Em Luar o tempo era curto, e o trem não esperava dúvidas. Eles iriam voltar agora todos no mesmo trem para a Trifronteira. A novidade da viagem já não era tanta quanto as perguntas que somavam sem respostas.
Estando Valaravas com eles, a tripulação Harata mantinha sua influência longe. Uma coisa era viajantes solitários ou perdidos precisando de apoio, outra era um grupo já sob a liderança de um Harata.
O vagão estava sob pressão com todas as revelações da manhã na Ilha, e a comida simples mas bem feita oferecida no trem não fazia muito em confortar as mentes aceleradas.
O grupo se acomodou, cada um absorvido em seus próprios pensamentos, em seus preparativos silenciosos. Nandi sentada ao lado de Valaravas, como sempre fazia, com uma expressão indecifrável, uma presença firme. Valaravas, por sua vez, apoiava-se mais do que sentava na poltrona, como se a viagem não fosse mais do que uma diversão passageira, com uma postura relaxada e despreocupada. Mas seus olhos, quando se abriam, estavam sempre alertas.
Tarja, que não era o tipo que mantinha contemplação silenciosa por muito tempo, decidiu mudar os rumos dos pensamentos.
— Então, — a voz forte da Carpata chamou à todos — vocês dois estão juntos? É algum segredo? Ou é uma boa história?
Nandi mal reagiu. Em vez disso, ela levantou a mão, um gesto sutil, uma permissão silenciosa para que Valaravas falasse em seu lugar.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente, um sorriso lento e brincalhão se formando enquanto se endireitava o suficiente para conceder a Tarja sua atenção.
Erlan e Ariel sentaram-se por perto, ao alcance da voz, optando por enquanto por permanecerem como ouvintes em vez de participantes.
Valaravas levou seu tempo, girando o pulso como se conjurasse palavras do próprio ar. Então, naquele seu tom medido, ele começou.
— Nas terras onde Nandi nasceu, onde guerreiros míticos e feiticeiras além da imaginação nunca estão sozinhos, seu papel é caminhar entre o visível e o invisível. Mas para fazer isso, eles precisam ajudar um ao outro, o guerreiro protege a feiticeira, e a feiticeira cuida do guerreiro. Quando a feiticeira precisa transcender a realidade, é o guerreiro que traz ela de volta. Eles são pareados pela Sabedoria e pela Coragem.
— E o guerreiro de Nandi claramente não era você. — Tarja riu.
Valaravas deixou a pergunta pairar, observando as amplas janelas e a paisagem árida do Beru.
— Ela o perdeu, ou ele a perdeu. A maneira como aconteceu, apenas a Alquimia Universal pode dizer. Sem um guerreiro para ancorá-la, ela ficou à deriva fora da realidade. Às vezes, uma feiticeira volta sozinha, as vezes não.
Valaravas endireitou-se como se para buscar o tom certo para prosseguir, ou pelo menos dar essa impressão.
— Por quanto tempo? Um dia? Uma semana? Talvez mais. O tempo é incerto quando se caminha entre realidades. — Ele olhou para os irmãos Silvani.
— E o povo dela simplesmente a abandonou? — Tarja perguntou intrigada.
Valaravas encontrou seu olhar, seus olhos cor de mel indecifráveis.
— Para o povo dela, um Sangamani que perde seu par torna-se acuidá, os mortos antes da morte. A pena de quem deveria ter morrido com seu par.
Nandi inclinou a cabeça ligeiramente, o mais tênue traço de um sorriso brincando em seus lábios.
— Ela caminhou, em realidade e no Umbral, mais longe do que qualquer um deveria ter caminhado e sobrevivido. Ventos do deserto, calor que venceria até os mais fortes, e então a Alquimia Universal à entregou, para mim.
— Umbral? — Tarja perguntou.
— O espaço que existe entre o mundo dos vivos e o mundo das almas. — Nandi respondeu com sua voz forte mas com um certo humor.
— Alquimia Universal, destino, sorte, coincidência, chame como quiser. Uma vontade de um Deus talvez. A resposta está à escolha.
— Onde foi isso? — Tarja perguntou intrigada.
— Eu estava em um barco, uma coisinha fina e elegante. O tipo de barco que um Harata poderia pegar emprestado para negócios discretos no Mar Estreito. — Valaravas baixou a voz como em segredo. — Eu não estava procurando almas perdidas, mas o destino tinha outros planos.
— Era o único jeito. — Erlan decidiu entrar na diversão.
— Era o único jeito. — Valaravas riu.
O Harata acenou para Erlan, como se agradecesse a contribuição, e continuou.
— Nós a vimos andando pela costa, envolta em maresia, poeira e os sinais do tempo. Ela nem deveria estar se movendo, nem respirando. Mas estava lá, olhos abertos, pés firmes, sussurrando palavras que nunca poderíamos decifrar.
Ariel começou a prestar mais atenção, como se algo ali tivesse algum ponto que a chamava.
— No começo, achei que ela estava apenas delirando. O sol quebra até as mentes mais fortes. — Ele estudou cada um por vez, antes de continuar. — O mar já me trouxera muitos antes, marinheiros perdidos, mentes vacilantes, entre sonho e morte. Mas ela era diferente.
Seu olhar se voltou para Nandi, algo indecifrável em sua expressão. Então, ele deu o tom.
— Harata, eu tenho maneiras de trazer as pessoas de volta. Marinheiros bêbados, escravos drogados e agredidos, quebrando suas correntes, mas Nandi era algo que eu nunca tinha visto. Eu estava à ponto de desistir, quando dei por vencido e simplesmente deitei a cabeça junto da dela, e disse 'volta pra mim'.
Valaravas e Nandi tocaram suas testas, olhando um para o outro. Um momento, rápido, e ele continuou.
— E ela simplesmente acordou. Fraca e sem mexer o corpo, ela disse apenas três palavras que eu nunca esqueço: 'Kadara fa mi'.
Nandi assentiu com seriedade, e falou em seguida.
— Kadara fa mi. O destino me deu à você em Sangamani.
— Assim, do nada? Nada mais? E você Val? — Disse Tarja já sentindo-se íntima da história dos dois.
— Eu sempre questiono as coisas. Não me rendo a fatalidades cegamente. Questionar e aceitar são duas coisas diferentes. — Então Valaravas sorriu, sacana. — Mas diga: Se a Alquimia Universal nos trás uma mulher como essa, com o poder que tem, e diz 'toma que é sua', eu vou discutir?
Tarja abriu a boca, depois a fechou antes que qualquer palavra se formasse.
Ariel, que permanecera em silêncio, estudou os dois.
Nandi riu baixinho, balançando a cabeça.
— Desde então estamos lado a lado. — Valaravas disse com o tom de conclusão.
— Não era o que eu esperava. — Admitiu Tarja.
— Boas histórias sempre existem entre a verdade e o que tecemos para tornar a verdade suportável. Melhor assim, não é verdade? — Valaravas inclinou a cabeça.
— E todos são heróis nas próprias histórias. — Nandi alfinetou.
Erlan murmurou algo em Silvani que não pôde ser ouvido.
Ariel, no entanto, não estava sorrindo. Ela voltou seu olhar para Nandi.
Ariel se identificou com a história, mas precisava saber que seu anseio de exilada por ter de volta o que perdeu também ressoava.
— Você nunca quis voltar? — Ariel perguntou em direção a Nandi.
— Não existe voltar. Para o meu povo, eu sou acuidá. Morta, inexistente. Só tenho uma vida porque meu leão me permitiu.
Ariel perguntou querendo encontrar um motivo para Nandi não ser exilada como ela. Ela esperava que houvesse um motivo para não voltar para seu povo além da rejeição deles. Infelizmente, ela e Nandi compartilhavam essa verdade. Rejeição com base na fé. Aceitação com base no destino.
Ariel e Erlan teriam rejeitado a última frase em outros tempos, mas agora, esse fato não os incomodou o suficiente para tentar.
O trem seguia, e as horas passaram. Era o momento de encontrar o descanso no silêncio. Pensar na história. Verdade ou não, como sempre, é acreditar ou querer acreditar que faz a mente trabalhar.
Tarja desmoronou em seu lado no sono pesado que os Carpata conseguem plasmar em comando. Ariel e Erlan, no seu lado, procurando o conforto dos bancos mais afastados. O corpo de Valaravas servindo de recosto para Nandi. Todos acabaram eventualmente encontrando o sono.
Todos, menos Ariel. A história de Nandi, verdadeira, embelezada ou pura ficção, tocou algo profundamente enterrado em seu coração. Ela era exilada, em tudo menos no nome, mas sua própria atitude em relação a isso mudou toda a sua experiência. Talvez essa fosse a resposta o tempo todo.
Talvez os Harata oferecessem uma maneira diferente de ver as mesmas coisas, não algo totalmente novo.