Os mares do sul haviam se tornado um caldeirão de fogo, morte e cinzas sob a fúria do Maz Ynis, mas para Shmaria, Shalev e Avivi, a visão das Ilhas Livres queimando já era uma memória distante, engolida pela escuridão úmida da costa rochosa do continente. Eles não eram piratas Harata buscando lucro ou sobrevivência através da fuga pelo mar aberto. Eles carregavam a aparência rústica, os olhos característicos e a pele grossa e resistente da linhagem Silvani mais dura, forjada na adversidade e no fanatismo.
Eles eram inconfundíveis para qualquer patrulha do Consórcio. Para eles, não havia a opção de se misturar nas multidões da Trifronteira ou negociar passagem. Eles precisavam de caminhos que o mundo civilizado de Ealetra preferia esquecer que existiam.
A vantagem deles era que, ao contrário dos piratas comuns, contavam com uma aliança muito mais antiga e perigosa: os dissidentes do Vale do Silício.
Os mares do sul são perpétuos em sua escuridão e tempestades, um manto natural perfeito para ocultar a atividade de um grupo extremista como o Círculo de Kahnbor. A fuga de Suyantara fora caótica, mas, diferente de Karak e seus Harata, os três Silvani já haviam sido escamoteados para o porto sul da Divisão Beruana da Trifronteira escondidos como carga morta em um casco de contrabandistas. Ali, no limiar entre o mundo vigiado e o deserto absoluto, atravessar para o Vale não seria uma questão de força, mas de conhecimento. As autoridades locais, burocratas e mercenários, preferiam não interferir naquelas bordas.
A política da Trifronteira era convenientemente cega para quem desejava entrar no Vale, reservando seu poder de fogo apenas para o que quer que tentasse sair de lá.
A base pedregosa e colossal das montanhas que cercavam o Vale escondia muitos segredos, e o mais vital deles era a intrincada rede de túneis naturais e escavados que levavam às entranhas do bioma mais antigo do planeta. Alguns desses caminhos desembocavam em partes internas e seguras do Vale, após uma navegação agonizante, embora outros, um mero passo em falso, levavam exploradores a se perderem para sempre no breu asfixiante das pedras.
Chegando a uma entrada dissimulada por um desmoronamento antigo, Shmaria parou. Ela era a mais inclinada ao misticismo do grupo, sua mente já calejada e fraturada por anos de exposição a rituais. Sem hesitar, ela sacou um pequeno frasco de couro contendo uma dose generosa de Qachruna em sua forma mais oleosa e crua. Ela a engoliu de uma vez, o líquido marrom e amadeirado, descendo espesso por sua garganta.
Quase imediatamente, o mundo físico à sua volta começou a desvanecer, as paredes de pedra fria dando lugar à pulsação quente e aterrorizante da caminhada. Shalev e Avivi trocaram um olhar e esperaram, impacientes, as mãos descansando nos cabos de suas armas.
A mulher Silvani então começou a andar. Ela não se importava com o caminho físico à sua frente, que era escuro, traiçoeiro e repleto de abismos. Shmaria enxergava a rota que havia sido gravada a fogo em sua mente, um mapa espiritual desenhado a partir de caminhadas anteriores com os membros do Círculo que conheciam perfeitamente aquelas artérias subterrâneas.
Os dois homens Silvani a seguiam de perto, iluminando o caminho irregular com o feixe amarelado de lanternas de acetileno e tentando manter o passo com a marcha errática dela. Os murmúrios incompreensíveis de Shmaria — uma mistura de Silvani arcaico e sons guturais induzidos pelo transe — ecoavam pelas paredes úmidas, irritando os guerreiros ainda mais. A cada curva, a pressão atmosférica parecia mudar, o ar tornando-se progressivamente mais denso e carregado de um odor metálico e fúngico.
Depois de uma caminhada exaustiva de quase quarenta minutos, tateando através de fendas estreitas e declives escorregadios, eles chegaram a uma abertura imensa. A escuridão das pedras deu lugar a uma penumbra esverdeada e doentia. Estavam, finalmente, dentro do Vale do Silício.
Enquanto o túnel em si operava como um bolsão isolado do miasma tóxico do Vale, no instante em que saíram da proteção das rochas, todos eles foram engolidos pela atmosfera do lugar. Era uma intrusão violenta nos pulmões e na mente. Imediatamente, entraram em uma caminhada leve e involuntária, um transe provocado pelo próprio ar do lugar, espesso com esporos ancestrais, fungos microscópicos e organismos comensais suspensos na neblina perpétua.
Shmaria, já profundamente imersa nos efeitos da Qachruna oleosa, mal notou a modificação. Sua visão do lugar em nada era guiada pelos olhos físicos. No entanto, Shalev e Avivi, agora forçados a seguir a forma espectral de Shmaria, sentiram o baque. Embora ainda tivessem alguma noção da realidade física ao redor, ilusões agressivas começaram a atacar seus sentidos, confundindo os sons da floresta milenar, distorcendo imagens e criando texturas táteis onde não havia nada, gerando um ambiente surreal e psicologicamente perturbador. Para os dois guerreiros acostumados a confiar na precisão de seus golpes, a perda do controle sensorial era nauseante.
Guiados pela determinação cega de Shmaria, eles avançaram pelo solo esponjoso até chegarem ao que parecia ser a porta de uma fortaleza colossal, incrustada na própria rocha da montanha. Era uma construção de escala aberrante. Plantas espessas, semelhantes a trepadeiras musculosas, moviam-se lentamente pelas paredes, entrando e saindo de janelas imensas como se a própria estrutura respirasse através delas.
Shmaria levantou suas mãos em direção à parede sólida. Na visão distorcida e espectral de Shalev e Avivi, as plantas pareceram ganhar vida autônoma, conectando-se e fundindo-se com as mãos da mulher, não através de força física, mas por uma simbiose de bioengenharia ancestral. Com um som úmido e profundo de raízes se partindo e pedras deslizando, uma passagem se abriu na parede sólida da fortaleza, permitindo sua entrada.
Quando os três passaram pelo limiar e a mulher Silvani separou suas mãos das plantas ambulantes, a parede atrás deles pareceu cicatrizar-se, fundindo-se novamente em um bloco impenetrável. Assim que foram selados dentro da fortaleza, o miasma do lado de fora foi substituído por um odor interno ainda mais pungente. Era um cheiro forte, uma mistura de amônia, enxofre e matéria orgânica em decomposição controlada, que quase fez Avivi e Shalev perderem a consciência, dobrando os joelhos em busca de ar.
Eles seguiram andando, guiados pelo que parecia ser um processo mecânico incutido nas próprias paredes, até que a densidade do ar foi sendo filtrada e seus sentidos, aos poucos, voltaram a ser deles. A arquitetura hostil da caminhada induzida pelos esporos desvaneceu, e tudo ao redor voltou a ter uma correspondência lógica com o que se espera da realidade.
— Esperar que essa fosse a última vez seria um sonho — Avivi disse, a voz embargada, engolindo a seco para manter a bile longe da garganta. O suor frio escorria por seu rosto endurecido.
— Você é muito sensível, Vi — Shmaria disse, ofegante, mas com um sorriso travesso cortando as feições exaustas, o efeito da Qachruna começando a recuar e deixando-a perigosamente eufórica.
— Talvez seja, dependendo da reação ao nosso fracasso — Shalev disse com um tom sombrio, os olhos varrendo os corredores ciclópeos. Apesar de tentar manter a compostura de um veterano, ele estava tão afetado fisicamente quanto o companheiro.
Os três seguiram pelos corredores labirínticos da fortaleza, que agora se revelava como uma construção de pedra velha, temperada e lisa. A mobília que encontravam era esculpida na própria rocha ou forjada em um metal escuro e desconhecido, mas, apesar de reconhecíveis em sua função, tudo ali era aberrante em suas proporções. Cadeiras, mesas e batentes eram muito maiores do que sugeriria a estatura de qualquer Silvani, Urbani ou mesmo Onatra. Foram feitos para os senhores originais daquele lugar.
Eles desceram um pequeno e largo lance de escadas que se abria para uma sala de audiências abobadada. Lá, imerso em sombras meramente iluminadas por uma luz pálida, um homem os aguardava. Se é que a palavra "homem" ainda lhe cabia.
Ele levantou-se e friccionou uma estrutura na parede que iluminou o ambiente, claramente feito para aqueles que irritam-se com a luz.
— Primeiro perdeu-se Thaz, agora perdem-se os 'Piratas do Sul' tão vergonhosamente quanto — A figura falou. A voz era como pedras triturando no fundo de um abismo, ressoando nos ossos dos Silvani antes mesmo de chegar aos ouvidos.
A figura era alta, imensamente larga, e exibia os traços clássicos e terríveis da sua linhagem: os Varta. Especificamente, um Chandravarta. A pele era de um tom pálido doentio, espessa como couro fervido. No lugar de orelhas humanas, ele exibia domos cartilaginosos cobertos por dobras de pele grossa que agiam como pálpebras auriculares, uma evolução perfeita contra as tempestades de areia tóxica e o som enlouquecedor dos ermos pré-diluvianos.
— Senhor Hen'Tzol, não foi nossa culpa. Eles jogaram o reizinho no meio dos nossos planos, e irritaram a Armada antes da hora — Shalev disse, curvando-se imediatamente em um ângulo de submissão rígida.
Após ele, Avivi e Shmaria jogaram-se na mesma postura subserviente. Perante um Chandravarta dentro do Vale do Silício, qualquer ilusão de poder que tivessem no Conselho das Ilhas Livres era pó.
— E o que pretendem fazer para consertar o seu erro? — Tzol disse, apoiando-se pesadamente no braço de sua poltrona colossal de pedra, a irritação evidente na forma como seus músculos espessos do pescoço se contraíam.
— Senhor, nós fomos traídos pelo Harata e pela Sangamani. Eles não seguem nossos planos mais. O Conselho foi manipulado — Avivi disse, ainda com o rosto voltado para o chão frio, a voz trêmula.
A menção da Sangamani fez o ar na sala congelar. Tzol irritou-se, seus olhos afundados com um ódio que transcendia a política imediata, enraizado em um antagonismo milenar.
— E qual a razão... — O Varta rosnou, suas grandes mãos de dedos grossos apertando a pedra da poltrona — ...de comungar com uma Sangamani?
— Ela era parte do conselho. Tinha apoio. Não vimos probl... — Avivi começou, gaguejando.
— Silêncio! — Tzol vociferou, levantando-se com uma velocidade aterrorizante para seu tamanho. O som de sua voz foi uma pressão física contra os tímpanos dos Silvani. — Nunca, sob nenhuma circunstância, deve-se trazer ao conhecimento de 'qualquer' Sangamani o mínimo sobre os nossos planos. Eu acredito que isso já havia sido dito!
— Senhor. — Shalev interveio, mantendo o tom o mais respeitoso e neutro possível, ciente de que estava caminhando à beira da morte. — Eles não tinham informações sobre nossos planos maiores, só sobre quem eram nossos 'superiores' em comando para a operação pirata.
— Pois bem, Silvani. Vocês terão a chance de justificar o ar que respiram. Vocês irão resgatar a última relíquia que ainda pode nos abrir o Santuário fechado — Tzol disse com finalidade, caminhando a passos pesados ao redor deles. — Claro, pois graças a sua néscia e ineficiência, o 'Consórcio' tomou o Santuário do seu povo, em Tirayon. O santuário aqui do Vale já foi dominado por nós. Precisamos dominar o do deserto, e para isso, precisamos invariavelmente da relíquia.
— E como vamos usá-la no Santuário do Deserto? Ninguém consegue chegar até ele. Sangamá é uma sentença de morte. Nem o seu povo, nem o nosso sobrevivem àquele deserto profundo. Só 'eles' se aproximam. — Avivi interrompeu, a racionalidade tática superando brevemente seu terror.
— Essa é uma preocupação para seus superiores. Vocês são ferramentas, e fazem o que mandamos. O ciclo exige ativação em seus nós primários — Tzol disse, o tom transbordando de soberba e desprezo pelas limitações dos Silvani. — Agora vão, e não voltem sem a relíquia. Pelo menos isso devem conseguir fazer.
Acrescentando a finalidade do momento, Tzol apagou as luzes adicionais, mergulhando o ambiente na escuridão que lhe era mais aprazível.
Os três Silvani, ainda curvados, não ousaram responder. Com um movimento sincronizado e recuando passos para trás, eles seguiram de volta pelo corredor monumental que os trouxera, tateando através da penumbra até chegarem a uma sala anexa, mais úmida e fria, onde se alojariam temporariamente e se preparariam para a missão suicida recém-recebida.
Assim que as pesadas portas se fecharam, selando-os em relativa privacidade, a fachada de subserviência de Avivi desmoronou em exasperação.
— Não vamos conseguir recuperar a relíquia sem um 'deles' interferindo... os Harata ou a maldita Sangamani. — Avivi comentou, massageando as têmporas pulsantes.
— Vamos ter que tentar, Avivi. De outra forma, podemos simplesmente nos deixar engolir pelo miasma do Vale lá fora, seria uma morte mais rápida e limpa — Shalev retrucou, inspecionando o estado lamentável de seu equipamento de combate.
— Eu posso aprender a ser vidente, sabia? Não parecia tão difícil. Eu só preciso de mais Qachruna. — Shmaria disse, rindo-se, seus olhos ainda ligeiramente desfocados, perdidos no eco da euforia espiritual.
— Esse seus chás malditos estão azedando seus miolos, Shmaria. Você nem conseguiu ver o que o Harata e a Sangamani maquinavam nas nossas costas! — Avivi riu-se, um som amargo e cáustico. — Grande mística você é.
A tensão entre eles parecia pronta para explodir em violência física, o método padrão de resolução de conflitos internos, mas Shalev ergueu a mão, os olhos verdes semicerrados em intensa maquinação tática. A sua mente afiada pelo desespero começava a desenhar um caminho através da fenda impossível que lhes fora apresentada.
— Vocês se esquecem de um detalhe muito, muito importante. Não precisamos de um 'deles' para achar a relíquia, e nem precisamos invadir o perímetro da Armada para tomá-la agora. Só precisamos que eles a achem e que a tenham quando os enfrentarmos. A relíquia esta em um templo no oeste do Vale, e aqui seus exércitos são inúteis. — Shalev disse, com um sorriso predatório desenhando-se em seu rosto marcado.
— E por que você acha que iriam querer a outra relíquia? Se eles já abriram um Santuário em Tirayon com a que tinham? — Avivi cruzou os braços, cético, embora a lógica tática de Shalev sempre o intrigasse.
— Eles podem ter ativado o Santuário de Tirayon, mas para terminar o ciclo, eles precisam estabilizar o 'nosso' santuário aqui, e o de Sangamá, pessoalmente, usando a relíquia — Shalev riu-se — Nós só precisamos desestabilizar os elos deles. Deixar o caos operar.
— E mesmo com a relíquia em nossas mãos, como você acha que vamos enfrentar o povo 'deles' e chegar ao Santuário profundo? — Avivi questionou de forma incisiva, enquanto vasculhava as mochilas empoeiradas procurando por provisões que não estivessem mofadas.
Shalev soltou um suspiro indulgente, virando o rosto em direção à sala principal de onde haviam saído, o trono escuro de Hen'Tzol.
— Isso não é um problema nosso, Avivi. — Shalev disse, a ironia fria e cortante. — Essa é uma preocupação para nossos 'superiores'. Somos só ferramentas.