Os piratas dos mares do sul

Enquanto desciam para o andar principal, os pensamentos de Ariel vagavam sem destino até que ela retornou à Baluarte que havia visto antes. Era agora mais claro o motivo. Valaravas está montando um grupo para uma missão, isso era claro, mas as peças não se encaixavam todas. Uma atiradora de elite, ela, um lacerador e especialista em armas curtas, Erlan. Tinham a força Bruta, a Carpata. Mas Valaravas e Nandi não encaixavam no perfil de time tático que ela conhecia. Ele era Harata, portanto não seria melhor que Erlan em combate próximo. Nandi não parecia o tipo que lutava em qualquer capacidade. Aquele time deveria estar sendo preparado para algo que ia além de combate e supressão.
Ao saírem, Ariel observou que não conseguia acompanhar os movimentos de Nandi. Ela tinha visto a Sangamani durante a conversa, sem ver de onde havia chegado, ou se já estava lá. Agora não a viu descer, mas quando desceram, ela já estava ao lado de Valaravas no momento em que prestou atenção. Fazia parte de seu perfil observar essas coisas. Ela deveria controlar o campo, observar os jogadores. Nandi no entanto eludia seus instintos.
Os Sangamani foram os primeiros povos de Pasvara, o continent Ocidental, que os Silvani encontraram. Depois da desastrosa campanha Leste, onde encontraram os Onatra, lá há milênios passados, eles tentaram expandir Oeste, pelo Mar Estreito. Encontraram os Urbani já instalados no norte do continente, e sabiam que não poderiam enfrentar seus iguais. Decidiram rumar mais para o sul, e encontram os Sangamani. E a derrota dos Silvani não foi uma luta simples, mas eles foram oferecidos aos Ancestrais Sangamani e aos Avatares da Natureza na forma de homem de vime: amarrados com fibras vegetais como casulos e oferecidos em sacrifícios ao fogo. Os primeiros Silvani que tentaram invadir o deserto Sangamani foram encontrados pelos grupos de busca em suas efiges macabras queimadas nas piras, onde também terminariam eles mesmos quando decidissem desembarcar naquelas praias.
Enquanto caminhavam pelas ruas estreitas da Vila do Luar, Valaravas e Nandi pararam junto com uma mulher Harata e outra Urbani usando o mesmo brasão de armas da Fáscia.
A familiaridade com que ele falava com ambas as mulheres era notável, não apenas para a Harata, que eles reconheceram ser Melica, que era de fato família para Valaravas. Mesmo assim, eles geralmente falam entre si de tal maneira familiar com qualquer outro Harata, mas a familiaridade era exatamente a mesma com a Urbani. Ela era impressionante. Guarda real, sem dúvida.
A Urbani se destacava, seu cabelo trançado assentava como uma coroa no topo de sua cabeça, o estilo característico dos grupos de infiltradores Urbani. Seus olhos azuis, brilhantes e aguçados, carregavam a precisão fria de uma guerreira experiente. E seu rifle, ao contrário do de Ariel, era aprimorado com máquina, que é uma coisa estranha até mesmo para uma Urbani. Eles inventaram a maioria dos modelos modernos de machina, mas não os usam em armas, apenas a armada o fazia. Aqueles eram os famosos rifles inteligentes. O rifle de Ariel, presente de Valaravas, era moderno e poderoso, mas aquele da Urbani era um artefato de laboratório. A mira, auxiliada por um computador de cálculo balístico aprimorado e projéteis .500 com controle inteligente, eles foram decisivos no período pós-guerra na supressão da insurgência Silvani no Norte da Trifronteira. Um atirador Urbani com um rifle como aquele poderia acertar as frestas nas vestes protetoras de um Infiltrador Silvani a 3 km de distância em condições ambientais mais diversas.
Mas o poder do equipamento dela era um dado irrelevante comparado com a importância de como ela se comportava frente a Valaravas.
Ariel e Erlan sempre ouviram que os Urbani são poderosos e dominam o mundo através dos Harata, mas naquela conversa, a linguagem corporal era inconfundível: Valaravas era a presença comandante, e Melica seu apoio, mas a Urbani estava recebendo ordens, e a maneira como ela se posicionou, deixando a perna de apoio ao lado de Valaravas, e seu pescoço relaxado e exposto em sua direção, ela estava confiando no que quer que ele estivesse dizendo.
Quando chegaram à estalagem, com seus pertences guardados, partiram para as docas, a brisa do mar espessa com sal e a promessa de novos desafios. Todas essas coisas que estavam vendo eram tão diferentes do que imaginaram, que ainda não tinham palavras para falar sobre tudo aquilo.
A jornada em si foi esclarecedora. Mesmo antes de chegarem à ilha, eles já tinham visto mais do que o suficiente para entender sua própria cultura sob uma nova luz, não através de seus próprios olhos, mas através da perspectiva de um povo que uma vez se preparou para enfrentá-los em guerra.
À distância, enquanto se aproximavam de Magenta, eles viram o primeiro sinal de suas fortificações: balistas Maz Ynis. Armas de cerco colossais, infames por seu poder puro, agressivo, ladeando as defesas externas da ilha.
À medida que se aproximavam do porto, avistaram cruzadores Chernaya Bahakuda patrulhando as águas, uma frota da Armada, seus cascos escuros inconfundíveis contra o mar, iridescentes com o reflexo dos raios solares em sua carapaça externa, tratada para resistir ao próprio Ynis.
Navios de guerra projetados para serem usados como uma arma em si, carregando armas para todos os tipos de combate marítimo. Eram algumas das poucas embarcações equipadas com tal poder de fogo, um dos poucos tipos de navios que também poderiam sobreviver a uma barragem do tal Fogo do Inferno.
A ilha era mais clara que a Vila do Luar, seu céu menos sobrecarregados pela melancolia sempre presente em Luar. As aldeias eram muito mais acolhedoras do que as ruas daquela cidade sombia, mas Magenta tinha uma construção tradicional cercada de outra, mais moderna, preparada para a guerra.
O lugar não era o que eles esperavam, e isso por si só o tornava mais perigoso. Era aquele tipo de lugar que puxa, com suas belas vistas, pessoas e aparente conforto caseiro e desarmante.
No seu centro ficava a fornalha, sua torre a maior estrutura, construída sobre uma fundação de pedra sólida, sua superfície gasta e escurecida por anos de artesanato Carpata. A forja tinha o cheiro inconfundível de ferro e fumaça, um peso reconfortante no ar, o cheiro do trabalho honesto. Era ali que armas forjadas tradicionalmente ganhavam notoriedade. Enquanto um rifle de alta tecnologia era importante, de forjas como aquela vinham as lâminas de impossível leveza e resistência, não abrindo mão da ductibilidade, criando através de mãos habilidosas o que a tecnologia moderna iria identificar como nanotubos de carbono. Antes mesmo de pensar que existiam moléculas e propriedades atômicas, os carpata já forjavam suas lâminas com características que essa mesma tecnologia moderna era incapaz de replicar, apenas identificar.
Enquanto Ariel e Erlan se aproximavam, foram recebidos por Situ. Eles a reconheceram da Vila do Luar mais cedo, a criança com a Baluarte Carpata que viram na Taverna. Ao lado dela estava Ilmari, seu tio, um Carpata velho, mas solidamente construído, alto como Erlan, suas mãos calejadas prova de uma vida inteira passada na forja. Seus olhos fundos carregavam o cansaço de um homem que conheceu trabalho duro e dias mais difíceis.
Ilmari falava como todos os Carpata, com a mesma cadência direta e forte dos Onatra, mas mais suave e mais voltada para a comunidade. A mesma língua em um registro sensorial totalmente diferente, incitando os valores de comunidade e coesão social. O homem explicou-lhes brevemente sobre a comunidade e o que ele fazia lá.
Ele lhes contou como tinha vindo de Onachinia, atraído pela promessa de segurança e trabalho estável do Grêmio. Mas quando a conversa se voltou para Situ, sua voz suavizou.
— Ela não veio comigo. — Ele falou sem floreios. — Eu vim sozinho há muito tempo. O grêmio a trouxe depois que os pais dela ...
Pela primeira vez a voz forte e direta do Carpata falou.
Ele não era um homem que deixava sua dor escapar pelas frestas.
— Ela tem que ficar comigo agora.
O brilho de Situ, a luminosidade infantil que ela carregava, não era tanto resiliência quanto proteção, uma recusa em deixar a dor engoli-la por inteiro. Mas ao ouvir aquelas palavras, ela se apagou, suas pequenas mãos se cerraram em punhos.
Ariel sentiu a história deles profundamente. Ela mesma viveu a perda de seus pais e a necessidade de se mudar, procurando sua irmã nas terras inimigas para fugir da violência de seu próprio povo, em sua própria terra natal. Ela se sentiu conectada, e isso também a fez sentir medo de como estava começando a se apegar ao apelo das histórias locais.
Ilmari pigarreou, endireitando-se, deixando o momento passar em silêncio.
— O problema agora é que os piratas vieram exigir pagamento por proteção. Afirmam que como chegaram, outros piores poderiam. E que o Consórcio não se importava. — Sua revolta era clara em seu tom. — Eles dizem que podem garantir nossa segurança.
A expressão de Ariel endureceu.
— E o Grêmio ? — Ariel disse ainda observando Situ.
— O agente da Lâmina nos assegurou que cuidaria do assunto, e agora ... — Ilmari gesticulou para eles — Aqui estão vocês.
— Nós não podemos enfrentar uma incursão sozinhos. — Ariel olhou para Erlan preocupada.
— Se vocês estão aqui, e são os que estão, é porque são a escolha certa. — Ilmari sorriu ternamente. — Em 40 anos que estou aqui, os Harata nunca nos deram as costas.
Antes que mais pudesse ser dito, um barco se aproximou do píer. Três figuras desembarcaram, seus movimentos lentos e assertivos. O líder era um homem de aparência rude, seu cabelo desgrenhado, suas roupas gastas, mas práticas. Ele andava com uma facilidade que desmentia o peso de sua presença. Havia algo nele, não na sua aparência, mas na maneira como ele comandava o espaço ao seu redor.
A respiração de Ariel engasgou, um calor estranho descendo por sua coluna. Seus pensamentos desaceleraram, sua mente preenchida por algo calmante. Este homem parecia seguro, reconfortante. Assim como Valaravas quando se conheceram.
Erlan, que instintivamente assumiu uma postura defensiva, hesitou. Seu aperto em suas armas afrouxou. A presença do homem impunha respeito. Talvez fosse um homem que valesse a pena ouvir.
Ao se aproximar da cerca de madeira da ferraria, ele abriu os braços em um gesto de calma autoridade.
— Saudações, companheiros de luta. Eu sou Karak, e trago promessas de meu povo. Boas promessas, valiosas para gente com a sua habilidade. — Karak disse olhando Ariel e Erlan.
Sua voz não era alta, mas carregava o peso da finalidade, um tom que não deixava espaço para dúvidas ou negociações.
— Estou aqui com a oferta da segurança que uns precisam, a prosperidade que outros buscam, e o respeito, que foi negado a ainda outros. — Karak novamente encarou Erlan e Ariel. — Respeito a uma cultura nobre, e poderosa.
Uma pausa. Medida. Intencional.
— Como é justo, como é o costume das Ilhas Livres. Como é o correto de pessoas livres, e famílias cansadas de opressão.
Seu olhar varreu-os, firme e inabalável. No momento em que os olhos de Karak cruzaram os deles, a visão começou a mudar, vendo a clareza firme que enquadrava Karak sob uma nova luz.
— Tudo que pedimos em troca é o que já fazem por estruturas como o Consórcio, que tomam seu trabalho, sua dignidade, e devolvem leis e imposições.
As palavras caíram como pedras em água parada. Sem ameaça. Sem voz elevada. Apenas a simples certeza de como o mundo funcionava.
— Ao contrário, nós, pedimos apenas o suficiente. Os assentamentos apenas pagam pelas ferramentas com as quais os protegemos.
Ele abriu as mãos levemente, como se apresentasse a própria razão.
— Como é justo, como é o costume das Ilhas Livres. Como é o costume de pessoas livres.
Outra pausa. O silêncio perdurou o tempo suficiente.
—Não há nada a temer. — Uma respiração lenta. —Uma troca justa, costumeira e livre.
Erlan se lembrou da explicação de Rafiq. Algo se agitou nele. Inesperadamente, no entanto, ele se viu encontrando a mesma razão em ambos, e não uma extorsão.
Ariel sentiu mais agora, um calor formigante, um puxão em seu peito. A maneira como ele disse fazia sentido. Ela queria se sentir segura e protegida.
O pulso de Erlan diminuiu. Ele sabia que deveria se mover, deveria reagir, mas em vez disso, ele queria ouvir. Karak era um homem que valia a pena seguir.
A mente de Erlan então deu um estalo, uma rajada de energia pela mão que tocou o ombro. Um recém chegado rompeu o discurso.
Foi como uma onda que o cobria, fria e repentina, rompendo o que quer que tivesse se instalado em sua mente. Então, como uma ondulação em água parada, a névoa se dissipou. O toque da mão foi uma onda súbita, como se removessem sua alma de seu corpo e a empurrassem de volta. Seus músculos despertaram, seus sentidos se acenderam, ele se sentiu em defesa, em segurança.
O recém chegado Valaravas caminhava entre eles, segurando cada um dos Silvani pelo ombro, movendo-se tão casualmente, como se fosse uma questão trivial de um desentendimento amigável. Suas roupas não eram diferentes das dos aldeões, mas algo nele mudou o próprio ar.
Quando Ariel sentiu a mão de Valaravas em seu ombro, o calor e a aceitação que Karak instilara se tornaram o fogo que queimava dentro dela em busca de verdade, liberdade e clareza. Suas mãos mais firmes do que nunca, sentindo que poderia ser precisa como um rifle inteligente até mesmo apenas atirando uma pedra com as próprias mãos.
A expressão de Karak escureceu. Ele sabia o que estava enfrentando. Embora seu poder carismático estivesse quase nivelado, ele sentiu que Valaravas era um Legado Urbani, ele carregava o dom do conhecimento, tornando sua habilidade carismática fundamentada e técnica, não simplesmente atração e simpatia. Mas havia mais, algo mais em sua influência. Um poder sombrio não dele, que não apenas subjugava a presença de Karak, mas a consumia. Ele havia 'caminhado', e não apenas uma vez.
Mas foi quando viu Nandi que os planos do pirata realmente mudaram. Ele via a Sangamani, sua influencia sendo sugada como por um buraco no fundo de uma bacia suga a água. No mais que ele tentasse atingi-la, no mais seu próprio poder se drenaria.
Valaravas inclinou a cabeça ligeiramente, sua voz leve, mas precisa.
— Bem vindo a nossa ilha de paz. Você são bem vindos em nossa humilde vila, e podem desfrutar de uma de nossas cervejas cativantes, e nossa hospitalidade, por este dia. Isso antes de voltar para o seu barco, e partir para sempre. — Valaravas dizia como um guia turístico, com um sorriso. — Uma próxima vez não será tão frutífera.
Seus dedos se moveram apenas ligeiramente no ombro de Erlan, o suficiente para iluminá-lo, como se colocasse um holofote sobre o Silvani. Um aperto leve, quase brincalhão.
— Silvani. Um povo orgulhoso de suas tradições, de seus valores. E este, um de seus melhores. As histórias de mercadores, como tenho certeza conhecem, não faz jus à sua habilidade. Tão novo, e sangue afiado flui por suas veias.
Uma pausa, esticando-se apenas o suficiente.
Ele puxou Ariel para o campo de visão, ofuscando até a si mesmo. Ele tocou os braços dela, fazendo-a tremer, observando sua mão, deslizando lentamente ao longo de seus braços, fazendo um gesto suave fluindo para pairar logo acima de sua barriga.
— A mulher Silvani, exótica, aparentemente delicada.
Um fantasma de um toque, fugaz, mas deliberado.
— Subterfúgios. Sua habilidade com o rifle legendária. Sua clareza tática, um clamor do que os Silvani valorizam: competência.
A pressão de sua mão permaneceu, repousando sobre o centro do ser dela, não um aperto firme, mas um puxão.
Os homens ali ficaram todos hipnotizados pela forma como Ariel respondia a ele, e como ele a exibia como um troféu valioso, sob seu controle, e talvez, eles pudessem tê-la também, se era por isso que estavam lutando. Era sedutor, hipnótico. Eles seguiram as mãos de Valaravas enquanto ele traçava um caminho pelo torso de Ariel, seus movimentos tão intencionais que a faziam parecer uma joia.
Eles viram o que ele viu, não apenas uma Silvani exótica, mas poder. E eles queriam. Eles a queriam.
Valaravas estava ciente da atenção deles, e do tempo para ancorá-los.
— Homens que parecem honrados guerreiros que são, de mentes astutas. — Ele disse encarando Karak. — Sabem que estão entrando em território perigoso.
Ao dizer isso, Valaravas segurou Ariel pela cintura e a puxou em sua direção, seu corpo movendo-se como se fosse fluido, sua presença permanecendo como um sussurro de perfume. Um gesto no ar, não mais a tocando, pairando para parar pouco antes de tocar o cinto de Ariel, mas sua distância era seu próprio toque.
Karak observava, expressão indecifrável. Mas seus homens estavam quase babando ao ver Ariel. Isso era ainda mais estranho porque Harata que eram, não deveriam estar tão afetados por Valaravas.
Então, os lábios de Karak se curvaram ligeiramente.
— Vejo que você honra os princípios de nosso povo, Harata. Como deve. Família. Harata nunca se esconde, Harata sempre sabe onde.
Ele fez uma pausa, sua mente trabalhando sem deixar parecer.
— Vamos resolver isso como Harata. Da maneira certa. Que é justa, e como homens livres fazem.
O costume Harata dos tempos de sua vida marítima, bandos de marinheiros vagando sem terras, sem posses. Evitar conflito era principal, mas quando negócio e acordo não resolviam, a disputa homem a homem era a lei, e a palavra era a medida do homem. Harata nunca mente, a palavra Harata é permanente.
Karak gesticulou para seu segundo em comando, um homem magro com uma confiança fácil demais, girando uma faca entre os dedos. Ele queria se exibir, ele venceria e levaria a Silvani exótica para si. Confiante, ele era o melhor.
Ambos líderes carregavam o dom do carisma Harata, mas enquanto Karak o empunhava com bravata, Valaravas o empunhava com estratégia.
Karak alimentou o ego de seus homens, e Valaravas usou seu carisma nisso, incitando-os a usar o poder que presumiam ter, em uma disputa para a qual estavam mal preparados. E ele tornou o mito Silvani, os poderes lendários, o que instilou ainda mais confiança em Erlan.
Quando Karak inflou a confiança de seu segundo, ele também expôs involuntariamente sua própria fraqueza, seu orgulho, sua dependência da dominação e a ganância que Valaravas havia instigado cuidadosamente.
Karak sorriu, abrindo os braços.
— Esse é meu jaitak. Oferece você um jaitak? Os termos são simples: O jaitakuna é territorial. Eu e você, a Ilha toda.
O sorriso de Valaravas se aprofundou, lento e medido.
Jaitak, trégua seria a melhor tradução, é uma expressão Harata que significa a pessoa que vem para acertar um acordo em forma de luta. Jaitakuna é o que eles disputam. Território, razão ou submissão. O Jaitak ganhador garante ao seu lado que o perdedor nunca mais pisará no território, não tem razão ou submete-se ao julgamento do ganhador.
— Meu amigo, os termos são justos. Eu nomeio Erlan meu jaitak. Jaitakuna aceito. — Valaravas disse com um certo prazer.
— Temo que não possa ser. Apenas um Harata pode ser jaitak. — Karak disse triunfante, confiando na sua capacidade de vencer se Valaravas lutasse.
— Karak, meu amigo. Erlan é irmão de Ariel. — Valaravas disse com uma finalidade divertida.
— Seguem sendo Silvani, meu amigo. — Karak dizia já com uma certa preocupação.
— Ariel é o coração de um Harata. 
— Prove. — Karak estava realmente preocupado.
Valaravas então puxou a pequena lâmina curva que carregava como um pingente no pescoço, e fazendo um pequeno corte em seu polegar, usou o sangue para marcar o meio de sua testa.
Karak praguejou para o chão antes de recompor-se em uma expressão mais altiva.
Ambos os Harata caminharam para seus aliados. Era tarde demais para mudar as apostas, e foi exatamente por isso que Valaravas observou de longe e entrou no jogo aparentemente tarde. Karak teve que ter confiança para usar todo o seu poder antes de notar as probabilidades se acumulando contra ele, um Harata Legado e uma Sangamani. Tudo ainda poderia ser controlado se Valaravas fosse forçado a enfrentar Karak, que apostou que um Silvani nunca seria o coração de um Harata.
Harata é um povo fechado, por mais que sejam acolhedores e alegres, suas tradições só aplicam-se a quem é nascido e criado entre Harata puros. O coração de um Harata é uma pessoa que não tem origem Harata, mas que conta com a total dedicação de um, e torna-se, para todos os efeitos, parte de sua família. 
O sinal de Valaravas, um sacrifício cerimonial, indica que qualquer ato de Ariel ante um Harata é o mesmo que um ato dele, porque ela é, então, o coração dele. O coração de um Harata.
Valaravas virou-se para Erlan, sua mão pressionando seu ombro desta vez, mais firme, ancorando-o. Sua voz era calma, certa, absoluta.
Uma pausa, uma respiração. Ele olhou nos olhos de Erlan, buscando em seus olhos Silvani o momento em que Erlan se concentrou, sua mente faminta por propósito e direção.
— Seu momento chegou, meu amigo. A prova final que procura, frente a frente com um Harata. É o momento de mostrar sua razão. Teste o limite do seu poder.
Erlan, por aquele único momento, teve seu alerta Silvani desligado, e só podia ouvir e ver Valaravas, suas palavras eram lei, sua fé a luz que guia e ilumina.
Depois de entregar sua confiança a Erlan, Valaravas deu um passo para trás, sua mão puxou a cintura de Ariel, guiando-a para longe. Abrindo o palco para o jovem Silvani. As palavras se foram, mas o fogo do combate permaneceu.
O bandido olhou para Ariel e Valaravas com cobiça, ele queria pegar a mulher pela cintura, queria levá-la para si.
Ariel assumiu uma postura muito atraente, como se quisesse ser desejada. Os invasores marotos foram cativados por sua figura. Exatamente como deveria ser.
Erlan, seu irmão, não afetado por essa manipulação específica, estava no auge de seu jogo. Era algo certo, já resolvido. Era apenas atuar e levar a vitória para casa.
Valaravas havia calculado que utilizar Ariel como objeto de cobiça abertamente selecionava Erlan fora dos alvos, e ele poderia intensificar a técnica, sem se preocupar.
Erlan já jogava a batalha, a excelência do treinamento Silvani, usar as costas da adaga para controle, a lâmina para cortar, uma adaga na frente, a outra atrás. Um pivô, uma lâmina arranha, a outra fatia. Segundo pivô, uma fatia, a outra fura.
O atacante sacudiu sua faca. Foi um movimento tão pequeno, tão casual, mas na mente de Erlan, desdobrou-se como uma sequência de passos.
Sua mente ficou em branco.
Ariel já tinha visto isso antes, mas Erlan nunca o fizera a ultrapassagem.
Ela tinha visto um Silvani fazendo isso, uma única vez, em toda a sua vida até aquele momento, e nenhum tão jovem quanto Erlan. Era uma prática antiga que apenas guerreiros experientes conseguiam executar, depois de anos de treino sob mestres Silvani de tradição ancestral. O uso de seus conhecimentos internos harmonizados com a natureza de seu corpo, geralmente depois de treinos brutais.
Nandi estava observando, mas Ariel pôde perceber que ela não estava passiva diante da situação. Era como se cantasse um hino que entra na alma, mas quase não se escuta.
O homem apenas entrou no primeiro passo de sua postura, preparando-se para avançar.
Erlan foi reduzido a uma simples arma consciente, sem pensamento humano, sem outra preocupação, executando a pura e instintiva memória muscular de sua experiência.
Quando o homem estendeu sua mão com a faca, Erlan avançou, segurou aquela mão tão rápido que o bandido perdeu o equilíbrio antes de reagir. Erlan girou uma vez, uma lâmina no pulso da mão da faca do bandido, a outra em seu ombro.
Dois cortes, perda de equilíbrio, o bandido nem sequer reagiu àquele ataque.
Erlan girou e pulou, um pomo de faca no queixo do inimigo, a outra mão se retraindo, deslizando por seu pescoço.
Ao pular, Erlan colocou os pés em seu peito e saltou para trás, empurrando o bandido.
E só depois disso, o sangue do bandido começou a jorrar.
Erlan se levantou, torcendo o pulso. A faca em sua mão pingava vermelho.
Os olhos do atacante ainda estavam arregalados, sua faca sem ser usada.
Erlan voltou como se tomasse o corpo de volta de uma possessão.
Ele largou as facas e se ajoelhou. Exausto.
O rosto de Karak mal se moveu. Ele deu um aceno lento.
— Como é justo. como é costume. — Karak virou-se, sem hesitação. — De volta ao barco. Ma jaitak.
Karak bateu duas vezes em uma mesa de madeira próxima e apontou para Valaravas. O sinal Harata. Invocando a alquimia universal para negócios mais fortuitos da próxima vez.
Ariel não tinha certeza do que acabara de acontecer. Ela tinha visto cada momento, lembrava-se de cada movimento perfeitamente, mas algo sobre a luta parecia estranho. Sua memória não correspondia ao que ela tinha visto.
Para Ariel, os movimentos de Erlan não eram como ela sempre via, o movimento fluido e o uso habilidoso da faca. O irmão se movia como uma sequencia de poses, e não uma luta. Uma sequência de momentos-chave que aconteciam em batidas cronometradas, mas ela não conseguia lembrar o movimento real ocorrendo até que ele terminasse.
A ultrapassagem tinha uma desvantagem, pois consumia reservas de glicogênio em níveis absurdos. Erlan estava exausto, e o conhecimento Silvani dizia que apenas certos alimentos o trariam de volta ao normal. Ele precisaria de cuidados, que Ariel não era capaz de fazer.