O peso do que permanece

Ariel mantinha-se à parte, sua silhueta um contraste nítido contra as colunas fraturadas. A luz fraca que se filtrava pela pedra arruinada capturava as arestas de suas feições, afiadas e severas, acentuando o fogo silencioso em seus olhos. Ela exalou lentamente, provando o ar, a poeira, a decadência.
— Eu não entendo, estamos falando de esqueletos. Eles não poderiam estar aqui por mais de 40 anos antes que o tempo os tivesse tornado apenas poeira no vento. Se pensarmos em condições diferentes de temperatura, mas áridas como as do deserto, talvez 60 no máximo. Mas o tempo é milhares de anos no passado, se é relacionado com os achados que fizemos dos dissidentes. — Ariel decidiu contribuir.
— O templo é uma história, os ossos outra. Eles devem ser algum tipo de agentes de recuperação como nós. Não os que estabeleceram essa vila. — Erlan ao lado decidiu contribuir.
— As pedras não são todas rochas. Existe algo feito aqui, concreto, asfalto ou cimento. E ele foi expandido pelo gelo infiltrado como água. A construção é montanhesa, pelo menos. Essa vila existia antes de o clima ser como é hoje. Devem ser muitos milhares de anos. — Tarja disse estranhamente séria.
— Não vejo progresso. Sabemos o que aconteceu com outros que procuravam a relíquia, mas não àqueles que a criaram, ou usaram. — Ariel cruzou os braços novamente.
Valaravas estava imóvel, mais uma sombra do que uma presença, sua expressão indecifrável enquanto seu olhar percorria o interior do templo. O traço usual de divertimento em seu comportamento havia se consumido, deixando sua expressão um misto de temperança e pragmatismo. Ele estudou as ruínas com o olho de um ladrão, mas não procurando algo de valor, e sim estudando o fluxo original de trabalho, planejando uma infiltração.
Depois de muita ponderação, Valaravas caminhou para uma posição mais central entre o grupo e começou a trabalhar um plano.
— Os que vieram antes de nós subestimaram esse lugar como uma reserva de relíquias valiosas. Nada mais. — Seu olhar varreu a disposição dos esqueletos. — Eles moveram-se às cegas, aos impulsos dos instintos. Pensando além das consequências, e assim, viram o que queriam ver, mas não viram o que deviam ver.
— Precisamos entender o que eles não viram. — Ariel acrescentou, com um tom de cumplicidade.
— E nós temos alguém que eles não tinham. — Tarja virou-se para Nandi.
Ela olhou para eles. Pausadamente para Ariel, para Erlan, para Tarja. O peso de seu olhar era inquietante, não por ser severo, mas porque via em cada um o papel que podiam desempenhar para encontrar o que procuravam.
— Procuramos algo cuja função é esconder-se. Precisamos saber o que quem o usou por último queria. — Nandi disse voltando ao seu eu Sangamani.
— Não viemos aqui para voltar atrás agora. Se precisamos entender o nosso propósito, então precisamos juntar nossas vistas. — Ariel disse incorporada da líder tática.
— E que tipo de inimigos podemos encontrar aqui. — Acrescentou Erlan.
— Ariel e Erlan, vocês exploram o terreno maior. Escondam-se, esgueirem-se, mas não procurem a relíquia, procurem o tipo de inimigos que podemos encontrar aqui. — Valaravas incorporado do líder estratégico.
Erlan e Ariel prepararam-se e começaram sua ronda.
— Tarja, você deve ficar com o perímetro entre nós. Qualquer coisa que não possamos antecipar. — Valaravas disse já se preparando para sair.
— Eu e Nandi vamos procurar a relíquia. Permaneceremos por ponto pessoal. Um tapa, dois tapas com Ariel e Erlan. Três tapas Tarja. Se eu e Nandi precisarmos, é crítico, quebramos o silêncio. — O Harata seguiu.
Ariel e Erlan já estavam fora de visão, e Tarja tinha assumido a posição de retaguarda. Nandi e Valaravas seguiram explorando o resto do templo.
O ar frio ao saírem do templo pouco fez para dissipar o peso persistente do abraço que a estrutura deitava sobre eles. As ruínas se estendiam, silenciosas e imóveis, como se o próprio mundo tivesse entrado em uma pausa em deferência aos segredos enterrados sob seus restos.
Os passos de Erlan eram medidos, mas sua mente estava inquieta. As palavras de Nandi não o deixaram: Uma mulher de fogo e certeza. Ela tinha as respostas. Se ao menos pudéssemos perguntar a ela.
As palavras se reviraram em seus pensamentos, mudando, torcendo-se em outra coisa. A formulação, o peso delas. Tinha sido intencional. Mas mais do que isso, havia algo na maneira como ela disse. Um reconhecimento apropriado que não parecia dar voz ao lugar, mas à alguém que também explorava o lugar.
Erlan varria o lado norte, Ariel o lado sul, entre eles, à distância, Valaravas, Nandi e Tarja seguiam avançando pelo terreno do templo. Longe demais para conversas reservadas, eles estava restrito à sua própria mente, e a de Erlan não era tão permissiva quanto a da irmã.
Erlan estava meditando sobre as palavras de Nandi. Assumindo que ela estivesse realmente ouvindo os ecos do lugar, suas palavras falavam de alguém, uma mulher, mas nada ali requeria que fosse uma. Qualquer um podia seguir seus passos, mulheres, homens, mas havia apenas um povo que se encaixava em seu jeito de expressar: Harata.
Ele franziu a testa, a revelação rastejando sob sua pele, silenciosa, mas insistente. Nandi não havia simplesmente descrito alguém. Ela se tornara essa pessoa, por um suspiro, um momento. E naquele momento, o fogo em sua voz, a atração dela, fora inconfundível. Ele diminuiu o passo, acompanhando Ariel. Sua voz era baixa, deliberada.
Enquanto os outros entraram em uma estrutura, à procura de pistas, Erlan aproveitou para aproximar-se de Ariel.
— A mulher que Nandi falava. — Seu olhar urgente. — Ela parecia uma Harata.
Os passos de Ariel não vacilaram, mas sua cabeça se inclinou ligeiramente. Um reconhecimento quase imperceptível.
— Não é o que ela disse, mas o jeito. — Os dedos de Erlan estavam inquietos na pistola. — Engano, meias verdades, é a especialidade deles, não é?
Ariel não respondeu imediatamente. Em vez disso, ela olhou para trás, em direção ao templo, onde Nandi e Valaravas se aprofundavam nas ruínas. Sua expressão permaneceu indecifrável, mas havia algo afiado por trás de seus olhos.
— Mas a voz não estava confessando pecados, estava explicando a situação. — Ariel retrucou. — Se formos acreditar nessa coisa de umbral.
E isso, Erlan sabia, não era um consolo.
Ariel franziu a testa, o peso de suas palavras a levando a uma contemplação cautelosa. Pela primeira vez, o ceticismo de seu irmão não parecia infundado. Ela olhou para Valaravas, seus olhos afiados se estreitando ligeiramente, embora não dissesse nada.
Tarja, parada na entrada do templo que agora exploravam, estava isenta de tais considerações, e apenas imaginava que aquelas ruínas um dia foram uma cidade, funcionando naquela área castigada pelo frio e pela dificuldade de acesso, e mesmo assim parecia uma comunidade vibrante. Analisando as pedras e a destruição, ela observou que o Vale em si ainda era rodeado de montanhas e mesas mais altas. 
Sua natureza Carpata, ela observou a pedra nas paredes, no chão, elas estavam destruídas em formas incompatíveis com o clima que agora existia. Em Onachinia, há construções no alto das montanhas, e na base das montanhas, e elas tem que ser diferentes. Aquela ali não era uma construção feita para montanhas, mas para terras baixas, de maior pressão e temperatura.
Algo mais importante, mesmo os restos do templo sofreram com uma mudança climática severa. Sua gente era famosa pelo trabalho de temperar pedra, metal e vidro. Ela via com clareza que aquela construção era antiga, mais antiga que o gelo que cercava.
Seus pensamentos voltaram para os aldeões que viveram aqui. E se o frio tivesse sido a causa de sua ruína? E se eles acreditassem que era um castigo dos deuses, um julgamento do qual não podiam escapar? Ela estremeceu, menos pelo frio e mais pelo pensamento assustador da desesperança que poderia tê-los levado a se render. Afinal, quem construiria uma aldeia em um lugar como este? Além disso, o que faria o clima mudar tão abruptamente?
O nível da água, para os povos do Beru, ou da Trifronteira, era uma constante. Para o povo das montanhas era um ponto de referência. Mesmo que a montanha tivesse do chão 6 mil metros, se a água estivesse 5 mil metros acima do que está hoje, o clima e pressão seria de 1000 metros ou menos. Se o recesso das águas do dilúvio não foi uniforme como subentendem por simplicidade, e sim um processo que teve picos e vales, uma repentina mudança de 200 metros que fosse no nível da água por uma caldeira rompida na crosta, ou uma reserva de gás invadida, e o clima mudaria de litoral para um clima tropical de altitude. Menos chuvas no inverno, mesmo que ainda relativamente frequentes. Mas numa escala global, se ao mesmo tempo diversas situações pulassem por 500 metros, o clima poderia mudar a temperatura média em 6 graus, e mudar completamente o perfil de subsistência da comunidade. Essa mudança brusca, seguida de outras mudanças bruscas poderia explicar um clima de montanha de milhares de metros em questão de tempo suficiente para gerações inteiras terem um clima e uma subsistência completamente diferente do que a anterior pudesse lhes ensinar.
Se algo ali estava desde o tempo do alto das águas, até hoje, poderia estar completamente diferente, oxidação, sedimentação. Se não fosse a pedra firmemente colocada, poderia estar perdido para sempre.
Enquanto isso, Valaravas seguia, sua procura instintiva, para fora daquela construção, sem nenhum resultado aparente. Sua postura firme e calma, embora sua mente trabalhasse silenciosamente sob a superfície.
Harata não é só uma distinção genética, é um estilo de vida. Muitos dos Harata fora do consórcio só tem a cultura ancestral comum e a predisposição natural aos dons de empatia. Os Harata das Terras Altas de Pasvara eram parte da cultura original, que desenvolveu os mercadores, os tipos únicos de governo Harata, e que primeiro se associaram aos Urbani. E estes os apresentaram em tempo à tecnologia que eventualmente traria os primeiros povos pirata Harata, que em tempo trariam os Anoa e os Harata da Fáscia. 
Valaravas, como tal, conhecia os sinais melhor do que qualquer um de seus companheiros, os detalhes sutis dos hábitos de seu povo que escapariam até mesmo aos mais aguçados olhos Silvani. Para ele, a mulher na história de Nandi parecia familiar, mas se essa familiaridade trazia conforto ou desconforto, ele ainda não conseguia decidir. Ela com certeza era uma antiga Harata, ainda contando com os dons naturais de sua etnia, dons esses que Valaravas, um Harata da Fáscia, já era ordens de magnitude superior. 
Nandi, por sua vez, entendia isso em um nível diferente. Sua conexão espiritual com Valaravas era uma certeza silenciosa, que ela aceitara há muito tempo. Ela sentia a atração de sua presença, a semelhança em suas auras, mesmo que seus destinos não fossem os mesmos. Para ela, a mensagem dos espíritos era clara: As pessoas dessa vila eram fios do mesmo tecido, tecidos com as mesmas cores, mas destinados a seguir padrões diferentes.
O Harata porém não estava alheio às desconfianças que o cercavam. Sua gente era feita com o intuito de conhecer o outro, seja ele quem for. Sua genética, mente moldada por Urbani, a caminhada com Ayla, integração sensorial, maior persistência de estados cognitivos complexos, aliados a uma cultura ancestral que explorava as relações interpessoais em tudo que faziam, Harata é o que Harata sempre diz que é: Navegador de mentes.
Quando chegaram à casa abandonada, a vibração do grupo foi acalmada pelas paredes, mesmo que estivessem em ruínas, era um abrigo relativo. O frio cortante tornava a imobilidade insuportável, e rapidamente foi decidido que era necessário acender uma fogueira, não apenas para se aquecer, mas também para preparar o jantar.
Tarja assumiu o comando, como sempre, organizando o espaço com eficiência silenciosa. Ela arrumou os utensílios de cozinha, preparando tudo como uma cozinha quase industrial, mesmo que levasse algum tempo para ficar pronto. O calor do fogo era suficiente para acalmar os ânimos, por seu poder de afastar o frio que esgueirava pelas rachaduras e janelas quebradas.
Quando estavam acomodados, Tarja vasculhou seus suprimentos e pegou um frasco de uísque Carpata. Era uma mistura potente, destilada e fermentada a partir de vinho de uvas cultivadas no solo dos vulcões do sul de Onachinia, e queimava mais quente do que qualquer bebida comum. Ela removeu a rolha, o aroma forte e convidativo, e serviu uma pequena quantidade para cada um deles.
O uísque passou de mão em mão, seu calor descendo por suas gargantas, um calor que perdurou mais do que deveria, embora não o suficiente para alcançar as profundezas onde o frio havia se instalado. O fogo crepitava suavemente, lançando sombras inquietas contra a pedra desgastada, tremeluzindo como seus pensamentos, todos, à deriva, instáveis. O calor das chamas era um conforto, mas não podia dissipar o peso das revelações da noite. Não inteiramente.
— Nada como um bom calor líquido. —A voz de Tarja era firme.
Embora carregasse uma impressão distinta, cansaço, talvez, ou algo mais próximo da resignação. Tarja ergueu sua caneca ligeiramente, a luz do fogo capturando o líquido âmbar.
— Vamos precisar, para o frio e para as bobagens que vocês vão pensar essa noite. — Tarja adicionou, rindo-se.
Ela bebeu, sua expressão indecifrável enquanto o calor percorria sua garganta. Os outros seguiram seu exemplo.
Não era o calor da bebida que os mantinha firmes, mas o ritual, a familiaridade. Eles já haviam bebido juntos antes. Depois de batalhas, depois de quase-morte, depois de momentos que precisavam ser suavizados com silêncio e licor. Isto não deveria ser diferente, no entanto, era.
Ariel encostou-se na parede oposta, olhos verdes refletindo a luz do fogo como vidro fraturado, seu olhar viajava, seus olhos traçando todo o ambiente, mas procurando uma desculpa para não pensar nas desconfianças de Erlan.
O templo havia perturbado algo nela. As palavras de Nandi haviam se aprofundado ainda mais: Uma mulher de fogo e certeza. Uma guia. Ou uma enganadora.
Erlan se moveu, observando-a com cuidado. Ele era um modificado que raramente ficava parado, cujos pensamentos se moviam tão rápido quanto seus pés, mas agora, estava imóvel. Ele girou a caneca entre os dedos, estudando o líquido ondulante como se pudesse oferecer uma resposta.
— Os Harata estão certos em uma coisa. — Erlan disse murmurando para Ariel. ­— Nossas escolhas brotam da nossa natureza.
Ariel inclinou a cabeça ligeiramente, não esperando palavras tão ponderadas dele.
O uísque pouco fez para derreter o nó frio no estômago de Erlan. A história que Nandi contou, fosse dela ou de outra pessoa, inexoravelmente ainda se agarrava às bordas de seus pensamentos.
Erlan aproximou-se de Nandi e Valaravas, em seu rosto a dificuldade de realmente perguntar o que queria, de uma forma que não fosse ofensiva, ou ignorante.
— E se eu acredito, ao contrário do meu povo, nessa coisa de umbral. O que quer dizer tudo aquilo? O que aprendemos?
Nandi percebeu que as perguntas que ele fez não era o que ele queria saber.
— A crença é como a água. Eles falam do umbral, eu escuto. Conto seus contos. Contos verdadeiros, falsos, inspiradores, de aviso. Eu sou a taça, não água. Você bebe a água, não a taça. — Nandi disse como se decorado.
— Isso não responde a minha pergunta. — Erlan categorizou.
Valaravas olhou para ele com o mesmo ar astuto quando explicou sobre Harata.
— Entidades umbralinas são como pessoas. Elas mentem. Elas floreiam. Elas contam histórias que podem ser versões bonitas que pintam uma realidade que não conseguem suportar.
Erlan o encarou por um momento, depois se recostou, virando o resto de sua bebida garganta abaixo. Não era a resposta que ele queria. Mas era a resposta que ele obteve.
A noite se estendeu, o fogo queimando baixo, mas nenhum deles se moveu para apagá-lo. Sentaram-se juntos na penumbra, olhando para as chamas, cada um revolvendo as verdades não ditas que os pressionavam.
Amanhã, eles voltariam a explorar o templo e buscariam a relíquia, mas esta noite, sentaram-se com o peso do que já haviam encontrado.