Ariel caminhou até a varanda próxima, olhando para a cidade. Erlan juntou-se a ela, em silêncio. Depois de muito tempo, eles se sentiam exilados novamente. A angústia da Trifronteira e a dúvida do futuro pairando sobre suas cabeças.
Atrás deles, a voz de Nandi era gentil, em Sangamani, eles provavelmente pensariam que era alguma canção mística.
— Só você pode resolver isso agora, meu leão.
Valaravas hesitou. Sua mente estava viajando entre o que ele sabia que podia resolver o problema, e o que era a verdade da situação. Ele poderia falar a verdade em qualquer dos casos, mas sacrificaria algo importante qualquer que escolhesse.
Ariel e Erlan propositalmente se distanciaram deles, dando espaço para que Tarja se aproximasse do Harata.
Valaravas parou junto com Nandi.
— Rentaniel é um nobre Urbani, filho da Grande Mãe. Mudança é difícil. Temo que ele se torne um problema antes de tornar-se útil. O que fizer aqui será decisivo para ele e para nós. — Valaravas disse como um pensamento.
— Você fala com se pudesse decidir o destino dele. Pode não né? Como você disse, ele é um deles. Mas você, talvez se falasse com Ariel, realmente falasse com ela, eles entenderiam. — Tarja disse, como um pensamento.
Valaravas olhou para Tarja com um ar de espanto e admiração. Ela estava realmente entrando na dinâmica da família que se formava, mais do que só suavizando os conflitos.
Valaravas se aproximou de Ariel, mas no momento em que sua mão tocou sua cintura, ela recuou. Não simplesmente evitando, mas realmente recuando de seu toque.
Sua voz saiu suave, sufocada.
— É isso que eu sou para você? Sua bonequinha? Um animal de estimação? Uma substituta barata para Ayla?
A expressão de Valaravas não mudou.
— Você preferia uma discussão com Rentaniel, na casa dele. Preferiria que eu o fizesse um inimigo? Isso seria o que você chama de justiça? — Valaravas perguntou com uma calma dissonante da gravidade.
Ariel tremia, sua mente processando amargor com eficiência, destilando raiva.
— Eu não deveria ter vindo. — Ariel disse.
— Talvez. Ou talvez a melhor resposta que poderia dar a Rentaniel foi ter vindo. — Valaravas disse como um conselho.
Ele viu o que se passava na mente de Ariel. Era melhor não delongar a estadia no castelo do regente. Seria melhor voltar para o espaço quase doméstico, mas mais privado, em segurança.
Era melhor colocar Ariel em um ambiente onde ela pudesse se sentir ela mesma, no comando do espaço que ocupa. Ela se sentia humilhada, e estar ali não tiraria o peso da humilhação. Era o castelo deles, o domínio deles, com suas imagens ao redor dela, condenando suas esperanças.
Em silêncio, Valaravas pegou o que precisava, e eles partiram.
Uma das boas coisas de carros que se dirigem é que eles podem abrigar todos com milhões de coisas na cabeça sem descontar em outros ocupantes da via. Talvez naquela momento, a tecnologia silenciosamente melhorava a qualidade de vida, se não deles, dos outros.
O barulho manso dos motores de indução misturava-se ao som abafado do exterior, os sons da cidade em movimento, indiferente aos dramas que enfrentava. O contraste do silêncio que se estendeu era pesado e desconfortável. Valaravas sentiu o peso do olhar de Nandi sobre ele, mas não se virou. Ele sabia o que ela queria dizer.
Ele era Harata, com o dom de Ayla, o conhecimento dos padrões que muitos não entendem. Ele sabia que a escolha era a ponta de um fio que iria desencadear mudanças no futuro de Rentaniel, Ariel, Nushala, e afetaria à todos que deles estivessem próximos.
Valaravas esperava que agora não fosse preciso começar esse processo. Ele queria ter aquele tempo com Ariel antes que ela fosse empurrada no jogo. Eles estavam na Fascia para se isolar do mundo. Ele sabia o que Rentaniel planejava, e se começasse o processo de integrar Ariel, ele teria que lutar por ela, mas ao mesmo tempo ele precisava salvar Nushala, e garantir que Rentaniel não interferisse em seus assuntos com Svetlana.
Ele resignou-se. Concluiu, como em muitos casos, que era a única maneira. Tudo teria que ser feito de uma vez, com as mesmas jogadas, todos os problemas resolvidos como o jogo da torre.
Erlan observava Ariel com a sobrancelha franzida, mas não disse nada. Ele conhecia bem sua irmã: quando Ariel se fechava daquele jeito, era porque a dor já havia se enraizado profundamente. Tarja, sentada de lado na carruagem, olhava para o espaço entre eles, batucando os dedos no joelho, claramente desconfortável com a atmosfera densa.
A jornada continuou até chegarem à casa segura. Todos desceram e começaram a caminhar pelo paseio de pedra, mas Ariel andava devagar, como se considerasse não entrar, mas ali, na Fáscia, onde ela iria que não seria pior do que estar ao lado dele. Ela queria estar longe dele, mas ao mesmo tempo ele era a única pessoa que ela queria estar junto. O paradoxo de ele ser o único em que ela queria se jogar nos braços por causa do sentimento que ele causou corria seu coração.
Erlan notou que Ariel parou e pretendia ir até ela, mas Tarja pegou sua mão e o puxou para dentro com ela. Era como mais um ponto decisivo para os Silvani. E quando sua irmã não pudesse ser sua guia em decisões, quem iria ser seu porto seguro. Tarja decidiu por ele, tomando uma posse emocional do espaço que antes pertencia unicamente à sua irmã. Era a primeira peça caindo das muitas que o processo que Valaravas evitava iniciar desencadeava.
E agora, ele estava para decidir o próximo. Ele deixou o silêncio se instalar entre eles, pesado de coisas não ditas. O vento do mar carregava o cheiro de sal e pedra, os penhascos abaixo uma extensão de rocha irregular, as ondas quebrando contra eles em um assalto rítmico e incessante. A Fáscia se avolumava ao redor deles, construída na paisagem, uma cidade tão imóvel quanto a vontade que a esculpira. Mas naquele momento, essa geografia única da falésia fazia a situação mais melancólica.
Ariel de braços cruzados mantinha-se no lado de fora, no meio do caminho entre a entrada externa e a porta. Ela tensionou sentindo Valaravas se aproximar dela, e que todos os outros haviam já passado para a casa. Os ângulos agudos de sua postura traindo a guerra que se travava dentro dela. O vento brincava com as mechas soltas de seu cabelo, mas seus olhos permaneciam fixos nele. Ela procurava uma resposta, um sinal. Algo que pudesse provar ou refutar a dúvida nauseante que se enrolava em seu estômago.
Quando ele finalmente falou, foi com uma lentidão medida, como se estivesse colocando cada palavra com intenção, certificando-se de que pousassem onde deveriam.
— Eu sei quem é você, Ariel. Você é uma nobre Silvani da Serenidade. Você não é apenas uma 'boneca'. Eu sei quem você é, mesmo que você não saiba. Seus pais não eram somente nobres da Serenidade, seus pais eram descendentes diretos dos druidas que fundaram aquela cidade. — A voz do Harata era mais séria do que jamais fora.
Ela não se moveu.
— Se você lembra o que é a caminhada, como viu com Thaz, sabe que isso existe. Tirayon perdeu a cidade da Serenidade, e com ela, além dos Urbani, sua capacidade de conter o poder que exala de lá, similar ao de Sangamá, que está contido, e o do Vale, que está contido. — Valaravas seguiu, com gravidade. — Sem você, Tirayon não sobreviverá por mais alguns anos, antes que o mesmo fim do Vale destrua sua população.
Ela seguia imóvel, mas suas sobrancelhas denunciavam o drama que ela entendia agora.
— Por essa razão, a ideia inicial era manter você em algum campo de prisioneiros em Erítria, até que eles conseguissem invadir e selar Tirayon, da mesma forma que o Vale, e condenassem todos ali a uma morte que não desejaríamos aos piores inimigos. — Ele seguiu com precisão técnica. — Os Harata decidiram esconder sua verdadeira identidade e te deixar viver na Trifronteira. Seu irmão é homem, não tem nada a ver com isso. Mas decidiram deixá-lo com você.
Ela vagarosamente começou a relaxar a postura, mas seguia evitando criar uma interação com ele. Talvez nem mesmo quisesse relaxar, apenas não podia controlar.
— A Grande Mãe Audren, Ayla e eu descobrimos esse plano e decidimos tirar você de lá, e trazer para Fáscia por uma razão, que infelizmente não posso ainda dizer, mas você tem que confiar em mim, é a verdade. Eu sempre disse a verdade. Você está aqui, ao meu lado, porque eu a quis aqui. Porque eu confio em você. Porque eu quero lhe dar o que lhe é devido, e não somente tirar de você que você tem pra oferecer. Eu já lhe disse isso antes.
Seus lábios se entreabriram ligeiramente, mas ela não falou.
— Rentaniel — Valaravas exalou, abaixando o olhar por um momento. — A mãe dele não deixa ele saber de nada do que vou te contar e mostrar em nossa estadia aqui. Ele não pode saber o que eu acabei de te dizer.
As mãos de Ariel se fecharam ao lado do corpo.
— Mas você o deixou falar daquele jeito. Você o deixou dizer aquelas coisas, sobre mim, sobre os Onatra. Era como se fosse apenas mais uma parte da conversa, como se não valesse a pena desafiar.
Seus olhos âmbar a estudaram, o brilho indecifrável piscando logo abaixo da superfície.
— A vida de Rentaniel está em jogo pela capacidade que ele tem de falar o que fala sem que faça o que quer. — Valaravas tinha um nó na garganta. — Ayla o protegia de si mesmo, e eu estou inclinado a fazer o mesmo, você sabe, a caminhada. Eu sinto por ele. Muito mais do que nós está em jogo nesse momento, mas não podemos deixar emoções nos derrotarem cedo na batalha se queremos vencer a guerra.
Ariel riu, um som agudo e sem humor.
— Mas e se ele é o problema? E se você esta fazendo o jogo. Como sei que não está aqui só pra conseguir o que quer? — Ariel disse consumida pela emoção.
— Eu não quero ser cruel, Ariel, mas veja. — Ele correu as mãos à volta. — Para ter o que eu quero eu não preciso de você, a não ser que o que eu quero seja você. Todo o resto, eu já tenho.
As palavras atingiram mais forte do que ela pretendia, mas não as retirou.
Valaravas não vacilou. Ele deu um passo mais perto, fechando o espaço entre eles até que ela tivesse que inclinar a cabeça para encontrar seu olhar.
— Honestidade é um jogo que se você quiser jogar comigo você perde. Não há nada que você possa me dar que eu não consiga por mim mesmo. Você não está aqui porque eu preciso de algo de você, além de sua companhia. — Disse Valaravas em um tom compassivo, mas firme. — Eu não preciso que Tirayon sobreviva, eu não preciso que os Urbani sobrevivam, eu não preciso que os Onatra sobrevivam. Eu só estou aqui porque eu quero que você sobreviva, comigo. Por toda a minha vida.
Ariel endireitou o rosto, encarando os fatos. Ela era apenas mais uma caçadora de recompensas Silvani dispensável na Trifronteira, fazendo com que a considerassem útil. Qualquer outra coisa que ela tivesse além disso, ela reivindicou por causa dele, por causa dos Harata.
Valaravas se aproximou dela, quase tocando seu corpo com o dele.
— Se eu pensasse em você como uma peça do jogo, que não era minha família, o coração de um Harata, um animal de estimação, uma boneca para ser exibida, eu não a teria deixado entrar no meu mundo, e se apresentar ao meu lado na frente de todos.
Valaravas ergueu a mão, lentamente, dando espaço para ela se afastar.
Quando ela não foi, seus dedos roçaram o lado do rosto dela, sua mão áspera contra a pele dela. Um toque tão cuidadoso quanto firme.
— Eu deixei. Ariel. — Sua voz estava baixa, mas firme. — Eu deixei. E você está aqui, no meu Mundo, vendo o que ele é, pelo que ele é, para que possa entendê-lo e moldá-lo. Você viu o que não gosta. Você será melhor.
Ariel engasgou engolindo um pranto, seu pulso trovejou em seus ouvidos. Ela queria acreditar nele. Queria acreditar que aquilo era real, que não havia simplesmente se envolvido em algo que não tinha forma além do que ela desejava que fosse. Mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
Ela deu um passo para trás, apenas o suficiente para quebrar o contato, embora não o suficiente para romper o momento por completo.
— Então prove. — Ela disse com um pequeno sorriso travesso. — Eu sei, agora, porque vale a pena. É hora de você vender. Eu estou aqui pra comprar.
Ele sorriu então, lento, como se não esperasse nada menos.
Ariel não queria acreditar que fosse tão fácil tomar conta de suas expectativas. Ela teve que lutar e sofrer para obter satisfação mínima. Ela nunca teve nada sem sofrer por isso.
A voz de Valaravas era firme, do tipo de certeza que não deixava espaço para dúvidas. Seu olhar âmbar pousou nela, inabalável, cortando a frágil insegurança que ela tentava mascarar.
— Você não precisa se preocupar com o que eu vou fazer. — Ele puxou ela firme. — Enquanto você estiver comigo, as palavras podem ser quais forem, o fato é que estamos juntos. Você e eu, no jogo, na vida, e tudo.
Seus dedos se curvaram gentilmente em volta do pulso dela, ancorando-a no momento.
— Nossa casa, nossa vida, nosso jogo. — Ele sorriu. — E ganharemos.
A respiração de Ariel engasgou, um sorriso trêmulo rompendo a última de sua hesitação. Ela enxugou os olhos, balançando a cabeça levemente.
— Sua palavra de Harata?
— Minha palavra de Harata!
Um brilho de travessura iluminou seus olhos. Ela inclinou a cabeça, captando o olhar dele enquanto a frase familiar passava entre eles como um ritual.
— Harata nunca ... — Ela disse.
— ... mente. — Ele terminou.
— A palavra Harata é permanente. — Eles disseram juntos.
E então eles riram, o calor disso derretendo a última dor que pesava no ar entre eles.
As mãos de Valaravas subiram pelas costas de Ariel, encontraram os ombros, firmes, mas gentis, e antes que ela pudesse pensar duas vezes, Ariel se inclinou, pressionando-se no espaço entre eles, seus braços deslizando ao redor dele.
Ele hesitou, apenas por um instante. Então, seus braços a envolveram, puxando-a para perto.
Ela se permitiu respirar. Se permitiu confiar. Seus lábios pairaram perto da orelha dele, sua voz baixa, provocadora, mas com um toque real.
— Não leva a mal não mas ... — Ela sussurrou.
Valaravas riu já pensando no que viria.
Ariel, mais alta que ele por uma medida pequena, mas significativa agora, aproximou-se, mas puxando o cabelo dele pelo amarrado, virando o rosto dele no ângulo para que pudesse beijá-lo. A situação os fez rir, interrompendo o ato por uns segundos.
Então ele segurou a nuca dela forçando o rosto dela em posição para ele, e novamente um riso interrompeu o ato.
Ajustados, uma curva ali, uma inclinada aqui, eles finalmente se encontraram em uma posição para um beijo caloroso e digno do momento que compartilhavam. Finalmente o momento que ambos esperavam.
Então, ele aprofundou o aperto, respirando fundo e apreciando o toque de lábios, como se o significado do momento tivesse caído sobre ele. Eles foram mais longe, deixando uma pequena medida de luxúria brincalhona invadir o momento, de outra forma emocional. Ela convidou a um toque mais travesso, e ele obedeceu. Ela se inclinou para frente sobre ele, e permitiu que um beijo apaixonado durasse por mais tempo. Seu corpo firme, diferente do toque Urbani que ele estava habituado, convidava a exploração.
Suas mãos começaram uma trajetória instintiva e conhecida em separado, mas desbravadora entre eles. Antes que conseguissem chegar à qualquer ponto mais profundo naquela procura um do outro, perceberam onde estavam. O lugar não era adequado para ir mais longe, eles distanciaram os lábios por um momento. Olhando-se nos olhos em compreensão, eles se beijaram mais uma vez, brevemente agora, como se selassem o momento.
Ela se distanciou um pouco, mantendo contato visual por um tempo, e então pegou a mão dele e eles caminharam em direção à casa segura. Eles caminharam um pouco até se aproximarem da casa.
Ariel estava radiante, distraída. Sua contemplação levou-a a olhar ao redor, quando cruzou olhares com Nandi na varanda acima da porta. Imediatamente ela soltou a mão de Valaravas.
Nandi sorriu e abaixou a cabeça, balançando-a ligeiramente.
Os dois entraram na casa em silêncio.
Erlan estava sentado na sala de jantar, preocupado, mas certo de que Valaravas encontraria uma maneira de resolver a situação. A única questão era como, e a que custo. O brilho nos olhos de sua irmã respondeu a isso de forma muito completa, mais do que ele se importava em admitir. Mas do que entreteria entender.
Tarja estava fazendo a comida. Ela já havia alcançado um lugar proeminente na consideração de Erlan. Na batalha e na cozinha, os dois se complementavam. Na luta, ela servia, ele finalizava, na cozinha, ela servia, ele finalizava. Para os dois, práticos e menos sentimentais, era uma relação quase perfeita.
Nandi estava lá esperando, apenas observando sua caminhada lenta.
Ariel e Valaravas entraram na sala de jantar e Ariel fez uma pausa.
Ela viu Nandi em tempos difíceis, como ela esteve ao lado de Valaravas, como ela o completava, e no momento de vulnerabilidade no vale, quão próximos e íntimos eles eram. Eles se beijaram, sem dúvida compartilharam mais do que Ariel e Valaravas tinham até agora, e ainda assim, Nandi não teve nenhuma reação a eles, negativa ou positiva.
Ela ainda se lembrava de que Nandi a puxou para eles durante os tempos difíceis de Ariel chegando ao time, mas aquilo era diferente, familiar, amizade. Era um momento, uma forma de dinâmica. Agora diferente. Era íntimo, e decisivo. Era querer, estar junto.
Entre os Silvani, seus relacionamentos são menos intensos, mas geralmente expressam sentimentos por uma pessoa, geralmente para a vida toda. Certos rituais e toques são reservados para uma relação e não para outras.
Ela sabia que os Urbani e os Onatra fazem o mesmo, uma única pessoa especial. Nandi e Valaravas eram sérios. Ela tinha um lugar ali? Ela traiu a confiança de Nandi?
Ela não tinha certeza de como proceder. Ir com Valaravas para Nandi, deixá-lo ir até ela, esperar que eles decidam como vão lidar com isso. Ela tinha apenas vinte e tantos anos. Foi a primeira vez que ela teve qualquer experiência com este tipo de relacionamento, não apenas com Harata, não apenas um relacionamento poliamoroso, mas relacionamento em geral. Seu exílio não ajudou muito. Fazia décadas que a presença masculina em geral em sua vida doméstica, era seu irmão. Contatos leves e casuais pela Trifronteira era uma coisa, mas ali eram pessoas que conviviam, e conviveriam.
Ela sabia o que era um relacionamento pela noção de sua cultura, mas nunca estivera em um de verdade.
Tarja estava arrumando a comida na mesa lateral. Suas porções generosas de carne e vegetais pesados contrastavam com o prato de Erlan, que basicamente tinha uma salada colorida o suficiente.
Valaravas sentou-se do outro lado da mesa, casualmente como sempre, vinho ao lado, e o prato de lentilha temperada, pão, raita e molhos de várias ordens. Além dos óleos e ervas das quais os Harata são notoriamente fãs.
Ariel estava lenta, processando. O pertencimento, ela tinha certeza. Ela estava pegando sua comida, leve e colorida como a de Erlan, mas muito lentamente. Agora ela esperava que Nandi viesse decidir.
Nandi havia retornado à sua dieta de caldos de ervas e água. Ela pegou sua tigela e ficou ali observando Ariel. Ela sabia que ia ter que decidir novamente. Em silêncio, pegou Ariel pelos braços e a levou para o lado do Harata, sentando-a na cadeira entre os dois.
Tarja, comendo avidamente seu prato generoso, ergueu o olhar e sorriu com o canto da boca.
Erlan, que já havia aprendido que sua irmã feliz é melhor do que sua irmã tendo que cuidar de tudo, também sorriu e deixou o momento dela seguir sem qualquer comentário, fosse como fosse.
Ariel sentiu o peso sair de suas costas. Ela relaxou sua postura, e pegou a taça de vinho de Valaravas, tomando um gole generoso enquanto olhava para ele. Ela sorriu, virando-se para Nandi e sorrindo.
Nandi ao seu lado, segurou firmemente o ombro de Ariel por um momento, indicando sua aprovação.
Pela primeira vez desde que chegaram, todos estavam sem preocupações urgentes ou situações pendentes que tirassem o prazer da comida e da companhia, completamente. Nem mesmo as perspectivas do futuro estavam entre eles agora.
Ali, as muitas maneiras pelas quais eles se uniram. Seja Erlan abandonando suas ideias supremacistas Silvani e abraçando seu flerte com Tarja, ou a situação de Ariel entre Nandi e Valaravas, estava empurrando para frente a preocupação que pairava no horizonte. Por mais que pudessem ignorar as muitas tribulações à frente, e apenas estarem ali, aproveitando o momento e a nova família que se formava, a missão ainda não estava completa, e Ealetra nunca parava.