Valaravas disse casualmente. — A Academia da Fáscia tem informações mais precisas sobre o Vale, e lá encontraremos respostas para nossa missão.
— Não podemos simplesmente receber essas informações aqui? — Perguntou Erlan.
— As paredes tem ouvidos. E os cabos de fibra ótica tem ouvidos, olhos e bocas famintas. — Valaravas riu.
— Estamos falando de problemas internos? Com alguém? — Ariel perguntou cética.
— O Grêmio é sua própria nação. Temos informação e recursos que todos querem. É do nosso interesse que eles permaneçam nossos. — Valaravas retrucou. — E é importante que problemas entre os outros não nos afetem. Na Fáscia estaremos não só com a informação, mas protegidos dos 'problemas de Ealetra'.
Valaravas fez uma pausa, observando todos ali.
— Consultem as informações, vejam o que temos aqui. — Valaravas agora apontava para o outro lado da sala. — Samir, nosso gerente aqui irá ajudá-los a conhecer o resto desta casa segura.
Eles olharam para o jovem Harata que ali havia chegado sem ser notado.
— Eu e Nandi temos preparações para fazer. Samir cuidará do que precisam saber para operar a casa segura. Aprendam. Todas elas operam da mesma forma.
Valaravas e Nandi partiram deixando os outros com o jovem Harata.
Enquanto Valaravas e Nandi partiam, um jovem Harata deu um passo à frente, sua pele cor de caramelo, traço natural Harata, capturando a luz. Havia uma confiança em sua postura, os movimentos sem pressa de alguém acostumado a essa responsabilidade. Ele mantinha uma postura serena posicionado como se ensaiasse até mesmo os centímetros que ocuparia em cada parte daquele prédio.
— Eu sou Samir. — apresentou-se ele com uma reverência sutil. — Venham. Mostrarei a vocês o que o Grêmio tem a oferecer.
Ele os conduziu através de um arco de madeira para os corredores sinuosos, sua voz calma enquanto explicava.
— Este é nosso Salão de Registros.
Na sala que adentravam, paredes e estantes se encontravam com livros, pastas, dispositivos, e telas. Desde antigas encadernações de couro rachado, até dispositivos de armazenamento massivo digital. Nas paredes haviam mapas emoldurados e telas aguardando interação.
Ariel estava intrigada com tudo aquilo. Poderia ser uma forma de aprender tudo que não sabia sobre sua cultura, e sobre aqueles que ela agora convivia. E talvez, as respostas das perguntas que sempre teve.
Erlan deu de ombros, sem dizer nada. Mas não desviou o olhar daquela coleção de livros e terminais.
Samir continuou, levando-os por uma escada em espiral onde o ar se tornava mais frio, mesclado com o leve aroma de compostos alquímicos.
— Aqui temos os laboratórios. Além de experimentos e produção, temos informações recebidas de outras casas, e nossos operadores fazem trocas com materiais locais e os que recebem dos outros. — Samir fez uma pausa.
Enquanto eles olhavam aquela mescla de materiais conhecidos e desconhecidos, Ariel pôde observar que eles tinham projetos e protótipos de munições. A pesquisa ali não era simplesmente Acadêmica ao que parecia.
Samir não ignorou o foco da Silvani.
— Aqui refinamos e testamos fórmulas novas, fórmulas perdidas, e também algumas proibidas. Não estamos sob a lei local em lugar algum. Temos o imperativo de buscar soluções práticas, não populares.
Tarja demorou-se perto de uma janela com vista para a vila. Abaixo, homens e mulheres Harata se moviam com uma eficiência que era quase uma dança. Ferreiros martelavam as lâminas curvas dos Harata, suas bordas capturando brilhos de luz. Políticos de túnica trocavam documentos e palavras, suas conversas se misturando ao murmúrio distante do oceano.
Quanto mais se aprofundavam, mais o Grêmio se revelava como um lugar onde camadas e corredores iam dobrando-se uns sobre os outros. Era um Quebra-Cabeça que Samir parecia entusiasmado em montar.
Ele os levou a uma câmara isolada, uma sala de estratégia onde mapas de guerra estavam sendo monitorados constantemente. A insígnia da Armada marcava os portos que controlavam, os navios que estacionavam ao longo do litoral de Magenta. Opondo-se a eles estavam os símbolos para os dissidentes, infiltrando-se pelo interior, estabelecendo pontos de apoio onde o alcance da Armada falhava.
— A Armada tem o seu poder. — explicava Samir. — Eles enfrentam incursões e protegem território, mas é uma questão de tempo até os dissidentes tornarem-se um problema maior do que eles podem enfrentar.
— E onde nós entramos? — Perguntou Erlan.
— O Grêmio tem seus objetivos em operações estratégicas. Nós não enfrentamos os dissidentes. Fornecemos informação para que a Armada Erítria ou a Marinha Real de Khadija o façam.
— Por um preço. — Ariel adicionou.
— Por um preço. — Samir ecoou.
Erlan estudou o mapa e puxou as palavras com esforço.
— E o Vale?
— A Armada não entra no Vale, mesmo que faça fronteira com Erítria. Os nômades não entram no Vale, mesmo que façam fronteira com o Beru. — Samir tinha um tom grave. — O território do Vale é muito perigoso para um incursão de tropas.
Erlan franziu a testa.
— A armada não luta contra os dissidentes. Ela protege Erítria. Enquanto o Vale não ameaça Erítria, a Armada não ameaça o Vale. — Samir continuou.
— O que é esse traço verde ao redor do Vale? — Ariel perguntou.
— Há lugares no Vale onde o ar é tóxico para todos nós. Nossos agentes que tentaram infiltrar-se ou não retornam, ou quando retornam estão neutralizados.
— Neutralizados? — Indagou Tarja.
— Completamente destruídos neurologicamente. São incapazes de reagir a realidade pelos sentidos. Estão presos em suas mentes. Como uma overdose de Qachruna, mas muito pior. É outra coisa que ainda não entendemos completamente.
A expressão de Tarja escureceu.
— E os dissidentes? Como eles sobrevivem lá?
— Não temos certeza. Sabemos que entram e saem pelas encostas do Vale. Nossos testes não deram respostas conclusivas. Apenas alguns Harata treinados pelos Urbani conseguem entrar na névoa por algum tempo, mas mesmo assim, eventualmente terão que sair, ou sua mente é consumida.
— Nós iremos entrar? — Erlan questionou.
— É uma possibilidade. — Samir disse já passando para próxima sala.
Eles chegaram a um vasto salão de treinamento. O leve cheiro de couro velho enchia o ar enquanto mercenários do Grêmio se enfrentavam com armas falsas. Seus movimentos eram precisos, disciplinados, muito diferentes dos golpes erráticos de mercenários comuns.
— Aqui vocês podem preparar-se fisicamente. — Samir observou Erlan e Ariel. — O Grêmio oferece mais do que conhecimento. E se um dia forem ao Vale, precisaram de muito mais que cultura e coragem.
Um silêncio pesado instalou-se. A escolha era deles. Mas o peso dela já começara a pressioná-los.
Para Tarja, o caminho estava se tornando mais claro. A vila Harata abaixo, as pessoas trabalhando em harmonia, isso despertou algo profundo dentro dela. A ideia de construir um futuro a partir de algo desconhecido, de forjar seu próprio propósito em uma terra de ruínas e sombras, parecia certa.
Para Ariel, era o conhecimento, os mapas, as respostas enterradas em histórias esquecidas. Ela se permitiria saber o que seu povo lhe escondeu.
Para Erlan, era algo mais simples. Como Tarja, ele não se importava com o motivo de entrar no Vale. Ele pensava na confiança e na ideia de que aqueles que o faziam sabiam o que estavam fazendo.
Samir os observou cuidadosamente e depois apontou para a saída do Salão.
— E aqui chegamos ao topo. A escada que cerca o prédio dá acesso à todas as salas. Disponham da minha ajuda sempre que precisarem. Meu dever me chama agora, mas estarei por perto.
Com um curvar suave, Samir se retirou.
Depois de alguns momentos de um silêncio contemplativo, eles desceram pelas escadas largas. Era quase meio-dia, e eles precisavam preparar outras coisas, como provisões e manutenção de armas. O que quer que fossem fazer, deveriam estar preparados.