Onachinia é uma nação
pacífica, e seu povo é estranho a qualquer tipo de conflito generalizado
e armado com outras nações. A educação que todos recebem em suas
cidades é voltada para o trabalho e para a vida, mas apesar de falar
sobre as guerras históricas, faz pouco em deixar claro como essas coisas
funcionam.
Lumi é uma dessas filhas de Onachinia, que em 20
anos de vida nunca esteve fora daquele país, mas estava prestes a
embarcar em uma viagem que poucos faziam. Ela iria pegar o trem de vapor
até a capital, Vila Pequena, a cidade que recebeu esse nome antes de
tornar-se a capital, e cresceu até tornar o nome um tipo de piada
cultural.
A garota ia quieta observando um caminho que nunca
havia visto antes. Sua casa nas montanhas do nordeste de Onachinia era
completamente diferente de uma casa de cidade. A pequena vila onde
morava era pequena mesmo, com algumas casas e a mina de metais que era o
motivo da existência da pequena área urbana.
Todo o povo que
vive em Onachinia é da etnia Carpata, um povo que tem ancestrais comuns
com o povo do outro lado da fronteira leste, os Onatra, mas divergiram
há muito tempo, tanto etnicamente quanto culturalmente. Por toda a
Onachinia, as coisas eram voltadas para o trabalho. Grandes oficinas,
grandes lojas, grandes centros empresariais. Até as delegacias de
polícia, poucas, eram mais parecidas com escritórios de uma empresa de
segurança.
Conforme aproximavam-se de Vila Pequena, as cidades
no caminho ficavam maiores, mais movimentadas, os prédios mais altos, e
mais imponentes.
Entrar em Vila Pequena era inconfundível, já que o letreiro construído, em metal branco fosco e imponente dizia o exato momento.
A
cidade era cheia de prédios altos, e ao contrário das outras cidades,
tinha vários trilhos para outros trens que passavam dentro da cidade.
O
trem precisou de aproximadamente uma hora para chegar no destino de
Lumi, um prédio dos mais altos inclusive para Vila Pequena, e largos
como para fazer uma sombra magnânima na entrada espaçosa que o trem
cruzava para chegar a plataforma. Era a Centro Avéria, noemado pela
cadeia montanhosa que parte desde a terra natal de Lumi, no nordeste de
Onachinia, até o outro lado do continente, depois das fronteiras do país
vizinho, a Federação Erítria.
A estação assim como trem eram
organizados como tudo em Onachinia. A passagem tinha uma cor, e as
paredes eram decoradas com linhas indicando para onde os portadores da
passagem com uma cor específica deveriam seguir. Lumi havia sido
orientada pelo agente que lhe concedera o trabalho que buscava como
lidar com a cidade. Apesar de curiosa sobre a cidade, ela sabia que
Onachinia em geral, mas mais ainda a Eletrochinia, empresa que a
contratara, eram rígidos com prazos e expectativas. A garota não tinha
certeza quanto tempo demoraria, e quanto tempo tinha, e apesar do
contrato indicar dias, a viagem seria longa.
Ao seguir para o
fim da linha amarela, a cor da sua passagem, Lumi estava de frente com
uma linha de guichês e um dispositivo na parede que não parecia
familiar. A garota parou, desconfortável, tímida como muitos dos
Carpata, esperava saber o que fazer ou ser óbvio como prosseguir.
Outros
passageiros passavam por ela nem um pouco preocupados com a garota
perdida, eles provavelmente tinham outras preocupações em mente.
Um
deles passou pela garota e apertou a palma sobre o dispositivo, que
entregou um papel. De posse do papel, ele sentou-se numa área de
cadeiras, provavelmente esperando. Agora parecia óbvio como prosseguir.
Ao
pegar o seu papel, Lumi viu um número, um padrão impresso que parecia
com nada que havia visto, e só. Nada escrito, nenhuma instrução.
O
rapaz olhou para Lumi e automaticamente sabia que ela não era da
cidade, provavelmente de cidade nenhuma. Os Carpata das regiões mais
afastadas tem a pele e os cabelos diferentes. O sol não paira nas
regiões do norte de Onachinia como castiga o planalto central.
—
Você espera o seu número aparecer, e mostra o código na luz. — disse o
rapaz apontando para os dispositivos espelhados no guichê.
— Obrigado. — respondeu Lumi para o rapaz que já havia mudado sua atenção.
Um
traço comum a todos os Carpata é o pragmatismo e a secura no tratar com
estranhos. Um traço cultural de um povo que não via guerras, mas era o
resultado de uma. Eles sempre tinham um senso de humor ácido e um apego
grande por família e amigos, mas estranhos de qualquer ordem eram sempre
tratados com o máximo de objetividade e o mínimo de abertura.
Alguns
minutos e o número de Lumi apareceu no guichê e ela foi seguindo as
instruções. O aparelho estava numa janela que permitia saber que havia
uma pessoa ali, mas não permitia o contato visual, apenas a frente da
máquina com os espelhos que refletiam a imagem da senha para o leitor.
Em
alguns segundos, uma nova passagem, agora de cor verde clara, foi
entregue. A linha verde clara levava para um corredor que ia distante
dentre vários corredores coloridos. O rapaz que a instruíra há muito
havia partido, e outros passageiros já iam e vinham, alguns paravam como
ela, outros seguiam. Lumi não via outra alternativa, era seguir o
fluxo.
A linha verde clara a levou para a plataforma de
embarque de outro trem. Dessa vez uma que era novidade até mesmo para o
que a garota tinha ouvido falar. Massivas placas de material translúcido
que não pareciam vidro selavam a passagem para o trilho, com portas de
trilho fechadas e travadas por dispositivos magnéticos.
Além
dos bancos em fila, havia outros mais atrás com plantas artificiais e
uma pequena galeria com máquinas de venda oferecendo diversos tipos de
lanches e bebidas.
Lumi não fazia ideia de como elas
funcionavam, mesmo vendo as pessoas usando as máquinas. Elas tinham umas
carteiras plásticas que aproximavam de sensores para fazer as comprar
nas máquinas, e apesar de todas serem usadas do mesmo jeito, tinham
cores, formas, desenhos diferentes.
Até aquele momento Lumi
nunca havia utilizado dinheiro de forma alguma, mas até onde sabia sobre
o que diziam, aquilo não era a forma como se compravam as coisas, pelo
menos não como ela poderia entender.
Depois de algum tempo
contemplando a simplicidade e as novidades do ambiente, mesmo que não
tão cativante ou estimulante, o trem chegou iluminando o fundo das
paredes translúcidas da estação.
Lumi e os outros passageiros
seguiram para entrar pelas duas portas largas que abriram-se
automaticamente, guiados pelo contador que dava cinco minutos como um
prazo para que entrassem. Pelo tamanho do trem, aquela não era a única
entrada, e os passageiros não eram suficientes para tornar cinco minutos
de embarque alarmantes.
Vagarosamente os passageiros foram
entrando, e Lumi observava que havia pessoas na área de entrada do trem
orientando os passageiros.
— Lumi Bergstrom, um prazer.
Eletrochinia patrocina sua viagem. Seu assento é no fim deste corredor à
direita. Cabine 23. Tenha uma excelente viagem. — disse o comissário
apontando o corredor que ela seguiria.
— Obrigado — Lumi respondeu discretamente, para um sorriso do rapaz já observando o próximo passageiro.
Ao
chegar na cabine, na entrada estava o logotipo da Eletrochinia. Ela
sabia que provavelmente o trem mesmo era de alguma forma ligado à
Eletrochinia, a empresa que todos em Onachinia conheciam de uma maneira
ou de outra. Ao abrir a porta, já havia um outro passageiro, um homem já
no terço, como os Carpata se referiam a pessoas com mais de 60 anos.
—
Lumi, um prazer em conhecê-la. Eu sou Kivi, representante comercial. —
disse o homem já ajudando a garota a colocar suas malas nos
compartimentos superiores.
— Igualmente. Vamos trabalhar
juntos? — a garota perguntou, um pouco tímida sem a certeza se ele
estava sendo meramente educado ou tinha realmente algo a ver com ela.
— Talvez, mas você vai trabalhar com o Toivo, eles disseram. No escritório da Trifronteira. Preparada para a viagem?
— Muitos trens ainda ? — A garota sorriu timidamente.
— Nossa próxima parada é o Khara. Não te disseram?
Lumi estava confusa. Claro que na passagem e nos documentos dizia Vostchnaya Khara, mas para ela era apenas uma estação.
Kivi
sorriu e segui ajudando a garota a se acomodar antes da partida do
trem. Ele explicou a ela algo sobre o trabalho, e Lumi falou sobre ela e
sobre o trabalho que esperava.
O trem não era mais o simples
trem de superfície que primeiro a trouxe a Vila Pequena. Esse era um
trem eletromecânico que seguia rápido. A maior parte da viagem no meio
da Tundra era basicamente árvores ao longe e a neve, terra e ocasional
borrão que passava rápido demais para significar alguma coisa.
Depois de alguns minutos de viagem, Kivi apontou para Lumi no horizonte uma torre negra que aparecia no horizonte.
— Aquele é o Khara. A Torre Negra da Vostochnaya Khara, a capital de Erítria.
— Capital de Erítria? Saímos de Onachinia já?
— Sim. Nunca andou de TTM? Estamos longe de Vila Pequena já.
Os
olhos da garota se arregalaram. Mais ainda porque a tal torre negra não
parava de crescer no horizonte. Quando os muros do Khara apareceram,
eles também não paravam de crescer no horizonte. Era como se estivesse
perto, mas no itinerário ainda havia quase uma hora para a chegada.
Kivi
contou para Lumi que o Vostochnaya Khara era a fortaleza que Erítria
construiu para ser inviolável, durante a guerra. Era li que viviam e
trabalhavam os generais e altos oficiais que comandavam a Federação
Erítria, uma nação autocrática militar, em que praticamente todo o povo
era parte do exército.
Ao se aproximarem, a vista era
inimaginável até então para Lumi. Os muros externos da fortaleza eram
mais altos que os mais altos prédios que ela já tinha visto na vida. A
torre que tanto impressionava era tão alta que ela de perto não
conseguia mais ver o topo.
O trem entrou no Khara por um túnel, e então nada via-se pelo lado de fora, e por dentro o alto-falante já anunciava a chegada.
—
Caros passageiros, chegamos ao Vostochnaya Khara. Em alguns momentos
estaremos na doca de desembarque, onde seguirão pelos corredores das
portas que saírem para seus destinos. Lembrando que se existe uma porta,
ela não deve estar aberta, mas se estiver, ela não é para ser cruzada.
Aos que nunca estiveram aqui, não alarmem-se com a presença dos
militares. Ela é tanto uma constante quanto uma segurança para todos.
Obrigado.
Kivi, percebendo o susto de Lumi, sorriu como se para uma criança perdida.
— Bem vinda a Erítria moça. Você definitivamente está longe de Onachinia, em muitos sentidos.
Os
dois saíram andando no corredor bem iluminado, limpo e cercado de luzes
e câmeras por onde a cada 5 metros poderia encontrar um soldado armado,
ou muitos soldados armados.
Na caminhada de alguns minutos a
nova realidade era tão constante que Lumi até habituou-se a ver soldados
armados ao redor dela. Desta vez podia seguir Kivi que sabia estar indo
para o mesmo lugar.
No fim do corredor era uma entrada
diferente. Kivi foi primeiro, pressionando a mão sobre um globo vermelho
num dispositivo, que respondeu permitindo sua passagem na catraca
individual. O mesmo fez Lumi, mais cuidadosa e curiosa.
Ao
passarem pela catraca, entraram numa outra sala similar a anterior
espera, mas as paredes eram diferentes, mais densas. Não havia visão da
área do novo trem, ao invés disso uma porta que mais parecia a porta de
um cofre de banco do que de uma estação.
— Agora é que você vai ver a novidade mocinha. — Kivi disse com a risada áspera que a idade lhe conferia.
Enquanto
seguiam, dessa vez Lumi e Kivi foram deixar sua bagagem com um
funcionário numa divisão da sala de espera, sendo permitidos apenas o
que pudessem carregar nos bolsos. Lumi ia entregando suas coisas
vagarosamente, mas Kivi com um sorriso tentou deixá-la mais tranquila.
Essa
viagem já era uma rotina para Kivi, mas ele entendia como seria
estranho para uma menina do nordeste de Onachinia enfrentar o "Verme".