O despertar de Tirayon

O dia clareava e todos estavam preparados para a tarefa monumental que o Grêmio havia traçado para si. Depois de desencontros e segredos, o grupo se encontrava no Assento Verdejante de Tirayon, e mesmo que os outros jogos seguissem seu rumo, aquele era o jogo que Ayla e Valaravas um dia partiram para terminar: Despertar Tirayon.
Nandi, que sempre estava indo e vindo nas bordas de todas as situações apareceu como o centro daquela manhã. Ela não estava em suas habituais vestes escuras. Em vez disso, usava a túnica cor de terra, uniforme dos Senadores Silvani, tecida em ocre e verdes profundos, seu tecido pesado com um significado tradicional mais antigo que o próprio Assento Verdejante. Em seu pescoço pendiam duas coisas: a relíquia escura, pesada de poder esquecido, e a medalha do sol invicto, o símbolo de ligação de seu lugar em tudo isso. A Vincula, como era conhecida pelos Silvani, era análoga a medalha usada pelos oficiais da Armada, mas aqui estava revestida de outro significado.
Os Silvani na sala não falaram. No entanto, sentiram a mudança, a dobra quase imperceptível do ar ao redor dela. Não era magia, não exatamente. Era presença. Uma presença que entendia a história daqueles salões, que carregava o peso de tudo o que aqueles entalhes representavam.
Ela caminhou, com os olhos fechados, mas não cegamente. Movia-se como se visse com algo mais profundo que a visão, cada passo medido, deliberado. E quando finalmente falou, a voz era sua, mas a cadência não. A língua era Silvani, Silvani antigo. Um dialeto não falado há séculos, mas que saía de seus lábios como se ela sempre o conhecesse. Era distinto até daquele que Valaravas falava.
— Aqui era o templo. E requer o ritual para abrir suas portas aos antigos, que procuram consolo de suas existências.
Um silêncio se seguiu. Não hesitação, mas reverência. 
Nushala, sempre a estudiosa, inclinou a cabeça, intrigada.
— Quem é você?
Ariel sorriu com a pergunta. Claro que ela perguntaria.
Nandi, pela presença dentro dela, sorriu também.
— Sua companheira, como sempre. A alma, o corpo. Ela fala nossas palavras, mas é ela que é. Nós já fomos, não somos mais.
Ariel, que entendia o que estava acontecendo, deu um passo à frente.
— O que se nos exige?
A presença em Nandi não hesitou.
— As asas devem voar todas sob o sol. Livres.
Nandi fez o movimento como se olhasse ao redor, mesmo com os olhos fechados. Ela procurava pelos presentes.
— As suas são poderosas, mas não importa o quão poderosas, é um poder só. Para dar vida às paredes, para dar sentido à energia, todos os poderes devem estar presentes, e cada asa deve ser apenas um lugar. Todas devem voar.
Nesse momento, outros chegaram. Os Fáscia e os outros Silvani. Entraram com o ar de pessoas que haviam sido convocadas, embora nenhum deles soubesse a razão.
O olhar de Nandi varreu-os, o peso primal por trás de seus olhos fechados.
— Apenas aqueles que são asas devem permanecer na presença do Assento. — Ela disse com uma voz quase como a do comando Onatra.
Svetlana, entendendo antes de qualquer outra pessoa, virou-se e gesticulou para os guardas saírem. Nushala hesitou, mas os seguiu.
Só quando chegaram à porta é que Ariel notou algo. Svetlana não havia saído. A Onatra estava parada ao lado da soleira, esperando.
Nandi moveu-se com precisão lenta, abrindo um espaço que talvez nem mesmo os ocupantes daquele salão nos últimos centos de anos soubesse que estava ali. Dentro dele, quatro colares jaziam aninhados entre dobras de tecido escuro, cada um com uma runa Silvani gravada em seu metal.
Um por um, ela os distribuiu. Para Svetlana, a runa do Corvo. Os olhos de Ariel piscaram de surpresa, mas Valaravas soltou um murmúrio baixo e divertido. Para Ariel, a runa da Garça. Para Valaravas, a runa da Coruja.
E então, Nandi parou. Ela se virou e, por um longo momento, nada aconteceu. O silêncio se estendeu, não como hesitação, mas como expectativa. Como certeza. Então as portas do salão se abriram mais uma vez.
Uma figura entrou, movendo-se com a confiança casual de alguém que sempre soube que estaria aqui. Era uma espera de uma vida que trazia o jovem Harata passo à passo, solene com o peso de alguém que há muito havia partido, mas que em sua mente, olhava por ele onde quer que estivesse.
Ariel inspirou bruscamente, sua surpresa mal disfarçada. Com exceção de Valaravas e Nandi, cada um que reconhecia o jovem não conseguia segurar sua reação.
Ele não vacilou ao se aproximar. Nem sequer olhou para os outros. Seu olhar estava fixo em Nandi, no que ela carregava. Sem uma palavra, ela colocou o último colar nas mãos de Rafiq: A runa do Abutre.
Os quatro se postaram diante do mural, cada um assumindo seu assento.
Valaravas sob a Coruja. Ariel sob a Garça. Rafiq sob o Abutre. Svetlana sob o Corvo.
Nandi moveu-se com propósito sereno, tirando uma relíquia de madeira em forma de cajado, como uma serpente de olhos metálicos. Ela se ajoelhou diante deles, colocando o cajado no que parecia um local específico mas indistinto do resto do chão. Um arco de plasma ligou os olhos metálicos da relíquia aos sóis representados no mural, que emitiam então um brilho fosco.
A relíquia de Ariel respondeu primeiro, talvez por ser Silvani, com um brilho fluorescente sólido, pálido, mas consistente. A seguir, os outros um a um, suas relíquias começaram a responder ao brilho dos respectivos sóis.
As portas e janelas do recinto se fecharam, como se ativadas pelo ritual, e Nandi então pousou uma cuia onde pequenas pedras de um tipo de incenso começavam a queimar, evidenciando sua natureza: Qachruna.
Ao contrário das outras experiências que eles tiveram da caminhada, aquela não os levava para o vazio umbralino, nem os tomava de forma. Ao invés disso era uma alteração sutil e crescente da realidade. O ar ficou denso, carregado de peso, como se o próprio espaço agora os reconhecesse, os admitisse, e ao fazê-lo, pressionasse suas mãos invisíveis contra a pele deles. Não era opressivo, mas também não era gentil. Era expectativa, crua e não filtrada, a presença de algo que não precisava se mover para dar a conhecer sua vontade.
Ariel notou primeiro a mudança na maneira como Valaravas estava parado, não em sua postura, que permanecia tão insuportavelmente segura como sempre, mas na maneira como sua sombra se esticara, alongada em algo que não deveria ter sido projetado pela luz da câmara. Sua forma não mudara, mas ela o via como algo mais. Os olhos aguçados da coruja brilhavam no espaço onde os seus estiveram, sua expressão humana sobreposta pela sugestão de algo que via os segredos do mundo.
Ela se virou, e Svetlana não era mais apenas ela mesma. O corvo havia pousado sobre ela, não como uma adição, mas como uma verdade inegável que só agora escolhera se revelar. A iridescência escura de suas penas não escurecia sua forma, mas a envolvia, como se sempre tivesse feito parte dela, um segundo eu esperando sob a pele.
Rafiq, pela primeira vez desde que Ariel o conhecera, estava sombrio. Não havia sorriso nem de escárnio, nem brilho provocador em seus olhos. Havia apenas o peso da inevitabilidade que o abutre lhe concedera. Ele tinha um olho vivo, mas a vida que se alimenta da morte para dar lugar ao novo, ao evoluído. O peso da inevitabilidade das coisas expresso como sua sombra.
Ariel não precisava ver sua própria forma para entender. A Garça estaria sobre ela, não como algo suave ou delicado, mas como algo paciente e vigilante. Serenidade, não como quietude passiva, mas como uma força silenciosa que perdura e observa.
E então havia Nandi. Ela sempre fora diferente, mas agora, tomava a forma que assumiu na luta contra Thaz. Não totalmente, não ágil, nem voraz, mas inexorável.
Ela se movia entre eles, mas seus passos não faziam som. Onde sua sombra deveria estar, havia apenas o mais tênue brilho não formado. O ar ao seu redor se curvava, com a sugestão de uma força indomada que pairava sobre eles, impassiva. Ela andava lentamente, como se inspirasse a fumaça do Qachruna e exalasse a própria realidade.
Quando ela abriu os olhos, eles não eram os seus.
Para eles, ela não era mais simplesmente Nandi. Seus membros eram mais longos, sua presença mais pesada. Onde seu rosto estivera, havia agora o semblante de uma caracal, não rosnando, não agressiva, mas observando. Sob os inabaláveis olhos dourados, refletindo a luz fosca como se fosse sua própria, e os traços da mulher que conheciam ainda permaneciam, mas estavam sobrepostos, infundidos, como se sua verdadeira natureza só agora recebera permissão para ser vista.
Acima de sua cabeça, uma coroa de energia como um fogo amarelo intenso queimava lentamente como algo vivo.
Sua luz não era dura, não era ofuscante, mas quente da maneira como a primeira luz do amanhecer é quente, da maneira como calor é absoluto e irradia. Não piscava, não vacilava, simplesmente era, simplesmente ocupava seu espaço em ser.
Ela falou, e a voz que respondeu não era apenas a dela.
— As portas se abrirão. Elas estão todas ligadas pela força de cada um.
Seu tom não era nem uma ordem nem um pedido. Era uma declaração natural como a observação da realidade.
A ilusão era tão completa, tão perfeita, que a mente não podia deixar de se preparar para a mudança, para o lento virar da cabeça de uma coruja, para o eriçar das penas de um corvo, para o bater das asas de um abutre, para a respiração suave e deliberada de uma garça.
A percepção se instalou como algo que sempre estivera ali, esperando para ser reconhecido. Elles haviam entrado em algo muito mais complexo do que simplesmente uma formalidade mística. Eles podiam sentir que aquilo causava reações reais e biológicas em seus corpos, mas eram impotentes para reagir, afetados pelo Qachruna que Nandi espalhara. Ele era diferente do líquido que estavam habituados. A realidade não sumiu em um vazio. A realidade e aquilo que pensavam se fundia em um mundo que agora era sua realidade.
Os entalhes na parede não eram mais meras representações de filosofia ou fé. Eram a verdade, tecida na própria estrutura do mundo, nas leis que governavam a própria existência.
Energia podia quase ser sentida como se estivessem imergidos em um líquido. Ela atravessava suas peles, seus corpos, e os ligava entre si, e com o mural.
Não havia divisão entre eles, nenhum ponto em que se pudesse desviar do curso já estabelecido. O caminho simplesmente era, contínuo e inflexível. Nunca houvera dois destinos a escolher. A única escolha que sempre existiu foi como caminhar pela estrada que já fora traçada diante deles. Não era escolher ou tomar decisões, era entender o caminho que se segue.
Aquele sonho acordado durou algum tempo, que não podiam dizer se minutos, horas ou dias. Quando o laço do Qachruna começou a enfraquecer e a realidade como conheciam começou a retornar, o Assento Verdejante estava mudado.
Eles sabiam agora, com uma certeza que se instalou profundamente em suas almas, que sua tarefa apenas começara. O que haviam descoberto dentro do Assento Verdejante não era meramente a sabedoria de um povo antigo, mas o processo que lutava com aquilo que infeccionava sob a história da própria Tirayon. O reino não caíra em ruínas apenas pelo tempo e infortúnio. Sua descida fora deliberada, cultivada ao longo de séculos, suas feridas infligidas não pelas mãos de invasores, mas pelas próprias forças que um dia afirmaram protegê-lo.
A manutenção do Ciclo do Sol não era uma metáfora mística para coesão social, era na verdade um roteiro fácil de entender e proceder, mas para um sistema real de manutenção das modificações feitas por toda a natureza daquela terra. Era um acordo feito por gerações ancestrais que ligavam cada uma de suas linhas em uma obrigação eterna de manterem-se unidas.
Quando a Cidade do Conhecimento se rebelou e se desligou de Tirayon, levaram consigo, na forma de sua ausência, a capacidade das outras de manter Tirayon funcionando sob o sistema que dependia deles.
A natureza e a terra que antes era modificada para transcender sua biologia, agora definhava sob o peso do abandono.
Colheitas, extração, o próprio ecossistema de Tirayon entrava em colapso pela falta de manutenção dos algorítimos que permitiam sua adaptação ao tempo, às mudanças externas, e a si mesma. Fome, miséria, tudo influenciava as decisões tomadas, como o encontro da falta de recursos com a falta de oportunidades.
Os Urbani, aqueles primeiros exilados de Tirayon, haviam visto. Haviam entendido, mesmo enquanto fugiam, que a batalha já estava perdida, não porque lhes faltasse força para lutar, mas porque lutar era alimentar a própria coisa que buscavam destruir. A partida deles não fora covardia. Fora sobrevivência. E ao partirem, apenas entrincheiraram ainda mais o domínio do culto, cedendo o controle de Tirayon a uma força que se ligara à terra, embutindo sua influência nos próprios sistemas que mantinham a nação funcionando.
Mais do que isso, eles entenderam todos que três pontos em Ealetra tinham a mesma natureza: Sangamá, Tirayon e o Vale do Silício.
Em tempos remotos, os pilares de estabilidade de povos avançados que viviam no mundo antes do dilúvio. Esse dilúvio recomeçou os ciclos de Sangamá e Tirayon, mas não do Vale, e o povo que ali vivia corrompeu sua natureza.
Tirayon, deixada como está, eventualmente se tornaria como o Vale. Uma vez que a mesma corrupção também infiltrasse Sangamá, Ealetra toda seria como o Vale do Silício.
Esse era o objetivo do Círculo de Kahnbor. Tornar todo lugar como o Vale, e 'liberar' as mentes de todos os seres. O que os seguidores do Caminho do Sol consideravam afogar todos em um delírio tóxico e caótico.
Os Urbani provavelmente sempre souberam que esse dia chegaria, e provavelmente vem se preparando para ele há milênios. Talvez o a própria Hagara do Conhecimento já se preparava antes de fugir de Tirayon antiga, e formar a diáspora que seria os Urbani.
— Outro santuário está na face do dia meio a meio. — murmurou Nandi, sua voz distante, seu olhar desfocado enquanto a vidência a tomava mais uma vez.
Ariel entendeu imediatamente.
— Noroeste, a costa elevada no Mar do Norte.
— O Santuário do Mar do Norte — confirmou Svetlana, já se preparando para o que deveria vir a seguir. — Exploradores da Armada Naval já tem olhos ali, do mar.
Ariel olhou para Svetlana, para Rafiq, ciente agora de algo que não questionara antes. Eles estiveram ao seu lado no ritual, aceitaram seus lugares na caminhada, mas isso fora acaso? Ou eles sabiam desde o início que era aqui que o caminho os levaria? Era impossível que tivessem se ligado a um Patrono ou Matrona Silvani apenas por causa desta revelação. Havia mais nisso, mais do que lhe fora dado.
Ainda assim, ela não perguntaria. Ainda não. Aprendera, como todos os jogadores do grande jogo devem, que o tempo lhe concederia o conhecimento que buscava. E assim ela esperaria. Por enquanto, eles se preparavam para partir.