Como se a água deslizasse suavemente sob a Sutay, o balanco era quase relaxante se não fossem as implicações da missão ainda em andamento.
Na baia de carga, Karak, Barisi e Sajó decidiram olhar o que estava em uma das caixas destinadas ao Vale.
Preparados razoavelmente com roupas de proteção e máscaras de gás, os três decidiram por abrir cuidadosamente a caixa menor. O selo era meramente uma segurança que a caixa não havia sido violada desde o último transporte.
Com o equipamento da própria Sutay estava claro que não eram objetos, mas substâncias, pó e pequenas pedras, divididas em caixas. O sonar não podia definir muito mais que isso, mas era impossível que estivesse armada para uma detonação, ou que tivesse algum tipo de dispositivo.
Ao abrirem, eram caixas seladas dentro da caixa maior, com substâncias aparentemente inertes. Nenhum alarme soou, portanto não havia nenhum tipo de vapor ou partícula dentre as que poderiam disparar o alarme de contenção da Sutay.
O sonar revelou que as outras caixas continham basicamente o mesmo tipo de materiais.
— Teremos que esperar o contato com a equipe técnica. — Karak disse observando as caixas.
— Eles já estão a caminho? — Malek perguntou já selando a caixa aberta dentro de um contenedor da Sutay.
— Algumas horas. — Karak disse já retirando a roupa de proteção.
Eles subiram de volta à cabine de controle, e seguiam parados na gira. Ainda perto de Onachinia mas longe o suficiente para estar fora de contato com controles de terra.
Depois de algumas horas, Raila e Carcará já estavam recuperados, voltando à seus postos. A tarde já estava assentando o sol no horizonte, e uma embarcação que não necessitava apresentações aproximou-se. Era o Cruzador de Batalha Classe Sedov, a linha que a Armada batizou em homenagem ao General Taras Sedov.
Ao aproximar-se, a Sutay foi obrigada a ativar motores e manobrar para manter a posição. O Cruzador da Armada poderia colocar uma Sutay inteira em seu convés de proa, e ainda sobraria espaço para os canhões de Maz Ynis e Rij Ynis que marcavam sua categoria. Um Cruzador de Batalha Classe Sedov poderia, se fosse sua missão, destruir uma ilha inteira como Suyantara em um simples salvo de metade de seus canhões.
Ao pararem lado a lado, os túneis de abordagem do Cruzador serviam tanto como passagem entre as embarcações, como poderia manter a Sutay presa sem a necessidade de uma âncora ou motores de estabilização.
Esse Cruzador não tinha baterias de Carbóleo, ele era capaz de carregar Carbóleo cru e produzir Carbóleo não só para seu uso, como produzir baterias de Carbóleo no mar. Era praticamente uma base militar estratégica que podia navegar.
— Eles estão pedindo sincronia de dados, capitão. — Malek disse observando o console de comunicações.
— Chaveado? — Karak perguntou.
— Assinado pela General Sedova, capitão.
Karak conectou o ponto de Zamani, e a conexão foi feita. O sistema estava conectado. Era provável que qualquer coisa que não fosse para ser comunicado não seria.
A sincronia durou algum tempo.
— Eles estão abrindo um canal VHF, capitão. — Malek avisou.
— No fone. — Karak disse já tomando o fone individual.
— Sutay, Coronel Dmitri Kirov. A General Svetlana Sedova convida seu capitão e imediato para Conferência em nossa embarcação. A segurança de todos na Sutay estará assegurada pela Armada. Esse é um convite pacífico. Aguardamos. Segue.
— Recebido. Em 10. Sutay aquiesce. Segue. Fim.
Karak e Raila se entreolharam. Eles desligaram a comunicação de voz, mantendo apenas a comunicação de dados.
— Malek, mantenha as coisas por aqui. Vamos ver o que essa nova 'colaboração' nos traz de bom. — Karak disse rindo-se.
— Já. capitão. — Malek respondeu com tom casual, movendo-se para a ponte.
Karak e Raila caminharam pelo túnel estendido até o Cruzador, e já na entrada foram recebidos por dois oficiais, majores, enquanto dois baluartes postavam-se nas laterais do túnel.
— Bem vindo, capitão da Sutay, imediata da Sutay. A General e o comitê os esperam na cabine estibordo. Se tiverem algum armamento ou equipamento de natureza militar ofensivo ou defensivo, pedimos que deixe-os antes de entrar, por protocolo. — O oficial mais velho disse, enquanto os acompanhava para a cabine mencionada.
Karak mostrou seu casaco demonstrando estar desarmado. Raila levava uma vestimenta tradicional Sangamani, sua forma evidenciava estar sem nenhum tipo de armamento.
Ao entrarem na sala, a General Svetlana sentava-se frente a uma mesa quadrada com cercada de três cadeiras em cada um dos lados, e uma plataforma trapezoide que tinha telas para cada um dos quatro lados, e microfones e entradas para pontos pessoais para cada assento.
Karak e Raila foram direcionados para as posições logo a frente da General e seu auxiliar.
— Comecemos. Como é uma reunião informal de seguimento, podemos dispensar as formalidades normais. Nosso objetivo é o encontro que a Sutay manteve com operativos do Vale. Entendemos que eles entraram sob falsa identificação e cruzaram o território da Confederação de Onachinia e da Federação Erítria, buscando acesso ao Vale. — O Tenente ao lado da General relatou. — Algum relatório complementar?
— Se é presumido que isso explica o fato de que a Operação de Transito do posto permitiu que passassem para o Vale como nós, não há nada a acrescentar. — Karak disse com um tom cínico.
Depois de uma troca de murmúrios com a general, o Tenente olhou alguns dados na tela.
— Com a permissão do Capitão, gostaríamos de examinar a carga confiscada. Temos especialistas que podem falar sobre a alquimia desse carregamento.
— Poderia trazer uma das caixas para sua embarcação. Um dos meus pode fazê-lo.
— Perfeito. Vamos proceder com isso, e nos reuniremos novamente amanhã. — O Tenente disse.
— Obrigado pela concessão dessa reunião. Esperamos uma cooperação benéfica com a Sutay no futuro. — A General disse, estendendo um sinal de que podiam retirar-se.
Karak e Raila retiraram-se deixando a General e o Tenente ainda ali.
Ao saírem, Karak chamou Lateral em seu ponto pessoal para que trouxesse a caixa que haviam aberto para o Cruzador.
Apesar do andar e postura joviais, o Onatra chamou atenção ao entrar no Cruzador com a deferência que tinha à um Capitão Harata. Com certeza aquilo serviria como algum tipo de demonstração entre os Oficiais. Lateral era, afinal de contas, não mero Onatra, mas um de constituição e aparência calejada pela guerra e pelo conflito dos Mares do Sul.
— Podemos manter a Sutay ancorada em nosso Cruzador como fazemos com nossos próprios dispositivos, ou podem liberar-se até estarmos prontos para a nova reunião. — Disse um Major quando deixada a caixa no Cruzador.
— Não temos problemas. Podemos ficar ancorados no Cruzador. Somos aliados, não somos? — Karak disse já saindo para o túnel.
Os tripulantes da Sutay retornaram, fechando-se na cabine, observando pelos painéis a imponente enormidade do Cruzador. Era como sempre, a Federação demonstrando que seu apoio não vem meramente de um esforço cooperativo, mas também de uma aliança pragmática que não entram por necessidade, ou assim gostam de deixar parecer.
Além da troca de inteligência, Oficiais da Armada também ofereceram suprimentos de carnes e panificados, diretamente de Onachinia, e recarga das baterias de Carbóleo da Sutay, como parte de um esforço cooperativo com a missão que ainda estava em andamento.
Enquanto a Sutay estava ancorada no Cruzador, tinha acesso a uma ligação direta com o porto pelos potentes retransmissores, com o porto, e por ele com a rede de cabos do Leste, que permitiria comunicação entre a Aliança. Suyantara Leste ainda não estava ligada com a rede geral, porém.
As instruções até então, sem conhecimento direto de Ravantes ainda, era seguir com a investigação, com ou sem a cooperação da Armada ou da Fáscia, em qualquer passo.
— Capitão, recebemos instruções de Jangunaray no canal encriptado. Devemos procurar contato com uma Acadêmica, Priyangani Ariwansha, na Fáscia, sobre conexões locais, e sobre o que quer que os especialistas relatem. — Malek disse indicando para Karak o console de comando.
— Significa que teremos que ir a Magdalagur. — Karak murmurou lendo a mensagem.
— Significa que existe algo nisso tudo que Jangunaray, ou Ravantes, não quer que a Armada ou a Fáscia saibam. — Carcará comentou descendo para sua cabine.