Ordem nem sempre unida

A Trifronteira é assim chamada porque está dividida em três partes. A parte sul que faz divisa com o Beru é chamada de Divisão Beruana e está sob administração do Conselho de Anciões do Beru, os nômades. A parte Oeste que praticamente engloba uma porção da base Zapachnaya Zhefaq, e uma reserva de proteção, é chamada Divisão Erítria. A terceira, parte norte, que faz fronteira com Tirayon é chamada de Divisão Desmilitarizada, e está sob o controle do Consórcio, o que significa em grande parte "defendido pela Armada, pago por Khadija e estratégico para os Harata". Khadija é a nação dos Urbani tradicionais.
A General Svetlana Tarasovna Sedova, como todo Erítrio, carregava no nome a herança inegável da história de conflito e guerra de seu povo. Taras foi o General que comandou o destacamento que terminou a Grande Guerra com o uso do Maz Ynis. Ele destruiu o que hoje é a Divisão Norte da Trifronteira, mas não antes que os próprios Silvani tivessem cometido o genocídio da população da Cidade da Serenidade, em seu próprio reino, uma população de etnia Silvani.
Serenidade era o povo de Ariel e Erlan, e o povo da maior parte dos exilados Silvani. Segundo o que a história conta, Taras foi movido pela tragédia da Serenidade e decidiu que aquela frente teria que sentir o preço de seguir com a Guerra.
Já em seu quarto, a General Svetlana carrega o fardo de ter que viver o legado de seu pai, em um mundo que já não vive a mesma divisão de poder e o mesmo incentivo da Guerra em que seu pai nasceu e que ele terminou já em seu quinto.
Naquele momento porém, a alvorada, Svetlana não era a General, não era a filha de Taras, nem mesmo a mulher já no seu último quarto de serviço na Armada. Ela era apenas uma Erítria, como todos no Ginásio.
Para a Armada, especialmente os oficiais, o dia começa com treinamento. Todos os dias, a constante obsessão deles com o combate se manifesta. Mesmo a General Svetlana não seria exceção. Na manhã anterior à reunião, ela estava entre os outros oficiais treinando.
Sua figura, 1,95m e 107kg, uma disciplina física invejável até mesmo para os próprios Onatra. Ali, a luta entre Svetlana e outro oficial da Armada chamou a atenção de todos. Cada combate em que ela participava era uma lição, sua maestria no campo de batalha ou no quadrilátero de combate esportivo, inigualável.
Lá estava ela, observando seu oponente até o apito soar. O outro, um oficial de 1,90m e 120kg, era considerado o segundo em Zhefaq apenas quando Svetlana estava presente.
Ao sinal, ambos partem para o embate inicial. Svetlana consegue agarrar o pulso do outro oficial, mas ele consegue agarrar o antebraço dela. Estar por fora é a vantagem de travar a palma da mão.
O oficial tenta usar o peso como alavanca e tirar Svetlana da base, mas a mulher é mais esperta que isso. Ela dobra o joelho para dentro, mudando o centro de gravidade, e seu peso se multiplica, ele precisaria do apoio total de suas costas para levantá-la: técnica do Bastião.
Svetlana ajustou sua pegada e mudou seu peso. Em um instante, o oponente perdeu o equilíbrio e caiu, puxado pela virada precisa do corpo da General. Antes que ele pudesse reagir, as pernas dela já haviam travado sua posição, e a finalização era inevitável.
Durante o giro, ele caiu no chão. As pernas de Svetlana se uniram com precisão, travando o pescoço e o braço do oponente. A trava era apertada. Sem escapatória.
O Oficial não teve escolha, uma das pernas da mulher está travada em volta de seu pescoço, a outra está em seu estômago, suas pernas estão cruzadas sobre um braço e o outro braço da general travando o braço dele de forma a impedir seu corpo de aplicar alavanca, dobrado para trás.
Em cinco segundos ele sabe que não há saída e bate desistência. Fim.
Após a luta e a corrida matinal, ainda o resto dos exercícios, a rotina diária e o treinamento operacional com lança e escudo. Tudo o que a Armada exige todos os dias. Disciplina, força de vontade e unidade. É mais do que treinamento físico, é treinamento psicológico. Na cultura Erítria, o aprimoramento genético explorado até o limite, com protocolos de regulação bioquímica aliados a uma dieta rigorosamente controlada.
Svetlana partiria para a Trifronteira logo após o treino. O trem dos Oficiais era distinto daquele para o público em geral. Os "Dragões Vermelhos" como eram conhecidos, trens à vapor utilizando as mesmas turbinas supercríticas dos cruzadores, capazes de viajar fora dos trilhos, e equipados com canhões capazes de disparar cargas de até 100kg a uma distância de 5 Km. Equipados com Maz Ynis, eles eram capazes de fazer as linhas sobre trilhos a uma velocidade de 250km/h e sem trilhos a 90km/h.
Nesses tempos de paz, a viagem de algumas horas colocaria a comitiva da general na Divisão Beruana da Trifronteira antes do meio-dia próximo.
A partida de um Dragão Vermelho era memorável, e muitos dos viajantes de outras terras vinham testemunhar esse evento. O trem era revisado em sua viagem inicial, e além dos motores que estavam diretamente ligados a propulsão, diversos motores auxiliares e dos armamentos deviam ser checados e ligados antes da partida, para estarem prontos se necessários.
Eletrochinia produzia baterias de Carbóleo, uma tecnologia proprietária de armazenar energia que mesclava as vantagens de uma bateria elétrica com as de um combustível líquido viscoso. Embora um trem comum possa ir até a Trifronteira e voltar somente no vapor, o Dragão Vermelho utiliza os motores a vapor e os motores elétricos, equipando-se com uma bateria especial de 300kg de carbóleo.
A partida do monstro estava começando, e o vapor denso já tomava a estação. A manhã fria das montanhas aquecida pelo trem. E barulho cadenciado dos trens normais no Dragão era substituído por um barulho elétrico de fundo quando o motor de partida tomava parte na aceleração da locomotiva. Apesar de muito mais pesado, o Dragão Vermelho partia em dois terços do tempo dos trens normais. 
E em meia hora o espetáculo que muitos estavam ali para ver terminava com o trem partindo para o Oeste em direção a Trifronteira.
Mesmo do lado de fora o Dragão Vermelho é menos ruidoso que um trem comum, mas por dentro, a necessária blindagem ajuda a manter o silêncio. Tripulação e passageiros poderiam conversar normalmente, mas ali o trabalho disciplinado era norma e a palavra um recurso escasso, reservado aos momentos mais importantes.
Svetlana falava mais consigo mesma. Andrei poderia ter o luxo de seguir ordens e limitar-se à responsabilidade de suas ordens serem cumpridas, mas Svetlana era, depois do General Pankov, a palavra que decide os rumos da Armada.
Além disso, ela era a principal Comandante da Falange, uma divisão da Armada Erítria para Operações Especiais, e a representante da Federação no Consórcio.
Ao chegar na Trifronteira o Dragão Vermelho era novamente a sensação do momento. Não que a Armada não fizesse questão de demonstrar seus armamentos como uma forma de imposição de respeito e alta tecnologia, mas também o interesse de vários povos era genuíno. Vários povos exceto os Harata. Para eles, a chegada do Dragão Vermelho era apenas "mais um trem".
A saída dos Oficiais da Armada era para o povo da Trifronteira um espetáculo por si só. Primeiro os baixos oficiais saíam e preparavam o corredor e o espaço para os oficiais intermediários que escoltavam os oficiais mais altos em uma coreografia completamente sincronizada. Se houvesse algum erro, o cidadão comum de outras nações não perceberia, pois o perfeccionismo da Armada com protocolo é supremo.
Mas o espetáculo à parte naquele momento era o Batalhão de Baluartes.
Um Baluarte é um Oficial da Armada de uma categoria especial. Enquanto a Falange é generalista, sincronizada e dedicada a diversas tarefas táticas e estratégicas, os Baluartes são dedicados a uma simples tarefa: Manter a linha.
Quando o destacamento Baluarte saiu do Trem, era como se semi-Deuses tivessem descido em Ealetra para o cidadão médio da Trifronteira. Raramente vistos em lugares pacíficos, o Baluarte carrega apenas em sua Armadura 40kg de metal e fibra, permitindo que ele aguente tiros de calibres que parariam um carro. Além disso, são treinados a utilizar fuzis Rij Ynis, uma outra forma de Ynis com maior capacidade oxidante e menor capacidade inflamável que o Maz, desenhado para expandir de forma violenta. Fuzis dos Baluartes são desenhados com a filosofia de que suas armas tem que ser eficientes contra eles, assim como suas armaduras serem eficientes para protegê-los deles mesmos. É uma corrida armamentista que não tem fim.
Suas passadas de botas pesadas no chão de pedra não eram só ouvidas, mas sentidas, pelas pessoas ali observando. Sua forma impecável dava lugar aos dois mais importantes passageiros do Dragão Vermelho: General Svetlana e Sophie de Seldanar.
Sophie, uma Senadora Urbani, que frequentemente está lidando com assuntos envolvendo a Federação Erítria, é uma presença constante na Trifronteira, apesar de seu Reino, Khadija, ser no outro Continente, Pasvara, no hemisfério Ocidental de Ealetra.
Em Purvatara, a Fáscia de Seldanar, que é governada pela Grande Mãe Audren de Seldanar, irmã de Sophie, tem pouco interesse em qualquer coisa fora de suas fronteiras. A Fáscia é contente em deixar que os Harata, a outra etnia dominante da Fáscia, cuide de política externa por seus próprios meios.
As duas mulheres ali tinham destinos diferentes porém. Svetlana iria ter uma reunião do Consórcio, e Sophie apenas aproveitou a carona para embarcar no navio da Marinha Real de Khadija, ali esperando especificamente por ela, para retornar a Khadija.
Svetlana e o contingente da Armada ali estavam enfrentando o sol castigante da Trifronteira com dignidade. Sua caminhada tinha um destino certo, próximo à estação de trens: O complexo do Grêmio.
Uma caminhada de 20 minutos os deixaria na porta externa do Complexo. Dentro, quatro prédios idênticos e equidistantes formavam um desenho arquitetônico único, com o desenho inigualável da arte Harata. Adornos em gesso desenhavam linhas majestosas na construção sólida de cores Ocre, ausente a simbologia Harata por não representar esse povo, a construção era similar às que podiam ser encontradas nos bairros Harata na Fáscia.
Um dos prédios já estava destinado aos convidados, que imediatamente assumiram o controle e a segurança do perímetro, acomodando-se como em um posto avançado. O prédio preparado, desprovido de equipamentos e luxos, esperando que a Armada, como sempre, trouxesse e instalasse tudo por sua própria conta.
Tudo preparando, esperando apenas o evento principal.