O dia nasceu como sempre na costa para além do leste de Onachinia, espalhando o sol luminoso, o céu geralmente limpo e o frio que irradia do mar do norte indo misturar-se com as correntes quentes indo norte pelo Mar do Leste.
Na Sutay, já estava o aviso que uma nova reunião de seguimento seria feita naquela manhã.
Após o desjejum, Karak e Raila voltaram a cabine do Cruzador, onde agora estava apenas um Coronel e o mesmo Tenente de antes.
— Temos notícias positivas e conjecturas.
— Notícias boas? — Karak riu-se.
— Não senhor. Notícias positivas é o que sabemos, e conjecturas. — O Tenente disse sem muito humor. — As substâncias são minerais simples sem qualquer alteração por processo humano.
— O que é uma notícia boa. — Karak disse com um sorriso irônico.
— Talvez. Também sabemos que não são matérias primas para nenhum tipo de arma química conhecida. — O Tenente prosseguiu. — Conjecturamos que sejam materiais pra manutenção ou construção de alguma forma.
— Então essencialmente não sabemos porque estão transportando isso.
— Não. Mas uma operação em todos os cargueiros marcados nos diz que muito mais suprimento desses materiais era esperado, ou eles contavam com a operação e tem mais cargas que chegaram por outras vias que desconhecemos. — O Coronel interrompeu.
— Então devemos seguir para o próximo ponto? Aqui finalizamos? — Karak cruzou os braços.
— Positivo. Agradecemos a cooperação. Uma amostra do material será mantida para relatório, mas a maior parte está na caixa pronta para ser levada pela Sutay. — O Tenente retornou.
— Certo. Partiremos então. — Karak declarou levantando.
— Que o sol invicto brilhe sobre nossos planos. — O Coronel saudou a saída.
Karak saiu já informando Lateral para recolher a caixa do carregamento confiscado. Eles foram diretamente para a cabine da Sutay, mas Karak sinalizou que esperassem até estarem desconectados do Cruzador para falar sobre planos e resultados.
Uma hora e tanto de processos de navegação coordenados e a Sutay estava fora o campo do Cruzador, navegando sul para o porto da Fáscia.
— Quer dizer que esses minerais estão sendo puxados de algum lugar para o Vale, ou em segredo, ou em massa de forma que uma parte dele com certeza chegue. Mas se eles não servem para nada importante, então o que? — Malek ponderou.
— Eles devem servir pra algo importante, a Armada apenas não sabe o que. — Karak retrucou.
— Eu não sei o que é, mesmo com o relatório da Armada, mas apostaria que são para fazer algo alquímico no Vale. — Raila disse segurando uma sequência de Sete de Espadas, Estrela e Cavaleiro de Espadas. — o tempo de planos ocultos e excesso de cautela acabou.
— Assumindo que acredito nessa feitiçaria aí. — Carcará entrou na conversa. — O que aconteceu antes?
— Sabemos que eles estavam se escondendo e planejando, o sete. Mas algo aconteceu que colocou os planos em movimento. Provavelmente a tomada de Suyantara. Eles tem que agir, agora. O cavaleiro de espadas. — Raila disse balançando as cartas no ar.
— Bom, por mais que suas cartas nos façam pensar, precisamos de dados concretos. Melhor que essa Acadêmica deles tenha muito mais certeza do que a Armada. — Karak disse com um tom de finalidade.
Algumas horas depois a Sutay estava atracando porto central da Fáscia, dentro da Doma. Lateral, Sajó e Barisi decidiram permanecer com a Sutay, enquanto Carcará desembarcou mas decidiu andar pelo mercado.
Raila e Karak seguiram para o compromisso marcado. Um carro arranjado pelos Fundos Luar os trouxe pela cidade até a Academia de Alquimia Aplicada, uma instituição Urbani que espelhava sua contraparte no Reino de Khadija, a terra natal Urbani em Pasvara.
O famoso prédio tinha indicações diretas de por onde ir para chegar aonde se vai. Setas coloridas, chão com padrões e cores, orientando até mesmo aqueles que não enxergam. Eficiência total.
Ao chegarem, tendo despertado pouca curiosidade pela instituição, Karak e Raila despertara a curiosidade da Professora e Analista da Regência.
— Um Harata e uma Sangamani, que definitivamente partilharam a caminhada. Parece que vai se tornar uma moda. — Syndra riu-se. — Perdão. Eu sou Syndra de Miralamar, e vocês devem ser Oficiais da Sutay.
Raila fez uma cara de asco com a menção que sabia referir-se a Nandi. Tentando ser discreta, mas ainda não tão suavizada pela sua sombra do dom Harata.
— Raila Ktono. Não quis ofender. Nandi é uma filha adotiva da Fáscia. Entendo que haja alguma coisa aí, e tal. Não a conhecia pessoalmente, mas posso entender. Mas Nandi chegou aqui nova, seu passado conturbado. Você pode outro lado parece bem mais clara com sua cultura e sua posição. Tem um charme todo seu.
Raila teve um certo suavizar. Ela sabia que Syndra estava sendo sincera em seu jeito. Sua rivalidade com Nandi era de outra ordem, não por quem Nandi era, mas pelo que significava em sua cultura. Nada que impedisse que ela aceitasse o elogio.
— Estamos procurando uma professora, acadêmica, ou algo assim, Priyangani Ariwansha? — Raila aproveitou o foco que recebeu.
— Ah sim, essa é a sala dela, mas ela deve ter ido verificar alguma coisa, ou consultar com alguém. — Syndra disse amável. — Algum assunto geral de Alquimia? Ou ela especificamente?
— Ela especificamente, na verdade. — Karak disse.
— Ah sim. Vocês são da equipe do Ravantes, tem seus assuntos com Jangunaray. Nem é bom eu me envolver. Facilita negar que sei. — Syndra riu-se, virando para retirar-se.
— Mas há uma pergunta 'geral' que poderia ajudar ser de uma fonte 'neutra'. Porque alguém estaria procurando cultivar Toranjas além de realmente um tipo de 'gosto pessoal'? Tem alguma coisa que faça essa fruta especial? — Karak disse com uma certa casualidade.
Syndra virou-se de volta com um interesse renovado.
— Ah, vocês estiveram no Norte da Fáscia, creio. Interessante. Sangamá, o centro do Beru, e o sul de Angaraya são grandes produtores. Aqui o clima torna o cultivo extremamente difícil. Mas alguns tentam resolver os problemas naturais com o clima e o tipo de solo do leste porque Toranja é uma fonte rica natural de substâncias que desaceleram o metabolismo de certos alquímicos.
Syndra olhou para cima, para o lado, gesticulando para Raila.
— Uma delas é Qachruna. — Ela disse sorrindo.
— Sim, é verdade. — Raila respondeu olhando para Karak.
— Harata e suas Sangamani, sempre trazendo curiosidades interessantes para nossa academia. Voltem mais vezes com suas questões 'gerais', serão ótimas para novos estudos. Nossa criatividade está realmente em falta por aqui, trancados nessas salas. — Syndra disse retirando-se.
Raila e Karak se entreolharam. Com certeza havia mais o que dizer, mas ali não era o lugar.
Alguns minutos depois Priya aproximou-se.
Sendo a única Anoa em vista por toda a estadia, Karak a interpelou quebrando o diálogo interno que a acadêmia vinha trazendo.
— Priyangani Ariwansha? Sou o capitão da Sutay. — Ele disse com tom assertivo.
— Sim, 'capitão da Sutay'. — Ela disse imitando seriedade.
— Desculpe. Eu sou Karak, capitão da Sutay, esta é Raila Ktono, minha imediata. — Karak disse assumindo o charme Harata.
— E bem imediata pelo que vejo. — Priya sorriu. — Desculpa, hábitos que peguei dos Urbani da Academia. Falar o que percebemos sem filtro.
— Não faz mal. Sinceridade é um ponto positivo para um Harata! — Karak disse com um sorriso cordial. — Podemos conversar?
— Claro, minha sala aqui. Estava já esperando sua chegada. Apesar de que não poderia pensar que sua imediata era Sangamani. Tantas perguntas que vão ter que esperar. — Priya sorriu, seus olhos purpura brilhando.
Karak puxou os dados da investigação da armada, e também uma pequena caixa com algumas amostras dos materiais citados.
Priya os recebeu pelo ponto pessoal, passando para seu console na mesa.
Ela leu por alguns segundos e já fez uma cara mais preocupada.
A Anoa olhou para Karak e Raila, e pegou seu comunicador interno.
— Limpe a minha agenda para o dia, sem reuniões hoje. — Priya disse para quem quer que fosse do outro lado.
— Temos que conversar, e eu tenho muito que fazer. Parece que realmente, muitas perguntas, que afinal eu poderia fazer. — Priya sorriu.