Onachinia é mais que carbóleo

Kivi e Elias estavam acabando de chegar em Vila Pequena. Já havia muito trabalho para fazer. Onachinia é produtora em todos os sentidos. Desde jovens, os Carpatas são educados com o trabalhar, a produção, a serem úteis ao conglomerado. Disciplinados e focados como os Onatra, mas completamente dedicado ao corporativismo.
Diriam que o Carpata seria focado no Capital, mas seria um engano. A sociedade Carpata é um complexo arranjo que poderia ser considerado Comunismo Privado. A separação de propriedade e controle feita com uma perfeição de eficiência. As grandes corporações funcionando como o alicerce de seu povo, para o seu povo.
Entre os recados que esperavam Kivi em seu escritório, um chamava a atenção: Um pequeno pedaço de papel com umas poucas palavras.
[Chegou a hora. O chamado de aventura está tocando. Ela está pronta?]
Kivi se viu em um misto de preocupação e urgência. Mas nada poderia ser feito em alguns dias. Ainda havia muito o que preparar.
O dia seguinte começando em Vila Pequena, e todos já estão seguindo para seus postos. Tarja, como todos os dias, acorda nas primeiras horas do dia, vestida com o uniforme protetor e prático, agarrado às suas curvas generosas envolvendo músculos potentes quase tão aprimorados quanto os dos Onatra, um pouco mais cobertos de gordura, um traço desenhado nos carpata para aumentar sua resistência ao trabalho contínuo e dias longos.
Tarja trançava seu cabelo ruivo acobreado em duas tranças grossas que prende-se evitando fios soltos. O trabalho externo ainda não exigia as tocas, e ela tinha orgulho de seu cabelo grosso e de uma cor que era rara entre os Carpata.
Seu dia era pesado, mesmo com todas as polias e alavancas, ela preferia ainda trazer seu corpo ao limite, como uma forma de treino. Ela era Carpata, mas tinha entusiasmo com as anedotas que ouvia dos comerciantes sobre a Armada. Sozinha em suas horas livres, ela lia sobre eles, e treinava o combate, usando recipientes velhos e bobinas gastas como vítimas de sua alegria em repetir os feitos dos primos étnicos distantes de Erítria.
Sua primeira função do dia, transportar e trocar os pesados tonéis de Carbóleo usados na grande panificadora que trabalhava. O combustível iria suprir as necessidades dos massivos fornos, luzes e maquinário que a Panificadora Vila Pequena utilizava para criar seus renomados produtos, em escala de consumo e exportação. A panificadora era um lugar bem conhecido em toda Onachinia, assim como na Fáscia e na Federação. Mercadores de toda parte ficavam lá pela comida e pela boa aura do lugar. Carpata são famosos por seu humor ácido e pragmatismo, afinal.
Nos corredores de comércio dentro da enorme panificadora, quase como amigos, eles fazem churrasco, fazem pão e organizam acomodações para viajantes domésticos e estrangeiros. Todos que frequentam a Vila Pequena já estavam acostumados com a força e resiliência de Tarja, famosa entre os trabalhadores da estalagem.
Logo os mineiros, pescadores, lenhadores e todos os trabalhadores que faziam a cidade prosperar estariam ali para começar suas jornadas com a famosa comida da estalagem. Entre os clientes havia muitos mercadores que vinham de terras distantes e passavam a noite na estalagem.
Carpatas tem uma cultura peculiar em Ealetra em relação a comida. Sua maior refeição é o desjejum, costumeiramente com comida suficiente para um dia inteiro de outras etnias. Isso não significa que suas outras refeições são muito menores, apenas compostas de comidas mais leves. A carne e as massas são desjejuns preferidos.
A cada cinco ou seis dias, Kivi estaria entre os clientes mais animados da manhã. Ele estava sempre buscando conexões comerciais e mercadorias exóticas para os bolsos mais cheios de Onachinia.
Tarja adorava ouvir os contos das viagens de Kivi, sua janela para o mundo, mas não de manhã, pois ele geralmente estava ocupado. Era nas noites quentes que os contos dos mercadores eram mais eficazes, regados a cerveja e ao descaso do fim do dia.
À noite, Tarja permanecia pensando em seus sonhos de ver o mundo e como é a vida fora de Onachinia. Ela assistia os conteúdos trazidos pelos viajantes, na rede interna de Onachinia.
Tarja ouvia os contos dos mercadores, sobre mares cheios de dissidentes, lutas contra saqueadores e os perigos do mundo, e em vez de pensar como todos os outros Carpata, felizes em sua bolha, ela queria descobrir esses desafios. Se sua força era suficiente para conter até mesmo os mais rebeldes brigões bêbados na estalagem, seria suficiente para desbravar o mundo lá fora.
Ela não era de se ofender facilmente. O humor dos mineiros, desajeitado ou bem-intencionado como muitas vezes era, raramente a irritava. Ela os encarava com a mesma indiferença serena que mostrava para a maioria das coisas além de seus amigos e seus próprios interesses.
À medida que a noite se aprofundava, a energia humana dentro da Panificadora se tornava mais volátil, como sempre acontecia quando a cerveja corria solta e estranhos se sentavam na mesma mesa por muito tempo. O ar estava denso com o cheiro de carne assada e pão fresco, misturando-se com o forte aroma das aguardentes, do tipo que entorpecia os sentidos e soltava ainda mais a língua.
Risadas ecoavam, calorosas e desinibidas, canecas se chocavam com alegria, o barulho um zumbido constante de camaradagem e bravata crescente, mas por baixo disso, Tarja percebeu a mudança. Ela já tinha visto isso antes.
A bravata se transformava em desafio. Os sorrisos se enrijeciam nas bordas. As palavras se tornavam mais afiadas. Era sempre o mesmo padrão, uma dança tão previsível quanto as marés. Uma briga estava se formando.
Começou com uma bebida derramada.
Um silêncio se espalhou pela mesa, sutil, mas inconfundível, uma pausa momentânea onde a respiração foi suspensa e as posturas se enrijeceram. A cerveja escorria da borda da mesa de madeira, encharcando o chão de pedra abaixo.
"Cuidado, baixinho."
A voz veio lenta, arrastada, mas cortou o espaço entre eles como uma pedra de afiar contra o aço. Um dos mineiros, de ombros largos e robustos, virou-se para um pescador local, o peso do desafio se instalando entre eles.
O pescador, mais acostumado a lidar com Carpata, tinha pouco tato com os estrangeiros. Ele estreitou os olhos. Ele não estava acostumado à agressão.
"Comparado com a sua cabeça gorda, eu sou pequeno."
O mineiro soltou uma risada seca. "Meu braço também é grande, franguinho."
Tarja viu os dedos se apertando ao redor da caneca, a mudança de peso, a leve inclinação para a frente, o prelúdio inevitável de uma briga.
Ela se moveu antes que o primeiro golpe pudesse ser desferido.
Os Carpata não provocavam sem a intenção de ir até o fim, e os mineiros, especialmente os desertores Onatra, estavam sempre procurando uma desculpa. Era um equilíbrio que ela aprendera a manter, uma vigilância constante para onde os insultos de bêbados se transformavam em problemas reais.
O mineiro mal teve tempo de reagir antes que a mão dela estivesse em seu pulso. Sem apertar, não de começo.
"Calma, garotão." Sua voz era uniforme, composta, mas inflexível.
O homem virou-se para ela, piscando uma vez como se a registrasse pela primeira vez. De sua perspectiva, ela não era nada para se levar a sério, baixinha e gordinha para os padrões Onatra, compacta e robusta da maneira pela qual as mulheres Carpata eram conhecidas, suas botas adicionando altura suficiente para fazer a diferença parecer menor.
Ele tentou se soltar. A pegada não cedeu.
Sua expressão mudou um pouco, a confusão tremeluzindo através da névoa do álcool. Ele torceu o pulso, tentando quebrar o aperto da maneira que se faria contra uma pegada mais fraca, fazendo alavanca sobre o polegar.
Tarja apertou firme, mudando sua postura ligeiramente. Ela inclinou a mão dele para o lado, travando o polegar sobre o dele, segurando seu pulso de uma forma que o forçou para baixo. Um movimento de seu pulso, um torque sutil, e o equilíbrio do homem se foi.
Com o joelho batendo no chão de pedra com um baque seco, ele vacilou, sua respiração ficou presa entre os dentes enquanto ela o mantinha firme, no lugar, apenas o tempo suficiente para que a mensagem ficasse clara.
Agora, eles estavam no nível dos olhos.
"Você está bem?" Tarja inclinou a cabeça, o olhar firme, mas não cruel.
A mesa ficou em silêncio. Seus amigos, que já haviam começado a se levantar de seus assentos, hesitaram. Ninguém queria ser estúpido a testá-la em seguida. Mesmo que pudessem com a mulher, todos sabiam como os Carpata funcionavam. A panificadora inteira interviniria por Tarja se fosse necessário. Comunitários por natureza.
Mas isso não significava ser misericordioso. Eles acreditavam no bem-estar do grupo, e este homem era quem estava causando problemas. Ninguém o apoiaria se ele insistisse.
Ela o soltou, dando um passo para trás. O homem, agora livre, levantou-se desajeitadamente, esfregando o pulso com um movimento quase ausente. Seu rosto ardia em vermelho, mas não da cerveja, e sim da humilhação de ter sido dominado tão facilmente, na frente de todos.
Tarja, sempre pragmática, ofereceu-lhe uma saída.
"Se você se acalmar, vai sarar mais rápido. Muito cortisol, aumenta inflamação." Seu tom era uniforme, quase casual, deixando claro que não estava zombando dele, apenas garantindo que ele entendesse. "Vá, tome um refresco de menta que é bom pra acalmar e diminuir o inchaço."
O homem se sentou, com uma respiração que carregava tanto frustração quanto aceitação relutante. Seus amigos murmuraram algo sobre outra rodada, afundando de volta em seus assentos com uma despreocupação forçada.
O pescador sorriu, mas sabiamente se calou.
E naquele lugar, isso significava saber quando parar uma briga antes que ela começasse. Tarja não precisava de agradecimentos. Ela não estava ali para vencer brigas. Estava ali para manter o equilíbrio. Quem estava brigando não estava consumindo, e quem quebrava, podia pagar, mas era prejuízo de qualquer jeito.
E assim, a tensão na cervejaria se dissolveu. Os mineiros engoliram o orgulho e os mercadores voltaram às suas histórias. Ninguém se machucou, nada foi quebrado, apenas alguns egos feridos antes que as coisas saíssem do controle. E era exatamente assim que Tarja gostava.
Depois que a hora de maior movimento passava, Tarja sempre estaria lá, olhando para o céu, as estrelas, e pensando em seu desejo de ver outros lugares e viver as aventuras sobre as quais ouvia dos mercadores. Mas um medo sempre atacava sua determinação. O medo de não ter apoio, nem pessoas, e de ter que se virar sozinha em um mundo desconhecido.
Ela não era de pensar muito em homens, mas também achava que ser uma aventureira era solitário. A maioria dos Carpata não via a aventura com bons olhos, mas ainda menos quando se tratava de mulheres aventureiras. Carpata era uma sociedade muito patriarcal, contrastando com a neutralidade Onatra e Harata, e a cultura geralmente matriarcal dos Urbani.
Aventura, como o próprio nome diz, derivado das línguas antigas, significava arriscar alto, e os Carpata eram avessos ao risco de qualquer natureza.
Naquela noite, quando os restaurantes da Panificadora já estavam vazios, Tarja se perdia divagando em pensamentos, sua mente repassando as histórias que ouvira no dia, os contos do Mar Estreito, dos dissidentes se tornando mais ousados, de navios desaparecendo em rotas que antes eram consideradas seguras.
Para ela, os dissidentes não eram diferentes dos desordeiros da estalagem, barulhentos e imprudentes, insistindo até que alguém revidasse. Ela nunca deu muito crédito aos sussurros sobre os perigosos, dos quais seus amigos falavam em voz baixa.
Ela ouvia sobre estranhos com rostos pálidos, inexpressivos, como os de bonecos macabros, que caçavam humanos por esporte. Pessoas cuja compaixão era desconhecida, misericórdia nunca era oferecida. Ela não acreditava em histórias de Fantasmas Onatra, mas passara tempo suficiente perto de lutadores para saber uma coisa: Quando as pessoas tinham medo, geralmente era por um bom motivo.
Foi numa noite movimentada que ela decidiu falar com Kivi.
— Se você está falando sério sobre se aventurar por aí, pelo menos me deixe mostrar o caminho, garota.
A voz cortou seus pensamentos. Kivi era um dos poucos em quem ela confiava naquele lugar, que ela aproximou-se com confiança habitual.
— E é só isso? Eu simplesmente 'serei' uma aventureira? — Tarja inclinou a cabeça, a curiosidade brilhando em sua expressão.
— Existe o Grêmio, parte do Consórcio. Os Harata são pessoas de palavra. Vou te levar até o Toivo, o gerente na Trifronteira. Ele conhece o Mestre Valaravas, um Harata, juiz do Consórcio.
— Vamos ver então. — Tarja sorriu, uma centelha de excitação agitando seu peito. — As pessoas falam dos Harata, seus poderes de sedução. Tem certeza que eu deveria?
Kivi soltou uma risada profunda e calorosa que ecoou pela sala quase vazia.
— Os Harata são gente boa. — Seu sorriso era de quem sabe. — Só não deixe a conversa mole deles te levar.
Mais tarde, enquanto Kivi explicava o processo para se registrar no Grêmio, a expectativa de Tarja se tornou mais nítida, mais real. Ela passara anos ouvindo os outros falarem sobre o mundo lá fora, esperando por uma chance que nunca chegara. E agora, estava bem na sua frente.
Quando voltou para seu pequeno quarto, as paredes não pareciam mais tão confinantes como antes. A excitação se instalou em seu peito enquanto ela começava a se preparar para a jornada à frente. Equipamento de sobrevivência, seus bastões de contensão, que ela contrabandeou de Erítria, tudo em uma mochila para acampar. Pela manhã, ela estaria pronta para enfrentar o 'Verme'.