O mercado se estendia diante de Nandi e Ariel, uma tapeçaria de movimento e murmúrios, o ar denso com o cheiro de especiarias, pedra aquecida pelo sol e o distante carvão de carne assada.
Nandi e Ariel andavam sem rumo através das multidões mutáveis, seus passos sem pressa, seus olhos nunca repousando verdadeiramente sobre as mercadorias exibidas ao redor. Elas não estavam ali para comprar. Estavam ali para observar, para ouvir, para esperar.
Respostas estavam a caminho. Isso era certo. E assim elas caminharam. Estariam seguras no mercado, onde cada Harata que estivesse sem razão aparente era provavelmente olhos da Lâmina.
Foi apenas ao passarem pelas barracas sombreadas de comerciantes de seda que Ariel captou o primeiro vislumbre de uma presença Urbani, entrando no passo com elas, seus movimentos sincronizados demais para serem acidentais. Ela não fingiu distância, nem fez de conta que estava olhando as mercadorias, como a maioria das sombras faria. Ela caminhava como se o mesmo destino a aguardasse, sua presença era aberta, sua atenção fixa à frente.
Ariel diminuiu o passo, angulando sutilmente seu caminho em direção à doca de carga à frente, uma manobra rude, destinada a forçar a perseguidora a se revelar. A infiltradora notaria, é claro. Mas esse era o ponto. A perseguição não era para ser oculta. E, de fato, a Urbani se revelou sem hesitação.
Alta, composta, olhos azuis brilhantes como gelo sob o sol do meio-dia, seus cabelos intricadamente trançados no estilo das unidades de infiltração. Uma atiradora, como a própria Ariel.
Ariel a reconheceu de imediato, a mesma mulher Urbani que falara com Valaravas quando passaram pela Vila do Luar a caminho de Magenta em sua primeira missão como parte do Grêmio.
A infiltradora inclinou a cabeça em uma reverência superficial, sua voz um monótono, desprovida de afetação.
— Mestre Ariel, eu sou Syvis. A Grande Mãe da Fáscia me encarregou de garantir sua segurança. Como nenhum mal virá de nosso lado, tenho observado um grupo suspeito que dividiu-se, vindo para cá e para sua casa.
A expressão de Ariel não mudou, embora sua mente se movesse rapidamente sobre as implicações. Ela já esperava algo do gênero acontecer.
— E o que acontece agora, Syvis. Devemos voltar? — Perguntou Ariel fingindo naturalidade.
— Mantenha-se aqui. É seguro. Mesmo com seu talento, temos olhos na casa. E pelo que sei do seu grupo, os suspeitos não tem muita chance. Mesmo faltando vocês duas.
Ela já estava se virando para sair antes mesmo de terminar de falar.
— Estarei em contato por ponto pessoal. Sincronize comigo. — Ela disse já oferecendo o ponto para Ariel sincronizar.
E assim, ela se foi, desaparecendo sem esforço na maré de corpos que se movia e se reformava em torno de sua partida.
Ariel permaneceu imóvel, ponderando. Uma agente da Fáscia, enviada para garantir sua segurança. Seria realmente a segurança dela que estavam guardando? Ou simplesmente as peças que desejavam manter no jogo?
Ela exalou lentamente, olhando na direção em que Syvis havia desaparecido. Os Harata sempre tinham uma solução, às vezes antes mesmo de o problema surgir. Talvez a própria Syvis não fosse mais do que outra engrenagem invisível na vasta e incognoscível máquina que girava sob a superfície das coisas. E se ela era uma peça para manter no jogo, sua sobrevivência garantida não interessava realmente a razão.
Um toque em seu braço. Nandi, sempre na hora certa.
— O rio que corre em seu leito não requer correção — Nandi murmurou com certo divertimento.
O olhar de Ariel se voltou para ela. Ela já ouvira essas palavras antes, ditas quando observaram os mercados Harata em Magenta. Elas deixariam o problema se resolver, confiando na corrente invisível que sempre levava à sua conclusão inevitável. E, no entanto, a tensão enrolada na base de sua espinha não se aliviou.
Ariel andava com Nandi, como se estivesse no mercado passeando, mas no fundo de sua mente, processava as implicações de sua nova condição. Ela olhava para os Harata no mercado, outros Urbani, era o que havia visto antes. O mercado estava longe de ser apenas um espaço para comerciantes venderem seus produtos e serviços, era a sala de reuniões e o centro de comunicações dos Harata.
Ela começava a entender que não fazer nada no lugar certo era mais importante que agir no lugar errado. Ela entendeu a atitude de Valaravas naquele encontro com Rentaniel e os conselhos de Nandi. Uma coisa, pensou ela, que Rentaniel ainda precisava aprender.