O Velho Oeste

Para os outros, Erítria parece um bloco monolítico de política militar e poder de fogo, mas por debaixo da cortina negra de montanhas rochosas existe uma divisão insidiosa que é notória por todos, mesmo os que não fazem parte da Federação.
Svetlana, General com base no Vostochnaya Khara, junto com o General Pankov, acreditam na força do Leste. Eles defendem os ideais que criaram Onachinia, e defendem que a proximidade com a Fáscia e com Jangunaray fortaleceriam o Leste e Erítria.
Coronel Aleksandr, baseado no Zapachnaya Zhefaq, junto com a Almirante Lediashev, acreditam que Erítria deve rumar sozinha, com sua extensão territorial e seu poder militar, ela é mais do que capaz de dominar os mares e a economia de Ealetra.
Enquanto as discussões dos Generais políticos em seus escritórios no Khara, Pankov e Lediashev, tratam de ideais mais filosóficos, Aleksandr tem as botas no chão, e faz mais do que só discutir suas ideias. O Oeste de Erítria viu mais a Guerra, vê mais a Trifronteira, e muitos apoiam as ideias arrojadas do jovem Coronel.
Aleksandr gosta de pensar que é bom no jogo do poder. Ele mantêm muitos contatos menos respeitáveis pelo território, uma facilidade que ajuda com seus planos de ascensão. Mas alguns deles ficam inquietos quando falta ação. É o caso do Infiltrador Urbani Elmund.
— Aleksandr, estamos todos esperando o suporte da Erítria. Os contatos Harata fornecem suprimentos e informações, mas é de Erítria que esperamos ação! — Elmund disse, sentindo-se calmo no isolamento das paredes grossas do Zhefaq.
— Elmund, meu caro, uma vez que comecemos a movimentar, não podemos parar. Eu aprecio a sua vontade, mas temos apenas uma chance. Começando, não há pausa, não há volta. — Aleksandr respondeu com urgência no tom.
— Tirayon está só a carcaça. Ninguém leva ninguém de Tirayon a sério. Os filósofos da Fáscia iriam estudar as ruínas que sobrassem. Quem vai se opor? Os branquelos do sul? Eles não aguentam nem a luz do sol de inverno. Temos que agir!
— Você se esquece que além de Karaya, ninguém nos apoia, e sem toda Erítria, estamos em desvantagem. Sem conta que os Harata podem não estar contra nós, mas definitivamente não estão nos ajudando em nada com poder de fogo. — Aleksandr disse já coçando a testa.
— Tegravas, os os outros Barões, eles não entrando em conflito já é o suficiente. E no mais, podemos usar as ambições do sul. Os piratas das ilhas livres atacando, a Armada toda não teria outra opção se não juntar-se em uma frente.
— Elmund, e como você acha que os piratas iriam atacar? Por sua própria noção, somos imbatíveis! Imagina como pensam um bando de piratas sujos nas ilhas do sul. Essa base sozinha é maior que uma das ilhas.
— Temos que dar a eles algum tipo de barganha. Algo grande. 
— Elmund, você não está penando o que acho que estou pensando. Se isso acontecer, e é um "se" bem grande, não existe lugar para se esconder. Nem para eles, e nem para você se descobrirem.
— E quem vai contar? Você, Coronel?
— Não se esqueça que o filho dela está no Zhefaq, e não existe como comprar a lealdade de um filho que idolatra a mãe.
— Ele não está na posição de saber, ou de intervir. Coronel! Pare de desculpas.
— Se você tem certeza, e tudo der certo, eu entro no jogo. Mas qualquer problema, o problema é seu Elmund, e só seu! Vale a sua vida?
— Sem isso, a vida não vale nada.
O Urbani acenou e saiu, como se fosse aquela uma conversa trivial.
Aleksandr por sua vez estava preocupado. Elmund estava tentando mudar o mundo sem realmente entender como o mundo funciona, ou pelo menos era isso que pensava Aleksandr.
Além do mais, o Coronel sabia que as aspirações do Oeste não ecoavam para o Leste, e muito menos para outras nações no Leste de Purvatara. Khadija talvez apoiasse uma ação decisiva contra Tirayon, seus inimigos ancestrais, mas era demasiado arriscado apostar que eles não se fariam neutros.
Para que o plano de Elmund funcionasse, precisariam de um interesse tão grande de Khadija que seria impossível que o Reino se ausentasse ou simplesmente retirasse de um possível conflito. Ele precisaria também de um motivo igualmente forte para o Leste de Erítria apoiar o Oeste em uma decisão contrária aos interesses das outras nações do Leste de Purvatara.
A última vez que isso aconteceu, e todas as nações se uniram em um objetivo foi quando Ayla de Seldanar, a filha de Audren, regente da Fáscia, tentou enfrentar os dissidentes, e pagou com a vida sua coragem. Desde então, sua mãe, Audren, decidiu manter-se ausente e cuidar apenas da Fáscia, deixando o "genro" Mestre Valaravas, com o encargo de substituir Ayla no Grêmio.
Valaravas e Svetlana tem um laço forte. Eles participaram da operação com Ayla, ambos eram próximos dela de jeitos diferentes. Ambos concordavam com os ideais de Ayla. E agora ambos comandam os poderes sem os quais Aleksandr não poderia sonhar ter qualquer possibilidade de executar o que Elmund propunha.
O coronel Aleksandr estava relutante em pensar na única saída possível pra resolver seu problema: Ataque de Bandeira Falsa.
Se mercenários atacassem Magenta, ou a Fáscia, o perigo seria óbvio, e os ideais de isolamento de Audren, ou os ideais de bloco de Svetlana, todos teriam que vir resolver o ataque eminente.
O problema é que o único inimigo forte o suficiente para criar tal urgência seria o Vale do Silício, e esse era um ninho de vespas que nem mesmo Aleksandr tinha vontade de cutucar.
A última vez que um comando do Vale do Silício decidiu atacar foi quando o pai de Svetlana, Taras, conquistou suas estrelas, perdendo milhares de homens enfrentando apenas vinte cinco soldados do Vale. E ainda assim, porque os guerreiros do Vale não podiam com o clima de Erítria, e provavelmente eram guerreiros de mais baixa classe.
Não havia saída. Os únicos capazes de mobilizar as nações para algum tipo de missão em Tirayon seriam os Harata. E eles nunca o fariam.