Panela velha

Eles voltaram para a casa com pães frescos, e variedades de frutas, tudo que não poderia ter ficado guardado à espera. Era a hora de colocar o talento de Tarja à prova.
— Agora não tem a desculpa de restrição de acampamento, e nem a ajuda da vila em Magenta. Vejamos como essa Carpata se vira na cozinha. — Valaravas riu-se.
A viagem mais turística do que propriamente necessidade, mas Tarja sabia. Era uma ambientação, uma preparação para tempos complicados que viriam com a aparente ideia de que teriam que viver naquela casa como uma família por algum tempo. Ela era Carpata, ela sabia como era a vida comunitária, e que muitas pessoas diferentes no mesmo espaço eventualmente criava conflito. Mas também como Carpata, nada melhor para aliviar um conflito do que boa comida.
Tarja se ocupou na cozinha, cantarolando baixinho enquanto trabalhava. Erlan encostou-se no parapeito da janela, de braços cruzados, observando a cidade com um olhar que pairava entre a curiosidade e o desconforto. Ariel sentou-se à mesa, seu olhar alternando entre Nandi e Valaravas enquanto eles desempacotavam suas compras.
Aquilo a vinha corroendo desde que puseram os pés na cidade. Ela exalou lentamente, pressionando as mãos espalmadas contra a mesa de madeira. Ela estava contrariada, e como não tinha noção de vida doméstica, ela levava tudo que Nandi e Valaravas, e até mesmo Tarja, estavam fazendo como um exagero. Era como se estivessem fingindo ser uma família, já que Ariel não sabia que uma família Harata, ao contrário do Silvani, é muito mais que isso.
— Então, vocês moravam aqui. — Ela mais falou do que perguntou.
Valaravas mal ergueu o olhar, suas mãos se movendo fluidamente enquanto colocava as provisões embrulhadas.
— Quando estou na Fáscia. — Sua voz era casual, com a naturalidade daquilo tudo. — Antes, morávamos em Kelesh, mas agora Nushala mora lá.
— Vocês três? Aqui. — Ariel não deixou o assunto mudar.
Desta vez, Valaravas olhou para ela. Sua expressão permaneceu indecifrável, mas algo em seu olhar mudou. Ele viu o argumento, retornou aguçado, divertido, testador.
— Claro. É uma casa grande, tem espaço, porque algum de nós iria morar em algum lugar. Não estamos agora os cinco aqui? — Ele adorava o jogo, mas sabia onde ia dar.
Ariel não perdeu a maneira deliberada como ele disse isso.
Nandi colocou uma bandeja de madeira sobre a mesa, com as frutas arrumadas em um arranjo. Era fora de personalidade para ela, mas algo em seu olhar mostrava que estava acompanhando a 'situação'.
Ariel bateu os dedos uma vez contra a madeira.
— Então era normal? Ninguém reparava. Ayla nunca disse nada, como Urbani, como mulher, como seja lá o que for que chamam o que vocês eram?
Valaravas inclinou a cabeça ligeiramente, estudando-a.
— Você não está in Tirayon, nem em Khadija. Perto, mas nem na Federação. Estamos na Fáscia. — Valaravas disse com um tom doce, sensível, mas assertivo à sua maneira.
Valaravas viu a necessidade de acrescentar seu dom carismático na conversa. Sua voz era uniforme, carregando algo firme e estranhamente gentil. Ele modulou a frequência de sua voz, e Ariel já estava encarando-o como demandando as respostas de seus olhos, mas o que ela encontrou nem percebeu, apenas o resto do mundo turvando enquanto ela se via presa no olhar dele, enxergando apenas a urgência de ouvir o que ele tinha a dizer.
— Esta é a Fáscia. Esta nação foi construída sobre a união daqueles que viviam aqui, não sobre a moralização forçada de um povo sobre outro. Cultura da Fáscia, regras da Fáscia, povo da Fáscia. Essa é uma casa na Fáscia, e aqui vivemos como se vive na Fáscia.
Ariel sabia que não deveria se irritar, mas as palavras ainda atingiram suas sensibilidades. Em vez disso, ela forçou uma risada aguda e oca.
— Você diz isso como se fosse óbvio. Exílio significa viver fugindo, e eu nunca conheci nada em Ealetra antes disso. Eu não teria como saber. E nem como entender. — Ariel explodiu, seus olhos firmes, suas mãos cerradas.
Valaravas recostou-se em uma cadeira, espreguiçando-se ligeiramente, seu tom suave sem esforço. Ele cessou seu esforço hipnótico que prendia a atenção de Ariel, mas ela seguia focada nele.
Valaravas então colocou as mãos em cima da mesa, como se fosse começar uma aula de estudos sociais.
— Você esteve em Magenta, em Vila do Luar. Nós caminhamos juntos, conversamos de perto. Alguém te questionou, andando comigo, e com Nandi, em algum lugar? Alguém te xingou pelas costas? Alguém te olhou julgando? Alguém sequer te excluiu do grupo?
Ariel cerrou a mandíbula.
— Isso é... — Ela hesitou, sentindo a armadilha antes mesmo de pisar nela. — Isso é diferente. Nós não somos... eu não sou...
Valaravas sorriu, lento e sem esforço.
— E como você acha que eles saberiam disso? Eles não sabem. Eles simplesmente não se importam. Talvez uma piada aqui ou ali, mas meus primos são assim. Não é do nosso jeito questionar coisas que não nos dizem respeito.
— Ouvi dizer que você se divertiu com a Melica quando a conheceu... — Valaravas acrescentou um pouco humoroso.
O silêncio se estendeu, carregado com o peso de pensamentos não ditos. Foi Nandi quem o quebrou primeiro. Ela pousou a taça que segurava, sua voz firme, suave, mas carregando algo inflexível.
— A Fáscia é a família da Grande Mãe. Só vivem aqui seus filhos. Somos todos família na Grande Mãe, e somos quem somos. O mundo fica pra trás quando entramos pelos portões azuis da Fáscia. — Nandi falou completamente fora de sua personalidade, em Silvani, mas como Ariel nunca tinha ouvido antes.
Ariel hesitou. Perplexidade deu lugar a oportunidade, ela ia finalmente dizer a Nandi claramente o que queria.
— Famílias não... — Ariel falou, devagar, perdendo a voz.
Ela mesma se interrompeu antes de dizer algo que não poderia retirar. Nandi apenas a observou.
— Família não tem forma. Você é filha dos Silvani, mas não é sua cópia. A Grande Mãe te recebe, ela te deixa ser quem você é. Porque ela acredita em você. Mas lembre-se, Urbani também são filhos dos Silvani. A Fáscia vem da sua cultura tanto quanto a sua família. — Nandi disse ainda em Silvani.
Ariel percebeu o que Nandi estava fazendo, e entendeu. Aquela não era Nandi expressando a familiaridade, era uma voz da Fáscia, vindo de longe, ou pelo menos seria isso que Nandi acreditava, e que ela estava começando a acreditar também.
Os dedos de Ariel se fecharam em punhos sob a mesa. Se era isso mesmo, essa voz tirada da energia cósmica da Fáscia tinha que ouvir umas verdades.
— Minha irmã teve que fugir de casa e adotar tradições Onatra apenas para ficar com o homem que amava. — Sua voz saiu baixa, tensa com o não dito, próximo ao ressentimento. — Mas aqui? Aqui, ela poderia simplesmente... ser? Sem exílio. Sem consequências. Sem julgamento.
Sua garganta se apertou. Agora ela podia dizer o que queria, para Nandi, para Valaravas, eles entenderiam seu Silvani, ela sabia. Não tinham mais desculpa.
— E Ayla, ela provavelmente ...
Valaravas exalou pelo nariz, um som baixo e medido.
— Ariel, seu povo não é você. A justiça que você condena condenou seu povo, mas não a você. Sua irmã sofreu, sim. Você pode lamentar por isso indiretamente, ou pode ser você mesmo, aqui, nessa família, na Fáscia. — Ele encontrou o olhar dela, trazendo-a.
— Ayla era da Fáscia. Ela só conhecia essa cultura. Ariel. Sua irmã conheceu a cultura Onatra. Ambas foram felizes. Você não acha que ser feliz é mais importante do que justificar o sofrimento? — Nandi disse com a voz que tomara emprestada.
Ariel se levantou de um salto, a cadeira arrastando no chão.
— Não significa que seja justo, comigo. — Sua voz saiu afiada demais. — Não consigo acreditar que tínhamos uma escolha.
Ela se virou e saiu antes que pudessem dizer mais alguma coisa. Antes que pudesse ver qualquer expressão que estivesse se formando no rosto de Valaravas. O corredor a engoliu rapidamente, o ar frio em sua pele não fazendo nada para acalmar o calor que subia em seu peito.
Ariel encostou-se na parede do lado de fora do salão e deslizou lentamente até sentar-se no chão. Tudo o que sofreu, ou suportou em seu exílio, poderia ter sido diferente, aqui. Tudo o que ela aceitou por não ter nada melhor, ela poderia ter tido melhor aqui. Aquilo não fazia sentido, e ela estava lutando com a constatação de que não precisava fazer.
Seus grandes olhos verdes marejaram com o pensamento de que, de fato, ela ainda podia. Ela estava vivendo. Valaravas, Nandi. Seu irmão, com Tarja. Pode não ser perfeito, e levou tempo para acontecer, mas e se?
Ela havia perguntado há muito tempo se seria aquilo, e agora, perguntou a si mesma novamente: E se for isso? E se for ele?
Tarja veio com a comida. Todos pegaram sua parte e sentaram-se ao redor da mesa, deixando Ariel decidir quando participar.
— Por falar em desjejum apimentado. — Tarja não podia perder a deixa.
Ariel voltou, sentando-se um pouco afastada de todos. Valaravas, como era de seu feitio, percebeu que ela não estava com raiva, mas envergonhada. Seu isolamento não era sobre eles, era sobre si mesma. Ele lançou um pequeno aceno discreto para Erlan.
O rapaz era jovem, e sua irmã sempre foi quem o levantava, mas agora ela não se levantaria por seus próprios meios.
Erlan se aproximou dela e, pegando-a pelo braço, sentaram-se mais perto, entre Tarja e Nandi, colocando todos do mesmo lado da mesa. Nandi lhe passou as frutas cortadas que ela gostava. Ariel entrou no ritmo e todos ficaram ali, exatamente como uma família faria.
Todos estavam em silêncio, com expressões alegres, mas Ariel não conseguiu conter uma lágrima que se destacava em sua pele, espessa e fosca, que torna as lágrimas mais visíveis.
O silêncio agora era reconfortante. Eles quase se esqueceram que tinham uma razão para estar ali.
Tudo aquilo foi um grande passo, mas eles ainda tinham muito o que fazer.
Depois de uma pequena pausa preguiçosa, Valaravas os trouxe para a saída lateral atrás dos escritórios onde um carro alto, oito lugares, modesto para o que viram na Fáscia, estava ali para seu uso. Apesar de Valaravas ocupar o lugar do motorista, eles já sabiam que era uma formalidade.
A novidade era ver realmente como tudo funcionava.
Valaravas colocou seu ponto pessoal em apoio no carro, e através dele pediu o Castelo de Seldanar.
Todos sentados, Nandi ao lado de Valaravas na frente, Ariel e Erlan na segunda linha de bancos, e Tarja no fundo, por escolha própria.
Todos ali observando o caminho, com a curiosidade de agora ver o microcosmo da Fáscia e sua mudança. A sinalização dos Urbani era entendível pelos Silvani, que observavam como as coisas na Fáscia eram zoneadas com uma precisão grande, e cada saída respeitava os níveis da Falésia como se fosse uma capa por cima do relevo natural.
O veículo se dirigia à costa, e por todas as vistas que podiam desfrutar, uma era sempre presente no caminho, como um marco de direção: O castelo de Seldanar.
Dos filhos de Audren, apenas Rentaniel restava, pois suas irmãs ambas pereceram, a mais velha durante a guerra, e Ayla, fazia dois anos desde o dia em que ela foi para o Vale em uma missão e nunca mais voltou.
Nenhum deles culpa Valaravas pelo destino de Ayla, pois ambos sabem contra o que estão lutando. Audren conhecia os Varta pessoalmente, e seu pai havia derrotado um deles com seu time na sua época.
Audren evita aparições públicas por seu extremo apego à própria cidade. Mesmo que não tivesse sofrido qualquer outra coisa em sua vida, com certeza a memória de Audren iria ainda assim estar repleta das reflexões e consequências das suas perdas.
Rentaniel é praticamente o rosto de Audren em todos os assuntos familiares, mas decisões relativas ao governo da Fáscia, ele não é especificamente necessário. A Grande Mãe nunca confiou no filho para refletir o bem da Fáscia, confiando em Ayla, e por consequência, em Valaravas quando este se uniu a ela.
A equipe encontrou Rentaniel no alojamento de visitantes do castelo.
Os grandes salões do castelo carregavam o peso de séculos, o silêncio se estendendo sob seus tetos abobadados como um decreto não dito. A cidade lá fora zumbia com vida, um equilíbrio cuidadosamente mantido de ordem e propósito, mas aqui, nos salões do regente, o próprio tempo parecia mais lento, se arrastando entre regras e cerimoniais com milênios de existência.
Rentaniel movia-se diante deles, sua postura impecavelmente Urbani, controlada, régia, inabalável da maneira que apenas aqueles criados nos corredores do poder poderiam ser.
Ele não partilhava os pontos de vista da mãe, mas certamente herdara uma medida de sua autoridade.
— Bem-vindos à nossa nação, à nossa cidade. Minha mãe envia saudações à todos mas não pode estar presente. Espero que entendam. — Sue gesto era protocolar, mas estranhamente sincero assim mesmo.
A expressão de Ariel permaneceu imóvel, mas ela podia sentir a tensão se acumulando no fundo de sua garganta. Rentaniel estava recitando o protocolo, reconhecendo a presença deles enquanto garantia que entendessem os limites de sua acolhida.
— Eu sou Harata irmão. Você sabe como eu 'adoro' esses protocolos. — Valaravas disse com um gesto simples, irônico mas irreverente.
Ariel e Erlan trocaram um olhar, o desconforto evidente na mandíbula tensa que ambos tinham. Era um sentimento antigo: Peso de saber que eram valorizados apenas na proximidade de sua utilidade, incluídos com respeito apenas entre si, mas mantidos à margem das discussões maiores.
Tarja, impassível como sempre, simplesmente sorriu. Grandes debates nunca foram sua preocupação.
O olhar de Rentaniel se moveu, pousando em Nandi. Seus lábios se curvaram ligeiramente, um raro momento de sinceridade escapando por entre as camadas de formalidade.
— Vejo que Nandi não está só bem, está 'profundamente' viva. — Havia admiração em seu tom, genuína. — A cidade notou. Ela não é a mulher que veio aqui em busca de tratamento. Há uma vitalidade nela agora, um poder que muitos de nós invejamos. Eu mesmo invejo. Essa exuberância rivaliza a realeza da nossa casa.
Nandi assentiu, composta, sua presença sem esforço, mas imponente. Ela sabia como se mover nesses círculos. Ela entendia bem os Urbani. Ela era a vidente e companheira de Valaravas, e seu silêncio e aparência submissa evitavam confrontos e escrutínio. Não era rendição, era praticidade. Uma postura que se aprende com muita serenidade, e consciência do jogo que se joga e a peça nele que se é.
A expressão de Rentaniel endureceu ao voltar aos negócios.
— Bom, temos coisas a conversar, e como sei que você é direto ao ponto, irmão, vamos a isso. O sucesso de vocês tem peso. A Grande Mãe estende um apoio maior à vocês. Recursos adicionais serão alocados.
Rentaniel entregou dois seriais à Valaravas, que continham distintos emblemas gravados, suas pastilhas eram acabadas em padrões artísticos. Eram oriundas de Casas de nome na Fáscia.
Ele diria suas palavras apenas a Valaravas. Ariel se moveu ligeiramente. Ela considerou falar, seus lábios se abrindo apenas o suficiente, mas Nandi, sempre perceptiva, captou o movimento sutil e, sem olhar, transmitiu um aviso silencioso. Não agora. O escudo da submissão era sensível a expressão emocional. Isso irritou Ariel, mas ela engoliu em seco.
Valaravas, no entanto, percebeu a mudança. Ele se recostou ligeiramente, como se esticasse o momento, sua voz deliberadamente casual.
— Nossa equipe é nossa equipe, certo? Todos nós? Sem exceções?
O sorriso de Rentaniel não alcançou seus olhos.
— Claro, claro. Sua pequena boneca tem sido uma grande curiosidade entre os conselheiros. — Seu olhar piscou em direção a Ariel, frio e avaliador sob seu verniz educado. ­— Mas que fique claro: este é um assunto separado. Curiosidade e leniência apenas significa que continuam sendo um recurso de contingência.
Ariel enrijeceu, os dedos se curvando no tecido de suas mangas sob a mesa.
Valaravas não se moveu, mas houve uma mudança no ar, sutil, mas inegável. Um aviso.
— E quanto aos artefatos? — Valaravas inclinou o olhar.
— O fato de um deles estar com Nandi foi aceito com grande prazer pelas Casas. O fato de um deles estar em poder de Erítria levou à questões, já que a história dos Onatra com relíquias é pouco confiável, mas a Grande Mãe intercedeu pela sua decisão, irmão.
Valaravas sorriu, folheando os documentos com um movimento lento e irreverente.
— Svetlana é melhor controlada quando acredita que é uma participante ativa. Meu charme tem seus limites. Entre os Onatra, ela pode fazer as coisas acontecerem.
Rentaniel deu uma risada curta e sem humor.
— Você e Svetlana não são um problema. Se vocês dois estão nisso, posso trabalhar o conselho. Mas o assunto com Finrandir não caiu bem para a reputação de Svetlana.
— Finrandir é meio para um fim irmão. Svetlana sabe disso. — Valaravas foi categórico.
— Ainda assim, Finrandir é um nobre Silvani. Não como a sua bonequinha, uma exilada a Trifronteira. Ele tem poder sobre Tirayon ainda. — Rentaniel disse com um certo prazer.
Ariel quase retrucou, mas Nandi e Erlan entenderam que era melhor deixar o peixe morrer pela boca, como Valaravas diria.
Ele fez uma pausa, como se algo tivesse mudado no ar, depois continuou.
— Acredito que o deslise the Svetlana foi uma coisa de uma jovem Oficial, não de uma General. — Rentaniel relaxou-se na postura, nem tanto quanto Valaravas, mas o que passa por relaxo entre nobres.
Rentaniel acenou para seus atendentes saíssem da sala, e esperou até que o último saísse.
— Essa era a parte formal. Agora, irmão. Como estão realmente as coisas? — Rentaniel disse com a mão no ombro de Valaravas.
— Estamos levando. Sabe como é, as coisas no Oeste não estão boas. Mas e sua mãe? Com Ayla, os problemas com a Armada aqui na porta, patrulhas querendo assunto. Ela deve estar cansada.
— Mãe não se importa com nada disso, além das muralhas da Fáscia. A Armada fica do lado de fora da Doma, e só o que acontece para dentro dela importa à ela. — Rentaniel tinha um ar decepcionado. — Ela está cansado, certo. Descontente também. A Fáscia, por sua palavra, se isola. Se dependesse dela, nos retiraríamos completamente, viveríamos nossos anos na Fáscia e deixaríamos os Varta e a Armada se queimarem junto com os selvagens em Tirayon, e simplesmente reconstruiríamos depois, sobre as cinzas.
— Isso complica as coisas. Precisamos do apoio dela. Você sabe quem está nesse jogo.
— Não, irmão. Isso as simplifica. — O sorriso de Rentaniel voltou, embora este fosse mais afiado, quase cruel. — Significa que temos acesso total aos recursos porque minha mãe, e os Senhores da Fáscia, eles veem isso como uma pequena indulgência minha. Um capricho que lhes custa pouco.
— Custa pouco até que perturbe a Fáscia. E você? O que você acha?"
Rentaniel soltou uma risada curta e sem humor.
— Eu acho que este é um jogo desnecessário. Se dependesse de mim, cobriríamos o Vale até o topo. Afogava todo em Maz Ynis até que não sobrasse nada para reivindicar.
Ele fez uma pausa, olhando para Ariel. Decifrável, previsível.
— Mas você está determinado a continuar jogando. — Rentaniel continuou.
Ariel mal escondeu seu desgosto.
Rentaniel suspirou.
— Temos Maz Ynis suficiente para queimar Ealetra três vezes, e podíamos desencavar os Varta de onde se escondem. Se você desejar, é o que faremos. Não precisamos saber quem atacou Ayla, se queimamos todos, queimaremos eles também.
Não houve quem segurasse Ariel dessa vez.
— Temos que entender o que eles procuram no Vale. Sua irmã deu a vida por isso. — Ela disse com revolta.
Um silêncio se instalou na sala.
Rentaniel a estudou por um longo momento antes de sua mandíbula se contrair.
— Essa é a única razão pela qual minha mãe, eu, e o legado de Ayla continuamos a tolerar a sua cultura tosca existindo nesse mundo. Caso contrário teríamos queimado o Vale e a sua nação selvagem há muito tempo, quando tivemos a oportunidade. Depois disso, até os Onatra iriam abaixar a cabeça.
O estômago de Ariel se revirou. A ênfase em que Valaravas é o Legado de Ayla, implicando que ele nunca será nada para ela, era palpável. Era agressivo.
O tom de Rentaniel suavizou, mas apenas ligeiramente.
— Nossa história com os Harata é a única coisa que nos impede de considerar o resto de Ealetra como uma causa perdida. Eu diria que nós e os Harata já nem somos humanos no mesmo sentido que os Onatra são.
— Vamos à academia mais tarde, deixemos as discussões acadêmicas para lá.  — Valaravas interveio, esfregando a têmpora. — Existe alguma exigência das casas, ou ainda aceitam todo o plano como está?
— Sim, claro irmão. Sua liderança é incontestável. Mas um aviso! Diga a Svetlana para controlar Aleksandr. Sabemos como ele envenena Zhefaq contra nós. E você sabe tão bem quanto eu: vidas curtas se tornam mais curtas quando não respeitam seus superiores.
— Nushala sente sua falta. Ela soube que estava aqui, e está esperando pra explodir um Rij Ynis na sua cara por não tem falado com ela ainda. — Rentaniel riu-se.
Valaravas deu uma risada fácil, embora houvesse algo pontiagudo por trás dela.
— A garotinha ainda anda com aquela blusa dois tamanhos o dela? A cara dela. — Valaravas imitou o jeito mimado da menina.
— Quanto à Sasha. Ele vai ter o bom dia Harata logo logo. Ele não é sua preocupação irmão. Ele vai ficar quieto antes que seja.
— Se você diz, acredito. — Rentaniel se levantou. — Vou deixar vocês agora. Tenho assuntos aqui pra resolver.
Rentaniel olhou para Ariel como estava.
— E vocês tem muito o que processar.
Ariel tinha tomado aquilo como insulto pessoal. Nushala era filha dele, e a próxima na sucessão depois de Ayla. Isso também queria dizer que Valaravas, na cultura Urbani, era seu par, porque foi de Ayla.
O olhar de Rentaniel demorou o suficiente para deixá-la desconfortável antes de sair da sala, deixando-os sozinhos.