O enforcado

Ao saírem do Média Ponderada, o grupo de Karak foi diretamente para o carro. Já era hora de retornar. Ao passarem para o lado de fora, o movimento de pessoas indo e vindo era modesto, mas Karak sentiu uma sensação familiar, apesar de com uma diferença importante: Era alguém com uma mão leve que dissipou na multidão, mas deixou algo ao invés de levar algo.
Uma mensagem ao mesmo tempo subjetiva o suficiente, mas objetiva igualmente. A carta do Enforcado foi colocada em seu bolso por uma mão que ele não conseguiria encontrar, não naquele momento.
Ele refletiu a mensagem. Parar, pensar, mudar de perspectiva, e sacrifício. Era Raila, com certeza, e era melhor não alertar os outros, não ainda. Se ela não apareceu diretamente, e falou especificamente com ele, a mensagem era para outro momento, um momento mais particular, e longe de ouvidos alheios.
A viagem de volta foi calma, os outros contentes em trocar as experiências triviais do passeio pela cidade, mas Karak estava pensativo. Ele precisava fazer-se acessível, sem estar acompanhado, mas ao mesmo tempo, não conhecia cidade, e nada lhe dizia que seria encontrado, em seu destino.
Ao chegarem no porto novamente, Sajó, Malek e Lateral já entraram procurando o ar fresco e a segurança dos recessos internos do barco, mas Karak decidiu refletir no convés aberto de proa.
Meia hora de reflexão silenciosa lhe foram concedidos antes que uma nova mensagem chegasse na forma de Barisi esperando em pé na entrada do ancoradouro. 
Karak foi até o Sangamani, com a ideia de perguntar qualquer coisa, mas o massivo homem apenas sinalizou silêncio e apontou para a torre da guarita, onde uma antena sustentava diversos dispositivos, provavelmente de escuta, câmeras, e todo o tipo de coleta de vigilância.
Eles saíram em direção a um veículo mais oculto na entrada do porto, onde Raila os esperava. Barisi tomou o banco da frente e Raila o convidou a entrar no banco de trás abrindo a porta.
— Qual a razão do suspense mulher? — Karak perguntou ao fechar porta.
A mulher não respondeu, fazendo mesmo sinal de silêncio e entregando a Karak uma carta, e um pequeno frasco com um líquido oleoso. A carta era a Lua, e o líquido, Qachruna de média força. Ele sabia o que a carta significava, mas Qachruna não era algo que já tivesse conhecido.
Raila levantou seu próprio frasco, convidando a um 'brinde' com sinais exagerados.
Ambos entraram na caminhada, mas a experiência era distinta. Raila, com uma forma cintilante, clara e contida observava.
Karak, apenas vendo como um ponto sem forma com o sentido da visão e audição vagava pelo vazio do espaço mental dos iniciantes, apenas vendo e ouvindo Raila sem entender muito o que estava acontecendo.
— Você está entrando em um jogo que não entende, Harata. — Raila disse, com a voz poderosa que parecia emanar de dentro de Karak, e não da imagem da Sangamani.
Ele tentou falar, mas nada acontecia. Ele não tinha uma boca, ele não tinha uma forma, e mal sabia o que estava acontecendo.
— Acalme-se. Aqui, você não tem poder, ainda. — Raila disse rindo-se.
— Escute: Seus senhores aqui, eles estão tão por fora desse jogo quanto você. Os Silvani sabem da caminhada, meu povo sabe da caminhada, seu povo, no consórcio sabe da caminhada. É melhor que você saiba antes de servir de escudo para esse seu 'mestre'.
— Só você pode ouvir o que eu estou dizendo. — Raila continuou. — Esse é o poder da caminhada, ela serve para comunicar-se, para trocar informação, para unir-se, para criar um elo que supera a realidade.
Karak seguia sem entender, ele não sentia seu corpo, nem sentia inconsciente ou sonhando. Era como se seu eu estivesse transportado para o vazio onde apenas Raila existia.
O corpo espectral azul fosco da Sangamani seguia flutuando, apesar de parado, ela parecia controlar-se com elegância.
— Podemos juntar-nos nessa sua nova companhia, mas esteja ciente, eu não confio nos seus 'mestres' e nem mesmo você deveria. — Ela disse, sua figura mudando de azul para um vermelho mais vivo.
— Não diga a ninguém, nem aos seus outros amigos sobre isso, sobre o que conversamos, sobre a caminhada. — A voz dela agora era mais intensa.
— Temos um acordo, Capitão?
A figura de Raila pareceu acenar e flutuar para longe, deixando Karak no escuro.
O Harata então retornou a realidade, aos poucos, como se o mundo ao redor entrasse em foco, ordenado da escuridão. Não era como nada que já experimentou.
Ao centrar-se, ele olhou Raila ao seu lado no carro como se nada tivesse acontecido.
— Temos um acordo, Capitão? — A Sangamani repetiu agora na realidade, com o mesmo tom.
— Temos, feiticeira. — Karak riu de canto.
Quando saiam, Karak observou Barisi jogando o ponto pessoal que usou para ativar o carro de volta nele, e deixando-o ao fechar.
Raila passou por ele, virando seu rosto para frente, e empurrando-o gentilmente para seguir para o barco.
Barisi carregava um saco militar de lona, provavelmente tudo que levavam ali os dois.
Ao chegarem, o barco estava em silêncio, todos já retirados para seu descanso. Raila e Barisi foram para uma das baias no fundo do corredor de alojamentos. A forma como seguiram, como fizeram com as travas, e o lugar que escolheram, era como se já conhecessem aquele tipo de barco, e viajado em seus alojamentos.
Karak por outro lado tinha um espaço mais generoso, mesmo que ainda pequeno, como capitão. Isso não aliviou o aperto de sentir que sua aprendizagem estava só começando.
Por tudo que já tinha visto, aquele dia tinha colocado Karak em um estado que há muito não se encontrava: temendo o desconhecido.