Não levou muito tempo para que as palavras de Karak tornassem-se proféticas, e a Armada cobrisse Suyantara, as Ilhas Livres do Sul, com Maz Ynis suficiente para diminuir a população local de milhares de pessoas para quilos de cinzas e litros de fumaça acre voando pelos céus. O brilho doentio do fogo alquímico refletia nas águas turvas do mar do sul, pintando o horizonte com um laranja macabro que Karak observava em silêncio. Eles haviam abandonado a ilha antes que os cruzadores Onatra fechassem o cerco completo, fugindo na direção oposta à sensatez comum.
— Pelo menos agora a concorrência é menor. — Malek dizia debruçado sobre o mapa velho, iluminado por uma fraca lamparina a óleo no convés do barco pesqueiro rústico. A embarcação rangia contra as ondas pesadas, lutando contra o fluxo natural das águas do sul.
— Você acha que Raila seguiu para o combate? — Lateral adicionou com uma certa preocupação.
Ele, um Onatra desertor que aprendera a temer a implacabilidade de sua própria nação, ainda tremia sob a maresia fria. O pânico de testemunhar o poder do seu antigo povo sendo despejado sobre os piratas ainda o assombrava.
— Raila é uma sobrevivente, ela não iria se jogar em uma luta perdida. — Karak disse com o olhar no horizonte escuro.
Como a única mulher Sangamani no Conselho, e uma mente versada em prever os fluxos de poder, ela conheceria a arte de recuar quando as probabilidades não lhe favorecessem.
— Nós temos que nos preocupar com Shmaria, Shalev e Avivi. Eles também são sobreviventes, mas seus chefes não vão ficar felizes com o destino de Suyantara. — Karak adicionou.
— E você tem certeza que teremos apoio nessa terra maldita? — Malek retrucou sem tirar os olhos do mapa.
— Maiores serão as chances se você não chamar a terra deles de maldita. — Karak riu-se, um som áspero que se perdeu no vento uivante.
Ele conhecia a reputação de Jangunaray. Era um lugar onde o poder não se exibia com canhões, mas com contratos e liquidações.
— Ainda temos mais algumas horas de mar escuro e gelado para seguir antes de chegar ao porto oeste de Jangunaray, mas eles já devem estar esperando, depois do fiasco com o 'filho da Mãe' Urbani. — Malek adicionou.
— É tempo o suficiente para refletir até onde devemos compartilhar com nossos novos amigos. — Karak refletiu seguindo para a frente do barco.
A captura de Rentaniel foi um catalisador inesperado para toda a situação. Não que ela fosse de todo inesperada. Era questão de tempo para algo fazer os mais rebeldes membros do conselho darem um passo maior que a perna.
Ao chegarem ao porto, a atmosfera mudou drasticamente. A névoa espessa e a umidade perpétua engoliam a luz, transformando o dia em uma penumbra cinzenta e constante. O pequeno barco foi recebido sem cerimônia pelos Aborada que estavam de plantão nas docas. Homens altos e corpulentos, moviam-se com uma eficiência silenciosa e mecânica, amarrando as cordas e estabilizando a embarcação pesqueira.
Karak já estava familiarizado com a aparência de seus hóspedes, mas Malek e Lateral, no entanto, ainda precisavam acostumar-se com o lugar, o cheiro do ar carregado de esporos, e a aparência assombrosa das pessoas ali. A podridão parecia ser o estado natural daquela nação, onde os fungos nativos prosperavam e consumiam tudo o que não estivesse devidamente selado.
Um dos auditores da Cidade do Porto veio para acompanhar o processo, garantindo que tudo que precisava ser contido, e tudo que precisava ser controlado, seriam. Ele emergiu da névoa como uma aparição. A pele pálida, quase translúcida, contrastava violentamente com a sujeira do porto. Seus cabelos eram quase brancos, rente ao couro cabeludo, e os olhos exibiam um tom de púrpura escuro que parecia absorver a pouca luz disponível.
Karak recompôs sua postura, invocando o charme magnético e a presença persuasiva que fluía no sangue de seu povo, uma arma social que raramente falhava.
— Olá, caro amigo. Viemos com uma proposta justa, e espero que possamos... — Karak começou, sua voz adornada com a musicalidade típica dos Harata.
O Anoa apenas levantou suas mãos, um gesto curto e econômico, para que ele parasse. Karak, ao contrário do que experimentava com outros povos de Ealetra, sentiu a futilidade imediata do que estava tentando fazer. Não houve o habitual amolecimento das feições, não houve a quebra de tensão.
— Eu sou Idris Zadehi. Estou aqui como executor da sua 'companhia' e controlador de seu interesse em nossa nação. — A voz de Idris não tinha variação de tom, desprovida de qualquer calor ou hostilidade. Era puramente transacional. — Para que possamos seguir, estamos entendidos que esse é um empreendimento comercial, e o objetivo dele é agregar valor. Ele será liquidado de outra forma.
Karak o observou por algum tempo. Ele havia ouvido falar dos Anoa, de sua total e absoluta falta de empatia, compaixão ou simpatia. A aparência e a atitude de Idris o afetavam de uma forma que ele nunca havia pensado. Karak não era um homem de pesar os caminhos da Alquimia Universal com frequência, mas encarar Idris era como olhar para um espelho quebrado e desprovido de alma.
Lateral, por sua vez, decidiu ficar longe. Mesmo o seu tamanho e sua constituição de origem Onatra, que valiam pouco normalmente em termos de coragem, ali cercado pela burocracia mortal dos Anoa e pelo silêncio dos trabalhadores Aborada, ele estava especialmente afetado pela ansiedade.
Malek demorou um pouco mais para quebrar. Apesar de sua manifestação mais sóbria da natureza Harata, ele eventualmente entregou-se à insegurança daquilo tudo. Estar em uma terra onde o valor de um indivíduo é literalmente medido pela premissa de que seu valor vivo deve ser maior que o preço de sua morte.
— Meu amigo, estamos certos dos termos, mas não precisamos discutir logo de entrada, antes de uma apresentação mais... — Karak dizia, tentando recuperar o controle da narrativa tática, até ser interrompido novamente por Idris.
— Karak, meu 'amigo', nós Anoa somos primos distantes dos Harata. — Idris disse com imparcialidade absoluta. — Seu charme não nos afeta, e nossa distinta 'releitura' desse dom é melhor usada em negócios como os que estamos para fazer.
Era verdade. Os acadêmicos teorizavam, mas era fato os Anoa pareciam realmente ter a 'herança' Harata levada ao nível de uma sociopatia funcional. Seu carisma estava lá, mas era usado com uma finalidade totalmente diferente.
Eles caminharam em silêncio guiados por Idris. O chão do cais era escorregadio, revestido pelo musgo perpétuo que consumia as Terras Baixas. Chegaram até outra doca no pequeno porto onde atracava um barco maior e sensivelmente mais avançado do que a "madeira martelada na forma de um barco" em que os piratas haviam fugido.
A embarcação era imponente em sua funcionalidade bruta. Era feita de metal escurecido e malha asfáltica leve, uma adaptação engenhosa para resistir à corrosão ambiental. O barco era adaptado para utilizar motores de carbóleo, possuía velas retráteis e turbinas críticas, caracterizando-se como uma versão mais simples e menos potente dos massivos transportes da Armada Naval ou das luxuosas frotas dos Barões Harata, mas perfeitamente adequada para operações táticas.
— Seu novo empreendimento será conduzido neste 'escritório' móvel. — Idris disse, gesticulando para a embarcação com o mesmo tom monótono e seco. — Acredito que precisará mais do que sua presente 'companhia' para lidar com os requisitos.
— Teremos que procurar novos integrantes, de certo. — Malek disse, visivelmente aliviado por poder dar atenção aos detalhes mecânicos do barco e não à frieza opressiva do Anoa. Ele avaliou as linhas do casco e os propulsores de carbóleo, calculando mentalmente a velocidade e o alcance.
— Antes de tudo, teremos que ir até a capital, formalizar alguns acordos e garantias com o nosso governo. — Idris instruiu, ajustando o colarinho de seu casaco impermeável. — Nada fora do padrão. Nosso padrão, pelo menos, dada a companhia 'bárbara' de que eram parte até pouco tempo.
Um sorriso sarcástico curvou os lábios do auditor. Foi a primeira demonstração de algo vagamente humano, mas parecia mais uma simulação de superioridade do que diversão genuína.
— Precisamos todos ir-nos? — Karak perguntou, avaliando rapidamente o risco de se separar de seus tenentes de confiança em solo estrangeiro.
— Eu só preciso do líder. — Idris disse, seu olhar varrendo Malek e Lateral como se avaliasse ativos depreciados. — Os outros podem ficar e admirar as... 'belezas locais' ou mesmo avaliar seu novo local de trabalho. Não que eles possam operá-lo de qualquer forma antes de terminarmos a burocracia.
Os dois, Idris e Karak, dirigiram-se a um carro de aparência oficial que aguardava no limite das docas, um veículo fechado e resistente, preparado para navegar pelas estradas pantanosas e nebulosas que conectavam o porto à capital de Jangunaray.
Lateral e Malek decidiram explorar o barco, já que as ditas "belezas locais" resumia-se a pedras úmidas, fungos bioluminescentes e a labuta mecânica e deprimente dos estivadores Aborada. Eles não tinham interesse na desolação daquela nação.
A bordo da embarcação de metal e asfalto, Malek passou a mão pelo leme revestido. A engenharia era brutal, mas eficaz. Lateral andava pelos conveses inferiores, seus ombros encolhidos, ainda processando a transição do inferno de fogo em Suyantara para o inferno úmido e escuro das Terras Baixas. O jogo em Ealetra continuava, e embora eles tivessem escapado do expurgo da Armada, agora pertenciam a um sistema onde suas vidas eram apenas números registrados no gelado e inflexível balanço contábil dos Anoa.