O preço da liberdade

Novos visitantes chegaram à casa segura, ou pelo menos novos para Tarja, Ariel e Erlan, pois Valaravas, Nandi e Nushala os conheciam bem. Nuala e Gorduin de Heleyan, uma antiga e tradicional casa Urbani. Eles mesmos eram já idosos, e já haviam abandonado essas aspirações. O casal havia se instalado como instituições paralelas em Magdalagur, servindo como pontos de referência na Cidade.
Eles eram como os avós felizes para todos os moradores da Cidade, mas principalmente para Valaravas e Nandi, como um dia também foram para Ayla.
Heleyan haviam abandonado há muito o jogo pelo poder em Khadija, e seus nobres apenas viviam seus dias cuidando de tarefas tão mundanas quanto a governança e o comércio. Quando sua anterior Grande Mãe morreu, seus nobres em Khadija decidiram construir uma vida nova para a casa na Fáscia.
O casal de idosos deveria por direito estar nos altos escalões da sociedade Urbani. Eles haviam renunciado qualquer oferta de Audren, guardando sua experiência de caminhada pelas várias gerações da casa, cuidando especificamente da cidade de Magdalagur, e seu habitantes.
Nushala, Valaravas e Nandi os conheciam muito bem, pois os anciãos cuidavam de Ayla e Valaravas, ambos desde a infância, e também na época em que Nandi se recuperava ali, muitos anos atrás.
Nuala, a quem Valaravas considerava sua Aba, avó em Harata, era como Audren, uma nobre de uma casa que caminhou com seus antepassados pela sua mãe, e tinha muitas memórias e pensamentos antigos. Ao contrário de Audren, Nuala tinha apenas memórias felizes de uma família grande e fora dos grandes jogos.
Nuala era quem conseguia por fim às rusgas e conflitos de muita gente, mas principalmente entre Rentaniel e suas irmãs quando ainda eram vivas. Nuala também tinha um carinho especial por Ayla, e por Valaravas como consequência. Ela gostava de Rentaniel, ainda considerando-o uma criança rebelde.
Gorduin, com quase um século de vida, seguia a mesma filosofia de vida, como pai da cidade, sério, mas acolhedor, ele não tinha a vantagem da caminhada, mas era conhecedor da cidade, em economia e indústria, e era o conselheiro de quase todos os empresários dali, Urbani ou Harata.
Eles haviam trazido muitas coisas para a casa: comida, novos itens práticos para o dia a dia e um exército de servos para limpar a bagunça. O aroma de ervas maceradas e incenso serpenteava pelo ar, misturando-se com os resquícios da tensão anterior, transformando o refúgio em algo quase familiar novamente. Algo que se assemelhasse a um lar novamente. Lá fora, a cidade pulsava como sempre, alheia ou desinteressada ao momento que se desenrolava lá dentro.
Nuala tinha os braços firmemente envoltos em Valaravas, o abraço tão constante e inabalável quanto a passagem dos anos. Ela exalava o perfume do velho mundo, soava à sabedoria impressa nas dobras do tempo, a cada memória que não havia murchado sob o peso da guerra e da perda. Não importava que sua casa tinha uma das histórias mais tristes da Fáscia, para Nuala, ela tinha ganhado milhares de filhos e filhas na população da Fáscia, mais do que perdido alguns familiares cruéis e gananciosos.
Quando falou, sua voz era uma melodia suave, gentil, porém entrelaçada com a tristeza de ver aqueles que considerava como filhos em um embate mortal.
— Meu leão. — ela murmurou, segurando-o um pouco mais forte, como se pudesse protegê-lo das realidades que ambos conheciam bem demais. ­— Sinto muito. Eu sempre quis que vocês, meninos, se dessem bem. Rentaniel é um bom rapaz, ele está apenas perdido.
Valaravas não respondeu de imediato. Seu silêncio não era concordância, nem desafio. Era compreensão. O tipo de compreensão que vem de saber que o amor, por mais profundo que seja, não pode moldar um homem que há muito escolheu seu caminho.
Do outro lado da sala, Gorduin segurava as mãos de Ariel nas suas, seu toque seguro, paternal de uma forma que não era encenação, mas instinto. Ele a estudou, sua paciência onipresente e acolhedora, sem necessidade de explicar.
— Então você é o assunto da cidade. — ele ponderou, sua voz rica com o divertimento. — Entendo o porquê. Vejo que nosso leão encontrou boa companhia.
Ariel encontrou seu olhar com a confiança comedida de alguém que aprendeu a carregar o peso da atenção sem fraquejar. Ela apenas inclinou a cabeça, seus dedos apertando-se ligeiramente nos dele antes de soltar. Ariel havia perdido o pai muito cedo na vida, mas ela saberia instintivamente quando alguém está livre do julgamento da sociedade e genuinamente se importa com o bem-estar de uma pessoa, mesmo que por extensão de outra. Ela sentiu isso, pois o velho Urbani se importava com ela por tudo que ela significava para Valaravas, e isso era mais do que ela jamais poderia esperar em seus dias de exílio.
Perto dali, Nushala permanecia rígida, a turbulência dentro dela mal disfarçada sob o aço de sua expressão. Seus dedos se entrelaçaram uma vez antes de ela se estender para Gorduin, o gesto não exatamente desesperado, mas necessitado.
— Meu pai está fora de controle, jido — ela confessou, as palavras pequenas, porém pesadas. ­— Ele está perdido.
Gorduin voltou seu olhar para ela, a sabedoria em seus olhos suavizada pela tristeza. Ele não descartou suas preocupações, nem alimentou seus medos. Ele simplesmente ofereceu a verdade como a via.
— Eu sei, princesa — disse ele gentilmente. — Sinto muito que seu pai não consiga ver tudo o que está perdendo. Você sabe que ele tem boas intenções. Mas você ganhou uma família maravilhosa. Espero que veja como isso é importante. O quanto seu pai não lhe ensinou sobre a família dele.
Mas todos sabiam a verdade. Rentaniel podia ser salvo de todos, exceto de si mesmo.
Enquanto a casa se enchia de movimento, com servos trabalhando rapidamente para apagar os vestígios do conflito passado, substituindo os destroços por uma restauração cuidadosa, o próprio ar parecia mudar. O peso do derramamento de sangue estava sendo lavado com água e incenso, os ecos da batalha substituídos por algo mais suave.
Na cozinha, Nuala pretendia supervisionar os preparativos, para garantir que a casa comesse bem, apesar dos acontecimentos do dia. Mas, ao entrar, ela parou na soleira, absorvendo a cena diante dela.

Tarja e Erlan estavam em sua dinâmica particular de flerte e provocação. A atenção deles estava um no outro. Não que tivessem esquecido da preparação da comida, mas a sinergia ia um pouco além do simples trabalho em equipe, tornando-se um momento de conexão, como se vivessem juntos há muito tempo e apreciassem seu tempo.
Nuala, com toda a graça de uma mulher que viveu o suficiente para saber quando se retirar discretamente, virou nos calcanhares e recuou sem uma palavra. Às vezes, ajudar é simplesmente deixar as coisas acontecerem como devem.
De volta ao hall de entrada, Valaravas e Gorduin faziam o possível para manter a leveza, para evitar que o peso da noite anterior esmagasse o espaço que haviam conquistado para si. Até mesmo Ariel, cujo papel habitual era esquentar uma conversa com provocações bem-humoradas, se viu deliberadamente aliviando seu tom, oferecendo a Nushala a chance de se envolver no tipo de brincadeiras familiares que antes pareceriam naturais.
Mas a jovem Urbani ainda estava perdida na constatação de que seu mundo não havia mudado da noite para o dia; ele simplesmente se revelou como sempre foi.
Ariel olhou ao redor, procurando algo, qualquer coisa, para romper a nuvem que pairava sobre os ombros de Nushala. Seus olhos se voltaram para a cozinha.
— Onde está Tarja? Precisamos de comida! — ela declarou, embora seu tom fosse mais conspiratório do que preocupado.
Nuala, que acabara de retornar, arqueou uma sobrancelha.
— O jantar estará pronto, tenho certeza.
Ariel hesitou.
— Uh? O quê? Oh! Ah. — Sua realização foi lenta.
Enquanto a conversa se desviava para tópicos mais leves, um aroma inconfundível começou a emanar da cozinha. O cheiro rico e substancioso da comida de Tarja começou a desafiar o incenso, tecendo calor no ar, sinalizando um retorno temporário à normalidade.
Quando a comida foi trazida, Erlan, suspeitosamente entusiasmado, encarregou-se de ajudar Tarja preparando mesa. Ele se movia com uma fluidez quase antinatural, como se aquilo não fosse meramente o ato de dispor os pratos, mas algum desafio à sua capacidade.
E foi isso, mais do que a própria refeição, que finalmente rompeu a melancolia de Nushala.
A visão dos dois, a proximidade deles, tácita, mas inegável, seus movimentos hesitantes, porém instintivos: era algo real. Algo espontâneo.
Algo que, pela primeira vez em dias, a fez sorrir.
Foi pequeno no início, quase imperceptível, apenas o fantasma de uma expressão. Mas permaneceu. E quando não desapareceu imediatamente, outra coisa se instalou em seus olhos: alegria livre.
Se eles, Tarja, uma guerreira forte e decidida, e Erlan, um jovem ainda aprendendo sua própria forma, podiam encontrar espaço para serem eles mesmos ali, para tropeçar em direção à algo para o qual nenhum deles tinha palavras, então talvez ela também pudesse encontrar seu lugar.
Enquanto se organizavam para o jantar, a seleção de lugares era orgânica. Nandi sempre ao lado de Valaravas, e Ariel junto, de frente para Nuala e Gorduin do outro lado. Erlan e Tarja dividiam a cabeceira da mesa, com Tarja sentada, servindo uma montanha em seu prato, enquanto Erlan estava de pé atrás dela, bebendo chá, encostado suavemente na cadeira dela.
Conforme a noite avançava, os olhos de Nushala começaram a ser decorados com um sorriso, daquele tipo que só os olhos mostram, vindo de uma felicidade profunda e enraizada que não vem de fora, mas que se expande e preenche vindo de dentro. Sua vida não fora destruída. Ela estava arruinada antes e, na verdade, estava consertada agora. Ela estava onde deveria estar, entre pessoas que a amavam.
Mas ela sabia que logo teria que achar a outra parte de seu pertencimento. Se ela quisesse ficar, teria que aprender a participar das operações do Grêmio, do jogo, e da linguagem interna daquela família que falava de tática, estratégia e sobrevivência.
E isso ia demorar um pouco mais.